26.6.11

Danse Macabre

Danse Macabre é o título de uma curta-metragem, com uma duração de cerca de oito minutos, da autoria de Pedro Pires, e que nos transporta para lá da Morte.


For a period of time, while we believe it to be perfectly still,
lifeless flesh responds, stirs and contorts in a final macabre ballet.
Are these spasms merely erratic motions
or do they echo the chaotic twists and turns of a past life?

Tendo passando recentemente na RTP2, resta-nos esperar por uma repetição, ou pela sua inclusão nos próximos festivais de cinema no nosso país.

24.6.11

Os Homens do Saco

Durante os séculos XVIII e XIX dois grandes temores relacionados com a Morte aterrorizaram a sociedade ocidental: ser enterrado vivo e acabar numa mesa de anatomista, dissecado perante uma audiência de alunos de medicina.
E estes não eram receios infundados.

Para alguém que morresse em Londres, Dublin ou Edimburgo, por exemplo, a probabilidade de não passar sequer uma noite debaixo de terra era alta.

Segundo a lei, os cadáveres dos criminosos sujeitos a pena de morte eram entregues aos anatomistas para dissecação, mas todos os outros corpos tinha direito a um enterramento religioso e eram poupados a essas práticas, mal vistas por todos os credos vigentes: dissecar um corpo era visto como uma profanação; um castigo, pelo que estava reservado apenas aos realmente maus.

O aumento do número de universidades e alunos e os avanços da ciência, aliados a esta lei limitativa, acabaram por criar um novo mercado: a necessidade de cadáveres frescos.

Inicialmente, alguns alunos mais corajosos arriscavam entrar nos cemitérios durante a noite para tentar extrair cadáveres, mas depois de alguns deles serem vitimas de ferimentos com armas de fogo, acabou por criar-se também uma nova profissão: a dos ladrões de corpos.

Entrando nos cemitérios durante a noite, em silêncio, com candeias escurecidas e pequenas pás de madeira, estes homens cavavam nas sepulturas recentes, de terra fofa, partiam a tampa do caixão e, com a ajuda de cordas e ganchos, puxavam o cadáver para fora daquela que deveria ser a sua última morada.
Despidos das mortalhas - era crime mais grave roubar a mortalha ou a roupa do morto do que o corpo - eram dobrados e enfiados em sacos de serapilheira que os ladrões transportavam às costas ou em carroças (quando eram muitos) puxadas por cavalos com as ferraduras envoltas em cabedal, para não fazerem barulho.
No final, os ladrões voltavam a repor a terra e deixavam tudo conforme tinham encontrado, de maneira a passarem despercebidos: cemitério roubado era cemitério vigiado.
Nessa óptica, muitos dos roubos não chegavam sequer a ser descobertos.

Por este motivo, o número de cadáveres roubados nos cemitérios de Edimburgo, Dublin e Londres é impossível de apurar, mas um dos ladrões chegou a confessar ter roubado mais de quatrocentos cadáveres num ano, o que dá uma média de mais de um corpo por noite.


Este tipo de crime acontecia nas grandes cidades, de forma a garantir a rentabilidade do negócio; não só era aí que se encontravam as principais universidades (procura), como também era aí que existiam grandes cemitérios e a elevada densidade populacional garantia o enterramento de cadáveres frescos com regularidade (oferta).

A procura era de tal forma elevada, e distribuída geograficamente, que Edimburgo e Dublin exportavam cadáveres para outros locais. Este facto foi descoberto depois de barris e caixas de carga não terem sido recolhidas pelos compradores durante demasiado tempo e cheiro dos cadáveres em avançado estado de decomposição ter atraído a atenção das autoridades.
No caso de Dublin, os caixotes eram muitas vezes marcados como contendo queijo irlandês.

Este era um negócio arriscado, mas altamente lucrativo; mesmo cadáveres menos frescos ofereciam possibilidades: dentes, mãos e pés podiam ainda ser vendidos. Para além disto, podia ainda ser vendida a gordura dos corpos para fabrico de velas e sabão.
As mãos e pés eram vendidos a cirurgiões para dissecação; no caso dos dentes, estes eram negociados com dentistas para construção de dentaduras postiças.
O negócio dos dentes era de tal forma interessante que vários ladrões de corpos se aventuraram a viajar até terras de França, para os recuperar dos cadáveres dos soldados abatidos em combate.

