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7.5.12

Recomendações Tafófilas para a Feira do Livro

Mais uma vez, a Feira do Livro de Lisboa surge-nos no final de Abril, prometendo acompanhar-nos até inícios de Maio, mais exactamente de 25 de Abril a 13 de Maio.


Este ano não temos nenhum livro de ficção para propor, mas a proposta do ano passado, para quem não teve oportunidade de comprar, continua a ser uma boa aposta.

Quanto à não-ficção, temos dois livros de autores portugueses.

O primeiro foi editado há alguns meses e é um volume curioso, que conta a história da morte - e um pedacinho da vida - de personagens portuguesas famosas.
Escrito por Ricardo Raimundo, Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas na História de Portugal da editora Esfera dos Livros, é uma das propostas Mort Safe deste ano.
De Martim Moniz a Joaquim Agostinho, passando por Luís de Camões, Aristides de Sousa Mendes ou D. Maria II, este é um volume a não perder para os tafófilos com um gosto especial pela História de Portugal.
Destaco, por exemplo, a história de Garcia de Orta, um genial médico português, de origem judaica, que viajou para fugir aos tentáculos da Inquisição, tendo morrido na Índia.
Apesar de ter morrido de morte natural, acabou por não escapar a ser castigado por ser cristão-novo: foi exumado e os seus restos mortais queimados pela Inquisição num acto simbólico.
É um dos exemplos que deu origem à expressão "nem os mortos escapam" que era usada para caracterizar a impiedade da Inquisição.

A segunda proposta é o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes de David Soares, editado pelas edições Saída de Emergência, e que promete fazer as delícias de muitos, incluindo os tafófilos.
Dividido em quatro temas principais - História, Ciência, Oculto e Bestiário - o livro é composto por interessantes e detalhados artigos que esclarecem, desmistificam e apresentam novas perspectivas sobre assuntos conhecidos e obscuros.
Sem dúvida ao gosto dos tafófilos, podem encontrar-se histórias fantásticas relacionadas com cadáveres, funerais e costumes mortuários.
Como o livro não está ainda disponível nas livrarias, falámos um pouco com o autor:
Mort Safe: Como é que surgiu a ideia para este livro?

David Soares: Paralelamente à escrita de ficção, sempre escrevi ensaios sobre os temas mais variados, em principal sobre matérias relacionadas com a história e o oculto, que são duas das minhas paixões. No meu livro Sobre BD, editado em 2004, apresentei uma série de ensaios sobre obras de banda desenhada, cheios de canais de comunicação para áreas alheias à banda desenhada, como a ciência ou a filosofia, e, ainda, no final de cada romance que escrevo, costumo incluir um apêndice de natureza ensaística em que desenvolvo nessa linha as referências reais que servem de matéria-prima às ficções. Nesse sentido, o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes é um livro que nasceu desse labor e desse amor pelo estudo da história, da ciência e do oculto. Consiste num volume misto de ensaio e enciclopédia macabra, em que discorro sobre o lado negro da história, da ciência, do oculto e do bestiário: quatro vias de conhecimento, interdisciplinares, que se vão polinizando para oferecer um florilégio muito especial e, sublinho, absolutamente real. Aqui não há lugar para a ficção: tudo o que está no livro é factual. Aliás, deixei de lado muitas histórias interessantes, porque não possuíam fundamento factual.

MS: Ao ler "enciclopédia macabra" não posso deixar de perguntar: e a tafófilia, tem lugar nesta obra?
DS: Tudo o que é incomum, extravagante e bizarro, mas macabro tem lugar nesta obra e, como tal, a tafofilia não é excepção, embora não marque presença exclusiva, antes surgindo em contextos mais amplos. Todavia, o livro contém uma história que pode incluir-se pela porta grande nessa temática e que narra o desfecho trágico e real dos restos mortais de um dos mais conhecidos pintores europeus: Francisco Goya, autor das famosas "pinturas negras".
MS: Com tanto temas diferentes e a necessidade de encontrar fundamentos reais para todos os artigos, suponho que o trabalho de pesquisa tenha sido profundo.
DS: Evidentemente, um trabalho desta natureza, rigoroso e muitíssimo complexo, suporta-se numa pesquisa e leitura profundas dos temas em exposição, assim como num constante cruzamento de fontes que assegura que os mesmos são analisados de maneira fidedigna sem espaço para a mitificação. Pelo contrário, um dos pilares do livro é, de facto, a desmistificação de uma série de conceitos, alguns até bastante enraizados na psique popular. É, felizmente, um livro isento de dogmas, de agendas, no qual o único compromisso que existe é, mesmo, ir ao encontro do conhecimento. É um livro para fãs de conhecimento que não receiem destruir concepções já construídas, mas erróneas. Penso que é um título importante e que contém uma mensagem também muito importante: a de que o conhecimento é luz, mesmo quando emitida por um compêndio negro.

