31.10.20

Asclépio, Hermes e Higia nos Cemitérios

Ao visitar um cemitério romântico, nas zonas mais antigas, onde se erguem os jazigos-capela e as sepulturas perpétuas, é comum encontrar curiosas figuras talhadas na pedra, sozinhas ou adornando epitáfios: flores, animais, instrumentos de trabalho, letras gregas, objectos do dia-a-dia, figuras humanas, símbolos de ordens. 

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, Portugal

Quando tentamos perceber o seu significado dentro do espaço cemiterial, transparece que a escolha não foi aleatória, ainda que alguns dos donos de obra possam ter escolhido a decoração do seu jazigo a partir de catálogos ou pedindo para copiar algo que viram numa das suas visitas de domingo ao cemitério local.

Identificar e decifrar essas figuras ajuda-nos a saber mais sobre quem é a pessoa que se encontra enterrada no local, a forma como ela se via ou era vista pelos outros, aquilo de que mais gostava ou mais valorizada em vida.
Algumas das figuras não nos levam a interpretações complicadas e a recorrer dos compêndios e almaços antigos, por conseguirmos reconhecer o símbolo apresentado, por ele ainda fazer parte da nossa actualidade. E porque, por vezes, uma rosa é, realmente, apenas uma flor.

Um dos conjuntos de símbolos que parecem fáceis de identificar e decifrar são os símbolos associados à medicina e saúde. Estamos habituados a vê-los pintados em ambulâncias, representados nos placards luminosos das farmácias, nos logótipos de serviços de saúde. São normalmente compostos por serpentes enroladas em varas, árvores, taças, lamparinas de azeite.
Parece bastante claro e simples, mas porquê as variações?

Acontece que, efectivamente, estamos a falar de símbolos diferentes. 

Os que chegaram até nós mantendo o significado original são o Bastão de Asclépio e a Taça de Higia. 
Hermes representando o Comércio - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Pelo meio, aparece o Bastão de Hermes, normalmente designado de Caduceu, que inicialmente não estava associado à medicina e, por esse motivo causa alguma confusão no contexto cemiterial, onde aparece muitas vezes como representação do comércio. 

A sua associação formal à medicina surge no início do século XX, no corpo médico do exército dos Estados Unidos, que o adoptou como símbolo, ainda que existam algumas correntes que a colocam vários séculos antes, como extensão da associação de Hermes à Alquimia.
Este erro surge da utilização do caduceu nos exércitos romanos para identificar os mensageiros que, transportando um estandarte com este símbolo tinham salvo-conduto para se deslocarem no campo de batalha sem serem alvos de violência. Talvez fosse esse o objectivo inicial da selecção deste símbolo para identificar os elementos do corpo médico do exército, mas a consequência foi este ficar associado à medicina.

Podemos descrever estes símbolos, simplificadamente, da seguinte forma:
  • O Bastão de Asclépio é uma vara de madeira onde se enrola uma - e apenas uma - serpente.
  • A Taça de Higia é uma taça ou um cálice, no pé da qual se enrola uma serpente, que parece beber da taça.
  • O Caduceu é um bastão de ouro com duas serpentes enroladas, uma de cada lado; no topo do bastão aparece um par de asas e, por vezes, também o capacete de Hermes.
Para distinguir os dois bastões basta ter em atenção o número de serpentes: uma é Asclépio, duas é Hermes.

Conforme referi, Hermes não estava associado à medicina na antiguidade clássica, ao contrário de Asclépio e Higia. 
Hermes era o mensageiro de Zeus e dos deuses nos Infernos: Hades e Perséfone. Era considerado o patrono do comércio, dos ladrões, dos viajantes e dos mensageiros. 

Caduceu /Bastão de Hermes - Cemitério do Alto de São João,
Lisboa, Portugal
O caduceu era, originalmente, um cajado de ouro usado por Apolo enquanto pastoreava gado.
Conta a lenda que Hermes recebeu de Apolo esse cajado em troca de um instrumento musical: numa versão, diz-se que Hermes criou uma lira a partir de uma carapaça de tartaruga e tripas de uns bois que sacrificará aos deuses e que foi esse o instrumento trocado com Apolo; noutra versão, Apolo já teria obtido a lira em troca de um rebanho e dessa vez, para obter a flauta inventada por Hermes, teve de dar em troca o seu cajado. 
Quando recebeu o cajado de Apolo este era apenas uma vara de ouro, sem as serpentes. Depois de receber o cajado, Hermes dirigiu-se a Arcádia, quando chegou encontrou duas serpentes lutavam e se mordiam. Tentando separá-las com o cajado, elas enrolaram-se neste e pararam a violência, mantendo-se em equilíbrio. 

