4.3.11

Arte: Le Jour Des Morts

Se considerarmos a importância da Morte na vida da sociedade Vitoriana, não é surpreendente percebermos que, também na pintura, ela foi tratada e representada inúmeras vezes, por diferentes autores, que a abordaram de vários ângulos.

É também graças a estes trabalhos que podemos perceber e visualizar muitos dos hábitos e ritos fúnebres ou perceber a evolução do luto ou das carretas funerárias ao longo do tempo.

Corria o ano de 1859 quando o aclamado pintor francês William-Adolphe Bouguereau (Α:1825 – Ω:1905) apresentou o seu trabalho Le Jour Des Morts.


Apesar de Bouguereau ser muito popular na altura, hoje em dia perde em popularidade para os seus conterrâneos e contemporâneos impressionistas.
Para quem não conhece - ou não sabe que conhece, uma vez que algumas das suas obras aparecem recorrentemente, por exemplo, em capas de livros - recomenda-se a descoberta deste excelente artista.

Esta magnifica peça, representando o que pode ser interpretado como uma visita ao cemitério em dia de Finados por duas mulheres - talvez Mãe e Filha - à campa de um recém falecido ente querido - talvez o Pai, se consideramos o véu de viúva envergado pela mulher mais velha - pode ser vista no Museu de Belas Artes de Bordéus, em França.


3.3.11

Caixões Sofá

Os Tafófilos da Califórnia levam o seu gosto pela parafernália fúnebre aos extremos.

Numa perspectiva de responder às necessidades e preferências de um nicho de mercado que tem vindo a crescer ao longo do tempo, a 1-800-Autopsy desenvolveu uma nova linha de negócio, suportada na empresa Coffin Couches, que cria elegantes sofás de sala a partir de caixões.

Estes sofás, independentemente da cor de tinta seleccionada, são sempre verdes, uma vez que se tratam de produtos reciclados.
Sim, é isso: caixões reciclados.

Segundo o site do fabricante, os caixões usados para o fabrico dos sofás são:
(...)collected from local funeral homes primarily in Southern California.
It is a health and safety law that funeral homes cannot resell used coffins to the general public.
We approached funeral directors with the attitude of recycling.
These coffins are not used for burial due to slight cosmetic inconsistencies.
As imagens da galeria mostram uma selecção brilhante e muito bem conseguida. Verdadeiras peças de coleccionador.



O preço de um caixão-sofá simples ronda os $3.500, sem portes de envio, possíveis custos de alfândega, etc.
Não é, decididamente, um objecto barato.

A título de curiosidade, os fabricantes informam que Kat Von D, a tatuadora do programa LA Ink e que anteriormente aparecia em Miami Ink, tem um.


Uma deliciosa peça de mobiliário. Elegante e extravagante!


2.3.11

Mausoléus

Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo era o Mausoléu de Halicarnasso, uma construção funerária gigantesca, projectada por Pítio, que servia de tumba ao rei Mausolo da Caria, que viveu durante o século IV a.C.
Dessa Maravilha do Mundo Antigo restam apenas alguns vestígios na cidade turca de Bodrum, mas o nome e o conceito resistem e são reconhecidos por todos.

Um mausoléu pode ser definido como uma construção fúnebre, independente, contendo uma ou várias tumbas onde se pode, pelo menos em teoria, entrar.

Relativamente popular durante a ocupação romana, a construção de mausoléus tornou-se rara nos séculos que se seguiram, considerando as práticas funerárias promovidas pelas religião católica.

É a ruptura com as inumações no interior das igrejas que impulsiona o regresso destas construções. O regresso da construção de mausoléus dá-se também com o estabelecimento de colónias de europeus fora da Europa e a influencia que as construções e costumes locais tiveram sobre estas. Na Índia é possivel encontrar mausoléus construidos por comerciantes europeus desde 1659.
Um dos casos mais claros dessa influencia é o cemitério de South Park Street, em Calcutá, modelo inicial para os grandes cemitérios românticos (vitorianos) europeus como Père Lachaise.

A moda dos cemitérios românticos, que se espalhou pela Europa durante o final do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, transformou o desenho e construção de mausoléus numa actividade arquitectural comum. É interessante perceber entre 1768 e 1820 (cronologia) a Royal Academy, em Inglaterra, recebeu cento e sessenta e quatro projectos de mausoléus, dos quais foram efectivamente construidos setenta.
Nas famílias mais abastadas, era natural que o arquitecto seleccionado para fazer construções nas propriedades da família fosse chamado também a desenhar o respectivo mausoléu.

