12.3.11

Memento Mori

Sem as facilidades que temos hoje em dia para preservar imagens, os vitorianos encontraram na invenção do daguerreótipo, em 1839, uma nova forma, mais rápida e eficaz que a pintura, que lhes permitia guardar para sempre recordações dos seus familiares e amigos.

Apesar de ser um processo caro, era bem mais acessível que posar para um quadro, mas faziam-se apenas em ocasiões especiais e que se pretendiam recordar.
Assim, iam-se adiando as fotografias.

É ainda de considerar que a mortalidade infantil era, na época, elevadíssima, pelo que muitas vezes quando uma criança morria, os pais não haviam tido ainda oportunidade para se fotografarem com ela e esta era a sua ultima oportunidade para guardarem uma recordação.

Não é de estranhar que se tenha começado a fotografar os mortos, numa sociedade que, como já vimos, tinha uma relação com a Morte bem diferente daquela que nós temos hoje.

Claro que não encontramos apenas fotografias post mortem de crianças, até porque o processo e o costume se popularizaram.

Era até comum os familiares vivos posarem junto do cadáver sendo que, por vezes, o resultado era especialmente macabro - para a nossa sensibilidade do século XXI - uma vez que apenas o morto se encontrava perfeitamente focado, pois as longas exposições próprias dos primórdios da fotografia obrigavam a uma imobilidade quase total para garantir a nitidez.

As imagens que chegam até nós (e que são também objectos de colecção muito cobiçados) dividem-se em dois grandes grupos: as que tentam disfarçar a Morte e as que a assumem.

No primeiro caso, os cadáveres eram normalmente colocados em posições naturais, como se estivessem vivos, recostados em cadeirões, deitados em camas, numa aparência de sono, num simulacro de vida. Alguns fotógrafos tinham mesmo suportes, que permitiam colocar os mortos em pé, e abriam-lhes os olhos - ou pintavam olhos nas pálpebras fechadas, directamente sobre a fotografia - aproximando-os o mais possível da imagem que tinham em vida.

Este tipo de fotografia post mortem pertence ao inicio do hábito de fotografar os mortos: mais do que recordar a Morte ou a mortalidade, pretendia-se recordar a pessoa em vida e a sua importância para os que ficavam.

A evolução natural da prática levou a que as imagens se assumissem enquanto fotografia de morte: passam a ser incluidos os caixões, as coroas de flores, velas, crucifixos e outros símbolos associados à Morte.

No inicio do século XX esta prática ainda era relativamente comum, sendo que actualmente ainda é possível observá-la na Europa de Leste.

Estas imagens acabaram por ficar conhecidas como Memento Mori, que é uma expressão latina que significa "recorda-te que vais morrer".


Podem ainda consultar a Galeria de Imagens da Página de Facebook do Mort Safe, onde vão encontrar mais fotografias post mortem do século XIX.

11.3.11

Cemitério de Mount Jerome

No ano de 1836, na margem sul do Grande Canal de Dublin, na Irlanda, foi inaugurado o primeiro cemitério privado do país: o General Cemetery Company of Dublin, que ficou conhecido e ainda hoje é designado por Harold's Cross ou Mount Jerome, o nome do local onde foi edificado.

Quatro anos antes, em 1832, abriu o cemitério de Glasnevin, na zona norte da cidade, que rapidamente se tornou no cemitério preferido pelos irlandeses católicos, transformando o mais recente cemitério de Mount Jerome no cemitério da população protestante.
Apenas em 1920 começaram a ser enterrados católicos em Mount Jerome, devido a uma greve dos coveiros de Glasnevin, que mantiveram esse cemitério inoperante durante algum tempo.

Mount Jerome cemetery

A primeira inumação em Mount Jerome foi de duas crianças, meninos gémeos, numa altura em que o cemitério cobria apenas vinte e seis acres de terra.
No centro do terreno fica uma belíssima capela gótica, desenhada por William Atkins e que foi construida em 1847, que ainda pode ser visitada.
Em 1874 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido possível aumentar a área total para quarenta e oito acres, o seu tamanho actual.

Mount Jerome é actualmente considerado como um dos cemitérios românticos (vitorianos) de referência, sendo favoravelmente comparado com Highgate (Londres, Inglaterra) e Père Lachaise (Paris, França); no entanto, no final do século XX, o abandono a que este foi sujeito permitiu o declínio do espaço e a degradação dos monumentos e construções.

No virar do milénio é construido em Mount Jerome o primeiro crematório privado da Irlanda, permitindo a revitalização do espaço e o inicio de um longo e complexo processo de recuperação dos mausoléus, túmulos, criptas e estatuária.

