4.4.11

Simbologia: Papoila

Sendo uma das mais comuns representações de plantas nos nossos cemitérios - assim como as perpétuas e as saudades - as papoilas dormideiras são facilmente identificadas, mesmo quando introduzidas em composições com outros elementos, graças à sua forma bolbosa e gomada, coroada com um anel zigzagueante.

Se considerarmos que o aparecimento dos cemitérios coincidiu com uma época em que o consumo de ópio e derivados opiáceos era comum, percebemos que símbolo da papoila era de fácil leitura para os coevos.

Assim, devido às propriedades narcóticas do ópio, a papoila dormideira - como é conhecida em Portugal - é associada com o Sono, a Morte e Morfeu, o deus grego dos Sonhos. Recorde-se que uma das substâncias extraídas do ópio é a morfina, nome que deriva da associação ao deus Morfeu. Noutros contextos - e, mais uma vez se refere que a interpretação de símbolos tem sempre de ser contextualizada - a papoila pode ser associada à extravagância e ignorância.

No contexto funerário, o seu significado mais óbvio é o do Sono Eterno, da Morte Pacífica.

3.4.11

Jazigo dos Duques de Palmela - III

Fica no cemitério lisboeta dos Prazeres o maior jazigo privado da Europa. Iniciada a sua construção em 1846 e terminado em 1849, foi desenhado pelo arquitecto maçon Giuseppe Cinátti, segundo instruções de Pedro de Holstein (Α:1781 - Ω:1850), o primeiro duque de Palmela.

Inicialmente, o espaço reservado aos Palmela - familiares no interior do jazigo e seus empregados no pequeno jardim de acesso, inumados entre os frondosos ciprestes - situava-se no exterior do cemitério, em jeito de cemitério privado.
Provavelmente, as mesmas leis que obrigaram as ordens religiosas do Porto a fechar os seus cemitérios privados, e a comprar talhões dentro de Agramonte e Prado do Repouso, acabaram por levar os duques de Palmela a doar terreno à Câmara Municipal de Lisboa, de forma a garantir a integração do Jazigo Palmela no interior do contíguo Cemitério dos Prazeres. Em suma: mais do que passarem para o interior, os duques de Palmela conseguiram que o cemitério crescesse para junto deles.

Aparentemente imbuído de simbologia maçónica, o Jazigo Palmela tem a forma de uma enorme pirâmide - durante o século XIX, o revivalismo egípcio varreu toda a Europa (e América do Norte) não sendo de descartar o impacto que ele também teve na concepção do jazigo - assente sobre um cubo (se pensarmos no espaço ocupado pela cripta subterrânea).
Mas esta não é uma pirâmide perfeita: é uma pirâmide inacabada. O topo não termina num vértice - união das quatro faces, das quatro arestas - mas numa nova face, paralela à base da pirâmide. Recorde-se que uma das lendas maçónicas conta que o Mestre Hiram Abiff, responsável pela construção do Templo de Salomão, foi assassinado antes de completar a obra, deixando o templo inacabado.

Nessa face, no lugar onde é usual colocar-se uma Pedra Benben para concluir a pirâmide (ou o obelisco), encontra-se uma estátua, que alguns autores atribuem a Calmels.
Essa estátua é uma figura feminina, várias vezes identificada como sendo o Anjo da Morte ou da Boa Morte (dependendo dos autores consultados...), e é, provavelmente, uma das Sete Virtudes: neste caso a Fé, representada como sendo uma mulher carregando uma cruz.
É ainda de nota que a estátua agarra um livro e um conjunto de chaves: simbologia atribuída a S. Pedro, a quem Cristo entregou as Chaves do Paraíso.
Não deixa de ser curioso que, desta forma, a pirâmide do Jazigo Palmela acabe por ser rematada com uma cruz, o que acontece com todos os obeliscos de Roma, que a mando do Papa Sisto V, no século XVI, foram exorcizados de todos os demónios e purificados da sua simbologia maldita pelo acrescento dessas cruzes.