A época vitoriana permite uma diversidade de estilos realmente rica; podemos encontrar monumentos de estilo Tudor ao lado de outros de estilos Grego, Gótico e Egípcio - que se tornou especialmente popular nessa altura devido à sua associação às pirâmides enquanto monumento fúnebre e, indirectamente, à simbologia maçónica, também muito comum na representação funerária vitoriana.

Apesar disso, é por volta dos anos 60 de 1800 que a construção de mausoléus atinge o seu pico, em número e tamanho. É nesta fase que grandes nomes da arquitectura do século XIX ficam associados à construção de monumentos funerários, trazendo floreados estilísticos como cantaria policromática e estilos e materiais eclécticos.

Com a chegada do século XX, na Europa, a afirmação de riqueza por recurso à construção de monumentos funerários sai de moda, ao mesmo tempo que a tendência para a cremação aumenta. Ainda assim, alguns mausoléus são adaptados, criando-se nichos para urnas de cinzas funerárias.

Nos Estados Unidos, a construção de mausoléus não sofreu este abandono, sendo ainda bastante popular. Em alguns países, como o México, o plástico colorido faz agora parte das construções funerárias, criando mausoléus extravagantes.
Neste momento, existem já mausoléus virtuais pela Internet, onde é possível imortalizar uma pessoa através de uma placa.

Estas ricas e diversificadas construções do passado - não muito distante - estão disponíveis para serem apreciadas e visitadas, permitindo-nos perceber a forma artística e tentativamente duradoura com que os nossos antepassados procuravam celebrar a morte dos seus entes queridos.


Imagens:
central - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
e
squerda - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
direita - Cemitério Père Lachaise, Paris, França @ Gisela Monteiro . 2009;

1.3.11

Simbologia: Mocho

O mocho é um animal com uma representação simbólica ambígua, certamente por ser uma ave nocturna.
Na arte funerária, os mochos simbolizam normalmente sabedoria, vigilância, solidão contemplativa e percepção.

Numa vertente mais luminosa, o mocho, apesar de não ser mencionado especificamente no Novo Testamento, tornou-se num atributo de Cristo e, muitas vezes, as representações da crucificação apresentam um mocho, numa referencia à capacidade de Cristo para guiar as almas que se encontram nas Trevas.

No evangelho de S. Lucas (1:79), Cristo é descrito como sendo capaz de: «iluminar aqueles que se encontram nas Trevas e na sombra da Morte, e guiar os nossos passos no caminho da Paz», propriedades atribuídas também aos mochos, especialmente num contexto funerário, uma vez que este é muitas vezes considerado um guia .

No entanto, no mocho simboliza também uma vertente mais sombria, em que representa o Príncipe das Trevas - Satanás - uma vez que se diz que o mocho teme a luz, vivendo e escondendo-se na escuridão. Tal como Satanás, o mocho é ainda encarado como um trapaceiro: Satanás engana a humanidade e o mocho engana outros animais.

Historicamente, é importante recordar que durante a Idade Média, o mocho foi associado à bruxaria e feitiçaria, sendo considerado um dos animais predilectos para serem adoptados como familiares das bruxas. É ainda encarado como um símbolo da clarividência e ocultismo.

Em muito do folclore europeu, o mocho apresenta-se como arauto da Morte, um portador de más notícias.

Apesar do mocho ter uma vertente luminosa no Novo Testamento, e de estar associado ao Filho de Deus, no Antigo Testamento, no Levítico (11: 13-17), é dito que «Eis aqui de entre as aves, as que vós repelireis: não comereis, porque são abomináveis (...) o mocho (...) e o bufo.»

O mocho é ainda o animal que acompanha a deusa grega Palas Atena, partilhando das suas características de sabedoria e astucia.

Na China e no Japão é considerado um mau agouro e um espírito malévolo.

27.2.11

Cemitério de Agramonte


Durante o final do século XVIII, e o inicio do século XIX, uma verdadeira revolução varreu a Europa - e os locais habitados por europeus -, no que diz respeito à forma como a Morte era vista e gerida.

A maioria dos enterramentos eram feitos dentro das igrejas ou nos seus adros, causando graves problemas de saúde; ainda assim, e mesmo confrontados com a realidade do cheiro dos cadáveres em decomposição, que obrigavam as portas das igrejas a ficarem abertas todo o dia e toda a noite, os populares portugueses tentaram resistir valentemente à criação e utilização de cemitérios.
A situação foi de tal momo extrema que deu origem à conhecida revolução minhota da Maria da Fonte, que acabou por descer pelo país e mergulhá-lo em guerra civil, durante alguns meses.
A verdade é que, em 1835, os cemitérios públicos tornaram-se obrigatórios e único sitio possível para inumação.