É em Mount Jerome que se encontra enterrado Sheridan Le Fanu, o autor de Carmila - um dos primeiros romances de vampiros, ainda hoje extremamente inovador e audaz - e The House by the Churchyard.

Um visita a Mount Jerome é obrigatória para qualquer tafófilo de passagem por Dublin, sendo até possível encontrar um pequeno café no interior do cemitério.
Um alerta deixado por todos os guias é o cuidado necessário nestas visitas: a decadência a que chegou o cemitério criou buracos no chão, pedras tumulares partidas, construções quebradiças e mausoléus prontos a desabar...
A saída do recinto, no entanto, tem de ser impreterivelmente até às quatro da tarde, sendo que os portões do cemitério são fechados a essa hora, sem qualquer falha, não ficando sequer um guarda que possa facilitar a saída dos mais distraídos.

Chamam-lhe "victorian splendor in decay".


10.3.11

Joalharia de Luto

Como tem sido referido neste blog, a sociedade do século XIX tinha uma abordagem diferente relativamente à Morte.

As mortes aconteciam - normalmente - em casa e era de casa que saía o funeral. Os cangalheiros ajudavam os parentes do morto a conceber uma cerimónia de acordo com o estatuto social do falecido, sendo que algumas famílias acabavam ruinosamente endividadas.

O período de luto era longo e as regras e exigências da sociedade eram rigorosas. O luto tinha de ser respeitado em todas as coisas, o que permitiu uma linha de negócio bastante proveitosa e especializada em artigos dedicados ao luto.

Os Mourning Warehouses vendiam tudo aquilo que seria necessário a uma família enlutada: material de escritório para fins particulares (papel, cartões, envelopes, tinta, lacre e até canetas) e para fins comerciais (facturas, recibos, talões de encomenda), vestidos, braçadeiras, joalharia e acessórios de luto.

Também aqui o papel das mulheres era bem diferente do dos homens - e bem mais rígido. Nada podia ser usado por uma mulher enlutada que não fosse rigorosamente de luto: das luvas aos leques, passando pelos chapéus, pelos lenços, pelas bolsinhas, pelos vestidos e claro, pela joalharia.

Na raiz das roupas e adereços de luto criados no século XIX estava o pavor do regresso das almas dos mortos ao mundo dos vivos: ainda se estava numa altura em que o espiritismo vicejava e era considerado uma realidade.
Acreditava-se que os trajes de luto serviam para tornar os vivos invisíveis aos olhos dos mortos, nomeadamente quando estes estavam envoltos em capas e véus negros, e as inumações decorriam à noite.
O facto do preto ser uma cor associada com a noite e vista como a ausência da cor era a que mais se adequava à representação do luto.

A pressão da sociedade em torno das famílias enlutadas era tal, que qualquer alteração das regras significava, no mínimo, desrespeito pelo falecido. Noivas chegaram a casar de preto, por não lhes ser permitido levantar o luto por nenhum motivo.

Numa época em que não existiam muitas formas de guardar recordações dos entes queridos que faleciam, a sociedade vitoriana desenvolveu duas técnicas: a fotografia post mortem e a joalharia com cabelos.

A joalharia com cabelos era normalmente feita com recurso a madeixas dos falecidos, que eram entrançadas ou tecidas como se fossem fio de linho ou algodão, permitindo criar padrões que eram integrados em pregadeiras, anéis, pulseiras, travessões de prata ou ouro.
Mais simples eram as madeixas de cabelo simples, enroladas e fechadas em medalhões.

O esmalte preto - ou branco, quando o morto era uma criança - era uma das matérias primas mais utilizadas na joalharia de luto, assim como as pérolas arroz, cujo formato e tamanho permitia imolar lágrimas ou seja, eram utilizadas para simbolizava o pesar da perda do familiar.
As opalas, que os vitorianos acreditavam trazer má sorte, eram também utilizadas neste contexto, à semelhante das pérolas, para simbolizar dor.

Era comum ter símbolos de Morte, pintados em marfim ou esmalte, encastrados em anéis ou medalhões para usar ao peito. Urnas funerárias envoltas em mortalhas, salgueiros, tochas invertidas e pedras tumulares eram os símbolos mais comuns.
Por vezes também era possível mandar pintar uma silhueta ou retrato do falecido.

Em Whitby desenvolveu-se uma industria baseada na concepção de joalharia em âmbar-negro e prata que ficou famosa por toda a Inglaterra e as peças era muito procuradas como jóias de luto.

Findo o período de luto, que dependia da relação com o falecido, as jóias eram guardadas como recordações.

Estas peças são hoje alvo de colecção por muitos interessados.


Para quem quiser saber mais sobre este assunto, recomendo o site Art of Mourning.

