10.3.13

Cemitério Judaico de Wrocław

Na cidade polaca de Wrocław, afastado do centro histórico, fica um extraordinário cemitério do século XIX, conhecido como Cemitério Judaico Velho
Criado em 1856 na sequência do fecho do anterior cemitério judaico e descontinuado por volta de 1943, depois de dois anos praticamente sem inumações, este pequeno espaço situado na rua Ślężna atrai visitantes e estudiosos, com as suas construções antigas, marcadas pela passagem do tempo e das adversidades das guerras. 
Expandido diversas vezes - ainda no século XIX e depois no XX - coberto por trepadeiras e fetos, escondido sob frondosos castanheiros, visitá-lo em pelo Outono é uma experiência mágica irrepetível.
Apesar de, à semelhança da maioria dos cemitérios judaicos do leste da Europa, encontrarmos talhões densamente cobertos por masebhas (lápides) contendo textos em hebraico, compará-lo com outros bem conhecidos - como o cemitério judaico de Praga, por exemplo - é uma tarefa difícil.
Na realidade, o cemitério judaico velho de Wrocław é um espelho do movimento Haskalah, um movimento dos séculos XIX e XX que promove o iluminismo dos valores judaicos, de forma a alcançar uma mais fácil integração numa Europa cada vez mais secular. Nesse sentido, para além das lápides tradicionais, é possível encontrar diversas construções com linhas de criação mais seculares e simbologia variada. Esta abertura ao mundo não judaico começa por coincidir com a época romântica e o romantismo, com o seu revivalismo grego, romano, egípcio, marca também as construções cemiteriais. As colunas e vasos funerários que enchem os cemitério seculares passam a fazer parte das construções fúnebres deste cemitério judaico.
Para além do impacto na arquitectura e simbologia dos monumentos fúnebres, também os textos passam a conter palavras em latim e alemão.
Mas a diversidade não termina aqui: num dos recantos junto do muro encontra-se uma edificação com marca claramente mourisca, noutro local talhado em mármore negro, podemos encontrar um tabuleiro de xadrez encimando por uma das peças desse jogo, um cavalo. Numa outra zona, ainda são visíveis marcas de balas. 

Como não podia deixar de ser, sobre inúmeros monumentos, empilham-se pedrinhas e castanhas, deixadas reverentemente pelos visitantes.


PS: não posso deixar de agradecer à Weronika Murek, que me acompanhou na visita e me explicou várias tradições judaícas que eu desconhecia.

16.11.12

Mais do que palavras...



«Aos que na longa noite do fascismo foram portadores da chama da liberdade 
e pela liberdade morreram no campo de concentração do Tarrafal.»

10.11.12

Simbologia: Perpétua Saudade

Uma das componentes que me parece mais interessante de interpretar na simbologia cemiterial é a da flora.
Em primeiro lugar, esclareça-se que nem sempre é fácil distinguir ou identificar a flor que está talhada na pedra, depois de muitos anos exposta aos rigores invernais e aos impiedosos raios do Sol no Verão, mas depois dela ser claramente identificada, existem inúmeros "dicionários de plantas" que ajudam a perceber qual o provável significado que presidiu à escolha de um ramo de margaridas ou de umas hortenses, em vez de rosas e amores-perfeitos.
Em todos os casos com que me deparei durante muito tempo, a simbologia da planta obrigou sempre à sua interpretação, nunca tendo um significado literal.
Por exemplo: o trevo comum - de três folhas - é normalmente usado para representar a Santíssima Trindade, mas acabou também por representar a Irlanda, uma vez que, segundo a lenda, São Patrício - para além de ter expulsado as serpentes - levou consigo o trevo e espalhou-o pela ilha, em representação, precisamente, da Santíssima Trindade. Assim, quando encontramos um trevo numa campa, é muito possível que estejamos na presença da campa de um irlandês ou de um católico devoto.
 Também é preciso considerar as modas e escolhas estéticas. Não é incomum encontrarmos várias campas seguidas com simbologia ou monumentos semelhantes: uma vezes, porque é uma só família (e foi essa a forma encontrada para a representar); outras, porque a escolha foi puramente estética - muitas vezes feita por catálogo, de acordo com as amostras que o artesão tinha na oficina ou com base naquilo que se viu no cemitério numa visita anterior.
 No entanto, no caso de Portugal - até agora ainda não me cruzei com este fenómeno em outros países - existe, pelo menos, um caso de literalidade. 
Nos cemitérios de Lisboa (Prazeres e Alto de São João) é difícil passar mais do que uma dezena de jazigos sem nos cruzarmos com duas plantas que normalmente aparecem juntas, por vezes na companhia de mais alguns símbolos, e cujo significado é simplesmente "Perpétua Saudade".
As Perpétuas são plantas conhecidas por florirem em canudinhos ou bolinhas - conhecidas também pelo chá que se faz com elas: em especial, o de perpétuas roxas; favorito da fadista Amália - e a Saudade tem uma representação parecida com a do cardo, podendo até ser confundida com este.
Juntas, não carecem de mais interpretação: significam "Perpétua Saudade" ou "Saudade Perpétua".