Estas práticas eram conhecidas (alguns ladrões foram sendo apanhados ao longo dos anos) e algumas personalidades com influência tentaram, sem grandes resultados, alterar as leis de forma a permitir que os corpos não reclamados pudessem também ser enviados para dissecação, aumentando largamente a oferta legal de forma a acabar com o roubo de cadáveres pelos ressurreicionistas.

As populações tentavam - em vão - precaver-se: construiram-se muros altos e torres de vigia em volta dos cemitérios, grupos de vigilantes percorriam os terrenos de noite, munidos de lanternas, armas e cães, e construiam-se invenções que permitissem impedir o roubo como os mort safe ou as casas de mortos (pequenas construções de pedra, no interior dos cemitérios, sem janelas e acedidas apenas por uma pequena e pesada porta de madeira, normalmente iluminada e vigiada, e que serviam para manter os corpos durante as primeiras semanas, de forma a poderem ser inumados apenas quando se encontravam num estado de decomposição avançada).

Não foi nenhuma destas medidas que decretou o final dos ladrões de corpos, mas a escalada do crime que transformou ladrões em assassinos.

É famosa a história de Burke e Hare que, a partir de um hotel de mendigos em Edimburgo, transformavam indigentes vivos em corpos prontos para vender e lucrar, ficando ainda em posse dos poucos pertences dos mortos. Mataram e venderam cerca de vinte pessoas, até terem escolhido uma vítima conhecida.
Foram apanhados. Burke foi julgado, condenado e, depois de morto, entregue a anatomistas para dissecação pública. Hare testemunhou contra o colega de profissão e acabou em liberdade.
Existem outros casos semelhantes (como Bishop e Williams), mas Burke e Hare são os mais conhecidos, tendo mesmo sido escrito um conto The Body Snatcher por Robert L. Stevenson baseado no caso (adaptado ao cinema em 1945 pela mão de Robert Wise com Boris Karloff e Bela Lugosi nos principais papeis).

Finalmente, em 1832 é aprovado o Anatomy Act que permite que, dependendo de um conjunto de condições, determinados corpos sejam legalmente disponibilizados para dissecação, terminado assim com a procura de cadáveres ilegais ou seja, acabado com o negócio dos homens do saco (sack'em-up men) no Reino Unido.

No resto da Europa este problema não tinha estas dimensões, uma vez que quase todos os países forneciam corpos às universidades de forma legal.
Em França, era prática, desde os tempos da Revolução Francesa, enviar os corpos dos doentes que morriam nos hospitais para dissecação, sempre que estes não eram reclamados por familiares nas vinte e quatro horas seguintes.
Na Alemanha e Áustria actuava-se de forma semelhante, sendo que também os indigentes que morriam em casas de acolhimento, os suicidas, os criminosos e as prostitutas tinham o mesmo tratamento.
Também na Holanda os hospitais públicos forneciam os cadáveres necessários.
No caso da Itália, os corpos não reclamados (de hospitais e casas de acolhimento para pobres) eram entregues às escolas de anatomia, depois de terem sido sujeitos aos ritos religiosos necessários.

Relativamente a Portugal, as referencias que encontrei (muito poucas e em material não português) dizem que a nossa prática era em tudo semelhante à italiana, sendo que a elevada taxa de mortalidade infantil nacional permitia o fornecimento de cadáveres frescos em abundância.
Pessoalmente, e considerando a enraizada prática católica no nosso país, tenho alguma dificuldade em aceitar esta versão. Recordo que a tentativa de criação de cemitérios e a obrigatoriedade da inumação deixar de ser feita no interior e pátio das igrejas levou a uma revolta popular que fez irromper uma guerra civil que durou oito meses.
No entanto, a não existência de outros documentos escritos que contrariem esta informação leva-me a apresentá-la como provável.

Seria interessante perceber até que ponto a evolução do estudo da medicina em Portugal e as leis dos séculos XVIII e XIX permitem validar ou negar a informação apresentada nos parágrafos anteriores. É preciso, no entanto, ter em atenção que os cemitérios românticos (na periferia dos centros populacionais e independentes de igrejas paroquiais) só aparecem em Portugal a partir de 1833, depois de resolvida a situação no Reino Unido, último reduto dos ladrões de corpos na Europa.