A apresentação do livro (com pré-venda exclusiva) será no dia 12 de Maio pelas 16:30 no Auditório da APEL na Feira do Livro de Lisboa e ficará a cargo do cineasta e escritor António de Macedo.
O Instituto de Meteorologia promete uma tarde de Sol e o autor uma conversa animada.

Apareçam!...

10.7.11

Livros: Memento Mori

Durante a Idade Média praticou-se o chamado enterramento ad sanctos, ou seja, o mais próximo possível de relíquias ou de altares, o que significa que as inumações eram realizadas no interior das igrejas, nos seus átrios e claustros.

Esta prática contrariava o costume deixado pelos romanos de inumar-se longe dos locais povoados; prática também defendida pelo cristianismo primitivo.

As inumações ad sanctos foram abandonadas no século XVIII, em favor de uma política mais próxima da romana, seleccionando-se locais distantes das zonas populosas para se constituírem locais específicos de enterramento: os nossos cemitérios românticos (vitorianos) que, por vários motivos, se tornaram locais seculares, ainda que continuem a ocorrer funerais religiosos.

Recordo que a língua inglesa permite distinguir dois tipos diferentes de cemitérios: graveyard ou churchyard e cemetery. O primeiro usa-se, normalmente, para designar os terrenos em volta das igrejas, onde eram realizadas as inumações até ao final século XVIII, início do século XIX, e o segundo é utilizado relativamente aos cemitérios românticos, do século XIX em diante.

Um dos vários livros de fotografia da autoria do excelente fotógrafo Simon Marsden chama-se Memento Mori e, ainda que seja considerado um álbum de fotografia cemiterial, chamo a atenção para o facto das imagens deste livro serem de igrejas e átrios de igreja ingleses; ou seja, os locais onde eram realizadas as inumações ad sanctos.

As imagens são, como sempre, de uma beleza etérea, quase sobrenatural, onde os exteriores se apresentam no preto e branco exótico, característico dos trabalhos do autor, graças ao uso da técnica de infravermelhos.
Os interiores são aqui apresentados a cor, o que não acontece com frequência nos livros de Marsden, mas - com a excepção dos vitrais, que nos são apresentados em todo o seu esplendor colorido e luminoso - o fotógrafo apresentar-nos imagens quase monocromáticas de grande riqueza; contrariamente ao que, por vezes, acontece na fotografia cemiterial, o uso da cor não tem o efeito distractor que nos leva a ignorar a peça de arte, em favor de um ramo de flores coloridas, por exemplo.

Para além das imagens, Marsden escolheu um conjunto de citações de autores conhecidos e que escreveram sobre a Morte ou, pelo menos, trataram-na sem embaraço nos seus trabalhos, como Charles Dickens, Emily Brontë, Emily Dickinson ou Edgar Allan Poe.

Ainda que não seja o meu trabalho favorito de Simon Marsden é, para todos os fãs de fotografia cemiterial, uma obra a adquirir.


29.4.11

Recomendações Tafófilas para a Feira do Livro

Começou no dia 28 de Abril e irá estar aberta até 15 de Maio a 81ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII.
Este ano, as recomendações do Mort Safe são apenas três: um de ficção e dois livros de não ficção.

Ficção:

Uma Inquietante Simetria de Audrey Niffenegger pela Editorial Presença.