Na verdade, Lisboa e Porto tinham já cemitérios públicos desde 1833, devido a uma terrível praga de cholera morbus que assolou essas cidades. Para além disso, e no caso específico da cidade do Porto, um cerco levado a cabo por tropas miguelistas causou um situação de salubridade extrema.
Foi necessário encontrar uma forma de proteger os vivos dos miasmas exalados pelos corpos em putrefacção. Foi criado o cemitério da Lapa (privado) e o do Prado do Repouso.

Em 1855, um novo surto de cholera morbus obriga ao fecho dos cemitérios privados das diversas ordens religiosas da cidade e à criação de mais um cemitério público. Agramonte é um cemitério "improvisado", criado para inumação de coléricos e tendo uma capela construida rapidamente com madeira.
A população, tendo possibilidade de escolha, elege o cemitério do Prado do Repouso como preferencial construindo belos monumentos e deixando Agramonte estagnado durante algum tempo.
As ordens religiosas, obedecendo a preceitos internos, procuram forma de manter espaços de enterramento individualizados e conseguem, no processo complexo, começar a adquirir amplos talhões nos cemitérios públicos.

Ao perceber o estigma que pairava sobre o cemitério de Agramonte, este é reestruturado em 1869, numa tentativa de torná-lo mais atractivo.
Entretanto, o cemitério da Lapa, construído num terreno pequeno, e apertado por edificações diversas que o impediam de ser alargado, deixa de ser opção para os mais ricos, ansiosos por construir monumentos faustosos, marcando para a posteridade a sua importância em vida. É necessário encontrar outros terrenos com capacidade de construção e, apesar do Prado do Repouso ser o inicialmente eleito como novo lugar para os defuntos da elite portuense, o prestigio das ordens com talhões privados em Agramonte (S. Francisco, Trindade e Carmo) torna-o , no final do século XIX, no espaço mais desejado como ultima morada.

A estatuária é rica e variada, sendo possivel encontrar nele algumas das mais originais peças cemiteriais existentes no nosso país.

É ainda de notar que uma das grandes diferenças entre os cemitérios do Norte e do Sul, para além de nos primeiros predominarem as cruzes e outras simbologias católica, é o material utilizado na construção de mausoléus. Ao sul, o branco e liso da pedra calcária torna os cemitérios locais cheios de luz; no norte, a utilização de granito, áspero e cinzento, torna-os mais sombrios e solenes, emprestando-lhes mais facilmente um ambiente de luto, muito adequado.

Como ponto de referência, o cemitério de Agramonte fica situado junto à rotunda da Boavista, um dos pontos nevrálgicos da cidade. Merece uma visita. Ou duas...

26.2.11

Quatro Lendas Urbanas do Século XVIII


To be buried while alive is, beyond question, the most terrific of these extremes which has ever fallen to the lot of mere mortality. That it has frequently, very frequently, so fallen will scarcely be denied by those who think. The boundaries which divide Life from Death are at best shadowy and vague. Who shall say where the one ends, and where the other begins? We know that there are diseases in which occur total cessations of all the apparent functions of vitality, and yet in which these cessations are merely suspensions, properly so called. They are only temporary pauses in the incomprehensible mechanism. A certain period elapses, and some unseen mysterious principle again sets in motion the magic pinions and the wizard wheels. The silver cord was not for ever loosed, nor the golden bowl irreparably broken. But where, meantime, was the soul?
Edgar Allan Poe, The Premature Burial

Apesar de Edgar Allan Poe ter sido um génio criativo com uma imaginação delirante não foi ele quem inventou o pavor humano de se ser enterrado vivo.
Escreveu sobre ele, é certo, e fê-lo repetidas vezes - sempre causando um arrepio na espinha dos leitores - mas antes já havia quem redigisse testamentos capazes de garantir que nenhum herdeiro apressado aproveitava um episódio de catalepsia ou coma para tomar posse da herança, enterrando vivos pais, tios e outros parentes.
Na Europa do século XVIII eram numerosas as histórias que sobre enterramentos prematuros: umas com finais felizes e outras nem por isso.
Estas histórias podem ser divididas em quatro grandes grupos, existindo algumas variações da matriz, em certos detalhes, mas não fugindo da linha principal:
  • A Dama do Anel;
  • Os Jovens Amantes;
  • O Monge Lascivo;
  • O Anatomista Descuidado;
Em quase todas é possível encontrar relatos onde são mencionadas pessoas reais, mas em que, de país para país, se mudam os protagonistas.