A magnifica construção ergue-se a Oriente, ocupando o último terço do espaço do talhão rectangular, de cota mais elevada do que os terrenos e construções que o rodeiam, limitado por um gradeamento de metal, constituído por peças repetidas em conjuntos de três, onde no centro de cada um se pode ver uma cabeça de leão (outro símbolo solar de inspiração maçónica).

Sete são os degraus que permitem chegar até ao portão. O número 7 é um dos três números mais importantes para a maçonaria; são eles o 3, o 5 e o 7; referências numerológicas aos três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Estes sete degraus representam ainda as sete Artes Liberais, que compunham o plano de estudos medieval, as sete idades do homem ou as Sete Virtudes Cardeais que conduzem ao auto-conhecimento, auto-domínio e auto-enobrecimento.

Entre o portão, que separa o talhão dos Palmela do restante cemitério, e os cinco degraus que dão acesso ao patamar de entrada no Jazigo, estende-se um tapete de irregulares pedras pretas e brancas, compondo doze losangos: certos autores especulam que o proverbial Templo de Salomão também apresentava pavimentos ou motivos decorativos formados pelo contraste de formas geométricas pretas e brancas, pelo que, ainda hoje, uma quadrícula de mosaicos brancos e pretos é o padrão comum do chão de muitos templos maçónicos.

Ladeando a passadeira preta e branca estão enterrados os empregados da família Palmela: mulheres do lado Norte e homens do lado Sul. Existem duas mulheres enterradas do lado Sul, todavia: talvez por desconhecimento do preceito maçónico que, inicialmente, assim distribuiu os lugares dos mortos; já que, na tradição maçónica regular, o Norte é a orientação reservada àqueles que ainda não capazes de ver a Luz, posto que o Sol, na sua trajectória de Oriente para Ocidente, não brilha no Norte. À vista disso, é frequente as lojas maçónicas não terem quaisquer janelas viradas para Norte.

No interior do Jazigo somos recebidos por um magnifico trabalho do celebrado Canova, talhado em mármore de Carrara: é o cenotáfio do 1º Duque de Palmela que, como já referimos, se encontra enterrado em Roma.

No centro da capela, iluminadas pela luz que entra por duas janelas, um par de magnificas peças escultóricas de Teixeira Lopes tomam conta do espaço, construidas por ordem do 3º Duque de Palmela.
Uma dessas peça tem um cunho claramente inacabado, mostrando mãos pesadas, grossas e pouco trabalhadas, numa figura feminina de traços perfeitos. São várias as interpretações que essas mãos inacabadas suscitam: há quem considere que ficaram propositadamente inacabadas e há quem defenda que o autor não conseguiu concluí-las.
Considerando a qualidade e beleza de toda a peça, mais a minúcia com que estão trabalhadas as mãos das restantes personagens, tenho dificuldade em acreditar que Lopes deixasse esta imperfeição de modo intencional, mas Moita Flores, por exemplo, no livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário, justifica-a com base na morte do escultor.

Antes de descer à cripta é possível observar um trabalho de Célestin Calmels capaz de tirar a respiração. Outra figura feminina, ao lado do pequeno altar da capela carregado de castiçais dourados e um Bíblia aberta, está uma porta fechada onde uma perfeita mulher de mármore parece carpir a morte do jovem filho da Duquesa de Palmela.
O drapeado da túnica que envolve a mulher é fluido e parece capaz de se mover com o nosso toque.

Descidos os três degraus que nos conduzem à câmara principal da cripta, aguarda-nos um espaço pequeno, que um tecto amarelo torrado com inúmeras papoilas dormideiras pintadas a azul - símbolo do sono eterno, da eternidade - faz parecer ainda mais pequeno. Em redor dessa câmara, abre-se um corredor que a contorna, apresentado doze nichos rasgados na pedra que conservam os caixões que contém os restos mortais da família Palmela.

Visitar o Jazigo Palmela é uma experiência única. Recomenda-se vivamente.