"Quando Elspeth Noblin morre de cancro deixa o seu apartamento em Londres às sobrinhas Julia e Valentina, que nunca chegou a conhecer. As jovens, gémeas idênticas e inseparáveis desde a nascença, decidem mudar-se para lá, na esperança de também conhecerem um pouco mais da história da sua família. Mas o que vão encontrar no prédio com vista para o famoso Highgate Cemetery é muito mais obscuro do que contavam enfrentar… Uma deliciosa história sobre o amor, a identidade, os laços que nos unem e a força da vida, que transcende todas as barreiras. "


Este livro já foi mencionado anteriormente no Mort Safe. Podem ser o comentário aqui.


Não Ficção:

História da Morte de Douglas J. Davies pela Teorema.

"A morte é um assunto de interesse permanente em todas as culturas do mundo. O próprio acto de morrer e os rituais que o rodeiam são extremamente variados e projectam uma luz fascinante sobre as culturas de que fazem parte. Douglas J. Davies, internacionalmente conhecido como um dos maiores especialistas neste campo da história, aborda alguns dos aspectos mais significativos da morte - o acto da própria morte em si, o luto, os funerais, as interpretações artísticas da morte, os memoriais, o medo da morte e os desastres/tragédias - e analisa-os numa abrangente história acerca das diferentes atitudes do homem perante a morte."

Sobre a História da Morte no Ocidente de Philippe Ariès pela Teorema.

"A seguir à história da família, Philippe Ariès consagrou as suas pesquisas à história das atitudes do homem ocidental perante a morte. O que este historiador nos apresente aqui constitui o essencial das suas descobertas: como se passou, lenta mas progressivamente, da morte familiar, «domesticada» (na Idade Média), para a morte repelida, maldita, «interdita» (hoje em dia). Fugir da morte é a tentação do Ocidente."

13.4.11

Morte Magnifica

The cemetery photographs by David Robinson are filled with mystery, melancholy, sly humor, irony, hushed grief, the peace of final silences, sometimes a throttled anger at the fact of mortality, and evena strange wistfulness, but they successfully avoid fulfilling any of the usual expectations to which the subject matter might give rise.
Dean Koontz, Beautiful Death

As palavras anteriores são do escritor Dean Koontz e fazem parte da introdução ao livro de fotografia cemiterial Beautiful Death do fotografo David Robinson.

Beautiful Death é uma belíssima compilação de fotografias tiradas em vários cemitérios da Europa, incluindo Portugal.

Segundo o autor, o livro nasceu na primeira visita que este fez ao Cemitério de Père Lachaise.
A beleza e impacto visual do local deixaram o autor completamente apaixonado e, tendo posteriormente vivido alguns anos em Paris, Père Lachaise passou a ser um dos seus locais preferidos.

Se procurarmos um tema por detrás deste livro-álbum - para além do cemitério, enquanto local de fundo - podemos dizer que este será, talvez, a diversidade.
Contendo imagens de cemitérios em França, Inglaterra, República Checa, Espanha, Portugal e Itália, o autor consegue apresentar uma selecção ampla, explorando as diferentes formas de celebrar a Morte e os mortos.

De Portugal, aparecem apenas cinco imagens, de cemitérios no Redondo e Vila Viçosa. As imagens exploram os pequenos altares de memórias, construidos pelos vivos, contendo fotografias, flores e pequenas recordações, resguardados por detrás de um vidro que os protege da passagem do tempo.

Em Itália, exploram-se as estátuas de bronze negro e verde e os belíssimos retratos pintados no esmalte que representam os falecidos.

A grande maioria das fotografias dizem respeito a França, em especial aos cemitérios de Paris e são realmente bonitas.

Publicado em 1996, Beautiful Death é um trabalho imperdível de David Robinson.


17.3.11

Eternos Parisienses

Para a maioria dos tafófilos, a caça às campas de famosos não é o principal atractivo num cemitério, mas para o visitante comum - que, ao contrário dos primeiros, não nutre um especial carinho por estes espaços - encontrar -se o local do repouso eterno de um nome sonante é, sem dúvida, um dos principais atractivos para cruzar os portões dos cemitérios.

Ainda que em Portugal este tipo de turismo não seja ainda comum, lá fora é extremamente popular e a prova disso são, por exemplo, as multidões que visitam o cemitério parisiense de Père Lachaise ou os autocarros de turismo que param diariamente à porta do cemitério Monumentale de Milão para visitas guiadas.