Resta realçar que, no nosso país, estas duas flores foram utilizadas frescas para enfeitar as campas. Em 1872, Ramalho Ortigão descrevia os cemitérios lisboetas da seguinte forma:
«Chegámos ao cemitério. Das grades que circulam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes e simbólicas em vasos de porcelana; e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério.»

2.11.12

Suspensão do Feriado do Dia de Todos os Santos

Com a suspensão, pelos os próximos cinco anos, do feriado do Dia de Todos os Santos em Portugal, a SIC Notícias preparou duas interessantes peças.

A primeira sobre os efeitos práticos da suspensão deste feriado nas celebrações do Dia de Fiéis Defuntos que se vão mantendo no nosso país.



A segunda sobre os motivos, para lá dos económicos, que levaram a que o 1 de Novembro fosse um dos três feriados religiosos a ser seleccionado para suspensão.


1.11.12

Pan de Muerto


No dia 2 de Novembro, o México reúne-se para celebrar a versão mexicana do nosso Dia dos Fiéis Defuntos, o Día de los Muertos enchendo os cemitérios com família, flores, comida e bebida.

As celebrações começam normalmente na véspera, ainda durante o Dia de Todos os Santos, arrastando-se pela madrugada. As campas são limpas, enfeitadas e, por vezes, é construido um altar com oferendas em honra dos familiares e amigos já falecidos.

Os bolos e pães que são cozinhados nesta altura incluem as famosas caveiras de açúcar colorido, alguns com o nome dos falecidos escrito na cobertura, e o pan de muerto, um pão adocicado e aromatizado com ervas.


Receita de Pan de Muerto

Ingredientes:
  • 1/2 caneca de manteiga sem sal;
  • 1/2 caneca de leite;
  • 1/2 caneca de água;
  • 5 canecas de farinha;
  • 2 pacotes de fermento em pó;
  • 1 colher de chá de sal;
  • 1 colher de sopa de sementes de anis;
  • 1 caneca de açúcar;
  • 4 ovos;
  • 1/3 caneca de sumo de laranja;
  • 2 colheres de sopa de raspa de laranja;

Modo de Fazer:
  1. Ao lume, aquecer a manteiga, com o leite e a água, até esta derreter.
  2. Numa tigela, colocar 1 e 1/2 canecas de farinha, o fermento, o sal, as sementes de anis e 1/2 caneca de açúcar. Misturar tudo a adicionar a mistura do leite com a manteiga. Mexer até ficar homogéneo e, em seguida, adicionar os ovos e mais 1 caneca de farinha, voltando a mexer bem. Pouco a pouco, adicionar o resto da farinha, até a massa se descolar das paredes da tigela.
  3. Bater a passar por 10 minutos numa tábua enfarinhada. Untar levemente uma taça grande, colocando a massa no fundo, fechar a taça com película aderente e deixar repousar por cerca de 1 hora e meia num local quente, para a massa crescer. Bater um pouco a massa, para depois a moldar em forma de osso ou caveiras. Deixar repousar mais uma hora num local quente para a massa crescer.
  4. Aquecer o forno a 175º. Colocar os pães no forno durante 40 minutos ou até que estes fiquem dourados.
  5. Enquanto o pão coze, misturar ao lume, o sumo e a raspa de laranja com o açúcar. Deixar ferver e manter ao lume por 2 minutos. Retirar do lume.
  6. Quando os pães estiverem cozidos pincelá-los ainda quentes com este preparado.