Imagens: Jazigo dos Duques de Palmela II

José Joaquim Teixeira Lopes (Α:1837 - Ω:1918)


Imagens: Jazigo dos Duques de Palmela I

Célestin Anatole Calmels (Α:1822 - Ω:1906)


1.4.11

Jóias de Luto do Século XXI

Como já aqui falámos, durante o século XIX a joalharia de luto era uma realidade. Construída como objecto de memória, recordando os mortos com recurso à simbologia ou utilizando madeixas de cabelo dos falecidos, era indispensável na celebração do luto na época vitoriana.
Apesar de ter sido muito comum nessa altura - e prova disso é a quantidade e diversidade de artefactos que chegaram até aos nossos dias - a produção de jóias de luto perdeu-se com a chegada do século XX, resultado de uma forma completamente diferente de vivênciar a Morte.

No século XXI esta prática regressou num novo formato - menos óbvio - onde os restos mortais resultantes da cremação dos cadáveres podem ser utilizados como base carbónica para a produção de diamantes sintéticos.
Este é uma das formas, não de eliminação de cadáver, como também já falámos antes, mas sim um forma de tratamento de parte as cinzas resultantes da cremação.

Até há pouco tempo pensei que esta prática estivesse ainda restrita à América, onde apareceu, mas aparentemente também por cá é já possível guardar a memória dos nossos entes queridos numa dessas pedras eternas, uma vez que a agência Servilusa já disponibiliza este serviço.
Neste caso, e tal como na joalharia de luto do século XIX, a matéria prima são apenas madeixas de cabelo.

O processo de sintetização destes diamantes é curioso e a LifeGem descreve-o.
Aparentemente, durante o processo de cremação, o carbono existente nas cinzas é captado sobre a forma de um pó escuro, que posteriormente aquecido para criar grafite. Essa grafite é tratada em laboratório e utilizada na sintetização dos diamantes.

Segundo a LifeGem, a captação de carbono durante o processo de cremação não impede a produção de cinzas (cremains) e de um mesmo cadáver podem fazer-se diversas pedras. Também os animais de estimação podem ter este tratamento.

Sem dúvida, estamos perante joalharia de luto do século XXI.


27.3.11

Cemitério de South Park Street

Durante a primeira metade do século XIX, os cemitérios românticos (vitorianos) espalharam-se por toda a Europa, desenhados por arquitectos conceituados que procuravam recriar os mitológicos espaços de Arcádia e Campos Elísios, concebendo belíssimos cemitérios-jardins.
Rapidamente, o cemitério parisiense de Père Lachaise (1803) foi tornado como modelo, sendo a sua planta distribuída, estudada e utilizada como base de trabalho numa série de cemitérios pela Europa fora; como foi o caso do nosso cemitério dos Prazeres (1833), por exemplo.

A verdade é que o "primeiro" cemitério vitoriano não apareceu na Europa, mas na Ásia: mais precisamente, na Índia.

Em 1690, a Companhia das Índias Orientais fundou a cidade de Calcutá. Nos anos que se seguiram, a afluência de europeus a esta zona da Índia foi aumentando, de acordo com os volumes de negócios. Alguns regressaram aos seus países de origem, mas outros foram ficando por lá.
Em 1767 foi fundado um cemitério para a inumação dos europeus que habitavam em Calcutá: o cemitério de South Park Street.
Fundado por motivos funcionais e de higiene, antecede toda a reforma cemiterial europeia.

Inspirados em monumentos funerários indianos, construções persas, egípcias e muçulmanas os monumentos que enchem este cemitérios não foram desenhados por arquitectos, mas construidos pelos próprios coveiros, segundo indicações dos proprietários.
Sãos construções de tijolo, rebocadas com estuque, pintadas e decoradas com colunas partidas, obeliscos, pirâmides.

Em 1830 o cemitério estava sobre-lotado e deixou de ser utilizado.

O material usado nas construções dos monumentos torna a conservação destes numa tarefa complicada, mais ainda se tivermos em consideração o clima húmido e quente dessa zona da Índia.

Sobre ele, escreveu Rudyard Kipling:

Lower Park Street cuts a great graveyard in two. (...)