Normalmente, no próprio local, é possível comprar (ou receber gratuitamente) brochuras com as plantas dos cemitérios, onde os jazigos dos mais famosos residentes se encontram destacados, e que permitem ao visitante não se perder e descobrir com maior facilidade a campa pretendida. No entanto, este tipo de brochuras não costuma ter muito mais informação para além da localização e do nome e, muitas vezes, sentimos vontade de saber mais.
Outras vezes, queremos planear a viagem cuidadosamente e escolher quais os espaços a visitar, e as campas a não perder, e antes de ir não temos acesso às brochuras.
Felizmente, a Internet já nos permite a consultas de sites dedicados a alguns dos cemitérios, com acesso às plantas e outra informação preciosa; ainda assim, nada como ter um guia de bolso, completo e detalhado, contando histórias interessantes; não só sobre os falecidos, mas também sobre as suas campas, monumentos e o cemitério em si.

No âmbito dos Guias Cemiteriais existe uma colecção que merece destaque: a The Permanent Series desenvolvida por Judi Culbertson e Tom Randall.

Até ao momento existem já 5 volumes:
Vamos começar por Permanent Parisians.
Os autores dedicam os quatro capítulos iniciais a Père Lachaise, o que não é surpreendente, se considerarmos a profusão de falecidos famosos que estão enterrado neste cemitério.

Recordamos alguns:
  • Jim Morrison;
  • Georges Rodenbach;
  • Frédéric Chopin;
  • François Raspail;
  • Gustave Doré;
  • Jean La Fontaine;
  • Allan Kardec;
  • Honoré de Balzac;
  • Eugène Dlacroix;
  • Oscar Wilde;
  • Edith Piaf;
  • etc.
Há ainda tempo para falar nos afamados Passy, Montparnasse e Montmartre, para dedicar um capítulo ao Panteão, outro (pequeno) às Catacumbas, sem esquecer pequenos cemitérios suburbanos e igrejas onde foram realizadas inumações diversas, como St. Denis.

O guia está ilustrados com fotografias a preto e branco que permitem visualizar os locais a visitar.

Este é o guia essencial para qualquer tafófilo de visita a Paris, mas mais que isso é um instrumento rico, com um manancial de informação incontornável, sobre as personalidades enterradas em Paris e as suas histórias de vida, mas em especial, as suas mortes.

Mesmo para quem não esteja a planear um visita à cidade da Luz, vale a pena adquirir e ler esta obra.


8.3.11

Livros: The Victorian Undertaker

Durante a época vitoriana, a Morte ocupou um lugar de destaque na sociedade.

Por esse motivo, todas as ocupações e necessidades que lhe estavam associadas ganharam também espaço e importância.

Existia toda a uma cultura em volta do luto, criando objectos personalizados para os períodos que se seguiam à morte de um ente querido e que ia desde os vestidos de senhora, negros e carregados de crepe, até às jóias de prata e ónix ou âmbar-negro - por vezes contendo madeixas de cabelo do falecido -, cartões de visita, material para as cartas e outras comunicações, etc.
Nos jornais da época encontravam-se inúmeros anúncios a armazéns especializados em Luto (os famosos "Mourning Warehouses") e a serviços funerários e aluguer de carretas.

Considerando todas estas questões, o cangalheiro era uma figura reputada e responsável por um dos momentos mais importantes nas famílias, e consequente vida social, dos vitorianos.

Com The Victorian Undertaker, de Trevor May, a colecção Shire Books traz-nos, mais uma vez, um pequeno volume muito bem conseguido, curto, sucinto, mas com algumas ilustrações e percorrendo as ideias principais que pode ser mais um bom livro de iniciação a esta temática e preparação para leitura de obras mais completas, como The Victorian Celebration of Death de James Stevens Curl.

Dividido em seis capítulos, onde se aborda a tipologia de funerais com tudo o que lhe está associado, as carretas funerárias, a joalharia, cartões, postais, publicidade e também os funerais de estado; esta obra de rápida leitura - e preço acessível! - é essencial para os tafófilos principiantes.

22.2.11

Livros: Uma Inquietante Simetria

No inicio do ano passado, quase por acidente, tropecei no mais recente romance da Audrey Nifferneger, a autora do conhecido e já adaptado ao cinema The Time Traveler's Wife.