A Dama do Anel

Talvez a mais famosa e mais variada das quatro, esta lenda urbana consegue ser rastreada até à Alemanha, apesar de aparecerem versões em que ela se passa em Inglaterra, Irlanda, Suécia, etc.

Uma senhora rica, tendo falecido de forma repentina, é levada para a cripta da família, onde é depositada estando trajada com o seu mais belo vestido, embelezada pelas suas criadas, que lhe arranjaram os cabelos e lhe colocaram as jóias favoritas; entre elas, um sumptuoso e ostensivo anel.
As portas fecham-se, a noite cai e um sacristão ganancioso entra de mansinho para roubar as jóias do cadáver. Incapaz de retirar o anel do dedo inchado da senhora, o sacristão puxa de uma faca e tenta cortar o dedo para poder levar o anel.
A dor causada pelo rude golpe é tal que a mulher, não estando efectivamente morta, desperta do torpor profundo em que caíra e, dando um grito, senta-se no caixão.
Com o susto, acreditando que a ressurreição do cadáver é obra divina, o pecador sacristão cai morto no chão.
A mulher, assustada, envolta na sua mortalha faz o caminho de regresso a casa, sem perceber o que lhe aconteceu. Bate à porta e vê-se confrontada pelo marido e restante família que, julgando-a morta, pensa tratar-se de um fantasma, de um truque do demónio e recusa-se a franquear-lhe a porta e ceder-lhe entrada.


Os Jovens Amantes

Esta também é uma história que aparece relatada em diversas fontes, sempre apresentando o caso como real, enunciando até as famílias a que pertenciam os jovens amantes.

Impedida de casar por amor, obrigada pelos pais a casar com um nobre rico, mas velho, uma jovem donzela acaba por morrer de desgosto, sendo inumada na capela da família.
Durante a noite, o amante abandonado entra na capela para um último adeus e acaba por encontrar a sua amada ainda viva, acabada de acordar dentro do caixão.
Receosos de serem descobertos e perseguidos pelo noivo indesejado, os jovens amantes partem para outra cidade onde se apresentam com outro nome e podem assim viver em paz.
Alguns dias depois, ao visitar a capela, os pais e o noivo da jovem encontram o caixão aberto e vazio.


O Monge Lascivo

Uma das histórias mais elaboradas diz respeito a um monge necrófilo.

A caminho do convento, um jovem monge toma abrigo numa taberna e é confrontado com o luto profundo do estalajadeiro, que vela a jovem filha morta numa dos aposentos do estabelecimento.
Choroso, o taberneiro pede ao monge que reze pela alma da filha, deixando-o sozinho com o cadáver.
O monge, encantado com a beleza da rapariga, acaba por violar o cadáver, partindo apressadamente na manhã seguinte.
Antes de enterrarem a jovem, o pai percebe que esta ainda respira e pouco depois ela é reanimada. Mais tarde, sem ter conhecimento do que se passou com o monge, a jovem dá conta que espera uma criança.
Meses depois, o monge regressa à estalagem, onde encontra a rapariga viva e com um filho nos braços. Confessando ao estalajadeiro a sua indiscrição durante o velório, o monge acaba por abandonar o hábito e casar com a rapariga.


O Anatomista Descuidado

Apesar de inicialmente esta lenda estar associada a um anatomista em especial, o reputado Andreas Vesalius, rapidamente foi difundida, variando o anatomista e a nacionalidade da paciente.

Originalmente, conta-se que Vesalius foi consultado por uma paciente espanhola que lhe disse estar a sentir-se mal, apresentado um estranho quadro de sintomas. Antes que o médico fosse capaz de identificar a maleita e tentar curar a paciente, esta morreu. Intrigado, o anatomista serviu-se da sua reputação para convencer a família a permitir-lhe efectuar uma autópsia.
Rodeando a mesa de dissecação, toda a família foi surpreendida pelo coração batente do cadáver, percebendo assim que esta estava a ser autopsiada viva, e assistindo ainda, impotentes, aos últimos batimentos cardíacos e a grito lancinante que cortou o ar, antes da doente espanhola falecer definitivamente.

Este mito urbano assombrou os anatomistas do século XVIII e XIX que, apesar de preferirem sempre um corpo fresco, não pretendiam dissecar um tão fresco ao ponto de ainda estar vivo.

25.2.11

Tafofilia no Jornal Expresso

A tafofilia anda no ar; de tal forma que até já chegou ao jornal Expresso.