Confesso que teria alguma piada perceber se o célebre "Homem do Saco" com que as nossas avós nos ameaçavam em crianças, numa tentativa de nos obrigarem a comer a sopa ou a não fazer barulho, não seria mais que um pilha-cadáveres à portuguesa.


Olhando para lá da Europa, para os Estados Unidos da América, o caso não era muito diferente do que se passava no Reino Unido. Apesar de alguns estados terem leis mais avançadas, a legislação da maioria dos estados do Sul permitia a germinação e proliferação dos ladrões de corpos.
Duas das maiores e mais reconhecidas escolas de medicina da altura eram as de Filadélfia e Baltimore, e os cadáveres das aulas de anatomia era mortos exumados dos cemitérios mais próximos.

Numa tentativa de resolução do problema, a legislação foi alterada de forma a aumentar a penalização para os ladrões, ao mesmo tempo que prometiam a entrega dos corpos dos criminosos às escolas de anatomia. Estes não eram, obviamente, em número suficiente e o roubo de cadáveres continuou ao longo das décadas.

Actualmente, o roubo de corpos - quando existe - tem outro tipo de objectivos, mas há muito tempo que as torres de vigia dos cemitérios deixaram de ter sentinelas com armas e cães.


23.6.11

O Funeral de Lord Byron

"Em 12 de Julho de 1824, o sol iluminou uma fantástica procissão. Enquanto a multidão, silenciosa e triste, se juntava para ver o cortejo, cavalos negros de ébano, enfeitadas com plumas também negras, puxavam um grande carro funerário através das ruas de Londres. Logo atrás, seguiam três carruagens com os amigos fiéis do morto. Depois, um a um, passaram os quarenta e sete coches das famílias mais nobres de Inglaterra; símbolos bizarros no funeral de um poeta homenageado pelo Mundo, mas desprezado pelo seu próprio país, os choches iam vazios. Nas casas ao longo do caminho, as mulheres respeitáveis apenas ousavam espreitar o estranho ritual por entre as cortinas das janelas. Mesmo depois de morto, George Gordon, Lord Byron, era ainda evitado pela alta sociedade.
Durante quatro dias, o carro funerário, acompanhado agora somente pelos cangalheiros, prosseguiu solenemente para norte em direcção a Nottingham. Nas pequenas vilas do caminho, plebeus respeitosos juntavam-se para o ver passar, sem dúvida surpresos por ter sido negada a este poeta, o mais popular da época, a honra de ser sepultado no Canto dos Poetas da Abadia de Westminster. Em vez disso, o seu corpo seria inumado no jazigo de família, numa igreja humilde perto da casa dos seus antepassados.
Tendo morrido aos trinta e seis anos, durante mais de quinze Byron fora adorado e desprezado, temido e emulado."

in Os Grandes Mistérios do Passado
Selecções do Readers's Digest.

28.5.11

A Morte no Estado Novo

Quando li o livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário, de Francisco Moita Flores, um dos capítulos que mais me impressionou foi o dedicado à simbólica do Estado Novo presente nos cemitérios de Lisboa.

Mais do que criar uma simbologia própria, ou abraçar parte da simbologia promovida no século XIX, durante os anos do Estado Novo, a Morte foi apagada - escondida.

Os mausoléus tornaram-se em blocos de pedra lisa, sem altos ou baixos relevos; tectos direitos, ausência de anjos e santos - à excepção de uma ou outra estátua de Maria, de uma ou outra cruz - e portas de metal compactas.
Desaparecem os pequenos vitrais coloridos, desaparecem os epitáfios e inscrições nas paredes dos sepulcros.

Ainda assim, aquilo que é realmente revelador é o espaço dedicado ao jovens soldados que morreram durante a Guerra do Ultramar, por terras de África.

Portugal ia, obviamente, ganhar a Guerra e manter as províncias ultramarinas para sempre: esse era o espírito da época e a mensagem repetida pela forças políticas e pela muito activa e eficaz máquina de propaganda salazarista.

