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5.2.23

A Casa Portuguesa nos Cemitérios no GetLisbon

 A fantástica página GetLisbon, que se dedica a partilhar os aspectos mais peculiares de Lisboa desde 2017 - se ainda não seguem nas redes sociais nem recebem a newsletter por email, cliquem aqui e vão até lá - convidou-me para escrever um texto sobre A Casa Portuguesa nos Cemitérios, uma temática a cujo estudo me dedico há já alguns anos.

Passem por lá e leiam. 


Obrigada pelo convite!


9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



23.5.11

Cemitério de Mount Jerome - II

Apesar de já ter escrito no Mort Safe sobre o cemitério irlandês de Mount Jerome, em Dublin, não posso deixar de voltar a mencioná-lo, considerando que - finalmente - o visitei.


Foi uma visita curta, de apenas algumas horas, mas que me ficará na memória.
Sob um céu ameaçadoramente carregado de nuvens, a manhã foi salpicada por chuviscos que deixaram as pedras brilhantes e lavadas.

O espaço, apesar de visivelmente já não estar abandonado, continua com o glamour oferecido pela decandência de décadas de clima agreste e negligência.

Lápides em pedra escura e cruzes celtas cobrem o terreno, destacando o facto de que existe pouquíssima estatuária presente.
Também não se vêm tantos mausoléus como noutros cemitérios europeus, sendo que a maioria das câmaras de enterramento encontram-se no subsolo.

Algumas das peças mais marcantes e afamadas, como a estátua do cão - que dizem representar um cão real, que uivava enquanto o dono se afogava - são realmente imponentes.

Um dos pontos altos é o pequeno café, onde uma simpática senhora vende café, chá e scones caseiros, ainda mornos.
Essenciais ao visitante cansado e com frio.

Ainda tive a oportunidade de ouvir, ao longe, os lamentos de uma gaita de foles, que acompanhava uma procissão funerária, uma vez que este cemitério, apesar de antigo e quase lotado, ainda se encontra activo.

Repito os avisos que fui lendo em vários sites: cuidado ao andarem entre as campas e a lápides; o estado de deterioração do espaço é grande o que torna perigosas as distrações.

Resumindo: vale muito, muito a pena uma visita.


27.2.11

Cemitério de Agramonte


Durante o final do século XVIII, e o inicio do século XIX, uma verdadeira revolução varreu a Europa - e os locais habitados por europeus -, no que diz respeito à forma como a Morte era vista e gerida.

A maioria dos enterramentos eram feitos dentro das igrejas ou nos seus adros, causando graves problemas de saúde; ainda assim, e mesmo confrontados com a realidade do cheiro dos cadáveres em decomposição, que obrigavam as portas das igrejas a ficarem abertas todo o dia e toda a noite, os populares portugueses tentaram resistir valentemente à criação e utilização de cemitérios.
A situação foi de tal momo extrema que deu origem à conhecida revolução minhota da Maria da Fonte, que acabou por descer pelo país e mergulhá-lo em guerra civil, durante alguns meses.
A verdade é que, em 1835, os cemitérios públicos tornaram-se obrigatórios e único sitio possível para inumação.

Na verdade, Lisboa e Porto tinham já cemitérios públicos desde 1833, devido a uma terrível praga de cholera morbus que assolou essas cidades. Para além disso, e no caso específico da cidade do Porto, um cerco levado a cabo por tropas miguelistas causou um situação de salubridade extrema.
Foi necessário encontrar uma forma de proteger os vivos dos miasmas exalados pelos corpos em putrefacção. Foi criado o cemitério da Lapa (privado) e o do Prado do Repouso.

Em 1855, um novo surto de cholera morbus obriga ao fecho dos cemitérios privados das diversas ordens religiosas da cidade e à criação de mais um cemitério público. Agramonte é um cemitério "improvisado", criado para inumação de coléricos e tendo uma capela construida rapidamente com madeira.
A população, tendo possibilidade de escolha, elege o cemitério do Prado do Repouso como preferencial construindo belos monumentos e deixando Agramonte estagnado durante algum tempo.
As ordens religiosas, obedecendo a preceitos internos, procuram forma de manter espaços de enterramento individualizados e conseguem, no processo complexo, começar a adquirir amplos talhões nos cemitérios públicos.