No passado dia 12 de Fevereiro, a revista Única - parte integrante do referido jornal - publicou um artigo intitulado de O Lugar do Morto onde apresenta uma lista dos Falecidos Famosos mais visitados.
  1. Jim Morrison - Cimetière du Père Lachaise (Paris, Ile-de-France Region, France);
  2. Anne Frank - Cenotáfio (vala comum) - Beth Olam Cemetery (Los Angeles, Los Angeles County, California, USA);
  3. John F. Kennedy - Arlington National Cemetery, (Arlington, Arlington County, Virginia, USA);
  4. Joseph Estaline - Kremlin (Moscovo, Rússia);
  5. Albert Einstein - Cenotário (cremado) - Institute for Advanced Study (Princeton, New Jersey, USA);
  6. Walt Disney - Forest Lawn Memorial Park (Glendale, Los Angeles County, California, USA);
  7. Martin Luther King - Martin Luther King, Jr. Center (Atlanta, Fulton County, Georgia, USA);
  8. Winston Churchil - St Martin-in-the-Fields Churchyard (London, Greater London, England);
  9. Harry Houdini - Machpelah Cemetery (Ridgewood, Queens County, New York, USA);
  10. Che Guevara - Guevara Mausoleum (Santa Clara, Villa Clara, Cuba);

23.2.11

Funeral Fantasma de Lyme Park

There, in the middle of the broad bright high-road — there, as if it had that moment sprung out of the earth or dropped from the heaven — stood the figure of a solitary Woman, dressed from head to foot in white garments, her face bent in grave inquiry on mine, her hand pointing to the dark cloud over London, as I faced her. (...)
It was then nearly one o'clock. All I could discern distinctly by the moonlight was a colourless, youthful face, meagre and sharp to look at about the cheeks and chin; large, grave, wistfully attentive eyes; nervous, uncertain lips; and light hair of a pale, brownish-yellow hue. There was nothing wild, nothing immodest in her manner: it was quiet and self-controlled, a little melancholy and a little touched by suspicion; not exactly the manner of a lady, and, at the same time, not the manner of a woman in the humblest rank of life.
Wilkie Collins, The Woman in White

É quase impossível falar de cemitérios, sepulturas e funerais sem nos cruzarmos com um ou outro fantasma.

Existe até uma categoria de histórias do "outro mundo" que acontecem em cemitérios, estão associadas a enterramentos ilegais e ocultação de cadáveres ou não são mais do que cortejos fúnebres espectrais.
E é esta categoria de histórias de fantasmas que tem algum interesse para os tafofilos, até porque muitos dos relatos fantasmagóricos estão relacionados com pessoas reais e as suas escolhas e limitações em vida e, desse modo, acabam por ser extremamente interessantes.

No condado de Cheshire, em Inglaterra, existe uma enorme e magnífica propriedade conhecida como Lyme Park.
Utilizada diversas vezes em filmes e séries de televisão (por exemplo, na produção da BBC de 1995 de Pride and Prejudice, Lyme Park é Pemberley, a residência de Mr. Darcy) a enorme mansão, cercada por belíssimos jardins e um parque para veados, foi construida no final do século XVI, tendo sofrido modificações substanciais durante o século XVIII.

A propriedade foi doada a Sir Thomas Danyers, em 1346, tendo ficado na posse de sua família até 1946, altura em que passou a pertencer ao National Trust, que, recentemente, a classificou em sexto lugar, na lista das propriedades históricas mais assombradas.

Durante parte do século XV, a propriedade de Lyme Park esteve na posse de Sir Piers Legh II.
Em 1415, na batalha de Agincourt, Sir Piers foi gravemente ferido, mas poupado da morte pelo seu extraordinário mastim, que se colocou sobre o corpo do dono e o protegeu durante horas, até este ser encontrado pelos companheiros de batalha. Em 1422, Sir Piers voltou a ser ferido, desta vez na batalha de Meux, e acabou por sucumbir na sequência desses ferimentos, em Paris.

O corpo foi enviado para Inglaterra, para ser entregue à esposa na residência de Lyme Park. Mas mais que a sua esposa, era Blanche, uma jovem e bonita camponesa, quem aguardava ansiosamente pelo regresso do cavaleiro. A morte do amante destroçou o coração da pobre rapariga, que foi impedida de comparecer aos rituais fúnebres levados a cabo pela família de Sir Piers.

Durante uma noite escura um enorme cortejo fúnebre medieval, negro e silencioso, cruzou a entrada principal de Lyme Park, envolto no rugido de uma tempestade. Atrás, afastada o suficiente para não ser notada ou repreendida, uma figura esguia, ensopada pela chuva que a vergastava, seguia o desfile em silêncio envergando um longo vestido branco: era Blanche.

