16.11.14

Inauguração de "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular"

No passado dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery do Centro Comercial Imaviz Underground, decorreu a inauguração da exposição fotográfica Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular.
Contou com a participação musical de Charles Sangnoir de La Chanson Noire.
Apresentei as vinte e duas fotografias que compõem a série, contextualizando a imagem, a escolha e o local onde a fotografia foi tirada.

Para quem não conseguiu estar presente, pode ver o vídeo da minha apresentação dos vinte e dois Arcanos Maiores cemiteriais:




Mais surpresas em breve.

4.11.14

Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular


No próximo dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery no Imaviz Underground, pelas 18:00 horas, vai ser inaugurada a minha exposição de fotografia, intitulada "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular" um trabalho conceptual sobre o Tarot.
Em vinte e duas imagens de contexto sepulcral, a preto-e-branco, tiradas em diversos cemitérios portugueses e estrangeiros, apresentam-se novos arcanos maiores que, mergulhados no mistério e no silêncio próprios dos cemitérios, prosseguem num feitio surpreendente a tradição pictórica do Tarot.
A exposição estará patente até 28 de Novembro e estão todos convidados, desde já, a aparecer na abertura no dia 15.

Entretanto, estamos a preparar mais algumas surpresas que iremos anunciando. Fiquem atentos!

6.9.14

Os Sete Magníficos: Highgate

Há um conjunto de cemitérios cuja visita é obrigatória para qualquer tafófilo. 
Se ir a Paris sem visitar Père Lachaise é criminoso, não menos criminoso é ir a Londres e não visitar o cemitério de Highgate.

Highgate Oeste - Círculo do Líbano
Highgate é tudo o que as descrições prometem: gigantesco, majestoso, clássico, envelhecido, cheio de monumentos de granito perdidos entre a vegetação quase selvagem, vagamente aparada para permitir acesso aos principais monumentos.
Todo o aficionado de cemitérios já ouviu descrever a Avenida Egípcia, as Catacumbas e o famoso Círculo do Líbano, com o seu enorme cedro no centro, mas posso garantir que ao vivo o impacto é outro. 
Para quem visita o espaço é óbvio o motivo pelo qual Highgate é o mais famoso e importante dos sete cemitérios que rodeiam Londres, conhecidos por Sete Magníficos (mesmo sem possuírem a diversidade ou a qualidade superior de monumentos que pode ser encontrada em Kensal Green, por exemplo).
Londres inicia o século XIX com um problema grave de falta de espaço e condições deficientes de higiene para continuar a enterrar os seus mortos dentro da cidade. 
Com um aumento da população para mais do dobro em apenas quarenta anos (de cerca de novecentos e sessenta mil em 1801 para cerca de dois milhões em 1841), resultante da necessidade de mão-de-obra criada pela Revolução Industrial, Londres deixa de ter capacidade para continuar a fazer enterros nos antigos cemitérios, dentro e em redor das igrejas.

Highgate Oeste - Avenida Egípcia
Em 1836, o Parlamento decide ser necessária a construção de cemitérios extramuros - à semelhança do que tinha já acontecido em Paris e estava a acontecer um pouco por toda a Europa, pelos mesmo motivos - a norte, a sul e a este da cidade. Esses cemitérios seriam da responsabilidade de uma entidade privada, designada por London Cemetery Company.
A Norte de Londres, a empresa comprou os terrenos do lado Oeste da, agora famosa, Swain's Lane por três mil e quinhentas libras e entregou o projecto de jardinagem a David Ramsay que, seguindo a visão do arquitecto Stephen Geary, criou aquele que ainda é um dos mais bonitos cemitérios do mundo. 
Highgate seria inaugurado em 1839, com o enterro de Elizabeth Jackson, a 26 de Maio. Alguns anos depois a London Cemetery Company viu-se na necessidade de estender o cemitério, considerando a procura que os primeiros vinte hectares tiveram. A única hipótese para estender Highgate eram os terrenos a este de Swain's Lane; em 1854, Highgate Este abria as portas, passando assim a existir também um Highgate Oeste.