O controlo da informação era uma ferramenta essencial e, com a ajuda da censura, os números revelados sobre as baixas nacionais no Ultramar ficavam aquém dos reais.
Para isso, ajudou não existir um cemitério específico para os combatentes portugueses: faltou-nos um Arlington, por exemplo. Não porque não o pudessem ter criado, mas tal espaço evidenciaria a quantidade de vidas que se estavam a perder; e, já se sabe, quando as baixas de Guerra são grandes é porque não se está a ganhar.
Mas Portugal ganhava. Orgulhosamente só. Ou assim nos diziam...

Para manter essa ideia era necessário mascarar a realidade dos números, sempre crescente, dos mortos em combate.



Para isso recorreram a três abordagens diferentes.

Parte dos mortos ficaram em África.
Exemplo disso é esta Reportagem Especial da SIC, onde um grupo de jornalistas se deslocou até Mueda, em Moçambique, e visitou um cemitério esquecido, onde estão enterrados combatentes da Guerra do Ultramar que nunca regressaram a Portugal.

Uma das formas que o Estado Novo encontrou para não efectuar a trasladação dos corpos foi através da cobrança do serviço: quem quisesse fazer regressar o corpo do filho, do marido, do irmão, do pai, tinha de pagar um valor elevado; caso contrário, o corpo seria enterrado em cemitérios em África.
Muitos ficaram por lá.

Outra forma utilizada para mascarar, reduzindo, o número de mortos era dispersá-los: considerando que os corpos eram trazidos pelos familiares, estes eram levado para os cemitérios civis das diversas localidades, espalhados por todo o país, enterrados nos jazigos ou campas de família não sendo, normalmente, identificados como vítimas da Guerra.
Eram apenas mais uns familiares falecidos.

A terceira opção era esconder os que não podiam ser enviados para as aldeias ou deixados em África.
Prova disso é a forma como foi escolhido e construído o talhão dos combatentes no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

O talhão seleccionado é um espaço estreito, bem mais baixo que restante cemitério e escondido por um muro alto, no topo do qual está edificado um conjunto coeso de mausoléus altos, que funcionam como uma parede, impedindo a visibilidade.
Existem apenas três espaços de acesso a este talhão e estão estrategicamente colocados de forma a não permitir que se perceba a quantidade de pedras tumulares.

Na zona do talhão em que este é mais estreito, as filas são de apenas duas campas e conforme o talhão se vai alargando passamos a três, quatro, cinco.

No livro de Moita Flores existem algumas imagens deste espaço, mas em 1993 a realidade retratada foi muito diferente da que presenciei: um ar de abandono e esquecimento marca todas as campas, onde a chuva e o vento apagaram os stencils que, pintados na pedra, serviam para identificar os mortos e que ainda estavam bem visíveis no início da década de noventa.

Desapareceram também as floreiras de mármore e as flores e tudo o que se vê é algum capim e as pedras escuras e despidas.

Ao contemplar este talhão percebe-se a capacidade de manipulação das políticas e propagandas do Estado Novo.

Quem diria, ao olhar para este espaço, que na Guerra do Ultramar morreram cerca de nove mil pessoas?



23.5.11

Cemitério de Mount Jerome - II

Apesar de já ter escrito no Mort Safe sobre o cemitério irlandês de Mount Jerome, em Dublin, não posso deixar de voltar a mencioná-lo, considerando que - finalmente - o visitei.


Foi uma visita curta, de apenas algumas horas, mas que me ficará na memória.
Sob um céu ameaçadoramente carregado de nuvens, a manhã foi salpicada por chuviscos que deixaram as pedras brilhantes e lavadas.

O espaço, apesar de visivelmente já não estar abandonado, continua com o glamour oferecido pela decandência de décadas de clima agreste e negligência.

Lápides em pedra escura e cruzes celtas cobrem o terreno, destacando o facto de que existe pouquíssima estatuária presente.
Também não se vêm tantos mausoléus como noutros cemitérios europeus, sendo que a maioria das câmaras de enterramento encontram-se no subsolo.

Algumas das peças mais marcantes e afamadas, como a estátua do cão - que dizem representar um cão real, que uivava enquanto o dono se afogava - são realmente imponentes.

Um dos pontos altos é o pequeno café, onde uma simpática senhora vende café, chá e scones caseiros, ainda mornos.
Essenciais ao visitante cansado e com frio.