Pouco tempo depois Blanche morreu de desgosto, tendo o seu corpo sido encontrado num prado, num local que é agora conhecido como Lady´s Grave.

Em 1442, depois de completa a construção da capela da família Legh na igreja de St Michael, o corpo de Sir Piers foi para lá transladado.

Mas o fantasma de Blanche não teve descanso.

Em noites de tempestade vários visitantes têm, ao longo dos anos, observado um cortejo fúnebre entrando o portão de Lyme Park e dirigindo-se à mansão; a fechar o cortejo, está sempre a figura etérea e silenciosamente chorosa de uma mulher vestida de branco.
Outros têm encontrado a mulher vestida de branco sozinha, vagueando pelo parque, ou sob uma das enormes árvores na frente da casa.
Diz-se que o desgosto por não ter conseguido despedir-se do amante, Sir Piers Legh II, é responsável pela assombração.

Quem sabe se não foi a lenda do fantasma de Lyme Park que inspirou Wilkie Collins para descrever a primeira aparição da inesquecível Anne Catherick n' A Mulher de Branco?

22.2.11

Livros: Uma Inquietante Simetria

No inicio do ano passado, quase por acidente, tropecei no mais recente romance da Audrey Nifferneger, a autora do conhecido e já adaptado ao cinema The Time Traveler's Wife.

O livro aparecia referenciado em links associados a tafofilia, pelo que me apressei a encomendar e ler.
Para mim, o interesse principal deste romance é o facto da história se passar num apartamento antigo, sob cujas janelas se estende o célebre e maravilhoso cemitério de Highgate. Aliás, é no cemitério que se passam diversas cenas do romance, mas mais do que ser um cenário curioso e fora do comum, Highgate tem tanto destaque que chega a ser tratado como uma das personagens do livro.

O cemitério de Highgate (do qual falaremos detalhadamente num post mais adiante) é o mais famoso cemitério Londrino; estando dividido em dois e atravessado por uma ampla rua.
A metade mais antiga data de 1839, tendo sido o cemitério da moda para a sociedade vitoriana. Rapidamente, o terreno foi ocupado pelos Londrinos e em 1854 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido adquirido um enorme terreno do outro lado da Swains Lane - a estrada que corta Highgate em dois.

Obviamente que, à semelhança de Père Lachaise, em Paris, o terreno de Highgate está repleto de Falecidos Famosos, alguns dos quais incontornáveis.
É aqui que estão enterrado, entre muito outros nomes conhecidos, Karl Marx, Douglas Adams, Christina Rossetti e Elizabeth Siddal.

É também em Highgate que Lucy, personagem do romance Dracula de Bram Stoker, é enterrada e onde esta dá caça e se alimenta de criancinhas até ser brutalmente assassinada - ou resgatada, dependendo da perspectiva - pelos caçadores de vampiros, entre os quais se encontra o seu noivo.

A parte mais antiga de Highgate encontra-se fechada ao público, sendo apenas possivel visitar o cemitério como parte de grupos, em visitas guiadas.
Durante a preparação do romance Audrey Niffenegger estudou detalhadamente o cemitério de Highgate, de tal forma que chegou mesmo a fazer parte do grupo de guias do cemitério.

Transcrevo abaixo, parte da critica que fiz na altura e que pode ser lida na integra no blog Liquid Dreams Of....
Her Fearful Symmetry conta a história de dois pares de gémeas: Elspeth e Edie e as filhas de Edie, Julia e Valentina.

Nas primeiras páginas do romance Elspeth morre na companhia do amante e vizinho, Robert, um estudioso do cemitério de Highgate. Em testamento, Elspeth deixa todos os seus bens materiais às filhas de Edie com a condição de que estas troquem Chicago por Londres e vivam, durante um ano, no seu apartamento, nas traseiras de Highgate.

Este é um romance muito bem escrito e que conta uma história de perdas e separações. As personagens são ricas e interessantes, cheias de pequenos detalhes e paixões que as tornam reais. Temos Robert, o vizinho do andar inferior ao das gémeas, e a sua interminável tese de doutoramento sobre Highgate, os seus mortos e a sua história; Martin, o vizinho do andar superior, obsessivo-compulsivo, criador de complicados puzzles de palavras cruzadas para o jornal e tradutor de línguas exóticas e perdidas para o British Museum (e que fala fluentemente português!); Little Kitten of Death, um gatinho branco aparecido do cemitério e transformado no animal de estimação de Valentina; James e Jessica os octogenários amigos de Robert e principais cuidadores de Highgate e claro... o próprio cemitério.

Entretanto a Editorial Presença vai publicar o livro no dia 2 de Março sob o título Uma Inquietante Simetria.