Highgate Oeste - Catacumbas no Círculo do Líbano
O cemitério, apesar de ser único, viu-se atravessado por uma estrada ou seja, uma linha de terreno não consagrado. 
Highgate Este
Este facto pode não parecer ter importância efectiva, mas se pensarmos que as capelas mortuárias existiam apenas em Highgate Oeste (duas capelas, uma para anglicanos e outra para dissidentes), isso significava que, depois de terem sido realizadas as últimas cerimónias, os esquifes tinham de ser retirados de terreno consagrado e atravessar a estrada (terreno não consagrado) antes de voltar a entrar em terreno consagrado. Assim, teve de ser encontrada uma solução alternativa que permitisse manter o defunto em terreno consagrado, mas levando-o de Highgate Oeste para Highgate Este - e encontrou-se essa solução com  uma brilhante construção de engenharia: foi criado um elevador hidráulico na capela sul que fazia descer o caixão para uma câmara subterrânea que ligava a um pequeno túnel debaixo da estrada, com uma saída já dentro do lado Este do cemitério. 
Como curiosidade, na minha visita a Highgate Oeste, o guia era um engenheiro reformado, muito atencioso e que se dedicava a estudar mecanismos de engenharia utilizados na industria funerárias na época vitoriana, pelo que tive oportunidade de perguntar pelo túnel: fui informada que está parcialmente soterrado e por isso intransitável. Aparentemente, as peças do mecanismo hidráulico ainda estão no local.
Existem várias personalidades famosas enterradas no lado Este, mas a mais conhecida é talvez Karl Marx que, com um busto gigantesco, junto do percurso principal do cemitério, é impossível não ser visto.
Existem várias outras personalidades e monumentos dignos de destaque, mas refiro apenas outro bastante conhecido (ainda que ligeiramente mais difícil de encontrar): o piano aberto de Harry Thornton, um pianista que morreu de gripe em 1918, depois de ter passado a Primeira Grande Guerra a animar as tropas com a sua arte (infeliz e incompreensivelmente, a tampa do piano está ausente: descobri num livro que terá sido roubada).
Highgate Este
Já do lado Oeste existem vários monumentos conhecidos, especialmente com animais, como o leão adormecido no topo da tumba de George Wombwell (dono de um espectáculo itinerante com animais, entre os quais se incluía o leão Nero) ou o cão na campa de Thomas Sayers (um famoso lutador da época vitoriana). Também de destaque é o mausoléu de Julian Beer, com um gigantismo impressionante, construído perto do Círculo do Líbano e com uma das mais belas esculturas de Highgate no seu interior.
O desenho de Highgate Oeste obrigava a um trabalho de jardinagem cuidado e constante, sendo que a baixa da rentabilidade de um espaço já cheio e que não permitia novas vendas, acabou por limitar a manutenção e a vegetação começou a tomar conta do cemitério. Na sequência de vandalismo durante a primeira metade da década de setenta do século XX, Highgate Oeste foi fechado em 1975 e manteve-se assim durante décadas, entregue a si mesmo e aos vândalos que saltavam os muros e corriam entre as campas, no escuro. 
Existem até histórias e rumores sobre a existência de um Vampiro no cemitério de Highgate, mas deixaremos esse post para alturas do Halloween.
Entretanto, uma empresa de construção viu no espaço abandonado a possibilidade de criar um condomínio, mas a população local e muitos admiradores de Highgate e conhecedores da sua importância, reuniram-se e criaram uma associação de Amigos de Highgate que adquiriu o direito ao cemitério em 1981 com o objectivo de preservar, restaurar e manter o espaço, os monumentos e a flora.
Highgate Oeste
Assim, o cemitério de Highgate tem vindo a ser recuperado pela associação, graças a donativos e, especialmente, ao valor dos bilhetes para as visitas guiadas. Devido a estar ainda em recuperação e o cemitério ter vários locais perigosos, com campas abatidas, trilhos escondidos ou zonas escorregadias, as visitas a Highgate Oeste são sempre acompanhadas por guia. O mesmo não se passa com Highgate Este (a entrada é igualmente paga, mas o cemitério é de visita livre).
Para visitar o cemitério de Highgate Oeste é necessário marcar a visita com antecedência; as visitas estão normalmente cheias (visitei Highgate a meio de Março, uma altura turisticamente morta e as visitas estavam completas). 
Tive a sorte de ter um ambiente fantástico no dia da minha visita: nevou parte do percurso e depois o sol apareceu, criando sombras e iluminando os brilhantes flocos de neve no chão.
Para além disso, ainda que não fizesse parte do percurso da visita, o guia era extremamente acessível e acabou por nos mostrar o talhão da família Rossetti, onde foi enterrada Lizzie Siddal (esposa do pintor e poeta Pré-Raphaelita Dante Gabriel Rossetti), assim como toda a família Rossetti, com excepção do próprio Dante Gabriel Rossetti que foi enterrado, a seu pedido, em Birchington, no Kent.