Ainda tive a oportunidade de ouvir, ao longe, os lamentos de uma gaita de foles, que acompanhava uma procissão funerária, uma vez que este cemitério, apesar de antigo e quase lotado, ainda se encontra activo.

Repito os avisos que fui lendo em vários sites: cuidado ao andarem entre as campas e a lápides; o estado de deterioração do espaço é grande o que torna perigosas as distrações.

Resumindo: vale muito, muito a pena uma visita.


21.5.11

Igreja de St. Michan

Na cidade irlandesa de Dublin, na margem norte do Liffey fica a igreja de St. Michan, a mais antiga paróquia desse lado do rio, fundada no ano de 1095.

Tendo sido renovada diversas vezes ao longo dos séculos, as suas principais fases de recuperação datam de 1685 e 1825. E é essa data do século XVII que se considera como tendo sido a data de construção das agora tão famosas criptas de St. Michan.

Segundo a informação fornecida no local, existem cinco criptas sob a igreja, às quais é possível aceder por portas de metal, dispostas em volta da igreja.

As criptas foram construidas com blocos de calcário, criando o ambiente perfeito para a mumificação de cadáveres e a preservação dos seus caixões: temperatura constante e ausência de humidade.

Faz parte da visita guiada a descida a duas das cinco criptas existentes, mas é proibida a captação de imagens.
As criptas visitadas são compostas por um corredor central, alinhado com as escadas, ladeado por diversas câmaras particulares. Algumas destas câmaras não se encontram iluminadas por ainda estarem em uso, segundo nos informou o guia.

A cripta onde os corpos mumificados se encontram expostos é mais pequena, contendo apenas duas câmaras de cada lado. Aparentemente, as visitas a estes cadáveres fazem-se desde a época vitoriana, sendo que se julga que o próprio Bram Stoker (autor do romance Dracula, publicado em 1897) as visitou na companhia da sua família.

A pouca informação disponível, por essa altura, fez com que se criassem lendas e interpretações incorrectas sobre as quatro múmias em exposição. Uma delas, aquela que é normalmente acariciada pelos visitantes, é descrita como sendo um cruzado; mas data do século XVII (recorde-se que se considera que a Nona Cruzada -a última - teve lugar no século XIII).

Na segunda cripta, com um corredor central mais longo, contendo mais câmaras, podem ser vistos os caixões dos irmãos Sheare, heróis da luta pela independência da Irlanda, presos pelas tropas britânicas devido ao seu envolvimento na revolução de 1798, e que foram condenados à morte, tendo sido enforcados, esvicerados e esquartejados.

Pode ainda ser vista uma outra câmara que pertenceu a uma família nobre, os Earl's de Leitrim, cujos caixões são todos (quase) delicada e profusamente enfeitados. Podem ser observados através de um conjunto de buracos feitos numa pesada porta de madeira.

Abaixo pode ser visionado um vídeo contendo mais imagens e informação sobre as criptas e os seus mortos.



Nas traseiras da igreja, junto das portas de entrada das criptas, espraia-se um pequeno cemitério. Pedras tumulares antigas, detalhes perdidos pelo efeito da erosão, estendem-se por entre relva e delicados malmequeres.


Para quem estiver em Dublin, ou a planear uma viagem até lá, este é um local a não perder.

16.5.11

Chaloner's Corner

Uma das atracções turísticas mais conhecidas da cidade irlandesa de Dublin é o campus de Trinity College.
A diversidade arquitectónica dos seus magníficos edifícios marca a passagem dos anos e permite identificar as diferentes épocas de crescimento da universidade.

Para o visitante desprevenido será certamente uma surpresa encontrar um pequeno (muito pequeno) cemitério num dos cantos de um dos edifícios mais antigos.


Conhecida como Chaloner's Corner, esta pequena esquina é um condensado cemitério que dá abrigo a alguns notáveis académicos, especialmente o Dr. Luke Chaloner, que lhe deu o nome.

Chaloner foi o primeiro reitor da universidade de Trinity, tendo sido aí enterrado em 1613. Desde então, esta pequena esquina tem sido pontualmente utilizada para inumar posteriores reitores e alguns docentes.
Este cemitério está ainda em uso, sendo que a mais recente inumação teve lugar em 1994.