É tão raro encontrar romances em que os cemitérios sejam abordados sem pudor: este é um livro que não pode passar despercebido aos tafófilos.

Desejos de boas leituras.

20.2.11

Livros: The Victorian Cemetery

Apesar de em Portugal se escreverem - e se publicarem - pouquíssimos livros sobre cemitérios, arte funerária e afins, lá fora ainda se vão fazendo obras interessantes, que vale a pena ler, não só pela sua qualidade, mas também porque a maioria dos conceitos podem ser aplicados à nossa realidade, mediante pequenos ajustes culturais.

The Victorian Cemetery de Sarah Rutherford é um dos pequenos livros da colecção Shire Library: com apenas setenta páginas, este ricamente ilustrado manual conta-nos o aparecimento e desenvolvimento do fenómeno histórico, cultural e arquitectónico que varreu a Europa, do século XVIII e XIX.

A autora começa por apresentar as origens desta revolução, tendo o cuidado de nos esclarecer acerca das motivações e desejos dos criadores do chamado garden cemetery.
O fenómeno é ainda observado e analisado a nível mundial, durante a segunda metade do século XIX.

Para terminar apresenta uma pequena bibliografia de material aconselhado e uma lista de locais a visitar, infelizmente quase todos na Grã-Bretanha.

Um bom livro de iniciação - e uma boa adição na biblioteca de qualquer tafófilo.

19.2.11

Simbologia: Uroboro

Um elemento recorrente da ilustração funerária é a figura de uma serpente mordendo a própria cauda, formando um círculo ou uma elipse, normalmente designado por uroboro. Pode também ser representado como sendo duas serpentes que mordem a cauda uma da outra.
Costuma aparecer associado a outros símbolos funerários, como flores (frequentemente alcachofras) ou caveiras e tíbias cruzadas; apesar de ser mais invulgar, também é possível encontrar uroboros isolados.

Sendo um símbolo bastante antigo - podemos encontrar referências no Egipto e na Grécia antigos, onde foi baptizado com o nome que significa "devorador de cauda" - e bastante difundido: foram encontradas ilustrações de uroboros em ruínas aztecas, referencias na mitologia nórdica e na China, acompanhando o mais conhecido yin e yang - é curioso que em quase todas as culturas tem, mais ou menos, os mesmos significado: ciclicidade, imortalidade, eternidade, renovação.

É preciso também referir que este é um símbolo utilizado pelos alquimistas. De uma forma simplista, podemos dizer que estes utilizavam-nos como sigilo para representar um processo em si concluído, que se repete continuamente, e que serve para o refinamento de substâncias pela alternância dos estados de aquecimento, evaporação, resfriamento e condensação.

Outra perspectiva importante é perceber que a Igreja Católica, à semelhança do que fez com diversos símbolos e festividades pagãs, adoptou o uroboro, alterando o seu significado: o uroboro passa a ser utilizado para representar os limites do mundo material, o externo - no exterior - face ao interno - no interior.

Considerando todas estas referencias, podemos dizer que este é um símbolo de ciclo e eternidade, da criação nascida a partir da destruição, da Vida gerada na Morte e mito do Eterno Retorno. Transmite a ideia da renovação, auto-sustentação e da vida eterna.

A verdade é que os símbolos têm diferentes significados consoante o seu contexto.
Assim, num contexto funerário, este é claramente um símbolo de vida eterna, um desejo de renovação e esperança num novo começo.
Talvez seja por isso que foi tão comum na arte funerária do século XIX, apesar de ter caído em desuso mais tarde.


Imagens: Cemitério dos Prazeres e Cemitério do Alto de São João, Lisboa, Portugal @Gisela Monteiro.2009

18.2.11

Monumentos Memoráveis: La Giovane Morta

No ensaio The Philosophy of Composition, Edgar Allan Poe partilha connosco uma reflexão acerca dos temas que considera mais melancólicos e mais poéticos.
Diz-nos o autor d' O Corvo:
'I asked myself - "Of all melancholy topics, what, according to the universal understanding of mankind, is the most melancholy?" Death - was the obvious reply. "And when", I said, "is this most melancholy of topics most poetical?" ... "When it most closely allies itself to Beauty": the death, then, of a beautiful woman is, unquestionably, the most poetical topic in the world.'
Esta sublime temática poética de que nos fala Poe pode ser encontrada nos seus próprios poemas - recordo o clássico romântico Annabel Lee, genialmente traduzido para português por Fernando Pessoa - mas também noutras artes, como a pintura - por exemplo, já mencionado a propósito de Lizzie Siddal, Ophelia de Millais - ou a escultura. E é esta última forma de arte que reina na área da arte funerária.