Highgate Oeste - Talhão da Família Rossetti



19.5.14

Visita Noctura e Concerto nos Prazeres

Este ano a Noite dos Museus foi celebrada de forma muito especial - e inovadora - na cidade de Lisboa.
Olhando os cemitérios como sendo um museu a céu aberto - visão já há muito difundida noutras cidades do mundo, onde as visitas aos cemitérios fazem parte dos pacotes turísticos oferecidos pelas agências de viagens - Lisboa abriu no sábado à noite os majestosos portões do Cemitério dos Prazeres e recebeu os Lisboetas (e não só) de braços abertos, mostrando-lhes o melhor que tem.

Ainda que as visitas nocturnas em cemitérios portugueses não sejam comuns, esta não foi a primeira; essa honra cabe à cidade do Porto, que a 22 de Junho de 2012 preparou uma visita guiada no cemitério de Agramonte. 
Não sei números oficiais dessa visita, mas vi fotografias que mostram bastante gente. 
O facto que muitas vezes é ignorado - especialmente num país como o nosso, de enraizada matriz judaico-cristã - é que existe procura para este tipo de turismo - apelidado normalmente de necroturismo, em alguns casos de forma até pejorativa - e que é essencial dar-lhe resposta.

Nisso, como em outra coisas, os irlandeses têm muito para nos ensinar: no cemitério de Glasnevin, em Dublin, existe um loja no interior do cemitério cheia de livros, canecas e outras recordações do espaço, juntamente com um museu, um café com uma pequena esplanada e um restaurante do tipo cantina: tudo no interior do cemitério. À porta param autocarros de passeio cheios de turistas que entram, entusiasmados, na companhia de guias. 
É um facto que não estamos ainda preparados para este tipo de realidade, mas podemos começar a fazer o caminho, pelos pequenos passos, como os passeios e visitas guiadas.
Já há algum tempo que a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a aumentar a aposta na divulgação dos cemitérios lisboetas e a promover passeios temáticos muito interessantes e diversificados, mas na noite de 17 de Maio a aposta passou por um inédito passeio nocturno, seguido de um concerto de La Chanson Noire na capela.

Vários dias antes da visita já circulavam rumores - rapidamente confirmados - de que esta estaria esgotada, mas que ainda seria possível assistir ao concerto.
Efectivamente, por volta das 20:00 horas, já uma pequena multidão se estendia na ampla avenida principal que liga o portão à capela.

A primeira nota positiva que quero deixar é que é notório que a visita foi bem preparada:

  • À entrada foram distribuídos mapas com o percurso, acompanhados de um folheto com os pontos de paragem, incluindo uma breve descrição e imagem de cada um;
  • O Dr. Licínio Fidalgo, guia da visita, fez-se acompanhar de um megafone e um sinalizador luminoso que permitia encontrá-lo no escuro:
  • Existiam holofotes com geradores (que, pelo que percebi, foram gentilmente cedidos pelos Bombeiros de Lisboa) em todos os pontos de paragem, para garantir que as peças eram vistas pelos visitantes, depois de anoitecer;
  • Vários funcionários da CML estavam junto das encruzilhadas do percurso para assegurar que ninguém se perdia, seguindo um trilho não incluído no passeio;

Foi uma pena que a visita ao Jazigo Palmela tenha sido a primeira paragem do percurso. 
Uma visita a um espaço exíguo e com apenas com uma porta para o exterior (por onde se fazem as entradas e as saídas), quando se tem uma pequena multidão (sem ter números oficiais, diria que estariam perto de cem pessoa) não deve ser o arranque de uma visita deste género, pois torna-se demasiado demorada e dificulta a gestão do tempo. 
Ainda assim, felizmente, bastaram três grupos para que todos os visitantes conseguissem fazer a visita ao fabuloso jazigo; mas a questão principal é que o truque destas coisas é deixar o melhor para o fim: qualquer peça visitada depois do inigualável Jazido Palmela empalidece em comparação.

Teria sido arrepiante fazer o passeio na ordem inversa, não só porque teríamos mais luz para ver as peças que estão na rua, como chegaríamos ao Jazigo já com noite cerrada.