Pode ainda ser observada uma sombria escadaria que tem ligação directa às criptas por baixo da capela.

29.4.11

Recomendações Tafófilas para a Feira do Livro

Começou no dia 28 de Abril e irá estar aberta até 15 de Maio a 81ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII.
Este ano, as recomendações do Mort Safe são apenas três: um de ficção e dois livros de não ficção.

Ficção:

Uma Inquietante Simetria de Audrey Niffenegger pela Editorial Presença.

"Quando Elspeth Noblin morre de cancro deixa o seu apartamento em Londres às sobrinhas Julia e Valentina, que nunca chegou a conhecer. As jovens, gémeas idênticas e inseparáveis desde a nascença, decidem mudar-se para lá, na esperança de também conhecerem um pouco mais da história da sua família. Mas o que vão encontrar no prédio com vista para o famoso Highgate Cemetery é muito mais obscuro do que contavam enfrentar… Uma deliciosa história sobre o amor, a identidade, os laços que nos unem e a força da vida, que transcende todas as barreiras. "


Este livro já foi mencionado anteriormente no Mort Safe. Podem ser o comentário aqui.


Não Ficção:

História da Morte de Douglas J. Davies pela Teorema.

"A morte é um assunto de interesse permanente em todas as culturas do mundo. O próprio acto de morrer e os rituais que o rodeiam são extremamente variados e projectam uma luz fascinante sobre as culturas de que fazem parte. Douglas J. Davies, internacionalmente conhecido como um dos maiores especialistas neste campo da história, aborda alguns dos aspectos mais significativos da morte - o acto da própria morte em si, o luto, os funerais, as interpretações artísticas da morte, os memoriais, o medo da morte e os desastres/tragédias - e analisa-os numa abrangente história acerca das diferentes atitudes do homem perante a morte."

Sobre a História da Morte no Ocidente de Philippe Ariès pela Teorema.

"A seguir à história da família, Philippe Ariès consagrou as suas pesquisas à história das atitudes do homem ocidental perante a morte. O que este historiador nos apresente aqui constitui o essencial das suas descobertas: como se passou, lenta mas progressivamente, da morte familiar, «domesticada» (na Idade Média), para a morte repelida, maldita, «interdita» (hoje em dia). Fugir da morte é a tentação do Ocidente."

28.4.11

Simbologia: Profissões - Clero

Uma das vertentes de simbologia funerária mais comum nos nossos cemitérios está associada à simbologia profissional que, durante muito tempo, foi adoptada como indicador do ramo de negócio da família ou individuo a quem pertencia o jazigo.

Uma das áreas mais facilmente reconhecíveis nos nossos cemitérios é o clero.

Para além de existirem talhões privados para determinadas ordens, ou a utilização de simbologia especifica, como determinados tipos de cruzes ou outros elementos decorativos, é bastante comum a representação da Bíblia (utilizando para isso um livro, normalmente fechado) e da estola.

Em alguns casos, a Bíblia e a Estola aparecem acompanhadas pelo barrete clerical ou pelo gallero cardinalício.


19.4.11

Fernão Teles de Meneses Desemparedado

No rescaldo da visualização do documentário A Cidade dos Mortos, que nos apresenta a realidade de um milhão de habitantes do Cairo, que vive entre os mortos no maior cemitério da cidade, acabei por encontrar uma notícia curiosa: em Lisboa, em meados do século XX, um funcionário da Universidade de Lisboa partilhava o quarto com Fernão Teles de Meneses, ou, melhor, com o seu túmulo.

Fernão Teles de Meneses (Α:1530 - Ω:1605) foi o 28º Governador da Índia. Quando morreu, Maria de Noronha, sua esposa, mandou construir um magnifico túmulo, em mármore rosa e assente em majestosos elefantes indianos, esculpidos em mármore negro.
Seguindo as indicações deixadas em testamento, o túmulo de Teles de Meneses foi levado para a igreja do Noviciado da Cotovia, construído na antiga Quinta do Monte Olivete, por ele doada à Ordem dos Jesuítas, em 1598.

No século XVIII, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas e transformou o Noviciado da Cotovia no Colégio dos Nobres, mas o túmulo de Teles de Meneses foi deixado no seu lugar.