Podem ainda consultar a Galeria de Imagens da Página de Facebook do Mort Safe, onde vão encontrar mais imagens de jóias de luto.


9.3.11

Estilhaçamento

Em Cemitérios, Jazigos e Sepulturas, Vítor Manuel Lopes Dias, baseado no trabalho de Leite de Vasconcelos, lista as diferentes modalidades de eliminação de um cadáver utilizadas por diferentes culturas.

Segundo o autor, esses métodos são:
  • Abandono;
  • Imersão na Água;
  • Exposição em Plataforma;
  • Inumação ou Enterramento;
  • Queima;
  • Mumificação;
  • Escarnificação;
  • Canibalismo;
Na Suiça foi recentemente desenvolvido um novo método, o mais verde de todos: o estilhaçamento*.

A proposta podia ter sido inspirada numa das cenas finais do filme Exterminador Implacável: O Dia do Julgamento, onde T-1000 (interpretado por Robert Patrick) é destruído temporariamente com recurso ao congelamento por nitrogénio liquido e, com um tiro, acaba estilhaçado sobre o asfalto.

A proposta da empresa suíça Promessa é essa mesmo: congelar os cadáveres em nitrogénio liquido e estilhaçá-los em seguida.

O impacto ambiental dos métodos tradicionais de eliminação de cadáveres é enorme, seja por inumação ou cremação, mas esta nova técnica permite praticamente anular esse impacto.

O método é complexo e composto por diversas etapas:
  • O corpo é arrefecido até aos -18º e posteriormente mergulhado em nitrogénio liquido, que o torna quebradiço.
  • Recorrendo a ondas sonoras, o corpo é estilhaçado, transformando-se em pó.
  • Seguidamente, o pó é colocado numa câmara de vácuo que faz com que a água se evapore imediatamente (cerca de 70% do nosso corpo é água).
  • O resultado da operação anterior é matéria orgânica, peças metálicas (pacemakers, chumbos dos dentes, parafusos médicos, etc.) e mercúrio.
  • O metal é separado da matéria orgânica através de um separador de metais e, se necessário, o pó pode ainda ser desinfectado.
A proposta da Promessa passa pela utilização de um caixão de amido de milho que deve ser enterrado num local adequado e permitirá que o corpo se transforme em composto num curto período que pode ir de seis a doze meses.
Existe ainda uma explicação ilustrada na página da Promessa.

Será curioso, daqui a algum tempo, perceber a aderência que este novo método terá.


*Uma vez que não existe ainda uma expressão em português para este método, decidi traduzir desta forma.

8.3.11

Livros: The Victorian Undertaker

Durante a época vitoriana, a Morte ocupou um lugar de destaque na sociedade.

Por esse motivo, todas as ocupações e necessidades que lhe estavam associadas ganharam também espaço e importância.

Existia toda a uma cultura em volta do luto, criando objectos personalizados para os períodos que se seguiam à morte de um ente querido e que ia desde os vestidos de senhora, negros e carregados de crepe, até às jóias de prata e ónix ou âmbar-negro - por vezes contendo madeixas de cabelo do falecido -, cartões de visita, material para as cartas e outras comunicações, etc.
Nos jornais da época encontravam-se inúmeros anúncios a armazéns especializados em Luto (os famosos "Mourning Warehouses") e a serviços funerários e aluguer de carretas.

Considerando todas estas questões, o cangalheiro era uma figura reputada e responsável por um dos momentos mais importantes nas famílias, e consequente vida social, dos vitorianos.

Com The Victorian Undertaker, de Trevor May, a colecção Shire Books traz-nos, mais uma vez, um pequeno volume muito bem conseguido, curto, sucinto, mas com algumas ilustrações e percorrendo as ideias principais que pode ser mais um bom livro de iniciação a esta temática e preparação para leitura de obras mais completas, como The Victorian Celebration of Death de James Stevens Curl.

Dividido em seis capítulos, onde se aborda a tipologia de funerais com tudo o que lhe está associado, as carretas funerárias, a joalharia, cartões, postais, publicidade e também os funerais de estado; esta obra de rápida leitura - e preço acessível! - é essencial para os tafófilos principiantes.

4.3.11

Arte: Le Jour Des Morts

Se considerarmos a importância da Morte na vida da sociedade Vitoriana, não é surpreendente percebermos que, também na pintura, ela foi tratada e representada inúmeras vezes, por diferentes autores, que a abordaram de vários ângulos.

É também graças a estes trabalhos que podemos perceber e visualizar muitos dos hábitos e ritos fúnebres ou perceber a evolução do luto ou das carretas funerárias ao longo do tempo.

Corria o ano de 1859 quando o aclamado pintor francês William-Adolphe Bouguereau (Α:1825 – Ω:1905) apresentou o seu trabalho Le Jour Des Morts.