Voltando aos pontos positivos, a iluminação no interior do Jazigo Palmela foi conseguida com diversas velas acesas, o que criou um ambiente muito adequado e sombrio, impossível de conseguir numa visita diurna.

O percurso passou depois por vários pontos de destaque como o Dado Falso, a Bancada do Marceneiro, a estátua de homenagem a Sousa Viterbo e a de homenagem a Oliveira Martins. 
A meio, antes de começarmos a subida em direcção à capela, ainda tivemos a oportunidade de vislumbrar uma magnifica vista sobre o rio Tejo, Alcântara e a Ponte 25 de Abril, iluminadas pelos candeeiros de rua e os faróis dos carros que cruzam a ponte.

O passeio terminou já quase pelas 22:00 horas, dando assim início ao concerto de capela cheia.


Ainda que a acústica da capela não tenha sido a ideal, o concerto foi memorável.

O balanço da noite é muito positivo e penso que merece uma repetição em breve.
Garante-se público, claramente...

10.3.13

Cemitério Judaico de Wrocław

Na cidade polaca de Wrocław, afastado do centro histórico, fica um extraordinário cemitério do século XIX, conhecido como Cemitério Judaico Velho
Criado em 1856 na sequência do fecho do anterior cemitério judaico e descontinuado por volta de 1943, depois de dois anos praticamente sem inumações, este pequeno espaço situado na rua Ślężna atrai visitantes e estudiosos, com as suas construções antigas, marcadas pela passagem do tempo e das adversidades das guerras. 
Expandido diversas vezes - ainda no século XIX e depois no XX - coberto por trepadeiras e fetos, escondido sob frondosos castanheiros, visitá-lo em pelo Outono é uma experiência mágica irrepetível.
Apesar de, à semelhança da maioria dos cemitérios judaicos do leste da Europa, encontrarmos talhões densamente cobertos por masebhas (lápides) contendo textos em hebraico, compará-lo com outros bem conhecidos - como o cemitério judaico de Praga, por exemplo - é uma tarefa difícil.
Na realidade, o cemitério judaico velho de Wrocław é um espelho do movimento Haskalah, um movimento dos séculos XIX e XX que promove o iluminismo dos valores judaicos, de forma a alcançar uma mais fácil integração numa Europa cada vez mais secular. Nesse sentido, para além das lápides tradicionais, é possível encontrar diversas construções com linhas de criação mais seculares e simbologia variada. Esta abertura ao mundo não judaico começa por coincidir com a época romântica e o romantismo, com o seu revivalismo grego, romano, egípcio, marca também as construções cemiteriais. As colunas e vasos funerários que enchem os cemitério seculares passam a fazer parte das construções fúnebres deste cemitério judaico.
Para além do impacto na arquitectura e simbologia dos monumentos fúnebres, também os textos passam a conter palavras em latim e alemão.
Mas a diversidade não termina aqui: num dos recantos junto do muro encontra-se uma edificação com marca claramente mourisca, noutro local talhado em mármore negro, podemos encontrar um tabuleiro de xadrez encimando por uma das peças desse jogo, um cavalo. Numa outra zona, ainda são visíveis marcas de balas. 

Como não podia deixar de ser, sobre inúmeros monumentos, empilham-se pedrinhas e castanhas, deixadas reverentemente pelos visitantes.


PS: não posso deixar de agradecer à Weronika Murek, que me acompanhou na visita e me explicou várias tradições judaícas que eu desconhecia.

16.11.12

Mais do que palavras...



«Aos que na longa noite do fascismo foram portadores da chama da liberdade 
e pela liberdade morreram no campo de concentração do Tarrafal.»