Ao perceber o estigma que pairava sobre o cemitério de Agramonte, este é reestruturado em 1869, numa tentativa de torná-lo mais atractivo.
Entretanto, o cemitério da Lapa, construído num terreno pequeno, e apertado por edificações diversas que o impediam de ser alargado, deixa de ser opção para os mais ricos, ansiosos por construir monumentos faustosos, marcando para a posteridade a sua importância em vida. É necessário encontrar outros terrenos com capacidade de construção e, apesar do Prado do Repouso ser o inicialmente eleito como novo lugar para os defuntos da elite portuense, o prestigio das ordens com talhões privados em Agramonte (S. Francisco, Trindade e Carmo) torna-o , no final do século XIX, no espaço mais desejado como ultima morada.

A estatuária é rica e variada, sendo possivel encontrar nele algumas das mais originais peças cemiteriais existentes no nosso país.

É ainda de notar que uma das grandes diferenças entre os cemitérios do Norte e do Sul, para além de nos primeiros predominarem as cruzes e outras simbologias católica, é o material utilizado na construção de mausoléus. Ao sul, o branco e liso da pedra calcária torna os cemitérios locais cheios de luz; no norte, a utilização de granito, áspero e cinzento, torna-os mais sombrios e solenes, emprestando-lhes mais facilmente um ambiente de luto, muito adequado.

Como ponto de referência, o cemitério de Agramonte fica situado junto à rotunda da Boavista, um dos pontos nevrálgicos da cidade. Merece uma visita. Ou duas...

17.2.11

El Arafa: A Cidade dos Mortos

A sudoeste da cidade do Cairo estende-se uma enorme necrópole com mais de seis quilómetros de largura, constituída por uma malha apertada de mausoléus e túmulos islâmicos, conhecida por el'arafa ou seja "o cemitério".

Fundado no século VII, quando um dos comandantes árabes responsáveis pela conquista do Egipto o criou para a sua família, este foi, desde sempre, um cemitério habitado.
Inicialmente, os habitantes eram os responsáveis pelos enterramentos e pela manutenção das campas dos nobres e os sufi (místicos islâmicos).

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El Arafa - foto de Dmitry Gudkov

Actualmente, vivem nesta extensa necrópole cerca de um milhão de pessoas. Alguns, dizem ter escolhido o local pela proximidade dos seus familiares falecidos, mas o devastador terramoto de 1992, as demolições na cidade do Cairo e especialmente a enorme vaga de migrantes que chega à cidade em busca de trabalho, sem ter onde ficar são os grandes responsáveis pela transformação desta cidade dos mortos numa cidade de vivos.

Entre os mausoléus encontram-se carros e móveis, televisões ligadas, tachos fumegantes e crianças brincando entre as pedras tumulares; há cafés, mercearias, oficinas de automóveis e, todas as sextas-feiras, um enorme mercado.
Inúmeras procissões fúnebres percorrem as ruas apertadas, todos os dias.



Numa coprodução de Portugal, Espanha e Egipto, Sérgio Tréfaut filmou um interessante documentário sobre o dia-a-dia destes vivos em terra de mortos, tendo mesmo ganho o Grande Prémio da Documenta em Madrid (2010).

Por cá, o documentário passou no IndieLisboa em Abril de 2010 e deverá estrear nas salas de cinema de Lisboa e Porto em Abril deste ano.

16.2.11

As Catacumbas de Paris - III

« Arrête ! C'est ici l'empire de la Mort. »

É com esta epígrafe do poeta Jacques Delille que os duzentos e cinquenta mil visitantes anuais das catacumbas de Paris são recebidos ao entrarem no Ossário Geral da cidade, depois de descerem os quase cem degraus e de terem esperado em pé, horas a fio, numa fila à entrada que, por vezes, dá a volta à rua e estende-se pelo jardim.

A segurança dos visitantes exige que o percurso com aproximadamente dois quilómetros nunca tenha mais que duzentas pessoas, pelo que o número de visitantes é control
ado por um sistema de torniquetes. Assim também se garante que ninguém é esquecido, se perde ou esconde lo labirinto de ossadas.

As catacumbas de Paris são uma das atracções turísticas de maior sucesso na cidade e estão abertas ao público desde 1874.

Inicialmente, depois de terem passado anos com as noites interrompidas pelo latim das ladainhas
dos padres, mais o barulho das carroças transportando os ossos dos cemitérios da cidade para os túneis das pedreiras subterrâneas, os parisienses sentiram uma natural curiosidade em visitar o ossário e passear entre as ossadas dos seus antepassados.


Perante os numerosos pedidos que iam chegado a todas as entidades envolvidas da criação e manutenção do ossário, foram disponibilizados
funcionários que acompanhavam grupos em visitas; infelizmente, houve quem se aventurasse sozinho e, algum tempo depois, descobriram-se roubos e outras formas de vandalismo.

As visitas foram formalmente proibidas e os únicos visitantes a descer às catacumbas num período de quarenta anos foram altos dignitários franceses e estrangeiros, mediante convites especiais.