Apesar de Bouguereau ser muito popular na altura, hoje em dia perde em popularidade para os seus conterrâneos e contemporâneos impressionistas.
Para quem não conhece - ou não sabe que conhece, uma vez que algumas das suas obras aparecem recorrentemente, por exemplo, em capas de livros - recomenda-se a descoberta deste excelente artista.

Esta magnifica peça, representando o que pode ser interpretado como uma visita ao cemitério em dia de Finados por duas mulheres - talvez Mãe e Filha - à campa de um recém falecido ente querido - talvez o Pai, se consideramos o véu de viúva envergado pela mulher mais velha - pode ser vista no Museu de Belas Artes de Bordéus, em França.


3.3.11

Caixões Sofá

Os Tafófilos da Califórnia levam o seu gosto pela parafernália fúnebre aos extremos.

Numa perspectiva de responder às necessidades e preferências de um nicho de mercado que tem vindo a crescer ao longo do tempo, a 1-800-Autopsy desenvolveu uma nova linha de negócio, suportada na empresa Coffin Couches, que cria elegantes sofás de sala a partir de caixões.

Estes sofás, independentemente da cor de tinta seleccionada, são sempre verdes, uma vez que se tratam de produtos reciclados.
Sim, é isso: caixões reciclados.

Segundo o site do fabricante, os caixões usados para o fabrico dos sofás são:
(...)collected from local funeral homes primarily in Southern California.
It is a health and safety law that funeral homes cannot resell used coffins to the general public.
We approached funeral directors with the attitude of recycling.
These coffins are not used for burial due to slight cosmetic inconsistencies.
As imagens da galeria mostram uma selecção brilhante e muito bem conseguida. Verdadeiras peças de coleccionador.



O preço de um caixão-sofá simples ronda os $3.500, sem portes de envio, possíveis custos de alfândega, etc.
Não é, decididamente, um objecto barato.

A título de curiosidade, os fabricantes informam que Kat Von D, a tatuadora do programa LA Ink e que anteriormente aparecia em Miami Ink, tem um.


Uma deliciosa peça de mobiliário. Elegante e extravagante!


2.3.11

Mausoléus

Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo era o Mausoléu de Halicarnasso, uma construção funerária gigantesca, projectada por Pítio, que servia de tumba ao rei Mausolo da Caria, que viveu durante o século IV a.C.
Dessa Maravilha do Mundo Antigo restam apenas alguns vestígios na cidade turca de Bodrum, mas o nome e o conceito resistem e são reconhecidos por todos.

Um mausoléu pode ser definido como uma construção fúnebre, independente, contendo uma ou várias tumbas onde se pode, pelo menos em teoria, entrar.

Relativamente popular durante a ocupação romana, a construção de mausoléus tornou-se rara nos séculos que se seguiram, considerando as práticas funerárias promovidas pelas religião católica.

É a ruptura com as inumações no interior das igrejas que impulsiona o regresso destas construções. O regresso da construção de mausoléus dá-se também com o estabelecimento de colónias de europeus fora da Europa e a influencia que as construções e costumes locais tiveram sobre estas. Na Índia é possivel encontrar mausoléus construidos por comerciantes europeus desde 1659.
Um dos casos mais claros dessa influencia é o cemitério de South Park Street, em Calcutá, modelo inicial para os grandes cemitérios românticos (vitorianos) europeus como Père Lachaise.

A moda dos cemitérios românticos, que se espalhou pela Europa durante o final do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, transformou o desenho e construção de mausoléus numa actividade arquitectural comum. É interessante perceber entre 1768 e 1820 (cronologia) a Royal Academy, em Inglaterra, recebeu cento e sessenta e quatro projectos de mausoléus, dos quais foram efectivamente construidos setenta.
Nas famílias mais abastadas, era natural que o arquitecto seleccionado para fazer construções nas propriedades da família fosse chamado também a desenhar o respectivo mausoléu.

A época vitoriana permite uma diversidade de estilos realmente rica; podemos encontrar monumentos de estilo Tudor ao lado de outros de estilos Grego, Gótico e Egípcio - que se tornou especialmente popular nessa altura devido à sua associação às pirâmides enquanto monumento fúnebre e, indirectamente, à simbologia maçónica, também muito comum na representação funerária vitoriana.

Apesar disso, é por volta dos anos 60 de 1800 que a construção de mausoléus atinge o seu pico, em número e tamanho. É nesta fase que grandes nomes da arquitectura do século XIX ficam associados à construção de monumentos funerários, trazendo floreados estilísticos como cantaria policromática e estilos e materiais eclécticos.