Enjoy!


Um agradecimento especial a Charles Sangnoir, que cozinhou e nos deliciou com o fantástico Pan de Muerto que podem ver na fotografia.

23.10.12

Igreja de Santa Elżbiety

Todos os guias de viagem que descrevem as atracções turísticas da cidade polaca de Wrocław falam de dois pitorescos edifícios antigos, unidos por um arco barroco, datado de 1728, a que chamam carinhosamente de "Hansel e Gretel", inspirados pelo célebre conto dos Irmãos Grimm. 
Na realidade, apesar de ter ganho a alcunha por considerarem que esse arco recorda um casal de mãos dadas, ele tem muito pouco de romântico. 
Ao lado dos prédios - agora isolados - continuava o casario ou talvez um muro, cercando e fechando o acesso ao átrio da igreja de Santa Elżbiety que, como em todas as igrejas medievais, servia de cemitério.
No topo do arco, num pequeno medalhão erguido por dois anjinhos pode ler-se:

 «Mors Ianua Vitae»
 
"A Morte é a Porta da Vida", num mórbido convite a deixar o buliço da vida da praça principal, do mercado e, passando o arco, entrar no território da Morte.
Das valas comuns medievais, que certamente encheram o átrio, aparentemente nada resta, mas as paredes exteriores da igreja, estão ainda decoradas com placas funerárias e inscrições, mandadas colocar pelos cidadãos mais ricos que, mesmo depois de mortos, queriam ser recordados.
Maioritariamente as placas apresentam apenas epitáfios ornamentados, mas existem placas onde se podem encontrar também brasões ou escudos de armas. 
Existem ainda representações de cenas sagradas, retiradas da Bíblia ou de vidas de santos.
Numa das placas, o campanário partido da torre cai em direcção à terra, transportado por anjos, o que poderá indiciar que a torre terá ruído, mas que milagrosamente não terão existido vítimas. A ser verdade este será um painel que celebra esse milagre e a imagem é a garantia que seria entendido por todos, sem dificuldades e sem a obrigação de fazer a leitura do texto.
 
Quase todas as placas estão protegidas por um pequeno telheiro.
Estes telheiros eram muito comuns e serviam essencialmente para que os restos mortais do falecido estivessem "sob telha", ou seja, anulava o facto de estarem do lado exterior da igreja, pois simulavam o interior. Mesmo quando no século XV começou a ser mais usual colocar cruzes entre as campas dos átrios das igrejas, estas tinham pequenos telhados assentes nas pontas, com este mesmo objectivo. 
Este tipo de cruzes é ainda muito comum nos cemitérios da Europa de Leste.

A estrutura gótica da igreja de Santa Elżbiety data originalmente do século XIV, mas já existia uma igreja no mesmo sítio desde o século XII.
O belíssimo edifício é um dos mais altos da cidade, com a sua torre de noventa metros (anteriormente, cento e vinte e oito), que oferece uma magnifica vista sobre a Cidade Velha de Wrocław, especialmente a praça principal - Rynek -, onde durante séculos funcionou o mercado.
 A igreja de tijolo vermelho, com o seu telhado malhado em vermelho e verde, teve vários acidentes ao longo dos anos.
Exemplo disso são a intensa tempestade de granizo do século XVI que conseguiu destruir parte da igreja, incluindo os gigantescos vitrais do lado norte, os danos causados pela Segunda Guerra Mundial ou o misterioso incêndio em 1976 que fez inúmeros estragos no interior e que, inclusivamente, destruiu o órgão da igreja, que era um dos seus ex-libris.
Para além das placas funerárias no exterior do edifício, é ainda possível ver várias placas no interior e as capelas funerárias laterais, reservadas para a inumação dos elementos da família que as financiavam e mantinham. Ainda guardam todo o esplendor; algumas sendo mesmo espaços gradeados e inacessíveis ao público que visita a igreja.
É fantástico como, apesar de todos os acidentes que a destruíram parcialmente, a igreja conseguiu trazer até nós estes elementos medievais que permitem perceber como eram os hábitos funerários de tantos séculos atrás.