O caduceu é o símbolo identificador de Hermes, assim como a tesoura e o fio são o símbolo identificador de Átropos, por exemplo.

De notar ainda a ligação de Hermes ao mundo dos mortos: este era conhecido como "Acompanhante de Almas" - deus psicopompo - por ser responsável por levar as almas aos Infernos, mas até hoje ainda não encontrei essa vertente representada nos cemitérios, onde a simbologia de Hermes sempre aparece associada ao comércio ou (em jazigos mais recentes) à medicina.

Bastão de Asclépio - Campo Verano,
Roma, Itália
Asclépio, filho do deus Apolo - o mesmo que deu o caduceu a Hermes - foi em pequeno entregue pelo pai ao centauro Quíron, que lhe ensinou as artes da medicina. Asclépio, para além de ter aprendido rapidamente e apresentar grande habilidade na cura dos doentes, possuía ainda a capacidade de ressuscitar os mortos, usando para isso o sangue das veias do braço direito de uma górgona, que lhe fora dado por Atenas. 
Foi por esta capacidade de ressuscitar os mortos que Zeus o matou, receando o impacto que esta façanha poderia ter na ordem do mundo. Depois de morto, Asclépio ascendeu aos céus sob a forma da constelação Serpentário: um homem segurando uma serpente.

O seu símbolo identificador é um pau onde se enrola uma serpente, símbolo esse que representa a medicina.

São atribuídas a Asclépio várias filhas, todas elas associadas à arte da medicina nas suas diferentes vertentes, sendo uma dela Higia. 
Taça de Higia - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Higia é associada à saúde e representada segurando uma taça de onde bebe uma serpente. 
Reza a lenda que, quando Asclépio foi morto por Zeus, as serpentes que viviam e guardavam as fontes de águas medicinais abandonaram-nas e refugiram-se nos templos de Asclépio, onde ficavam imóveis no chão, em sofrimento. 
Higia, por afecto ao pai, cuidava dessas serpentes enlutadas, oferecendo-lhes de beber a partir de uma taça. 
É do nome de Higia que surge a palavra higiene, considerada uma das componentes essenciais à manutenção da saúde.

O símbolo identificador de Higia é a taça de onde bebe a serpente e está associado à saúde.

Internacionalmente, este símbolo é comummente associado à farmácia, mas nos cemitérios pode ser utilizado de uma forma mais ampla, significando saúde.

Recordo que os símbolos devem ser interpretados tendo em consideração os seus contextos, a época e os restantes símbolos representados. 
No contexto cemiterial, podemos generalizar que a presença de uma serpente enrolada numa taça ou num pau são motivos que simbolizam a saúde e a medicina e que uma vara com duas serpentes pode estar associado ao comércio ou à medicina, de acordo com o contexto e a época.

O caduceu num contexto onde se pretende que represente a Saúde, neste caso, a ausência de saúde - a morte -, considerando a sua inversão. Todos estes símbolos representam a morte: a tocha invertida que se apaga, a tesoura de Átropos que corta o fio da vida e a gadanha Cronos que ceifa a vida.

28.10.20

Dia de Finados

 Dia 2 de Novembro é Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos. 

Em Portugal, o dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é feriado religioso, uma data que remonta aos primeiros séculos da cristandade, quando se sentiu a necessidade de celebrar todos os santos conhecidos, mas também os desconhecidos, as pessoas que viviam a sua vida de acordo com o Evangelho, anónimos, mas cumpridores de todos os preceitos da fé. 

02/10/1921 - Cemitério dos Prazeres
(Foto: Salgado)

Na versão mais popular, costumam dizer que os santos já eram tantos que não havia mais dias livres para dedicar a cada um deles e, por isso, criou-se um dia que dedicado a todos.

A verdade é que, em Portugal, o dia 1 de Novembro acaba por ser dedicado à celebração antecipada do Dia de Finados, que se celebra a dia 2 de Novembro. Desconheço o motivo pelo qual o dia escolhido para feriado foi o Dia de Todos os Santos e não o Dia de Finados, como acontece no Brasil, por exemplo.