The eye is ready to swear that it is as old as Herculaneum and Pompeii. The tombs are small houses. It is as though we walked down the streets of a town, so tall are they and so closely do they stand — a town shrivelled by fire, and scarred by frost and siege. Men must have been afraid of their friends rising up before the due time that they weighted them with such cruel mounds of masonry. Strong man, weak woman, or somebody’s ‘infant son aged fifteen months,’ for each the squat obelisk, the defaced classic temple, the cellaret of chunam, or the candlestick of brickwork — the heavy slab, the rust-eaten railings, whopper jawed cherubs, and the apoplectic angels.



22.3.11

Caixões Dançarinos

Estava-se no final do século XVIII e em Christ Church, nos Barbados, quando a abastada família de plantadores Wallrond mandou construir um mausoléu de família, escavado na rocha e fechado com uma maciça pedra de mármore.

Em 1807 foi a enterrar o primeiro e único elemento da família Wallrond a ser depositado no jazigo: Thomasina Goddard, fechada num simples caixão de madeira.
O jazigo foi vendido a outra família de plantadores, os Chase, no ano seguinte.
O Coronel Thomas Chase era o patriarca dessa família e, corriam rumores, era considerado um homem bastante cruel.

Nesse mesmo ano, a pequena Mary Ann, filha mais nova de Thomas Chase, com dois anos de idade, foi colocada no jazigo, num caixão de chumbo. Algumas fontes relatam que a morte de Mary Ann teve origem num ataque violento de seu pai e que Dorcas, a irmã mais velha de Mary Ann, se deixou morrer de fome - empurrada para uma depressão precoce, também por Thomas Chase - e em 1812 foi também depositada no jazigo, ao lado da irmã, num caixão de chumbo.
Como sempre, o jazigo foi fechado (sendo necessária a força de vários homens para colocar a pedra no sitio) e selado com cimento.

Ainda em 1812, Thomas Chase morreu. Foi feito um caixão trabalhado, pesando cerca de cem quilos, que teve de ser transportado por oito homens, e o jazigo de família mandado abrir para colocar o pai das meninas. O interior surpreendeu toda a gente: os caixões estavam fora do sitio, desarrumados, e os acompanhantes do funeral ficaram indignados com a perspectiva do jazigo ter sido atacado por ladrões de sepulturas. Rapidamente, a ausência de valores no interior do jazigo, o facto dos caixões não terem sido violados e da pedra da entrada se encontrar selada com cimento, fez com que a população pusesse de lado essa hipótese.

Em 1816 o túmulo foi de novo aberto: todos os caixões tinha sido movidos; os das duas meninas estavam voltados com a tampa para baixo e até o pesado caixão de Thomas Chase estava fora de sítio, encostado verticalmente numa das paredes da cripta.
Os caixões voltaram a ser colocados nos seus locais iniciais e a enorme pedra mármore descida sobre a entrada do túmulo.

Em menos de dois meses o túmulo voltou a ser aberto para nova inumação; reuniu-se uma multidão em torno do talhão da família Chase e a pedra e o cimento foram demoradamente examinados, em busca de sinais de arrombamento. Aberto o túmulo, a desordem reinava no seu interior. O caixão de madeira de Thomasina Goddard estava dramaticamente danificado.

Parecia impossível encontrar uma explicação: não havia sinais de inundação no interior da cripta, tremores de terra teriam afectado também os jazigos vizinhos (o que não tinha acontecido) e se a cripta tivesse sido aberta e violada teriam sido encontrados vestígios.

Mais uma vez, o jazigo foi arrumado e fechado.

Em 1819, ao ser novamente aberto, todos os caixões - com excepção do decrepito caixão de madeira de Goddard - tinha sido movidos.

Foi chamado um padre para investigar o túmulo e até Sir Arthur Conan Doyle abordou o assunto, dizendo que se tratavam de forças sobrenaturais que moviam as urnas por estas serem feitas de chumbo, o que impedia a natural decomposição dos corpos.