O livro aparecia referenciado em links associados a tafofilia, pelo que me apressei a encomendar e ler.
Para mim, o interesse principal deste romance é o facto da história se passar num apartamento antigo, sob cujas janelas se estende o célebre e maravilhoso cemitério de Highgate. Aliás, é no cemitério que se passam diversas cenas do romance, mas mais do que ser um cenário curioso e fora do comum, Highgate tem tanto destaque que chega a ser tratado como uma das personagens do livro.

O cemitério de Highgate (do qual falaremos detalhadamente num post mais adiante) é o mais famoso cemitério Londrino; estando dividido em dois e atravessado por uma ampla rua.
A metade mais antiga data de 1839, tendo sido o cemitério da moda para a sociedade vitoriana. Rapidamente, o terreno foi ocupado pelos Londrinos e em 1854 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido adquirido um enorme terreno do outro lado da Swains Lane - a estrada que corta Highgate em dois.

Obviamente que, à semelhança de Père Lachaise, em Paris, o terreno de Highgate está repleto de Falecidos Famosos, alguns dos quais incontornáveis.
É aqui que estão enterrado, entre muito outros nomes conhecidos, Karl Marx, Douglas Adams, Christina Rossetti e Elizabeth Siddal.

É também em Highgate que Lucy, personagem do romance Dracula de Bram Stoker, é enterrada e onde esta dá caça e se alimenta de criancinhas até ser brutalmente assassinada - ou resgatada, dependendo da perspectiva - pelos caçadores de vampiros, entre os quais se encontra o seu noivo.

A parte mais antiga de Highgate encontra-se fechada ao público, sendo apenas possivel visitar o cemitério como parte de grupos, em visitas guiadas.
Durante a preparação do romance Audrey Niffenegger estudou detalhadamente o cemitério de Highgate, de tal forma que chegou mesmo a fazer parte do grupo de guias do cemitério.

Transcrevo abaixo, parte da critica que fiz na altura e que pode ser lida na integra no blog Liquid Dreams Of....
Her Fearful Symmetry conta a história de dois pares de gémeas: Elspeth e Edie e as filhas de Edie, Julia e Valentina.

Nas primeiras páginas do romance Elspeth morre na companhia do amante e vizinho, Robert, um estudioso do cemitério de Highgate. Em testamento, Elspeth deixa todos os seus bens materiais às filhas de Edie com a condição de que estas troquem Chicago por Londres e vivam, durante um ano, no seu apartamento, nas traseiras de Highgate.

Este é um romance muito bem escrito e que conta uma história de perdas e separações. As personagens são ricas e interessantes, cheias de pequenos detalhes e paixões que as tornam reais. Temos Robert, o vizinho do andar inferior ao das gémeas, e a sua interminável tese de doutoramento sobre Highgate, os seus mortos e a sua história; Martin, o vizinho do andar superior, obsessivo-compulsivo, criador de complicados puzzles de palavras cruzadas para o jornal e tradutor de línguas exóticas e perdidas para o British Museum (e que fala fluentemente português!); Little Kitten of Death, um gatinho branco aparecido do cemitério e transformado no animal de estimação de Valentina; James e Jessica os octogenários amigos de Robert e principais cuidadores de Highgate e claro... o próprio cemitério.

Entretanto a Editorial Presença vai publicar o livro no dia 2 de Março sob o título Uma Inquietante Simetria.

É tão raro encontrar romances em que os cemitérios sejam abordados sem pudor: este é um livro que não pode passar despercebido aos tafófilos.

Desejos de boas leituras.

20.2.11

Livros: The Victorian Cemetery

Apesar de em Portugal se escreverem - e se publicarem - pouquíssimos livros sobre cemitérios, arte funerária e afins, lá fora ainda se vão fazendo obras interessantes, que vale a pena ler, não só pela sua qualidade, mas também porque a maioria dos conceitos podem ser aplicados à nossa realidade, mediante pequenos ajustes culturais.

The Victorian Cemetery de Sarah Rutherford é um dos pequenos livros da colecção Shire Library: com apenas setenta páginas, este ricamente ilustrado manual conta-nos o aparecimento e desenvolvimento do fenómeno histórico, cultural e arquitectónico que varreu a Europa, do século XVIII e XIX.