02/10/1921 - Cemitério do Alto de São João
 (Foto: Salgado)


Seja como for, 1 de Novembro, é dia de romaria ao cemitério. 

Muitas famílias portuguesas aproveitam o feriado para visitar "a terra", as vilas e aldeias de onde a família tem origem, onde por vezes ainda estão os avós e os tios mais velhos, em alguns casos, os pais e os primos. Visitam a família e, juntos, vão ao cemitério, limpam as sepulturas, põem flores, mostram bisavós em retratos de esmalte a crianças que mal sabem andar, contam-se histórias e fazem-se queixas do preço das flores, da falta de visitas, do tempo que corre e não se aproveita, conta-se do vizinho que, este ano, faleceu. 

Nas cidades a prática ainda é seguida, mas a sepulturas temporárias e as cremações levam as famílias a outros rituais.


Este ano, o dia 2 de Novembro é, também, Dia de Luto Nacional.

Alguns de nós não irão celebrar este dia da mesma forma dos anos anteriores, mas podemos sempre lembrar os nossos mortos, onde quer que estejamos: as histórias, as memórias, os cheiros e o som da voz. 

Aos nossos mortos.

02/10/1921 - Cemitério dos Prazeres
(Fotos: Salgado)

23.10.20

Direto ao Assunto: Tafófilia

A ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais é uma entidade que congrega pesquisadores cujas as pesquisas abrangem os cemitérios e as mais diversas manifestações acerca da morte e do morrer no Brasil e promove encontros bianuais sobre a temática. Para além dos encontros, a ABEC tem vários outros projectos que visam promover e partilhar o que se tem feito neste campo, divulgando os trabalhos dos seus membros. 

Um dos projectos mais recentes da ABEC é a série de vídeos "Direto ao Assunto", em que membros da associação são convidados a apresentar e esclarecer conceitos, ajudando a criar um glossário online.

No vídeo desta semana, coube-me clarificar o que é a Tafófilia. 




30.6.20

As Mulheres e a Morte - vídeo @mort.safe

Neste sexto episódio de “As Mulheres e a Morte”, série de Taís Souza (do canal Pílulas Sombrias) sobre o estudo da morte e das temáticas da morte no feminino, estivemos a conversar sobre tafofilia, estudos cemiteriais e a história da morte em Portugal. 


Um obrigada especial à Taís Souza pela criação desta série que tem divulgado tanto a nossa paixão por esta temática. 


27.6.20

As Mulheres e a Morte

No próximo dia 29 de Junho, pelas 23:00 (19:00 no Brasil), estarei no Instagram, para mais um episódio de "As Mulheres e a Morte", fantástica série desenvolvida por Taís Souza no perfil @pilulas_sombrias que nos tem transportado pelo domínios da Morte e do Morrer, através de lugares, pessoas, arte. 

Nesta primeira temporada a série já contou com a presença de Vanessa Bortulucce, Marcia Generoso, Anna Costa, Luciana Fátima e Nani Rezende e ainda teremos mais participações.

Esta semana será a minha vez e vou falar de tafófilia, de história dos cemitérios e outros temas relacionados com as minhas pesquisas nesta área.

Contamos convosco.


29.12.19

A Casa Portuguesa nos Cemitérios - AGM 2018


Em Outubro de 2018, decorreu na bonita cidade austríaca de Innsbruck mais um encontro da ASCE - Association of Significant Cemeteries of Europe.
Foi mais um excelente momento de partilha e aprendizagem, cheio de descobertas e visitas cemiteriais, na companhia dos amigos que se vão revendo anualmente.

O tema da conferência anual de três dias foi "European Cemeteries in the European year of Cultural Heritage" para o qual propus e apresentei o meu trabalho "The Portuguese House in the Cemetery: Tradition and Popular Culture", numa versão focada maioritariamente em recolha de campo e fontes e a ser desenvolvido em maior detalhe posteriormente, mas apresentando já alguns resultados interessantes e identificação de padrões de caracterização. 

A especificidade cultural destes jazigos nacionais, com características pouco comuns fora de Portugal, foi de grande interesse para os presentes, uma comunidade constituída por tafófilos de diversos países.