2.10.12

Crematório do Alto de São João

O nosso primeiro - e durante muitos anos único - crematório é o forno crematório do cemitério do Alto de São João.
Ainda em utilização, a história deste crematório mistura-se com a história do nosso país e é, mais uma vez, um excelente exemplo de como as práticas funerárias de uma sociedade conseguem ser uma fotografia quase perfeita desta e das crenças e limitações de quem nela vive.

A partir dos anos 70 do século XIX várias vozes se levantaram em defensa da criação de um forno crematório em território nacional.
Os argumentos usados no início do século para fundamentar a criação de cemitérios e descontinuar os enterramentos no interior das igrejas foram então reaproveitados para defender a cremação em detrimento da inumação.

Não deixa de ser curioso que apenas em 1912 é que, finalmente, foi aprovada a construção do crematório no cemitério do Alto de São João.
Considerando que a Igreja Católica é contra a cremação, naturalmente apenas depois da implantação da República, com os ventos ateístas trazidos pelas mãos de Afonso Costa, foi possível ter um crematório em Portugal.

Apesar disso, somente em 1925 o crematório entrou em funcionamento, depois de um vereador adepto da cremação ter procedido à aquisição do forno na Alemanha; apesar disso, segundo as estatísticas, os números de utilização foram muito reduzidos. Entre 25 e 36 foram apenas cremados 22 corpos e em 1936 o crematório deixou de funcionar.
No livro Cemitérios, Jazigos e Sepulturas de Vítor Manuel Lopes Dias é referido apenas que o crematório «não está presentemente [1963] em condições de funcionar.» sem mais explicações.
É de destacar que este trabalho foi publicado quando o Estado Novo ainda fazia censura de livros e textos, pelo que é preciso ter isso em conta quando se considera a falta de informação neste ponto.

É preciso recordar que a Igreja Católica era militantemente contra a cremação e o Estado Novo, nascido em 1933 com a instauração da Constituição de 32, estava completamente alinhado com a Igreja Católica e, por isso, não é de estranhar que o crematório do Alto de São João tenha sido desactivado, até ser recuperado em 1985, em parte por pressão da crescente comunidade Hindu.

 Actualmente, em Lisboa, existem três fornos crematórios, uma vez que ao do Alto de São João se juntaram mais dois no cemitério dos Olivais; para além destes, também existe um no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, e outro em Ferreira do Alentejo, de construção particular (ainda que gerido pela câmara municipal).

Em breve uma pequena adenda com informação estatística sobre o fenómeno da cremação.


5.9.12

Simbologia: Alfa e Ómega

Encontrar letras soltas e acrónimos nos cemitérios é bastante comum. 
Desde o tradicional PNAV - que significa "Padre Nosso Ave Maria" e que pretende ser um pedido, a quem passa pela lápide, para rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria pela alma do defunto - até ao INRI - do latim Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum ou seja "Jesus de Nazaré Rei dos Judeus" - e passando claro, pelas letras gregas Α (alfa) e Ω (ómega).

O mais óbvio, válido para qualquer contexto, é o facto destes símbolos representarem a primeira e última letras do alfabeto grego e por isso serem continuamente associadas ao princípio (alfa) e ao fim (ómega). Qual o princípio e qual o fim já depende, efectivamente, do contexto em que eles são usados.

Uma das mais famosas utilizações é, sem dúvida no Apocalipse, ou Livro das Revelações (21:6), quando Jesus se senta no trono e exclama:
«Está feito! Eu sou o Alfa e o Ómega, o principio e o fim.»
Há também uma associação comum do Alfa à Luz e do Ómega às Trevas, mas num contexto cemiterial, as letras gregas são usadas muitas vezes junto das datas de nascimento e morte: Α (alfa) para o início da vida, o nascimento e Ω (ómega) para a morte, representando o fim da vida.

É ainda, relativamente, comum ver as duas letras sobrepostas ou entrelaçadas e em alguns casos é ainda acrescentada a letra Μ (mu), a décima segunda letra do alfabeto grego que, estando a meio deste, é por vezes usada para para representar continuidade: aquilo que está entre o Α (alfa) e Ω (ómega) ou seja, neste nosso contexto, a vida.