Com a chegada do século XX, na Europa, a afirmação de riqueza por recurso à construção de monumentos funerários sai de moda, ao mesmo tempo que a tendência para a cremação aumenta. Ainda assim, alguns mausoléus são adaptados, criando-se nichos para urnas de cinzas funerárias.

Nos Estados Unidos, a construção de mausoléus não sofreu este abandono, sendo ainda bastante popular. Em alguns países, como o México, o plástico colorido faz agora parte das construções funerárias, criando mausoléus extravagantes.
Neste momento, existem já mausoléus virtuais pela Internet, onde é possível imortalizar uma pessoa através de uma placa.

Estas ricas e diversificadas construções do passado - não muito distante - estão disponíveis para serem apreciadas e visitadas, permitindo-nos perceber a forma artística e tentativamente duradoura com que os nossos antepassados procuravam celebrar a morte dos seus entes queridos.


Imagens:
central - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
e
squerda - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
direita - Cemitério Père Lachaise, Paris, França @ Gisela Monteiro . 2009;

1.3.11

Simbologia: Mocho

O mocho é um animal com uma representação simbólica ambígua, certamente por ser uma ave nocturna.
Na arte funerária, os mochos simbolizam normalmente sabedoria, vigilância, solidão contemplativa e percepção.

Numa vertente mais luminosa, o mocho, apesar de não ser mencionado especificamente no Novo Testamento, tornou-se num atributo de Cristo e, muitas vezes, as representações da crucificação apresentam um mocho, numa referencia à capacidade de Cristo para guiar as almas que se encontram nas Trevas.

No evangelho de S. Lucas (1:79), Cristo é descrito como sendo capaz de: «iluminar aqueles que se encontram nas Trevas e na sombra da Morte, e guiar os nossos passos no caminho da Paz», propriedades atribuídas também aos mochos, especialmente num contexto funerário, uma vez que este é muitas vezes considerado um guia .

No entanto, no mocho simboliza também uma vertente mais sombria, em que representa o Príncipe das Trevas - Satanás - uma vez que se diz que o mocho teme a luz, vivendo e escondendo-se na escuridão. Tal como Satanás, o mocho é ainda encarado como um trapaceiro: Satanás engana a humanidade e o mocho engana outros animais.

Historicamente, é importante recordar que durante a Idade Média, o mocho foi associado à bruxaria e feitiçaria, sendo considerado um dos animais predilectos para serem adoptados como familiares das bruxas. É ainda encarado como um símbolo da clarividência e ocultismo.

Em muito do folclore europeu, o mocho apresenta-se como arauto da Morte, um portador de más notícias.

Apesar do mocho ter uma vertente luminosa no Novo Testamento, e de estar associado ao Filho de Deus, no Antigo Testamento, no Levítico (11: 13-17), é dito que «Eis aqui de entre as aves, as que vós repelireis: não comereis, porque são abomináveis (...) o mocho (...) e o bufo.»

O mocho é ainda o animal que acompanha a deusa grega Palas Atena, partilhando das suas características de sabedoria e astucia.

Na China e no Japão é considerado um mau agouro e um espírito malévolo.

27.2.11

Cemitério de Agramonte


Durante o final do século XVIII, e o inicio do século XIX, uma verdadeira revolução varreu a Europa - e os locais habitados por europeus -, no que diz respeito à forma como a Morte era vista e gerida.

A maioria dos enterramentos eram feitos dentro das igrejas ou nos seus adros, causando graves problemas de saúde; ainda assim, e mesmo confrontados com a realidade do cheiro dos cadáveres em decomposição, que obrigavam as portas das igrejas a ficarem abertas todo o dia e toda a noite, os populares portugueses tentaram resistir valentemente à criação e utilização de cemitérios.
A situação foi de tal momo extrema que deu origem à conhecida revolução minhota da Maria da Fonte, que acabou por descer pelo país e mergulhá-lo em guerra civil, durante alguns meses.
A verdade é que, em 1835, os cemitérios públicos tornaram-se obrigatórios e único sitio possível para inumação.

Na verdade, Lisboa e Porto tinham já cemitérios públicos desde 1833, devido a uma terrível praga de cholera morbus que assolou essas cidades. Para além disso, e no caso específico da cidade do Porto, um cerco levado a cabo por tropas miguelistas causou um situação de salubridade extrema.
Foi necessário encontrar uma forma de proteger os vivos dos miasmas exalados pelos corpos em putrefacção. Foi criado o cemitério da Lapa (privado) e o do Prado do Repouso.