É apenas em meados do século XIX, quando o Colégio dos Nobres se transforma na Escola Politécnica, e as obras e objectos que se encontravam na igreja se dispersam, que o enorme e pesado túmulo de Teles de Meneses acaba por ser deixado num canto das cavalariças.

Mais tarde, as cavalariças foram adaptadas e transformadas em residências para os funcionários da Faculdade de Ciências, mas o túmulo continuou no mesmo local, passando a fazer parte de uma dessas residências: um dos novos moradores partilhou um quarto com os restos mortais de Teles de Meneses.

Esta era uma situação desagradável, que o funcionário reportou repetidas vezes por escrito à direcção da Faculdade, pedido que o túmulo fosse removido.
Aparentemente, a direcção nunca encetou nenhuma acção de despejo a Teles de Meneses e o funcionário remediou-se, construindo uma parede de tabique em frente ao túmulo, emparedando-o - ao melhor estilo de uma história de Edgar Allan Poe.
Isto aconteceu em 1954.

No passado dia 9 de Abril, no âmbito da celebração do centenário da Universidade de Lisboa, e considerando que a residência se encontra já desabitada, foi levado a cabo o desemparedamento do túmulo; do qual existia apenas um desenho e que ninguém via há mais de 50 anos.

O túmulo encontra-se em excelente estado de conservação e irá ser limpo e recuperado, de modo a vir a ocupar um local de destaque, à entrada do Museu Nacional de História Natural.

O túmulo tem uma forma piramidal que invoca as formas dos túmulos Egípcios ou Hindus - o que não surpreende, considerando a biografia de Teles de Meneses.
Os elefantes têm diferentes significados, mas num contexto funerário considera-se que representam longevidade, prosperidade, eternidade e felicidade.
Actualmente, são muitas vezes utilizados para marcar os túmulos de exploradores e aventureiros; um significado que poderá ter origem em túmulos como este, de homens que, com efeito, viajaram para locais longínquos e exóticos, e que, ao regressarem, trouxeram consigo este tipo de simbologia.

No extenso e bem conservado epitáfio do túmulo pode ler-se:
Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII.
É uma excelente iniciativa, a do desemparedamento, recuperação e exposição desta peça de arte funerária portuguesa, que, sem dúvida, vai enriquecer o acervo do museu.

Podem ler artigos sobre o desemparedamento no blog Smobile (escrito por uma das pessoas que esteve presente na cerimónia, no dia 9 de Abril) e no blog SOS Lisboa.



18.4.11

A Cidade dos Mortos - Comentário

Já tive oportunidade de assistir ao documentário A Cidade dos Mortos e à curta-metragem Waiting For Paradise do realizador Sérgio Tréfaut.

A sessão a que assisti foi especial, uma vez que no final da projecção o realizador - presente na sessão - disponibilizou-se para responder a questões apresentadas pela audiência, fazendo ainda uma interessante introdução em que apresentou alguns pontos que não são focados no documentário.

A minha primeira nota vai para a questão fundamental do filme: o cenário é um cemitério, mas é difícil para nós, ocidentais, perceber isso. A simbologia funerária a que estamos habituados tem uma raiz claramente cristã, onde existem anjos, cruzes e uma arquitectura bastante homogénea, apesar da sua diversidade.
Quando olhamos para uma imagem que representa um cemitério de raiz cristã conseguimos rapidamente identificá-lo enquanto tal.
Isto não se passa com el arafa*, uma vez que este é um cemitério de raiz islâmica e a simbologia é diferente.
Em tons maioritariamente ocres, vemos ruas e casas e pessoas.
A única peça que conseguimos identificar como sendo funerária, pelo nosso padrão ocidental, são algumas campas isoladas, pintadas em matizes azuis, verdes, amarelos ou brancos; tons pastel que pouco se destacam no mar de pó.

Devido às necessidades religiosas, os mausoléus são construidos com câmaras onde as pessoas podem pernoitar e são essas câmaras que os donos alugam ou cedem gratuitamente a desalojados, que acabam por habitá-las de forma permanente.