10.11.12

Simbologia: Perpétua Saudade

Uma das componentes que me parece mais interessante de interpretar na simbologia cemiterial é a da flora.
Em primeiro lugar, esclareça-se que nem sempre é fácil distinguir ou identificar a flor que está talhada na pedra, depois de muitos anos exposta aos rigores invernais e aos impiedosos raios do Sol no Verão, mas depois dela ser claramente identificada, existem inúmeros "dicionários de plantas" que ajudam a perceber qual o provável significado que presidiu à escolha de um ramo de margaridas ou de umas hortenses, em vez de rosas e amores-perfeitos.
Em todos os casos com que me deparei durante muito tempo, a simbologia da planta obrigou sempre à sua interpretação, nunca tendo um significado literal.
Por exemplo: o trevo comum - de três folhas - é normalmente usado para representar a Santíssima Trindade, mas acabou também por representar a Irlanda, uma vez que, segundo a lenda, São Patrício - para além de ter expulsado as serpentes - levou consigo o trevo e espalhou-o pela ilha, em representação, precisamente, da Santíssima Trindade. Assim, quando encontramos um trevo numa campa, é muito possível que estejamos na presença da campa de um irlandês ou de um católico devoto.
 Também é preciso considerar as modas e escolhas estéticas. Não é incomum encontrarmos várias campas seguidas com simbologia ou monumentos semelhantes: uma vezes, porque é uma só família (e foi essa a forma encontrada para a representar); outras, porque a escolha foi puramente estética - muitas vezes feita por catálogo, de acordo com as amostras que o artesão tinha na oficina ou com base naquilo que se viu no cemitério numa visita anterior.
 No entanto, no caso de Portugal - até agora ainda não me cruzei com este fenómeno em outros países - existe, pelo menos, um caso de literalidade. 
Nos cemitérios de Lisboa (Prazeres e Alto de São João) é difícil passar mais do que uma dezena de jazigos sem nos cruzarmos com duas plantas que normalmente aparecem juntas, por vezes na companhia de mais alguns símbolos, e cujo significado é simplesmente "Perpétua Saudade".
As Perpétuas são plantas conhecidas por florirem em canudinhos ou bolinhas - conhecidas também pelo chá que se faz com elas: em especial, o de perpétuas roxas; favorito da fadista Amália - e a Saudade tem uma representação parecida com a do cardo, podendo até ser confundida com este.
Juntas, não carecem de mais interpretação: significam "Perpétua Saudade" ou "Saudade Perpétua".

Resta realçar que, no nosso país, estas duas flores foram utilizadas frescas para enfeitar as campas. Em 1872, Ramalho Ortigão descrevia os cemitérios lisboetas da seguinte forma:
«Chegámos ao cemitério. Das grades que circulam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes e simbólicas em vasos de porcelana; e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério.»

2.11.12

Suspensão do Feriado do Dia de Todos os Santos

Com a suspensão, pelos os próximos cinco anos, do feriado do Dia de Todos os Santos em Portugal, a SIC Notícias preparou duas interessantes peças.

A primeira sobre os efeitos práticos da suspensão deste feriado nas celebrações do Dia de Fiéis Defuntos que se vão mantendo no nosso país.



A segunda sobre os motivos, para lá dos económicos, que levaram a que o 1 de Novembro fosse um dos três feriados religiosos a ser seleccionado para suspensão.


1.11.12

Pan de Muerto


No dia 2 de Novembro, o México reúne-se para celebrar a versão mexicana do nosso Dia dos Fiéis Defuntos, o Día de los Muertos enchendo os cemitérios com família, flores, comida e bebida.

As celebrações começam normalmente na véspera, ainda durante o Dia de Todos os Santos, arrastando-se pela madrugada. As campas são limpas, enfeitadas e, por vezes, é construido um altar com oferendas em honra dos familiares e amigos já falecidos.

Os bolos e pães que são cozinhados nesta altura incluem as famosas caveiras de açúcar colorido, alguns com o nome dos falecidos escrito na cobertura, e o pan de muerto, um pão adocicado e aromatizado com ervas.


Receita de Pan de Muerto

Ingredientes:
  • 1/2 caneca de manteiga sem sal;
  • 1/2 caneca de leite;
  • 1/2 caneca de água;
  • 5 canecas de farinha;
  • 2 pacotes de fermento em pó;
  • 1 colher de chá de sal;
  • 1 colher de sopa de sementes de anis;
  • 1 caneca de açúcar;
  • 4 ovos;
  • 1/3 caneca de sumo de laranja;
  • 2 colheres de sopa de raspa de laranja;