Quando as visitas voltaram a ser permitidas, viram-se verdadeiras enchentes de gente que se acumulava nas galerias subterrâneas, duas vezes por mês, seguindo as indicações deixadas pelos funcionários do ossário, que haviam marcado o percurso no tecto, com fumo de vela.

Depois, claro, recomeçaram os acessos ilegais.

Munidos de velas, os parisienses desciam para passear pelos túneis subterrâneos e há mesmo relatos de picnics e festas na companhia dos restos mortais.

A mais célebre dessas ocasiões ocorreu a 2 de Abril de 1897.

Cerca de uma centena de parisienses recebeu um misterioso e anónimo convite: por volta da meia-noite deveriam apresentar-se sozinhos na entrada das catacumbas.
Descidas as escadas em silêncio, os convidados foram surpreendidos por uma orquestra com cerca de quarenta e cinco músicos e artistas, que tocaram e declamaram poesia até às duas e meia da manhã
.
Entre as músicas escolhidas contou-se a Marcha Fúnebre de Chopin, que em 1849 tinha sido tocada em Père Lachaise quando o seu autor foi a enterrar, e a Marcha Fúnebre de Beethoven, parte da 3ª Sinfonia.

Os acessos ilegais continuam, apesar de actualmente das catacumbas serem policiadas. Conta-se que em túneis mais afastados, povoados clandestinamente pelos já célebres catófilos e certamente inspirados nos relatos das aventuras do século XIX, se montam bares, salas de cinema e se dão concertos onde se ouve música, se bebe absinto e se vêem filmes de terror. Alguns desses locais são encontrados uma vez por outra pela policia, sempre desertos, recém-abandonados.

Em Setembro de 2009, as catacumbas tiveram de ser encerradas ao público; e assim permaneceram por um período de quatro meses, depois de uma noite violenta em que um grupo de vândalos conseguiu acesso às galerias subterrâneas e destruiu e desarrumou grande parte das ossadas, espalhando-as pelos diversos percursos.

Actualmente, já podem ser novamente visitadas.

Não percam a oportunidade, mas não tentem levar nenhuma recordação: para além de não ser respeitoso, os seguranças que vigiam a saída asseguram que os seis milhões de parisienses que repousam nos túneis subterrâneos continuam a ser seis milhões.



12.2.11

As Catacumbas de Paris - II

De Pedreira a Ossário Geral de Paris

Durante séculos os mortos de Paris foram sendo enterrados à volta das igrejas, normalmente em charniers, valas comum abençoadas que permitiam enterrar rapidamente um número grande de cadáveres e que iam sendo abertas e fechadas com rapidez, conforme ficavam cheias. Quando possível, os ossos eram retirados e preservados fora das sepulturas, mas ainda assim, empilhavam-se os mortos uns sobre os outros, dentro da cidade.

Inicialmente, quando a lei era a Romana, em Paris como no resto do Império, os mortos eram levados para fora das muralhas das cidades, para cemitérios em locais relativamente arejados e isolados, mas a chegada do Catolicismo construiu igrejas e capelas e disseminou a ideia de que a proximidade dos mortos desses edifícios sagrados, assim como o pagamento do serviço de inumação, garantiria a salvação.
Rapidamente os terrenos em volta das igrejas se encheram de cadáveres e também no interior se faziam inumações. As famílias nobres conseguiam ter pedras gravadas no chão das igrejas, sobre os seus mortos, ou comprar um pequena capela para toda a família. Para os pobres eram abertas valas comuns que se iam enchendo e cobrindo ao longo do tempo.
O aumento populacional começou a sobre-lotar estes cemitérios e o crescimento da cidade engoliu-os e apertou-os entre as moradias, lojas de artífices e mercados. A terra, saturada, já não devorada as carnes com a mesma rapidez e os ossos misturavam-se com corpos mais recentes. O cheiro era nauseabundo e desde o século XVI que há registos oficiais de reclamações.
Epidemias e infecções varriam família inteiras nas vizinhança destes antros de morte e rapidamente as igrejas pareciam ter sido construidas num pequeno vale, rodeadas de elevações artificiais nascidas dos enterramentos acumulados, e transformadas em criptas funerárias, recheadas com as ossadas dos ricos.
Por toda a cidade se sentia o cheiro putrefacto dos corpos em decomposição e mesmo a água e o pão que se comiam e bebiam estavam contaminados.
Mas mais uma vez, e à semelhança do que acontecera anos antes com os túneis das pedreiras subterrâneas de Paris, foi preciso um desabamento para que todas as queixas, relatórios e reclamações fossem levadas a sério.