Os caixões foram, mais uma vez, arrumados nos seus devidos lugares e o Governador de Barbados, Lord Combermere mandou cobrir o chão do jazigo com areia fina e selar a pedra com cimento, onde gravou o seu selo pessoal.
Algum tempo depois foram-se relatadas histórias de ruídos estranhos, vindos do interior da cripta e em 1820 o Governador mandou abrir o túmulo para ver o que se passava no seu interior.

A pedra não tinha sido movida, pois os selos do Governador encontravam-se intactos, e a areia continuava lisa e intocada, mas os caixões estavam, mais uma vez, fora do sítio, alguns deles voltados ao contrário.

O Governador mandou esvaziar a cripta e enterrar os caixões noutro local.

A cripta ainda se encontra vazia e, até agora, ninguém conseguiu encontrar a solução para o mistérios dos caixões dançarinos da família Chase.


20.3.11

Monumentos Memoráveis: Via Crucis

Uma das peças mais vistosas e visitadas do Cemitério Monumentale de Milão, em Itália, é um trabalho de 1936, realizado por Giannino Castiglioni (Α:1884 - Ω:1971), talentoso discípulo de Butti (já aqui falado anteriormente a respeito de uma outra genial obra do Monumentale de Milão: La Giovane Morta).


Esta maravilhosa escultura é uma enorme torre em espiral, talhada em mármore branco, construida em parceria com o arquitecto Alessandro Minali e foi chamada de Via Crucis.

Castiglioni criou-a para Antonio Bernocchi (Α:1859 - Ω:1930), rico empresário da industria do de algodão e patrono das artes, responsável pela realização da Trienal de Arquitectura de Milão, tendo deixado em testamento fundos para a construção do palácio que a devia receber.

Representando as doze estações da Via Sacra, esta enorme escultura, foi uma das principais obras que ajudaram a imortalizar o trabalho do talentoso escultor.

Ainda no Monumentale de Milão podem ser encontradas mais duas peça do mesmo autor e que também são dignas de nota; mantendo um registo de inspiração cristã, Castiglioni concebeu um mármore representando o Inferno, Purgatório e Paraíso para o mausoléu de Andrea Bernocchi (irmão do já referido Antonio Bernocchi) e um magnifico bronze da Última Ceia para o jazigo de Davide Campari (o magnata das bebidas alcoólicas) que é um dos pontos de maior interesse no Monumentale.

Numa época em que as peças realizadas para os cemitérios serviam de mostruário dos talentos dos seus autores, foi graças a este bronze que o escultor Giannino Castiglioni foi escolhido para fazer o segundo conjunto de portas de bronze da Catedral de Milão.


17.3.11

Eternos Parisienses

Para a maioria dos tafófilos, a caça às campas de famosos não é o principal atractivo num cemitério, mas para o visitante comum - que, ao contrário dos primeiros, não nutre um especial carinho por estes espaços - encontrar -se o local do repouso eterno de um nome sonante é, sem dúvida, um dos principais atractivos para cruzar os portões dos cemitérios.

Ainda que em Portugal este tipo de turismo não seja ainda comum, lá fora é extremamente popular e a prova disso são, por exemplo, as multidões que visitam o cemitério parisiense de Père Lachaise ou os autocarros de turismo que param diariamente à porta do cemitério Monumentale de Milão para visitas guiadas.

Normalmente, no próprio local, é possível comprar (ou receber gratuitamente) brochuras com as plantas dos cemitérios, onde os jazigos dos mais famosos residentes se encontram destacados, e que permitem ao visitante não se perder e descobrir com maior facilidade a campa pretendida. No entanto, este tipo de brochuras não costuma ter muito mais informação para além da localização e do nome e, muitas vezes, sentimos vontade de saber mais.
Outras vezes, queremos planear a viagem cuidadosamente e escolher quais os espaços a visitar, e as campas a não perder, e antes de ir não temos acesso às brochuras.
Felizmente, a Internet já nos permite a consultas de sites dedicados a alguns dos cemitérios, com acesso às plantas e outra informação preciosa; ainda assim, nada como ter um guia de bolso, completo e detalhado, contando histórias interessantes; não só sobre os falecidos, mas também sobre as suas campas, monumentos e o cemitério em si.