Modo de Fazer:
  1. Ao lume, aquecer a manteiga, com o leite e a água, até esta derreter.
  2. Numa tigela, colocar 1 e 1/2 canecas de farinha, o fermento, o sal, as sementes de anis e 1/2 caneca de açúcar. Misturar tudo a adicionar a mistura do leite com a manteiga. Mexer até ficar homogéneo e, em seguida, adicionar os ovos e mais 1 caneca de farinha, voltando a mexer bem. Pouco a pouco, adicionar o resto da farinha, até a massa se descolar das paredes da tigela.
  3. Bater a passar por 10 minutos numa tábua enfarinhada. Untar levemente uma taça grande, colocando a massa no fundo, fechar a taça com película aderente e deixar repousar por cerca de 1 hora e meia num local quente, para a massa crescer. Bater um pouco a massa, para depois a moldar em forma de osso ou caveiras. Deixar repousar mais uma hora num local quente para a massa crescer.
  4. Aquecer o forno a 175º. Colocar os pães no forno durante 40 minutos ou até que estes fiquem dourados.
  5. Enquanto o pão coze, misturar ao lume, o sumo e a raspa de laranja com o açúcar. Deixar ferver e manter ao lume por 2 minutos. Retirar do lume.
  6. Quando os pães estiverem cozidos pincelá-los ainda quentes com este preparado.

Enjoy!


Um agradecimento especial a Charles Sangnoir, que cozinhou e nos deliciou com o fantástico Pan de Muerto que podem ver na fotografia.

23.10.12

Igreja de Santa Elżbiety

Todos os guias de viagem que descrevem as atracções turísticas da cidade polaca de Wrocław falam de dois pitorescos edifícios antigos, unidos por um arco barroco, datado de 1728, a que chamam carinhosamente de "Hansel e Gretel", inspirados pelo célebre conto dos Irmãos Grimm. 
Na realidade, apesar de ter ganho a alcunha por considerarem que esse arco recorda um casal de mãos dadas, ele tem muito pouco de romântico. 
Ao lado dos prédios - agora isolados - continuava o casario ou talvez um muro, cercando e fechando o acesso ao átrio da igreja de Santa Elżbiety que, como em todas as igrejas medievais, servia de cemitério.
No topo do arco, num pequeno medalhão erguido por dois anjinhos pode ler-se:

 «Mors Ianua Vitae»
 
"A Morte é a Porta da Vida", num mórbido convite a deixar o buliço da vida da praça principal, do mercado e, passando o arco, entrar no território da Morte.
Das valas comuns medievais, que certamente encheram o átrio, aparentemente nada resta, mas as paredes exteriores da igreja, estão ainda decoradas com placas funerárias e inscrições, mandadas colocar pelos cidadãos mais ricos que, mesmo depois de mortos, queriam ser recordados.
Maioritariamente as placas apresentam apenas epitáfios ornamentados, mas existem placas onde se podem encontrar também brasões ou escudos de armas. 
Existem ainda representações de cenas sagradas, retiradas da Bíblia ou de vidas de santos.
Numa das placas, o campanário partido da torre cai em direcção à terra, transportado por anjos, o que poderá indiciar que a torre terá ruído, mas que milagrosamente não terão existido vítimas. A ser verdade este será um painel que celebra esse milagre e a imagem é a garantia que seria entendido por todos, sem dificuldades e sem a obrigação de fazer a leitura do texto.
 
Quase todas as placas estão protegidas por um pequeno telheiro.
Estes telheiros eram muito comuns e serviam essencialmente para que os restos mortais do falecido estivessem "sob telha", ou seja, anulava o facto de estarem do lado exterior da igreja, pois simulavam o interior. Mesmo quando no século XV começou a ser mais usual colocar cruzes entre as campas dos átrios das igrejas, estas tinham pequenos telhados assentes nas pontas, com este mesmo objectivo. 
Este tipo de cruzes é ainda muito comum nos cemitérios da Europa de Leste.

A estrutura gótica da igreja de Santa Elżbiety data originalmente do século XIV, mas já existia uma igreja no mesmo sítio desde o século XII.
O belíssimo edifício é um dos mais altos da cidade, com a sua torre de noventa metros (anteriormente, cento e vinte e oito), que oferece uma magnifica vista sobre a Cidade Velha de Wrocław, especialmente a praça principal - Rynek -, onde durante séculos funcionou o mercado.
 A igreja de tijolo vermelho, com o seu telhado malhado em vermelho e verde, teve vários acidentes ao longo dos anos.
Exemplo disso são a intensa tempestade de granizo do século XVI que conseguiu destruir parte da igreja, incluindo os gigantescos vitrais do lado norte, os danos causados pela Segunda Guerra Mundial ou o misterioso incêndio em 1976 que fez inúmeros estragos no interior e que, inclusivamente, destruiu o órgão da igreja, que era um dos seus ex-libris.
Para além das placas funerárias no exterior do edifício, é ainda possível ver várias placas no interior e as capelas funerárias laterais, reservadas para a inumação dos elementos da família que as financiavam e mantinham. Ainda guardam todo o esplendor; algumas sendo mesmo espaços gradeados e inacessíveis ao público que visita a igreja.
É fantástico como, apesar de todos os acidentes que a destruíram parcialmente, a igreja conseguiu trazer até nós estes elementos medievais que permitem perceber como eram os hábitos funerários de tantos séculos atrás.