Em 1780, as paredes da cave de um edifício que ficava paredes meias com o cemitério de Les Innocents cederam, empurradas pelo peso dos milhares de cadáveres que se acumulavam nas valas do cemitério.
Ossos e corpos putrefactos tombaram para dentro da divisão, contaminando tudo e todos.
Rapidamente, as entidades oficiais decretaram que Les Innocents devia ser encerrado, mas sem outra solução mais eficaz, só se agravou a situação dos restantes cemitérios da cidade, obrigados a receber os corpos que tinham pertencido ao cemitério encerrado.

A resolução definitiva chega em 1785, quando uma proposta de utilização dos túneis das pedreiras de calcário como ossário foi aceite.
Todos os cemitérios do interior da cidade foram fechados e iniciou-se o processo de exumação e transladação. As ossadas foram retiradas da terra, limpas, empilhadas em carroças e cobertas por panos negros. Padres acompanhavam as carroças, rezando ladainhas em latim e entoando cânticos sagrados, enquanto cavalos negros levados à mão as puxavam, trotando na noite pelas ruas de Paris, carregando as ossadas para sul da Porte D’Enfer, junto à qual se fazia o acesso às recém convertidas catacumbas.
Essas macabras procissões nocturnas duraram anos, até que os cerca de seis milhões de parisienses, enterrados nos cemitérios, ficaram finalmente amontoados nas entranhas da cidade crescente.

Só mais tarde as ossadas foram dispostas como as podemos ver, de forma ordenada junto das paredes, criando padrões usando caveiras e restos de placas e cruzes, recuperadas dos cemitérios desmantelados.
Nas paredes subterrâneas estão cruzes e corações feitos com caveiras, rodeados por tíbias e fémures empilhados, espectáculo que se estende por quase dois quilómetros, onde estreitos corredores desembocam em galerias espaçosas, iluminadas parcamente e ostentando poemas e versos em latim e francês antigo. Essa arrumação, assim como a selecção dos textos de cariz filosófico e poético que acompanham os restos mortais, foi da responsabilidade do Visconde de Thury.

Foi assim que as pedreiras de Paris se tornaram no Ossário Geral da cidade. E é assim que nasce um novo desejo entre os parisienses: visitar as catacumbas.

11.2.11

Até Que a Morte nos Separe...

A Câmara Municipal de Lisboa preparou um conjunto de actividades especiais para comemorar o dia de São Valentim, um pouco por toda a cidade: Enamorados por Lisboa.

Um desses programas é perfeito para nós, Tafófilos:
"Até Que a Morte Nos Separe" é um passeio guiado pelo Cemitério dos Prazeres onde prometem dar-nos a conhecer histórias de amor que atestam e até ultrapassam o romantismo deste juramento.
Não se esqueçam de marcar!


Dias 12, 13, 19 e 20 de Fevereiro das 12 horas às 13:30 horas.
Marcações através do número: 213 912 699 ou 213 912 700

10.2.11

As Catacumbas de Paris - I

As Pedreiras de Paris

Paris é uma cidade luminosa e sem complexos, que assume os seus mortos e os promove como atracções turísticas de qualidade, sem vergonha ou hesitações.
As catacumbas de Paris são uma dessas atracções turísticas, tal como os cemitérios: Père Lachaise, Montmartre, Montparnasse e, em menor dimensão mas não menor interesse, Passy, o mais recente dos quatro.

A enorme rede de túneis sob Paris não nasceu para ser o ossário da cidade, guardando carinhosamente as ossadas de cerca de seis milhões de Parisienses, anteriormente enterrados nos cerca de duzentos pequenos cemitérios por toda a cidade.

Na realidade, as galerias subterrâneas que formam as catacumbas foram sendo lentamente construídas, durante séculos, por desbaste da rocha calcária que serve de base à cidade, consumida como matéria prima nas construções à superfície. Os romanos tinham enormes pedreiras a céu aberto, afastadas centro de Lutécia (Paris nos tempos Romanos). Através dos tempos, o calcário continuou a ser usado na construção de edifícios, ano após ano, mas com os veios a serem explorados por meio de túneis, a cerca de vinte metros de profundidade.

Como toupeiras, os mineiros cavavam galerias estreitas que iam secando de pedra e alargando, para depois as abandonar, seguindo outro veio de rocha quando aquele falhava. Alguns dos túneis abandonados foram tapados com cascalho, outros não. A rede subterrânea de túneis e passagens foi aumentando de forma irregular e sem plano, criando labirintos escavados na rocha, em direcção ao coração da cidade. De igual forma, Paris foi crescendo, à superfície. Algures no tempo, a cidade sobrepôs-se ao túneis calcários, que continuaram a ser escavados nas suas entranhas.