No âmbito dos Guias Cemiteriais existe uma colecção que merece destaque: a The Permanent Series desenvolvida por Judi Culbertson e Tom Randall.

Até ao momento existem já 5 volumes:
Vamos começar por Permanent Parisians.
Os autores dedicam os quatro capítulos iniciais a Père Lachaise, o que não é surpreendente, se considerarmos a profusão de falecidos famosos que estão enterrado neste cemitério.

Recordamos alguns:
  • Jim Morrison;
  • Georges Rodenbach;
  • Frédéric Chopin;
  • François Raspail;
  • Gustave Doré;
  • Jean La Fontaine;
  • Allan Kardec;
  • Honoré de Balzac;
  • Eugène Dlacroix;
  • Oscar Wilde;
  • Edith Piaf;
  • etc.
Há ainda tempo para falar nos afamados Passy, Montparnasse e Montmartre, para dedicar um capítulo ao Panteão, outro (pequeno) às Catacumbas, sem esquecer pequenos cemitérios suburbanos e igrejas onde foram realizadas inumações diversas, como St. Denis.

O guia está ilustrados com fotografias a preto e branco que permitem visualizar os locais a visitar.

Este é o guia essencial para qualquer tafófilo de visita a Paris, mas mais que isso é um instrumento rico, com um manancial de informação incontornável, sobre as personalidades enterradas em Paris e as suas histórias de vida, mas em especial, as suas mortes.

Mesmo para quem não esteja a planear um visita à cidade da Luz, vale a pena adquirir e ler esta obra.


15.3.11

Guilda dos Violinistas Funerários

No ano de 2007 foi publicado um interessante livro chamado An Incomplete History of the Art of Funerary Violin, que causou sensação sob diversos aspectos.

O autor - e músico - Rohan Kriwaczek diz na introdução que ao sair da Royal Academy of Music, nos anos setenta do século passado, percebeu que única forma de distinguir-se como executante de violino clássico era encontrar um nicho e especializar-se nele.
Considerando o seu gosto pessoal, decidiu especializar-se em música melancólica e começou a percorrer a Inglaterra com um espectáculo musical que denominou de "a música mais triste do mundo".

No final de um desses espectáculos foi abordado por um académico que se apresentou como membro da quase extinta Guilda dos Violinistas Funerários, convidando-o a assistir a uma das suas reuniões.

Rohan Kriwaczek conta-nos o seu entusiasmo ao descobrir que o grupo de homens de idade avançada que compunha a guilda, nessa altura, mantinha um espólio de pautas, velhas gravações em cilindros de cera, fotografias e documentos históricos provando a existência de um género de música quase esquecido: o violino funerário.

O autor revela ainda que, depois de obtida permissão, ficou recolhido na cave-arquivo da guilda, procurando, organizando, recuperando e tratando esses documentos e gravações.

Foi assim que Rohan Kriwaczek ficou a conhecer a história da Guilda e da Arte do Violino Funerário, um género de musica misto de erudita e popular normalmente tocada por um violinista em funerais (ou dois, em casos especiais).

Criada na época da Reforma Protestante da rainha Elizabeth, e praticamente extinta durante a Primeira Guerra Mundial, o Violino Funerário teve de passar por longas fases de clandestinidade, nomeadamente durante as chamadas purgas funerárias levadas a cabo pelo Vaticano, que considerava que este tipo de música era do Diabo.

Apesar disso, a música influenciou grandemente compositores afamados como Chopin e Mozart, estando na génese dos requiens e marchas fúnebres que muitos compositores criaram ao longo dos anos.

O livro é uma obra riquíssima, ilustrada com fotografias de época, e tem como anexo a cópia das pautas de algumas das músicas.
É ainda possível comprar os CD's contendo as performances gravadas nos cilindros de cera encontrados nas caves da casa da guilda ou versões recentes gravadas por Rohan Kriwaczek que, entretanto, também compôs alguns trabalhos, seguindo o espírito do trabalho dos seus antecessores, os violinistas funerários que foram passando pela guilda.