Quando Isabella Casati (Α:1865 - Ω:1889), a belíssima esposa do Barão Gianluigi Casati, morreu com apenas vinte e quatro anos, a sociedade italiana ficou chocada.

O Barão Casati, certamente desgostoso, chamou o talentoso escultor italiano Enrico Butti, e encomendou-lhe uma obra em memória da falecida Isabella, com o objectivo de colocá-la no túmulo da família Casati, no Cemitério Monumentale de Milão.

Butti, aparentemente inspirado por um trabalho de Bartolini na igreja de Santa Croce, em Florença, optou por criar um bronze onde representa Isabela dormindo, reclinada em almofadas, com os braços pousados a acompanharem o corpo e, sobre o peito desnudado, um crucifixo.

Por detrás da figura, e suportado por mármore rosa, um baixo relevo de bronze reforça a ideia do consolatório sono de morte, onde anjos rodeados de estrelas aguardam, nos degraus da escada que conduz ao Paraíso, a chegada das almas.

Este peça é considerada uma das primeiras a transmitir a mensagem da morte doce, usando para isso a imagem de uma bela mulher que, enquanto dorme, morre, fazendo assim uma doce e serena travessia do mundo dos sonhos para a outra vida, onde anjos a esperam.

La Giovane Morta (The Dream of Death) traz-nos também uma componente levemente erótica, frequentemente presente na arte funerária onde são representadas adolescentes ou mulheres mais jovens, e que pode ser percebida pela sinuosa linha criada pelas mãos e ombros, pelos lábios cheios, pela exposição do peito e os longos cabelos, sensualmente dispostos sobre a almofada numa evocação à morte de Ofélia.

Em 1891 o monumento fez parte da Brera Triennale, em Milão, tendo sido um forte concorrente ao prestigioso prémio Principe Umberto.
A aclamação do público foi imediata e um respeitado e influente critico de arte considerou-a um magistral exemplo de uma nova Arte Ideísta.

Depois do trabalho de Enrico Butti, as imagens de jovens acamadas (dormindo) foi utilizada inúmeras vezes, em memoriais comemorativos de mulheres falecidas na força da idade.

A 2 de Novembro de 1891, o dia que a Igreja Católica consagra aos Fiéis Defuntos, o monumento foi inaugurado, tendo sido publicada uma reportagem desse evento na conceituada revista Illustrazione Italiana.

Ainda hoje, esta é uma das obras mais visitadas e fotografadas no cemitério Monumentale de Milão, fazendo obrigatoriamente parte das visitas guiadas que todos os dias enchem o cemitério de turistas.

Cemitério Monumentale de Milão, Itália @Gisela Monteiro.2010

17.2.11

El Arafa: A Cidade dos Mortos

A sudoeste da cidade do Cairo estende-se uma enorme necrópole com mais de seis quilómetros de largura, constituída por uma malha apertada de mausoléus e túmulos islâmicos, conhecida por el'arafa ou seja "o cemitério".

Fundado no século VII, quando um dos comandantes árabes responsáveis pela conquista do Egipto o criou para a sua família, este foi, desde sempre, um cemitério habitado.
Inicialmente, os habitantes eram os responsáveis pelos enterramentos e pela manutenção das campas dos nobres e os sufi (místicos islâmicos).

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El Arafa - foto de Dmitry Gudkov

Actualmente, vivem nesta extensa necrópole cerca de um milhão de pessoas. Alguns, dizem ter escolhido o local pela proximidade dos seus familiares falecidos, mas o devastador terramoto de 1992, as demolições na cidade do Cairo e especialmente a enorme vaga de migrantes que chega à cidade em busca de trabalho, sem ter onde ficar são os grandes responsáveis pela transformação desta cidade dos mortos numa cidade de vivos.

Entre os mausoléus encontram-se carros e móveis, televisões ligadas, tachos fumegantes e crianças brincando entre as pedras tumulares; há cafés, mercearias, oficinas de automóveis e, todas as sextas-feiras, um enorme mercado.
Inúmeras procissões fúnebres percorrem as ruas apertadas, todos os dias.



Numa coprodução de Portugal, Espanha e Egipto, Sérgio Tréfaut filmou um interessante documentário sobre o dia-a-dia destes vivos em terra de mortos, tendo mesmo ganho o Grande Prémio da Documenta em Madrid (2010).

Por cá, o documentário passou no IndieLisboa em Abril de 2010 e deverá estrear nas salas de cinema de Lisboa e Porto em Abril deste ano.