2.9.12

Convento de Santa Clara-a-Velha

Em Coimbra, nas margens do Mondego, fica o mosteiro de Santa Clara-a-Velha, fundado no século XIII e abandonado no século XVII, depois de anos de inundações. As águas desse rio invadiram definitivamente o espaço e, durante séculos, submergiram parcialmente o mosteiro até à sua recuperação no final do século XX.
As águas, lamas e lodos que tomaram conta do mosteiro serviram também de um estranho conservante.
Uma visita ao complexo, completamente recuperado e que integra um interessante museu, com objectos encontrados nas escavações e a contextualização desses objectos no dia-a-dia do mosteiro, mostra-nos o uso de coloridos azulejos, o recorte delicado de colunas e, especialmente, pedras decoradas que cobrem os locais de inumação das freiras que o habitavam. 
Mostra-nos ainda alguns dos costumes associados às inumações na idade média.

Sendo religiosas, as mulheres eram enterradas no interior do mosteiro ou em redor do claustro. 
Nas pedras tumulares, não tendo sido pisadas durante trezentos anos, as marcas são ainda visíveis e muito interessantes: cruzes, cordas com nós (imitando as que as freiras usavam à cintura), desenhos geométricos, nomes e datas, etc.
No exterior, no pequeno corredor entre o edifício principal e o claustro estão várias dessas pedras tumulares, muito bem preservadas.
Os locais de inumação variavam conforme a importância do morto, especialmente neste contexto de enterramentos apud ecclesiam.
Quanto mais próximo do altar, mais importante era considerada a pessoa. Por isso é que no interior do edifício principal, junto da porta que dá acesso ao claustro, é que está enterrada uma das mais importantes abadessas do mosteiro.
No decorrer dos trabalhos arqueológicos, foram encontradas cerca de 70 religiosas enterradas na zona do cadeiral e nas naves laterais; estes enterramentos terão ocorrido depois das primeiras cheias, quando o coro passou para a parte superior do edifício.
 Para além destes casos pode ainda encontrar-se um interessante sepulcro num nicho, deixado no piso inferior, que terá estado submerso durante todos estes séculos.

No entanto, as mais ilustres ossadas a repousar no convento de Santa Clara-a-Velha são, sem dúvida, as da Rainha Santa Isabel, esposa do rei D. Dinis, apesar de terem sido levadas para o convento de Santa Clara-a-Nova quando as clarissas abandonaram o local. É ainda possível ver o arco triunfal, em pedra de Ançã ricamente decorada, onde estaria o sepulcro da rainha.
Tendo morrido em Estremoz e sendo seu desejo ser sepultada no mosteiro, em Coimbra, antevia-se o pior durante a demorada viagem naquele Verão especialmente quente.
Quando o ataúde onde viajavam os restos mortais da rainha começou a apresentar rachas e fendas, das quais se vertia um liquido pastoso, foi com surpresa que, ao invés de sentirem o cheiro putrefacto da decomposição de um cadáver, os súbditos que acompanhavam a procissão fúnebre relataram sentir um suave cheiro a flores e plantas.
Durante anos, o sepulcro da rainha ficou no interior da igreja, mas, com as cheias que já referimos, ele também foi transportado para o andar superior. 
Acorriam multidões ao mosteiro para rezar à rainha, que, ainda em vida, foi considerada santa pelo povo. Apesar de ter morrido em 1336, a beatificação e canonização ocorreram em 1515 e 1625, respectivamente.

Com o abandono do mosteiro, as águas do Mondego invadiram o local, que esteve esquecido e semi-submerso até 1995, ano em que começaram os trabalhos de recuperação.

Como nota final, gostaria de deixar uma palavra para todos aqueles que trabalham ou trabalharam neste projecto para resgatar o convento de Santa Clara-a-Velha das águas do Mondego. 
É uma obra fantástica, tendo resultado num complexo muito rico e interessante, cheio de informação. Todos eles estão de parabéns.