Fizeram-se visitas a diversos cemitérios, como sempre se faz nestes eventos, nomeadamente ao Hauptfriedhof Wilten na cidade Innsbruck, onde se encontram peça lindíssimas e onde o sol de final do dia iluminou tudo com uma doce luz dourada, com vista para as montanhas do Tirol e também ao Friedhof Mühlau, na pequena vila do mesmo nome, onde fomos simpaticamente transportados nas carrinhas dos bombeiros de Innsbruck. 
No cemitério de Mühlau fica uma bela capela, em traços que rapidamente associamos às construções do Tirol e, estando localizado numa cota mais alta que Innsbruck, permitiu magnificas vistas em redor.

Os dias passaram depressa e ficou a promessa de, em 2019, nos voltarmos a reunir em Ghent, na Bélgica, com o tema "Heritage Cemeteries in the 21st century: use, reuse and shared use" e muitas visitas a cemitérios.

25.6.18

Átropos no Cemitério Romântico

No passado dia 16 de Junho, no âmbito do ciclo de palestras "Um Objecto e Seus Discursos", organizado anualmente pela Câmara Municipal do Porto, estive nessa cidade para falar de um objecto existente num monumento funerário do cemitério de Agramonte, na secção privada da Ordem Terceira do Carmo.

Fotografia gentilmente cedida pela Câmara Municipal do Porto
Numa conversa informal, moderada por Alda Bessa, e com a presença também da Prof.ª Marta Várzeas, especialista em literatura clássica, falámos um pouco das Parcas, as figuras mitológicas gregas responsáveis pelos destinos dos Homens, em especial de Átropos, que é quem corta o fio e define o fim.

Juntei algumas notas sobre o tema, sobre a forma como a cultura clássica grega influenciou a criação e a decoração dos cemitério românticos, que partilho convosco abaixo.

Os meus parabéns à Câmara Municipal do Porto pela excelente iniciativa e à Alda Bessa, pela ousadia de propor um objecto no interior de um cemitério.