Em 1855, um novo surto de cholera morbus obriga ao fecho dos cemitérios privados das diversas ordens religiosas da cidade e à criação de mais um cemitério público. Agramonte é um cemitério "improvisado", criado para inumação de coléricos e tendo uma capela construida rapidamente com madeira.
A população, tendo possibilidade de escolha, elege o cemitério do Prado do Repouso como preferencial construindo belos monumentos e deixando Agramonte estagnado durante algum tempo.
As ordens religiosas, obedecendo a preceitos internos, procuram forma de manter espaços de enterramento individualizados e conseguem, no processo complexo, começar a adquirir amplos talhões nos cemitérios públicos.

Ao perceber o estigma que pairava sobre o cemitério de Agramonte, este é reestruturado em 1869, numa tentativa de torná-lo mais atractivo.
Entretanto, o cemitério da Lapa, construído num terreno pequeno, e apertado por edificações diversas que o impediam de ser alargado, deixa de ser opção para os mais ricos, ansiosos por construir monumentos faustosos, marcando para a posteridade a sua importância em vida. É necessário encontrar outros terrenos com capacidade de construção e, apesar do Prado do Repouso ser o inicialmente eleito como novo lugar para os defuntos da elite portuense, o prestigio das ordens com talhões privados em Agramonte (S. Francisco, Trindade e Carmo) torna-o , no final do século XIX, no espaço mais desejado como ultima morada.

A estatuária é rica e variada, sendo possivel encontrar nele algumas das mais originais peças cemiteriais existentes no nosso país.

É ainda de notar que uma das grandes diferenças entre os cemitérios do Norte e do Sul, para além de nos primeiros predominarem as cruzes e outras simbologias católica, é o material utilizado na construção de mausoléus. Ao sul, o branco e liso da pedra calcária torna os cemitérios locais cheios de luz; no norte, a utilização de granito, áspero e cinzento, torna-os mais sombrios e solenes, emprestando-lhes mais facilmente um ambiente de luto, muito adequado.

Como ponto de referência, o cemitério de Agramonte fica situado junto à rotunda da Boavista, um dos pontos nevrálgicos da cidade. Merece uma visita. Ou duas...

26.2.11

Quatro Lendas Urbanas do Século XVIII


To be buried while alive is, beyond question, the most terrific of these extremes which has ever fallen to the lot of mere mortality. That it has frequently, very frequently, so fallen will scarcely be denied by those who think. The boundaries which divide Life from Death are at best shadowy and vague. Who shall say where the one ends, and where the other begins? We know that there are diseases in which occur total cessations of all the apparent functions of vitality, and yet in which these cessations are merely suspensions, properly so called. They are only temporary pauses in the incomprehensible mechanism. A certain period elapses, and some unseen mysterious principle again sets in motion the magic pinions and the wizard wheels. The silver cord was not for ever loosed, nor the golden bowl irreparably broken. But where, meantime, was the soul?
Edgar Allan Poe, The Premature Burial

Apesar de Edgar Allan Poe ter sido um génio criativo com uma imaginação delirante não foi ele quem inventou o pavor humano de se ser enterrado vivo.
Escreveu sobre ele, é certo, e fê-lo repetidas vezes - sempre causando um arrepio na espinha dos leitores - mas antes já havia quem redigisse testamentos capazes de garantir que nenhum herdeiro apressado aproveitava um episódio de catalepsia ou coma para tomar posse da herança, enterrando vivos pais, tios e outros parentes.
Na Europa do século XVIII eram numerosas as histórias que sobre enterramentos prematuros: umas com finais felizes e outras nem por isso.
Estas histórias podem ser divididas em quatro grandes grupos, existindo algumas variações da matriz, em certos detalhes, mas não fugindo da linha principal:
  • A Dama do Anel;
  • Os Jovens Amantes;
  • O Monge Lascivo;
  • O Anatomista Descuidado;
Em quase todas é possível encontrar relatos onde são mencionadas pessoas reais, mas em que, de país para país, se mudam os protagonistas.


A Dama do Anel

Talvez a mais famosa e mais variada das quatro, esta lenda urbana consegue ser rastreada até à Alemanha, apesar de aparecerem versões em que ela se passa em Inglaterra, Irlanda, Suécia, etc.

Uma senhora rica, tendo falecido de forma repentina, é levada para a cripta da família, onde é depositada estando trajada com o seu mais belo vestido, embelezada pelas suas criadas, que lhe arranjaram os cabelos e lhe colocaram as jóias favoritas; entre elas, um sumptuoso e ostensivo anel.
As portas fecham-se, a noite cai e um sacristão ganancioso entra de mansinho para roubar as jóias do cadáver. Incapaz de retirar o anel do dedo inchado da senhora, o sacristão puxa de uma faca e tenta cortar o dedo para poder levar o anel.
A dor causada pelo rude golpe é tal que a mulher, não estando efectivamente morta, desperta do torpor profundo em que caíra e, dando um grito, senta-se no caixão.
Com o susto, acreditando que a ressurreição do cadáver é obra divina, o pecador sacristão cai morto no chão.
A mulher, assustada, envolta na sua mortalha faz o caminho de regresso a casa, sem perceber o que lhe aconteceu. Bate à porta e vê-se confrontada pelo marido e restante família que, julgando-a morta, pensa tratar-se de um fantasma, de um truque do demónio e recusa-se a franquear-lhe a porta e ceder-lhe entrada.