2.10.12

Crematório do Alto de São João

O nosso primeiro - e durante muitos anos único - crematório é o forno crematório do cemitério do Alto de São João.
Ainda em utilização, a história deste crematório mistura-se com a história do nosso país e é, mais uma vez, um excelente exemplo de como as práticas funerárias de uma sociedade conseguem ser uma fotografia quase perfeita desta e das crenças e limitações de quem nela vive.

A partir dos anos 70 do século XIX várias vozes se levantaram em defensa da criação de um forno crematório em território nacional.
Os argumentos usados no início do século para fundamentar a criação de cemitérios e descontinuar os enterramentos no interior das igrejas foram então reaproveitados para defender a cremação em detrimento da inumação.

Não deixa de ser curioso que apenas em 1912 é que, finalmente, foi aprovada a construção do crematório no cemitério do Alto de São João.
Considerando que a Igreja Católica é contra a cremação, naturalmente apenas depois da implantação da República, com os ventos ateístas trazidos pelas mãos de Afonso Costa, foi possível ter um crematório em Portugal.

Apesar disso, somente em 1925 o crematório entrou em funcionamento, depois de um vereador adepto da cremação ter procedido à aquisição do forno na Alemanha; apesar disso, segundo as estatísticas, os números de utilização foram muito reduzidos. Entre 25 e 36 foram apenas cremados 22 corpos e em 1936 o crematório deixou de funcionar.
No livro Cemitérios, Jazigos e Sepulturas de Vítor Manuel Lopes Dias é referido apenas que o crematório «não está presentemente [1963] em condições de funcionar.» sem mais explicações.
É de destacar que este trabalho foi publicado quando o Estado Novo ainda fazia censura de livros e textos, pelo que é preciso ter isso em conta quando se considera a falta de informação neste ponto.

É preciso recordar que a Igreja Católica era militantemente contra a cremação e o Estado Novo, nascido em 1933 com a instauração da Constituição de 32, estava completamente alinhado com a Igreja Católica e, por isso, não é de estranhar que o crematório do Alto de São João tenha sido desactivado, até ser recuperado em 1985, em parte por pressão da crescente comunidade Hindu.

 Actualmente, em Lisboa, existem três fornos crematórios, uma vez que ao do Alto de São João se juntaram mais dois no cemitério dos Olivais; para além destes, também existe um no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, e outro em Ferreira do Alentejo, de construção particular (ainda que gerido pela câmara municipal).

Em breve uma pequena adenda com informação estatística sobre o fenómeno da cremação.


5.9.12

Simbologia: Alfa e Ómega

Encontrar letras soltas e acrónimos nos cemitérios é bastante comum. 
Desde o tradicional PNAV - que significa "Padre Nosso Ave Maria" e que pretende ser um pedido, a quem passa pela lápide, para rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria pela alma do defunto - até ao INRI - do latim Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum ou seja "Jesus de Nazaré Rei dos Judeus" - e passando claro, pelas letras gregas Α (alfa) e Ω (ómega).

O mais óbvio, válido para qualquer contexto, é o facto destes símbolos representarem a primeira e última letras do alfabeto grego e por isso serem continuamente associadas ao princípio (alfa) e ao fim (ómega). Qual o princípio e qual o fim já depende, efectivamente, do contexto em que eles são usados.

Uma das mais famosas utilizações é, sem dúvida no Apocalipse, ou Livro das Revelações (21:6), quando Jesus se senta no trono e exclama:
«Está feito! Eu sou o Alfa e o Ómega, o principio e o fim.»
Há também uma associação comum do Alfa à Luz e do Ómega às Trevas, mas num contexto cemiterial, as letras gregas são usadas muitas vezes junto das datas de nascimento e morte: Α (alfa) para o início da vida, o nascimento e Ω (ómega) para a morte, representando o fim da vida.