Quando pensamos em cemitérios de matriz cultural romântica, concebidos no século XIX, não podemos excluir a constatação que a cultura britânica teve uma fortíssima influência no desenho desses espaços; especialmente nos locais continentais onde se distinguiu por uma forte presença, como na cidade do Porto.
De facto, a mudança de cemitérios paroquiais – apertados, familiares, crescendo em volta das igrejas – para cemitérios seculares – isolados e fora das malhas habitacionais das cidades – obrigou a repensar esses lugares e a considerar soluções diferentes para a sua utilização. Os princípios higienistas, defendidos pelas Luzes do século XVIII, e o crescimento populacional das cidades lotaram os antigos locais de enterramento (cemitérios paroquiais e interiores de igrejas) e obrigou a encontrar soluções alternativas.
A possibilidade de criar algo original para os enterramentos dos mortos levou ao desenvolvimento de singulares ideias conceptuais; algumas inspiradas na Antiguidade e influenciadas directamente pelos revivalismos artísticos e arquitectónicos que marcaram o período de Oitocentos: os revivalismos clássicos e egípcio. Um dos exemplos mais curiosos foi a proposta da Grande Pirâmide de Londres (1842): uma construção gigantesca, inspirada nas pirâmides egípcias, imaginada para ter capacidade de albergar cerca de cinco milhões de mortos, acomodados em noventa e quatro camadas; o que lhe daria uma altura superior à da catedral de St. Paul – se esta ideia tivesse sido aceite, hoje observaríamos uma paisagem urbana bem diferente em Londres e, mais significante ainda, os cemitérios contemporâneos seriam por todo o mundo muito diferentes.
Em 1830, a General Cemetery Company de Londres decidiu desenhar os novos cemitérios seculares e os jardins paisagísticos ingleses foram uma das suas maiores influências, assim como o popular e bem-sucedido modelo parisiense do cemitério de Père Lachaise. Criado em 1803, sob a forte ascendência dos aclamados jardins paisagísticos de Stowe, que recriavam os Campos Elísios descritos pelo poeta Virgílio na Eneida (imagem perpetuada pelo célebre poeta Gilbert West, em 1732, na descrição que fez dos famosos jardins do seu tio Lord Cobham). Construído nos terrenos que haviam pertencido ao padre jesuíta confessor de Luís XIV, o cemitério venceu a desconfiança dos parisienses e reinava como o mais cobiçado local de enterramento da Cidade das Luzes, graças a uma manobra publicitária que permitiu lá enterrar Molière e La Fontaine, assim como os malogrados amantes Abelardo e Heloísa, elevando o estatuto do cemitério.
Os seus serpenteantes caminhos em pedra, árvores frondosas e plano inclinado, permitem invocar imagens de paz e serenidade, materializando o conceito dos cemitérios-jardim que hoje conhecemos: uma versão terrena e utilitária dos Campos Elísios e de Arcádia, em comunhão harmoniosa com a natureza. É, por isso, impossível fugir a essas referências a Arcádia e aos Campos Elísios quando visitamos os cemitérios ingleses mais representativos deste estilo, como Kensal Green ou Highgate, os mais emblemáticos dos cemitérios vitorianos que circundam a cidade de Londres, conhecidos como os Sete Magníficos.
A constância das referências da Antiguidade nos cemitérios românticos pode ser calculada na forma como eles foram projectados como cemitérios-jardim, onde ainda hoje a vegetação abundante se mistura com as pedras dos jazigos, escondidos entre caminhos ziguezagueantes, reconstruindo os paraísos utópicos de Arcádia e dos prados eternos dos Campos Elísios. Porém, é também possível encontrar essas referências nas próprias construções e nos elementos decorativos que preencheram os cemitérios nos anos seguintes à sua construção; mesmo naqueles que, como aconteceu em Portugal, fugiram à criação dos cemitérios-jardim, optando por modelos mais ordenados e menos orgânicos. Foram repescadas as pirâmides e obeliscos egípcios e as colunas e frontões dos templos greco-romanos. As decorações, a apropriação de imagens antigas e conceitos clássicos, toda essa simbologia agora recontextualizada no espaço da Morte, no interior dos cemitérios, renovou a linguagem representativa da morte com o objectivo de comunicar com aqueles que visitavam e observavam as campas.
A cultura clássica, que continua a fazer parte da formação e educação das classes altas, invade também o espaço cemiterial e aparece na decoração dos jazigos, com mais ou menos enfase, dependendo também da inclinação religiosa do dono do jazigo. Há vários exemplos, mais ou menos comuns, que podem ainda hoje ser encontrados: os lacrimais romanos, as urnas funerárias, o alfa e o ómega do alfabeto grego, mas também referências egípcias com esfinges e papiros – estas menos comuns em Portugal.
A apropriação dos clássicos passou também pela apropriação de personagens, especialmente de duas delas: Chronos, o Pai-Tempo, representado por um velho de longas barbas que agarra uma ampulheta ou uma gadanha; e Átropos, representada por uma mulher com um fio e uma tesoura. Das três parcas encarregues dos destinos dos homens é Átropos quem determina o fim da vida humana e corta o fio que a simboliza. (As outras parcas são Cloto, representada com um fuso e responsável pelos nascimentos e partos, e Láquesis, que enrola e estica o fio, determinado os atributos dos homens.)
A simbologia específica da morte foi crescendo e tornando-se mais comum: a gadanha de Chronos começa a ser representada de forma isolada, sem recorrer à figura humana; a ampulheta aparece também sozinha e ganha asas (de pomba ou de morcego – diurnas ou nocturnas). Aparece a tocha invertida, os salgueiros-chorões, a coluna ou arco quebrado, o caduceu tombado, a papoila dormideira, a caveira (que já fazia parte deste universo nas representações de Danse Macabre da época medieval), a árvore com um galho partido, esqueletos e ossadas – e a tesoura e o fio cortado, já sem a figura feminina de Átropos.
Os símbolos da morte sofrem, pois, uma estilização: ícones desapartados da figuração antropomórfica, seguindo de perto, afinal de contas, a essência mnemónica, simbólica e abstracta da morte.

4.11.17

AGM 2017 - Atenas, Grécia

Anualmente, os membros da Association of Significant Cemeteries of Europe reúne em assembleia (AGM - Annual General Meeting), durante um evento de três dia,s dedicado às temáticas que orbitam em torno dos cemitérios.