Talvez um dos pontos mais interessantes de toda esta história é o facto dela ser falsa.

Rohan Kriwaczek criou a Guilda, a sua história, a sua filosofia, a música, as imagens, tudo. E sim, a guilda nunca existiu antes, mas existe agora.

A historia da guilda é falsa... mas está tão bem construida que podia não ser!
E a música é real!
E bonita...

13.3.11

Simbologia: Urna Cinerária

Para além dos símbolos que são apropriados pela arte funerária e aos quais é assim acrescentada uma nova camada, de acordo com a interpretação desse símbolo nesse contexto, existe ainda um conjunto de símbolos associados à Morte e que são, obviamente, utilizados em grande número nos cemitérios.

Um dos clássicos e mais comuns símbolos de Morte é a urna, podendo apresentar três representações distintas: a urna comum (que serve de ossário), a urna lacrimal e a urna cinerária.

Juntamente com a cruz, a urna cinerária é uma das mais comuns representações nos cemitérios românticos (vitorianos), tendo sido amplamente usada no século XIX.

Objecto que na Grécia antiga tinha o objectivo de guardar as cinzas resultantes de um processo de cremação, a urna cinerária tornou-se uma representação da separação entre o corpo e a alma, sendo muita vezes acompanhada de um véu ou mortalha que a cobre parcialmente.
O véu, neste contexto, é vária vezes apresentado como sendo a separação entre o mundo do vivos e o reino dos mortos ou, de uma forma ainda mais simples, a urna contendo os restos mortais e a mortalha abandonada, representam a passagem da alma para outra dimensão, a sua separação definitiva do mundo físico.

Há fontes que mencionam a urna como uma representação, não da componente física, mas da mais etérea: da alma. Considerando que a urna é o objecto que contém os últimos vestígios físicos do falecido, parece-me que a única forma dela representar a alma é pela ausência.

A urna é encontrada com frequência coberta por um véu ou mortalha, como já foi mencionado, mas também acompanhada de uma mulher ou um anjo, frequentemente dobrados e apoiados tristemente no objecto.
Podem encontrar-se outras variações como as chamas saindo do seu interior ou coroas de flores.

Assim, a urna representa a mortalidade, a alma, a separação entre o reino dos vivos e o reino dos mortos, os últimos despojos da vida.

12.3.11

Memento Mori

Sem as facilidades que temos hoje em dia para preservar imagens, os vitorianos encontraram na invenção do daguerreótipo, em 1839, uma nova forma, mais rápida e eficaz que a pintura, que lhes permitia guardar para sempre recordações dos seus familiares e amigos.

Apesar de ser um processo caro, era bem mais acessível que posar para um quadro, mas faziam-se apenas em ocasiões especiais e que se pretendiam recordar.
Assim, iam-se adiando as fotografias.

É ainda de considerar que a mortalidade infantil era, na época, elevadíssima, pelo que muitas vezes quando uma criança morria, os pais não haviam tido ainda oportunidade para se fotografarem com ela e esta era a sua ultima oportunidade para guardarem uma recordação.

Não é de estranhar que se tenha começado a fotografar os mortos, numa sociedade que, como já vimos, tinha uma relação com a Morte bem diferente daquela que nós temos hoje.

Claro que não encontramos apenas fotografias post mortem de crianças, até porque o processo e o costume se popularizaram.

Era até comum os familiares vivos posarem junto do cadáver sendo que, por vezes, o resultado era especialmente macabro - para a nossa sensibilidade do século XXI - uma vez que apenas o morto se encontrava perfeitamente focado, pois as longas exposições próprias dos primórdios da fotografia obrigavam a uma imobilidade quase total para garantir a nitidez.

As imagens que chegam até nós (e que são também objectos de colecção muito cobiçados) dividem-se em dois grandes grupos: as que tentam disfarçar a Morte e as que a assumem.