Os Jovens Amantes

Esta também é uma história que aparece relatada em diversas fontes, sempre apresentando o caso como real, enunciando até as famílias a que pertenciam os jovens amantes.

Impedida de casar por amor, obrigada pelos pais a casar com um nobre rico, mas velho, uma jovem donzela acaba por morrer de desgosto, sendo inumada na capela da família.
Durante a noite, o amante abandonado entra na capela para um último adeus e acaba por encontrar a sua amada ainda viva, acabada de acordar dentro do caixão.
Receosos de serem descobertos e perseguidos pelo noivo indesejado, os jovens amantes partem para outra cidade onde se apresentam com outro nome e podem assim viver em paz.
Alguns dias depois, ao visitar a capela, os pais e o noivo da jovem encontram o caixão aberto e vazio.


O Monge Lascivo

Uma das histórias mais elaboradas diz respeito a um monge necrófilo.

A caminho do convento, um jovem monge toma abrigo numa taberna e é confrontado com o luto profundo do estalajadeiro, que vela a jovem filha morta numa dos aposentos do estabelecimento.
Choroso, o taberneiro pede ao monge que reze pela alma da filha, deixando-o sozinho com o cadáver.
O monge, encantado com a beleza da rapariga, acaba por violar o cadáver, partindo apressadamente na manhã seguinte.
Antes de enterrarem a jovem, o pai percebe que esta ainda respira e pouco depois ela é reanimada. Mais tarde, sem ter conhecimento do que se passou com o monge, a jovem dá conta que espera uma criança.
Meses depois, o monge regressa à estalagem, onde encontra a rapariga viva e com um filho nos braços. Confessando ao estalajadeiro a sua indiscrição durante o velório, o monge acaba por abandonar o hábito e casar com a rapariga.


O Anatomista Descuidado

Apesar de inicialmente esta lenda estar associada a um anatomista em especial, o reputado Andreas Vesalius, rapidamente foi difundida, variando o anatomista e a nacionalidade da paciente.

Originalmente, conta-se que Vesalius foi consultado por uma paciente espanhola que lhe disse estar a sentir-se mal, apresentado um estranho quadro de sintomas. Antes que o médico fosse capaz de identificar a maleita e tentar curar a paciente, esta morreu. Intrigado, o anatomista serviu-se da sua reputação para convencer a família a permitir-lhe efectuar uma autópsia.
Rodeando a mesa de dissecação, toda a família foi surpreendida pelo coração batente do cadáver, percebendo assim que esta estava a ser autopsiada viva, e assistindo ainda, impotentes, aos últimos batimentos cardíacos e a grito lancinante que cortou o ar, antes da doente espanhola falecer definitivamente.

Este mito urbano assombrou os anatomistas do século XVIII e XIX que, apesar de preferirem sempre um corpo fresco, não pretendiam dissecar um tão fresco ao ponto de ainda estar vivo.

25.2.11

Tafofilia no Jornal Expresso

A tafofilia anda no ar; de tal forma que até já chegou ao jornal Expresso.

No passado dia 12 de Fevereiro, a revista Única - parte integrante do referido jornal - publicou um artigo intitulado de O Lugar do Morto onde apresenta uma lista dos Falecidos Famosos mais visitados.
  1. Jim Morrison - Cimetière du Père Lachaise (Paris, Ile-de-France Region, France);
  2. Anne Frank - Cenotáfio (vala comum) - Beth Olam Cemetery (Los Angeles, Los Angeles County, California, USA);
  3. John F. Kennedy - Arlington National Cemetery, (Arlington, Arlington County, Virginia, USA);
  4. Joseph Estaline - Kremlin (Moscovo, Rússia);
  5. Albert Einstein - Cenotário (cremado) - Institute for Advanced Study (Princeton, New Jersey, USA);
  6. Walt Disney - Forest Lawn Memorial Park (Glendale, Los Angeles County, California, USA);
  7. Martin Luther King - Martin Luther King, Jr. Center (Atlanta, Fulton County, Georgia, USA);
  8. Winston Churchil - St Martin-in-the-Fields Churchyard (London, Greater London, England);
  9. Harry Houdini - Machpelah Cemetery (Ridgewood, Queens County, New York, USA);
  10. Che Guevara - Guevara Mausoleum (Santa Clara, Villa Clara, Cuba);