12.8.12

Altar das Caveirinhas

Em território nacional existem várias capelas dos ossos, concentradas no Alentejo e no Algarve. 
Já aqui mencionámos algumas, como a Capela dos Ossos de Évora - a mais famosa capela dos ossos nacional, sendo ainda a de maiores dimensões - ou a capelinha de Alcantarilha.
Caveira manchada de fumo de vela    
 Capela de Alcantarilha





Para além das existentes abaixo do Tejo, há ainda registos que referem a existência de uma capela dos ossos a norte desse rio, na cidade de Coimbra, referenciada como sendo a mais antiga do nosso país, destruída no século XIX para dar lugar a uma nova estrada. 
Talvez não tivesse sido esse o único motivo que levou à destruição dessa capela, uma vez que estes locais repletos de ossadas, tão em voga nos séculos anteriores, foram sendo o palco principal de cultos das alminhas, em parceria com os painéis de azulejos ilustrados com anjos ou imagens de Morte ou da Ascensão aos Céus. 
Velas eram deixadas junto dos restos mortais dos antepassados, num misto entre a promessa, a prece e o pedido. Rezando para que os familiares e amigos conseguissem encontrar a paz ou, caso já o tivessem feito, intercedessem pelos vivos junto de entidades superiores para a concessão de favores e auxílio. 
O Culto das Alminhas do Purgatório teve uma expressão muito grande em Portugal, bastante superior a outros países católicos com comportamentos e culturas semelhantes à nossa.

Até há pouco tempo, esta era a única capela dos ossos a norte do Tejo de que tinha conhecimento. 
As principais fontes sobre esta temática apenas mencionavam a capela de Coimbra, no entanto, ainda que não fosse uma capela, existiu mais um destes Memento Mori a norte do Tejo; mais que isso, a norte do Douro.
Altar das Caveirinhas, circa 1909
Na antiga Igreja da Misericórdia da Póvoa do Varzim existiu um altar constituído por dezenas de pequenas caixas de madeira, empilhadas, contendo caveiras.

As caixas de madeira tinham molduras na frente, com desenhos simples e a identificação e datação dos restos mortais.
Em 1909 - um ano depois do regicídio e um ano antes da implantação da República - o altar, conhecido como Altar das Caveirinhas, foi desmantelado. Esse desmantelamento ocorreu num contexto de construção de uma nova igreja, em substituição da antiga.
Na realidade, devemos ter ainda em atenção outros factores, como a pressão exercida pela classe intelectual, sob a qual a necessidade de ruptura com os antigos costumes e crenças, associada à secularização da sociedade que seria advogada e seguida durante a Primeira República, teve muito peso na decisão; assim como a pressão dos elementos do clero, incomodados desde há anos pela conotação pagã associada ao culto das alminhas.
Talvez estes factores tenham também tido influência na destruição da capela de Coimbra, ainda que a justificação oficial seja a construção de uma nova estrada.
Historiadores e etnólogos - que, naturalmente, se opunham ao desmantelamento do altar - conseguiram realizar algumas fotografias e registos, antes da maioria dos restos mortais serem levados para o cemitério de Póvoa do Varzim.
Conseguiu-se ainda preservar algumas das caveiras - poucas - numa versão muito mais modesta deste altar, na chamada Casa das Caveirinhas, uma pequena e discreta capelinha junto da nova igreja. 
Também esta acabou por ser fechada nos anos 90 do século XX, acabado assim com os últimos vestígios do altar.
Um dos aspectos mais interessantes desta peça é a sua originalidade, não existindo - até ver - nada semelhante no nosso país.
Imagem do ossário de St. Hilaire, Marville, França
No entanto, como pode ser observado pela imagem, existe uma semelhança bastante grande entre as caixas do Altar das Caveirinhas de Póvoa do Varzim e as do ossário de St. Hilaire de Marville, em França. 
Em ambos os locais, a moldura frontal das caixas é ornamentada e contém texto que serve para identificar e datar os restos mortais nelas preservados.
Desconheço se teria existido algum contacto entre os residentes destes dois locais que possa ter servido de influência ou se estas caixinhas seriam comummente utilizadas para esta finalidade, apesar de tão poucas terem chegado até nós. Ainda assim, é de notar que existiu um surto de emigração das gentes da Póvoa do Varzim durante o século XIX, sendo que o dinheiro enviado por esses emigrantes permitiu a renovação de igrejas e retábulos durante a segunda metade do século XIX.
As caixinhas de caixinhas de St. Hilaire contêm caveiras de cidadãos que morreram entre 1780 e 1860. Algumas das datas que consegui perceber através de fotografias do Altar das Caveirinhas colocam as caveiras de Póvoa do Varzim como pertencentes a cidadãos que morreram nas décadas de 40 e 50 do século XIX.
Teriam alguns desses emigrantes partido para perto de Marville e pedido a construção deste altar, de acordo com o que vira por terras de França?