No primeiro caso, os cadáveres eram normalmente colocados em posições naturais, como se estivessem vivos, recostados em cadeirões, deitados em camas, numa aparência de sono, num simulacro de vida. Alguns fotógrafos tinham mesmo suportes, que permitiam colocar os mortos em pé, e abriam-lhes os olhos - ou pintavam olhos nas pálpebras fechadas, directamente sobre a fotografia - aproximando-os o mais possível da imagem que tinham em vida.

Este tipo de fotografia post mortem pertence ao inicio do hábito de fotografar os mortos: mais do que recordar a Morte ou a mortalidade, pretendia-se recordar a pessoa em vida e a sua importância para os que ficavam.

A evolução natural da prática levou a que as imagens se assumissem enquanto fotografia de morte: passam a ser incluidos os caixões, as coroas de flores, velas, crucifixos e outros símbolos associados à Morte.

No inicio do século XX esta prática ainda era relativamente comum, sendo que actualmente ainda é possível observá-la na Europa de Leste.

Estas imagens acabaram por ficar conhecidas como Memento Mori, que é uma expressão latina que significa "recorda-te que vais morrer".


Podem ainda consultar a Galeria de Imagens da Página de Facebook do Mort Safe, onde vão encontrar mais fotografias post mortem do século XIX.

11.3.11

Cemitério de Mount Jerome

No ano de 1836, na margem sul do Grande Canal de Dublin, na Irlanda, foi inaugurado o primeiro cemitério privado do país: o General Cemetery Company of Dublin, que ficou conhecido e ainda hoje é designado por Harold's Cross ou Mount Jerome, o nome do local onde foi edificado.

Quatro anos antes, em 1832, abriu o cemitério de Glasnevin, na zona norte da cidade, que rapidamente se tornou no cemitério preferido pelos irlandeses católicos, transformando o mais recente cemitério de Mount Jerome no cemitério da população protestante.
Apenas em 1920 começaram a ser enterrados católicos em Mount Jerome, devido a uma greve dos coveiros de Glasnevin, que mantiveram esse cemitério inoperante durante algum tempo.

Mount Jerome cemetery

A primeira inumação em Mount Jerome foi de duas crianças, meninos gémeos, numa altura em que o cemitério cobria apenas vinte e seis acres de terra.
No centro do terreno fica uma belíssima capela gótica, desenhada por William Atkins e que foi construida em 1847, que ainda pode ser visitada.
Em 1874 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido possível aumentar a área total para quarenta e oito acres, o seu tamanho actual.

Mount Jerome é actualmente considerado como um dos cemitérios românticos (vitorianos) de referência, sendo favoravelmente comparado com Highgate (Londres, Inglaterra) e Père Lachaise (Paris, França); no entanto, no final do século XX, o abandono a que este foi sujeito permitiu o declínio do espaço e a degradação dos monumentos e construções.

No virar do milénio é construido em Mount Jerome o primeiro crematório privado da Irlanda, permitindo a revitalização do espaço e o inicio de um longo e complexo processo de recuperação dos mausoléus, túmulos, criptas e estatuária.

É em Mount Jerome que se encontra enterrado Sheridan Le Fanu, o autor de Carmila - um dos primeiros romances de vampiros, ainda hoje extremamente inovador e audaz - e The House by the Churchyard.

Um visita a Mount Jerome é obrigatória para qualquer tafófilo de passagem por Dublin, sendo até possível encontrar um pequeno café no interior do cemitério.
Um alerta deixado por todos os guias é o cuidado necessário nestas visitas: a decadência a que chegou o cemitério criou buracos no chão, pedras tumulares partidas, construções quebradiças e mausoléus prontos a desabar...
A saída do recinto, no entanto, tem de ser impreterivelmente até às quatro da tarde, sendo que os portões do cemitério são fechados a essa hora, sem qualquer falha, não ficando sequer um guarda que possa facilitar a saída dos mais distraídos.

Chamam-lhe "victorian splendor in decay".