No século XVIII, em 1774, a cidade apanha um grande susto: uma derrocada num túnel abandonado engole a Rue d'Enfer (Rua do Inferno), deixando apenas um buraco e escombros. A este primeiro desabamento seguem-se outros, engolindo edifícios, pessoas, animais, deixando a população em pânico e assustada.
Imagens de demónios das profundezas tragando a cidade nascem na imaginação dos Parisienses e espalham o histerismo.

O rei encomenda estudos que revelam a verdade temida: os túneis das pedreiras de Paris são extensos, instáveis e não existem planos de mitigação de risco.
E é assim que no ano de 1776 se vê nascer um novo serviço na cidade, a inspecção das pedreiras - Inspection des Carrières - que tem como missão inspeccionar, reparar e mapear as pedreiras abandonadas.

Ao mesmo tempo, Paris viu-se a braços com outro problema derivado do crescimento da cidade, igualmente difícil e também capaz de alimentar as imaginações mais impressionáveis: os cemitérios da cidade estavam sobrelotados.

6.2.11

Igreja de S. Francisco, Porto

Durante um largo período da nossa história, que só terminou em meados do século XIX, as inumações - enterros - eram realizadas no interior das igrejas ou nos seus adros, sendo que a proximidade com os locais mais sagrados, como o altar principal ou as capelas contendo relíquias de santos, eram apenas para os mais ricos, uma vez que eram os mais caros.
Também apenas os ricos tinham direito lajes gravadas, identificando o morto, sendo que os mais pobres eram inumados em valas comuns.

Os cemitérios públicos aparecem, maioritariamente, nos anos 30 do século XIX, mas a resistência do povo à sua utilização foi de tal forma fervorosa que levou mesmo a uma revolta popular seguida de uns meses de guerra civil: a revolução da Maria da Fonte, que teve inicio no Minho.

A cidade do Porto tinha diversos cemitério privados, muitos deles propriedade de ordens religiosas que se recusavam a fechar os cemitérios e a passar a enterrar os seus mortos nos novos cemitério públicos, que se pretendiam com um carácter laico ou, pelo menos, ecuménico.

Epidemias de cholera morbus e o cerco da cidade do Porto, levado a cabo pelas tropas Miguelistas, levam à criação dos cemitérios do Prado do Repouso e Agramonte e à obrigatoriedade da sua utilização.

As catacumbas da Igreja de S. Francisco da Ordem Terceira, no Porto, são das únicas que podem ser visitadas em Portugal e onde ainda se podem ver gavetões datados de meados do século XIX.
Estas catacumbas podem ser visitadas, mediante a compra de um bilhete, que dá acesso a todo o museu e ao interior da magnifica igreja, com belíssimos altares cobertos de talha dourada e, claro, às catacumbas.
Consta que o interior da igreja está forrado com cerca de 600 quilos de ouro.

O chão das catacumbas é composto de grandes rectângulos de madeira gasta e acinzentada que baloiçam sob os nossos pés e ressoam a vazio: por baixo deles estão enterrados os irmão da confraria. Não existe sequer identificação relativa aos restos que aí repousam: apenas números.

As paredes das criptas centrais estão forradas com gavetões onde as urnas eram arrumadas de lado, uma vez que os corredores e as criptas são estreitos e por isso, ainda que de outra forma (à semelhança dos gavetões existentes nos cemitérios actuais) permitisse um maior número de inumações por parede, seria impossível manobrar as urnas.

Os gavetões são todos iguais (ver imagem acima) numerados, e com os nomes e datas dos falecidos gravadas no exterior. É ainda possível encontrar alguns vazios, uma vez que por volta de 1855 a Ordem Terceira de S. Francisco adquiriu terreno no recém criado Cemitério de Agramonte, tendo aí estabelecido um cemitério privado, no interior do recinto do cemitério municipal, contornando assim a lei que encerrou os cemitérios privados existentes no Porto e proibiu a criação de novos.

Num das últimas criptas, pode ainda ver-se no chão uma velha grade, coberta agora de vidro, que é um dos pontos altos da visita.
A grade permite observar pilhas de ossos amontoados desordenadamente no centro de uma câmara.
Partidos, esmagados, conseguem distinguir-se crânios dos mais variados tamanhos, pertencentes aos irmãos da Ordem Terceira que pretendiam aguardar a ressurreição no dia do Juízo Final em terreno sagrado, sob o tecto protector de uma igreja.

Este é mais um local que merece ser visitado.