Cartaz AGM 2017
Estes encontros anuais permitem que tafófilos de vários países possam partilhar experiências, divulgar livros, visitar cemitérios, conhecer costumes fúnebres, ver e fazer apresentações sobre temas cemiteriais e conviver com outras pessoas com interesses semelhantes.
Este ano, o AGM 2017 teve lugar na Universidade de Harokopio em Atenas, na Grécia, entre os dias 5 e 7 de Outubro, com o tema Ancient Greek Art and European Funerary Art.
O programa do evento incluiu três dias cheios de visitas, experiências e apresentações: 29 apresentações, 36 cientistas e pesquisadores, 2 palestrantes principais, 3 cemitérios, 1 ritual funerário grego, 2 duas recepções oficiais 
e um fantástico grupo de cerca de 100 pessoas (aguardamos números oficiais de participantes). Podem consultar o programa completo através deste link.

O primeiro dia começou com a AGM (o detalhe da reunião pode ser consultado no site oficial da associação), mas não posso deixar de destacar dois pontos muitos relevantes para a comunidade tafófila portuguesa:

  • Na apresentação dos futuros membros, a Câmara Municipal de Lisboa foi apresentada como uma das instituições que está em processo de adesão à associação, o que coloca em grande destaque os cemitérios da capital portuguesa. Finalmente, os cemitérios fantásticos que temos em Lisboa (como Prazeres, Alto de São João, Ajuda, Lumiar, Benfica,...) vão ter oportunidade de fazer oficialmente parte das rotas europeias de cemitérios e cultura cemiterial. Parabéns à CML e aos seus colaboradores e votos que a candidatura chegue rapidamente a bom porto!
  • Nos destinos dos próximos AGM, ficámos a saber que 2018 será em Innbruck (Áustria), em 2019 será em Ghent (Bélgica) e, um dos locais propostos (e ainda é apenas proposta) para 2020 é a cidade do Porto. Parabéns aos Cemitérios do Porto pelo trabalho de excelência que têm vindo a desenvolver de forma regular nos últimos anos, promovendo os seus cemitérios com visitas, concertos, percursos. Faço votos que a proposta se torne numa realidade e que, em 2020 o Porto seja a capital europeia da tafófilia, recebendo este evento internacional

Dr.ª Sophie Oosterwijk e o monumento
funerário de D. Afonso, em Braga
Ainda durante a manhã, moderadas pela Prof. Evangelia Georgitsoyanni (responsável pelo Editorial Board e o Organizing Committee), foi possível ouvir as palestras principais pela Dr.ª Sophie Oosterwijk e pela Dr.ª Julie Rugg. 
Destaque para a extraordinária peça funerária de D. Afonso, primogénito do rei D. João I e que faleceu aos 10 anos, tendo sido inumado na catedral de Braga, parte da apresentação da Dr.ª Sophie, e que me vai obrigar a visitar novamente a cidade de Braga a curto prazo.

Depois do almoço, em sessões paralelas, foram muitas as apresentações, de diversos cemitérios pela Europa: de Espanha à Croácia, passando pela Bélgica e, claro, com grande ênfase para os cemitérios gregos. 
É com satisfação que se consegue perceber que, cada vez mais, os cemitérios e os monumentos funerários são tema de estudo, com profundidade e seriedade, e a divulgação destes trabalhos e deste tipo de eventos é fundamental para o crescimento e maturação da área.
O dia terminou com uma recepção na Câmara Municipal de Atenas, que nos ofereceu um cocktail nas suas belíssimas instalações.

O segundo dia iniciou com novo painel no auditório principal, onde tive o prazer de representar Portugal, fazendo uma apresentação sobre o Jazigo Palmela, do cemitério lisboeta dos Prazeres.

The Palmela Mausoleum in the Prazeres Cemetery, Lisbon: A Symbolic interpretation por Gisela Monteiro
(foto de Valeria Celsi - obrigada!)
Não posso deixar de agradecer novamente ao Dr. Licínio Fidalgo por toda a disponibilidade durante a fase de preparação dos trabalhos.
Espero que a apresentação e a contextualização histórica do surgimento dos cemitérios em Portugal tenha também sido um convite para sermos visitados, porque os nossos cemitérios têm muita arte e muitas histórias para contar. Pelo feedback que obtive no intervalo, deixámos muita gente curiosa e com vontade de saber mais sobre a nossa história e os nossos cemitérios.
Logo que a publicação das actas da conferência esteja concluída disponibilizarei online o paper que esteve na origem da apresentação.