Em algumas das casas vemos sofás, armários, televisões, cozinhas quase completas... É difícil distinguirmos entre estas residências e as que encontramos em bairros pobres. As "comodidades" que vemos são até muitas. Confesso que esperava uma pobreza bem mais acentuada.
A meio do documentário vemos um vendedor ambulante, com o seu carro, passear pelas ruas, anunciando "leite, natas, bolos e arroz doce".
E os miúdos aparecem e pedem bolos às mães, que os compram e aproveitam para dizer mal das vizinhas e criticar as praticas alheias.

Talvez por não nos ser possível identificar a simbologia ou perceber as mensagens escritas nas paredes, o facto do espaço ser um cemitério tem pouca importância.

Há alguns anos, vi um documentário sobre a mesma temática: pessoas que habitam em cemitérios. Nesse caso, num cemitério Filipino; provavelmente, em Manila. As pessoas que moravam no cemitério eram, com efeito, os mais pobres dos pobres.
Não tinham mobiliário ou qualquer tipo de conforto e dormiam dentro dos mausoléus, sobre as campas, cobertos por panos. Num dos casos, a única coisa que tinham para cobrir-se era uma faixa publicitária de um partido político (ou de uma marca publicitária, nem sei).
Ninguém se sentava à mesa para comer, porque não havia mesa: comiam em pratos lascados, pousados sobre as campas.
Eram todos magros e tristes.
As crianças brincavam entre o pó, fazendo rolar crânios desenterrados, e o narrador explicava que o cheiro a cadáveres em decomposição era nauseante.
Claro que a simbologia funerária era cristã e, por isso, mais interpretável aos nossos olhos, mas não foi esse o factor que mais me impressionou.

Esta não é a realidade do Cairo.

O documentário A Cidade dos Mortos é muito interessante e permite-nos ver um pouco do dia-a-dia das famílias que habitam aquele espaço mas, apesar de tudo, é simples esquecermos que se trata de um cemitério.
Seria importante, ainda assim, explicar as diferenças entre os habitantes desse espaço e os outros bairros pobres do Cairo, perceber como é que alguns deles têm luz e água, ou qual é o nível de (in)dependência de quem vive ali, relativamente ao exterior.

No final, ficamos com a sensação que muito ficou por dizer.
Gostaria ainda de ter visto o impacto da chegada de um funeral; não a própria celebração fúnebre - algo que, em si, não se relaciona com a abordagem deste filme -, mas as alterações à rotina que isso provoca: gente a esvaziar e a limpar os mausoléus, antes das chegadas das famílias, por exemplo.

É clara a importância do casamento para aquelas famílias, mas julgo que esse é um factor comum a todos os habitantes do Cairo, do Egipto, de outros locais com culturas semelhantes. No final, a curta-metragem permite-nos assistir ao desenrolar de um casamento no espaço do cemitério: desde a preparação até ao final da boda.

De qualquer das formas, este é um trabalho muito interessante que está a passar nas nossas salas de cinema e que não devem deixar de ver.


Imagens 1 e 2 - Cairo, Egipto.
Imagens 3 e 4 - Manila, Filipinas


* el arafa significa literalmente o cemitério.

15.4.11

Museu Nacional de História Funerária

Uma coisa que não falta nos Estados Unidos da América são museus. Eles têm museus de quase tudo e, no estado do Texas, têm um museu que é uma das atracções obrigatórias para os tafófilos de visita: o National Museum of Funeral History.

Com a apelativa divisa Any Day Above Ground Is A Good One o museu foi criado no inicio dos anos '90 com o objectivo de preservar a história da industria funerária.

O museu tem um conjunto diversificado de artefactos que compõem a sua colecção permanente e apresenta ainda um conjunto de exposições interessantes, das quais se destaca uma Fábrica de Caixões de 1900 (com uma pequena apresentação online), as celebrações do Dia dos Mortos, explicando quais os objectos que lhe estão associados e a sua motivação/simbologia, as origens do hábito americano de embalsamar cadáveres, uma colecção de caixões de fantasia (entre o kitsch e o estranho) onde os esquifes estão esculpidos em forma de galinha, carro, peixe, caranguejo, etc.

Para além de tudo isto, é ainda possível comprar canecas e t-shirts, replicas em miniatura das carretas funerárias em exposição, livros temáticos, etc., na loja do museu (e na loja online).

Quem estiver a pensar visitar o Texas, pode incluir este museu na sua lista de locais a visitar.