23.2.11

Funeral Fantasma de Lyme Park

There, in the middle of the broad bright high-road — there, as if it had that moment sprung out of the earth or dropped from the heaven — stood the figure of a solitary Woman, dressed from head to foot in white garments, her face bent in grave inquiry on mine, her hand pointing to the dark cloud over London, as I faced her. (...)
It was then nearly one o'clock. All I could discern distinctly by the moonlight was a colourless, youthful face, meagre and sharp to look at about the cheeks and chin; large, grave, wistfully attentive eyes; nervous, uncertain lips; and light hair of a pale, brownish-yellow hue. There was nothing wild, nothing immodest in her manner: it was quiet and self-controlled, a little melancholy and a little touched by suspicion; not exactly the manner of a lady, and, at the same time, not the manner of a woman in the humblest rank of life.
Wilkie Collins, The Woman in White

É quase impossível falar de cemitérios, sepulturas e funerais sem nos cruzarmos com um ou outro fantasma.

Existe até uma categoria de histórias do "outro mundo" que acontecem em cemitérios, estão associadas a enterramentos ilegais e ocultação de cadáveres ou não são mais do que cortejos fúnebres espectrais.
E é esta categoria de histórias de fantasmas que tem algum interesse para os tafofilos, até porque muitos dos relatos fantasmagóricos estão relacionados com pessoas reais e as suas escolhas e limitações em vida e, desse modo, acabam por ser extremamente interessantes.

No condado de Cheshire, em Inglaterra, existe uma enorme e magnífica propriedade conhecida como Lyme Park.
Utilizada diversas vezes em filmes e séries de televisão (por exemplo, na produção da BBC de 1995 de Pride and Prejudice, Lyme Park é Pemberley, a residência de Mr. Darcy) a enorme mansão, cercada por belíssimos jardins e um parque para veados, foi construida no final do século XVI, tendo sofrido modificações substanciais durante o século XVIII.

A propriedade foi doada a Sir Thomas Danyers, em 1346, tendo ficado na posse de sua família até 1946, altura em que passou a pertencer ao National Trust, que, recentemente, a classificou em sexto lugar, na lista das propriedades históricas mais assombradas.

Durante parte do século XV, a propriedade de Lyme Park esteve na posse de Sir Piers Legh II.
Em 1415, na batalha de Agincourt, Sir Piers foi gravemente ferido, mas poupado da morte pelo seu extraordinário mastim, que se colocou sobre o corpo do dono e o protegeu durante horas, até este ser encontrado pelos companheiros de batalha. Em 1422, Sir Piers voltou a ser ferido, desta vez na batalha de Meux, e acabou por sucumbir na sequência desses ferimentos, em Paris.

O corpo foi enviado para Inglaterra, para ser entregue à esposa na residência de Lyme Park. Mas mais que a sua esposa, era Blanche, uma jovem e bonita camponesa, quem aguardava ansiosamente pelo regresso do cavaleiro. A morte do amante destroçou o coração da pobre rapariga, que foi impedida de comparecer aos rituais fúnebres levados a cabo pela família de Sir Piers.

Durante uma noite escura um enorme cortejo fúnebre medieval, negro e silencioso, cruzou a entrada principal de Lyme Park, envolto no rugido de uma tempestade. Atrás, afastada o suficiente para não ser notada ou repreendida, uma figura esguia, ensopada pela chuva que a vergastava, seguia o desfile em silêncio envergando um longo vestido branco: era Blanche.

Pouco tempo depois Blanche morreu de desgosto, tendo o seu corpo sido encontrado num prado, num local que é agora conhecido como Lady´s Grave.

Em 1442, depois de completa a construção da capela da família Legh na igreja de St Michael, o corpo de Sir Piers foi para lá transladado.

Mas o fantasma de Blanche não teve descanso.

Em noites de tempestade vários visitantes têm, ao longo dos anos, observado um cortejo fúnebre entrando o portão de Lyme Park e dirigindo-se à mansão; a fechar o cortejo, está sempre a figura etérea e silenciosamente chorosa de uma mulher vestida de branco.
Outros têm encontrado a mulher vestida de branco sozinha, vagueando pelo parque, ou sob uma das enormes árvores na frente da casa.
Diz-se que o desgosto por não ter conseguido despedir-se do amante, Sir Piers Legh II, é responsável pela assombração.

Quem sabe se não foi a lenda do fantasma de Lyme Park que inspirou Wilkie Collins para descrever a primeira aparição da inesquecível Anne Catherick n' A Mulher de Branco?