Kerameikos
O dia continuou com mais apresentações, seguida de uma visita ao cemitério de Kerameikos, onde passeámos entre marcos tumulares datados de 400 a.C., antes da visita ao museu onde estão guardadas algumas das peças originais, descobertas durante os trabalhos arqueológicos.

Seguiu-se uma viagem até Kifissia, nos arredores da cidade de Atenas, onde tivemos a oportunidade de experimentar um ritual funerário tradicional grego, normalmente celebrado passados 40 dias após a morte de um ente querido, em que os familiares e amigos se reúnem para beber café grego (feito de uma forma em que a bebida não é coada, mantendo as borras para serem bebidas com o café), pequenos biscoitos secos, uma bebida alcoólica parecida com cognac e um bolo tradicional, chamado koliva, feito de frutos secos e sementes, misturado com açúcar e trigo cozido.
Koliva
O bolo é depois desfeito e distribuído pelos convidados em pacotinhos individuais, em conjunto com uma colher.
Foi uma experiência diferente e muito enriquecedora, também por ter sido acompanhada pelo padre ortodoxo da paróquia.
Seguiu-se uma breve visita ao cemitério de Kifissia, aberto propositadamente, um cemitério em uso e com monumentos do século XX e XXI, que terminou já com o pôr-do-sol, o que proporcionou imagens muito bonitas.

O dia terminou nas instalações da Câmara Municipal de Kifissia, foram apresentadas as últimas palestras da conferência, antes de um simpático jantar buffet.

No dia seguinte, bem cedo, fizemos uma visita guiada ao belíssimo Primeiro Cemitério de Atenas, com monumentos maravilhosos, grandiosos e esculturas de autores de renome (este cemitério será alvo de um artigo dedicado, pelo que não entraremos agora em muito detalhe).
Primeiro Cemitério de Atenas
Fica só a nota, para os futuro visitantes: não se esqueçam de usar repelente para melgas e mosquitos, uma vez que existem muitos e bastante agressivos entre os ciprestes do cemitério.
Em último lugar, para fechar os fantásticos três dias dedicados à tafófilia em Atenas, tivemos a oportunidade única de visitar o Museu da Acrópole, tendo como guia o Dr. Georgios Spyropoulos, Director-Geral de Antiguidades e Herança Cultural.

Uma experiência a divulgar e repetir. Para o ano há mais, em Innsbruck!

AGM 2017 in Kerameikos (foto ASCE)
O álbum fotográfico oficial do evento pode ser acedido através deste link.


4.4.17

A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas

No próximo dia 8 de Abril, no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, irá decorrer o colóquio "A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas", organizado pela Comissão de Estudos Olisiponenses da Associação de Arqueólogos de Portugal.



1.4.17

Visitas Guiadas - Cemitérios de Lisboa

Já está disponível o programa de visitas guiadas nos Cemitérios de Lisboa para os meses de Abril, Maio e Junho.
Escolham o local ou o tema que mais vos interessa e inscrevam-se já enviando um email para dmevae.dgc@cm-lisboa.pt.


E no dia 20 de Maio, a visita é nocturna. 


11.3.17

"Da Mortalha ao Caixão" - Elegia


O volume número 5 da Elegia - a revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro - apresenta-nos um dossier especial sobre Urnas Funerárias. Nesse dossier podem encontrar um novo artigo meu, onde apresento a história do caixão, intutilado "Da Mortalha ao Caixão".
Contactem a AAFC e assinem a revista para receber as cópias impressas vale a pena, mas para já, fiquem com o formato digital.

Boas leituras, caros Tafófilos!

9.12.16

Falecidos Famosos: Florbela Espanca

Ao entrar no cemitério de Vila Viçosa, guardado no interior do castelo, limitado pela muralha ameiada, o primeiro sepulcro que vemos é o da poetiza Florbela Espanca (Α:1894 - Ω:1930).

Nascida a 8 de Dezembro, viria a suicidar-se também a 8 de Dezembro, 36 anos depois.

Pelo caminho, uma vida cheia de tudo, mas principalmente cheia de dores que a marcaram profundamente: casamentos fracassados, crianças que nunca nasceram, a angustia da sociedade mesquinha e amores por cumprir e vários livros que ficam para sempre, como Charneca em Flor.


Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!  
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente! 
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar... 
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"