É ainda, relativamente, comum ver as duas letras sobrepostas ou entrelaçadas e em alguns casos é ainda acrescentada a letra Μ (mu), a décima segunda letra do alfabeto grego que, estando a meio deste, é por vezes usada para para representar continuidade: aquilo que está entre o Α (alfa) e Ω (ómega) ou seja, neste nosso contexto, a vida.

2.9.12

Convento de Santa Clara-a-Velha

Em Coimbra, nas margens do Mondego, fica o mosteiro de Santa Clara-a-Velha, fundado no século XIII e abandonado no século XVII, depois de anos de inundações. As águas desse rio invadiram definitivamente o espaço e, durante séculos, submergiram parcialmente o mosteiro até à sua recuperação no final do século XX.
As águas, lamas e lodos que tomaram conta do mosteiro serviram também de um estranho conservante.
Uma visita ao complexo, completamente recuperado e que integra um interessante museu, com objectos encontrados nas escavações e a contextualização desses objectos no dia-a-dia do mosteiro, mostra-nos o uso de coloridos azulejos, o recorte delicado de colunas e, especialmente, pedras decoradas que cobrem os locais de inumação das freiras que o habitavam. 
Mostra-nos ainda alguns dos costumes associados às inumações na idade média.

Sendo religiosas, as mulheres eram enterradas no interior do mosteiro ou em redor do claustro. 
Nas pedras tumulares, não tendo sido pisadas durante trezentos anos, as marcas são ainda visíveis e muito interessantes: cruzes, cordas com nós (imitando as que as freiras usavam à cintura), desenhos geométricos, nomes e datas, etc.
No exterior, no pequeno corredor entre o edifício principal e o claustro estão várias dessas pedras tumulares, muito bem preservadas.
Os locais de inumação variavam conforme a importância do morto, especialmente neste contexto de enterramentos apud ecclesiam.
Quanto mais próximo do altar, mais importante era considerada a pessoa. Por isso é que no interior do edifício principal, junto da porta que dá acesso ao claustro, é que está enterrada uma das mais importantes abadessas do mosteiro.
No decorrer dos trabalhos arqueológicos, foram encontradas cerca de 70 religiosas enterradas na zona do cadeiral e nas naves laterais; estes enterramentos terão ocorrido depois das primeiras cheias, quando o coro passou para a parte superior do edifício.
 Para além destes casos pode ainda encontrar-se um interessante sepulcro num nicho, deixado no piso inferior, que terá estado submerso durante todos estes séculos.

No entanto, as mais ilustres ossadas a repousar no convento de Santa Clara-a-Velha são, sem dúvida, as da Rainha Santa Isabel, esposa do rei D. Dinis, apesar de terem sido levadas para o convento de Santa Clara-a-Nova quando as clarissas abandonaram o local. É ainda possível ver o arco triunfal, em pedra de Ançã ricamente decorada, onde estaria o sepulcro da rainha.
Tendo morrido em Estremoz e sendo seu desejo ser sepultada no mosteiro, em Coimbra, antevia-se o pior durante a demorada viagem naquele Verão especialmente quente.
Quando o ataúde onde viajavam os restos mortais da rainha começou a apresentar rachas e fendas, das quais se vertia um liquido pastoso, foi com surpresa que, ao invés de sentirem o cheiro putrefacto da decomposição de um cadáver, os súbditos que acompanhavam a procissão fúnebre relataram sentir um suave cheiro a flores e plantas.
Durante anos, o sepulcro da rainha ficou no interior da igreja, mas, com as cheias que já referimos, ele também foi transportado para o andar superior. 
Acorriam multidões ao mosteiro para rezar à rainha, que, ainda em vida, foi considerada santa pelo povo. Apesar de ter morrido em 1336, a beatificação e canonização ocorreram em 1515 e 1625, respectivamente.

Com o abandono do mosteiro, as águas do Mondego invadiram o local, que esteve esquecido e semi-submerso até 1995, ano em que começaram os trabalhos de recuperação.

Como nota final, gostaria de deixar uma palavra para todos aqueles que trabalham ou trabalharam neste projecto para resgatar o convento de Santa Clara-a-Velha das águas do Mondego. 
É uma obra fantástica, tendo resultado num complexo muito rico e interessante, cheio de informação. Todos eles estão de parabéns.