É ainda de realçar que, quer na Póvoa do Varzim, quer em St. Hilaire, as caveiras estão claramente identificadas.
Altar na Casa das Caveirinhas, circa 1996
E é esta uma das grande diferenças entre estas caixinhas de caveiras e os ossários e capelas dos ossos: a identificação versus o anonimato.
As capelas de ossos e ossários são constituídos por ossadas anónimas, que permitem - ainda hoje - que os vivos que as visitavam se sintam identificados com os restos mortais espalhados pelas paredes. 
Estas caveiras em caixinhas estão individualizadas, nomeadas, representam pessoas concretas, sendo que assim são sempre vistas como "outros" pelos visitantes: «esta era... esta foi...»
Será assim correcto ver nestes altares os mesmos objectivos da construções anónimas, que os precederam? 
Capela dos Ossos, Évora (detalhe)
Se considerarmos as datas de construção, podemos pensar nestas ossadas não anónimas como a evolução natural das capelas de ossadas anónimas, assim como estas são uma evolução dos carneiros e ossários primitivos?
Se pensarmos no contexto histórico, o cemitério velho da Póvoa do Varzim data de 1866, ou seja, é posterior à datação de morte das caveiras.
Seria interessante perceber a amplitude do intervalo de tempo de recolha das caveiras da Póvoa e compará-lo com o intervalo de St. Hilaire.
Serão estas caixinhas uma versão mais modesta das caixas de reliquias de santos, numa versão para o homem comum? A verdade é que, à semelhança do que era feito durante a Idade Média com as relíquias de santos, as caveiras destas gentes da Póvoa foram identificadas, guardadas em caixas quais relicários, colocadas num altar dentro da igreja e veneradas com velas e orações.

Sem dúvida que, caso tivesse sido preservado à semelhança das restantes Capelas dos Ossos nacionais, este Altar das Caveirinhas faria as delícias de historiadores, etnólogos e tafófilos, nacionais e estrangeiros.


Nota Final: Os meus agradecimentos à Dr.ª Deolinda Carneiro, Directora do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, pela cedência das imagens do Altar e da Casa das Caveirinhas.

28.7.12

D. Inês de Castro por Byatt


"...Pedro of Portugal's rapt and bizarre declaration of love, in 1356, for the embalmed corpse of his murdered wife, Inez de Castro, who swayed beside him on his travels, leather-brown and skeletal, crowned with lace and gold circlet, hung about with chains of diamonds and pearls, her bone-fingers fantastically ringed." 

do romance Possession de A. S. Byatt.

23.7.12

Famadihana - A Dança dos Mortos

A tribo malagaxe Merina, que ocupa a zona central da ilha de Madagáscar, habita em simples cabanas de palha e folhas de palmeira, mas os seus mortos são depositados em elaboradas tumbas de pedra, normalmente escavadas nas faces das montanhas.

Os cadáveres são conservados em nichos, envoltos em mortalhas brancas; por vezes, ao lado dos corpos amortalhados, os familiares deixam pequenos rádios de pilhas, que ligam antes de selar os túmulos.

Alguns anos depois (entre sete a dez), celebra-se a Famadihana: celebração colectiva em que os descendentes dos falecidos reabrem as criptas e remortalham os restos mortais dos antepassados, muitas vezes combinando mais do que um conjunto de ossadas numa só mortalha.

Algumas fontes apontam a origem deste costume do "virar dos ossos", no século XVII, com raiz nos duplos enterramentos do sudeste asiático.

É feita uma enorme festa, celebrando o morto, procurando garantir assim a sua bênção para os anos vindouros. Durante a festa é bebida toaka gasy, uma bebida alcoólica feita em casa.
Por vezes as ossadas são levadas até às cabanas que habitaram em vida, antes de voltarem a ser depositados dentro dos túmulos, onde ficam durante mais alguns anos, até voltarem a ser retirados para serem remortalhados e misturados com ossadas de outros familiares.


13.6.12