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30.6.26

Finalmente: Staglieno

Depois de anos a pensar nisso, tive finalmente a oportunidade de passar dois dias em Staglieno. Fui propositadamente a Génova para ver o cemitério e, se me perguntarem o que achei da cidade, não tenho muito a dizer porque não a vi. Se me perguntarem do cemitério... bom, espero que tenham paciência porque tenho muito a dizer.

Todos os comentários que dizem maravilhas e que sublinham a quantidade e qualidade dos trabalhos de escultura do cemitério são verdadeiros. São corredores e corredores cheios de nichos com esculturas detalhadíssimas, a maioria de um realismo inacreditável, com as paredes cobertas por estelas com baixos-relevos que, noutro sítio, destacar-se-iam como preciosos. 

Quando achamos que já vimos tudo, ainda faltam as fotografias e retratos pintados em medalhões de loiça, os pequenos bustos, as flores e plantas de todas as espécies - até aloé em pedra e em bronze encontrei - e, claro, as obras que já se conhece de fotografias, livros, álbuns de música. 

Levei a minha velha e fiel Cannon e trouxe vários cartões cheios de fotografias. Também não resisti e tirar muitas com o telemóvel e vou partilhando tudo na conta do Instagram do Mort Safe

As coisas que vou percebendo e aprendendo com todos estes cemitérios que vou visitando ao longo dos anos ajudam-me a olhar com outros olhos para os cemitérios que estudo com mais afinco, os de Lisboa; ao mesmo tempo, essa dedicação aos cemitérios de Lisboa permite-me observar de outras forma os cemitérios de fora, seja em Portugal ou em outros países.

Claro que comprei vários livros sobre os cemitérios italianos onde estive; para além de Staglieno, também visitei muito brevemente o Cemitério Monumental de Turim, uma vez que segui para a conferência da ASCE, onde fiz uma apresentação sobre vários projectos cemiteriais em Portugal. O calor não me deixou desfrutar do Cemitério de Turim como gostaria de ter feito, mas, em boa verdade, depois de dois dias nas galerias de Staglieno, é difícil ver qualquer outro cemitério.

Gostava de voltar, percorrer os corredores onde não fui, ver o resto do cemitério, encontrar outras peças, tirar mais fotografias, observar outras coisas.

Até à próxima Staglieno.

E para quem está a ler este post, marque uma viagem a Itália: na minha opinião, eles têm os melhores cemitérios da Europa. 




5.8.11

Monumentos Memoráveis: Anjo da Mágoa

Todas as artes têm a sua Mona Lisa: uma peça que toda a gente conhece, que toda a gente já viu algures e que consegue, muitas vezes, saber o nome do autor, o estilo a que pertence, o local onde se encontra.

Não sei se podemos dizer, sem sombra de dúvida, qual é Mona Lisa da escultura cemiterial, mas se tivesse de escolher uma peça, escolheria o Anjo da Mágoa (Angel of Grief no original) de William Story.


Esta peça magnifica encontra-se na campa da família Story, no Cemitério Não-Católico de Roma e foi o último trabalho do artista, que a concebeu pouco tempo antes de morrer, para a campa de Emelyn Story, sua esposa.

Os registos que encontrei diferem, colocando a morte de Emelyn e eventual realização da peça ora em 1894, ora em 1895. No entanto, em algumas imagens disponibilizadas na Internet, é possível ver uma data gravada no monumento: Janeiro de 1895; uma vez que William Story faleceu em Outubro de 1895, podemos concluir que a data diz respeito à sua mulher e que a peça foi feita entre Janeiro e Outubro de 1895.

Esta é, sem dúvida uma das obras cemiteriais mais conhecidas, tendo até sido utilizada como imagem de capa de diversos discos; recordo, a título de exemplo, a capa do álbum Embossed Dreams in Four Acts da banda de metal grega Odes Of Ecstasy.

Para além disso, o magnifico Anjo de Story foi também replicado em quase todos os países: só nos Estado Unidos foram registadas mais de onze reproduções em diferentes cemitérios.
Existe até um grupo, no site de fotografia Flickr, dedicado apenas a fotografias deste anjo, recebendo imagens de todo o mundo.

Surpreendentemente - ou não! - ainda não encontrei nenhuma réplica exacta do Anjo da Mágoa em cemitérios portugueses, ao contrário do que aconteceu com a imagem do anjo e da donzela de Frederico Fabiani, existente no Jazigo Parpaglioni em Génova; no entanto, quer no cemitério de Agramonte, no Porto, quer no cemitério da Conchada, em Coimbra, foi possível encontrar uma réplica alterada: não se trata de um anjo, mas sim de uma mulher e, no lugar do ramo de carvalho aos pés do altar, podemos encontrar uma criança pequena, tentando alcançar a mão caída da mulher.

A informação que encontrei diz que o trabalho do cemitério de Agramonte (em baixo, à esquerda, a preto e branco) é da autoria de Teixeira Lopes, mas não tem qualquer referência à autoria da peça que se encontra em Coimbra (em baixo, à direita, a cores).



Ambas são belíssimas e, como quase todas as peças que tenho encontrado nos nossos cemitérios, mereciam maior atenção e destaque.