A autora começa por apresentar as origens desta revolução, tendo o cuidado de nos esclarecer acerca das motivações e desejos dos criadores do chamado garden cemetery.
O fenómeno é ainda observado e analisado a nível mundial, durante a segunda metade do século XIX.

Para terminar apresenta uma pequena bibliografia de material aconselhado e uma lista de locais a visitar, infelizmente quase todos na Grã-Bretanha.

Um bom livro de iniciação - e uma boa adição na biblioteca de qualquer tafófilo.

7.2.11

Livros: Cemitérios, Jazigos e Sepulturas

Descobri este volume na bibliografia do excelente Dicionário da História de Lisboa, como uma das fontes para as entradas relativas a cemitérios. Também no Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário este era um dos livros consultados, pelo que só me restou partir em busca deste volume, que imaginei difícil de encontrar por ter sido editado em 1963, numa edição de autor, com o apoio das Coimbra Editores, Lda.

Felizmente, num inesperado golpe de sorte, encontrei o livro na lista de um alfarrabista online e em menos de 24 horas tinha o volume comigo.

É, sem sombra de dúvida, uma obra de referencia. Da autoria de Vítor Manuel Lopes Dias, à altura secretário do Governo Civil do Porto, esta monografia tem o subtítulo de Estudo Histórico, Artístico, Sanitário e Jurídico e é, de facto, tudo isso.

O primeiro capítulo versa sobre ao hábitos de fúnebres humanos desde o inicio dos tempos até ao século XX, dando exemplos concretos e apresentado definições claras e concisas para quase todos os conceitos que estão relacionados. De uma riqueza e fundamentação robusta, este capítulo apresenta, por exemplo, todo o detalhe da revolta da "Maria da Fonte" fazendo referencia a diversos outros autores e obras que também versam sobre o assunto.

Relativamente à componente artística, começam por ser listados, descritos e ilustrados todos os sepulcros existentes em igrejas, conventos e catedrais portugueses, apresentando até uma justificação para o desaparecimento desta arte e claro, fazendo referencia aos escultores e obras de arte presentes nos cemitérios românticos portugueses: Prazeres, Alto de São João, Agramonte e Prado do Repouso.

No capítulo referente à componente sanitária é especialmente interessante observar as regras criadas para a selecção de locais onde edificar cemitérios, assim como todos os preceitos para a criação de campas e jazigos, tipologia de caixões e regras de tratamento. Refere até o tipo de vegetação a ser seleccionada e o porquê.

Por fim, toda a componente jurídica - até à altura - existente relativa a cemitérios e inumações.

Especialmente interessante é, também, perceber como o autor trata a questão da cremação ou incineração de cadáveres. É de recordar que esta monografia foi escrita em 1963 em pleno Estado Novo que, respeitando os preceitos católicos, proibiu a cremação, tendo criado a ideia de que o único forno crematório do país - construído no cemitério do Alto de São João em 1925 - se encontrava avariado e impossibilitado de funcionar. São mesmo apresentadas estatísticas que reduzem o número de cremações a uma a duas por ano, desde '25 até ao momento da "avaria" para justificar este não ter sido arranjado ou construido outro.

Um excelente trabalho que é, sem dúvida, incontornável.

3.2.11

Livros: Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário

Corria o ano de 1993 quando a Câmara Municipal de Lisboa publicou um dos únicos – senão mesmo o único – livro em português sobre cemitérios portugueses; lisboetas, para ser mais exacta.

O autor é Francisco Moita Flores e o livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário é uma edição de luxo, em formato grande, de capa dura, sobre-capa e fita de seda, que deveria fazer parte da biblioteca de qualquer tafofilo que se preze.

Diz-nos Moita Flores na sua introdução:

As páginas que se seguem não são a história dos cemitérios, como esta tradicionalmente é entendida - um discurso cronologicamente organizado sobre a memória, nem quer ser um mero roteiro turístico preocupado com a bela apresentação e de narrativa simplista. É, antes de mais, uma reflexão sobre nós, sobre a nossa cidade, sobre a Morte. Ou dito de outra forma,sobre o modo como os vivos pensam, sentem e representam a Morte. Tornámo-nos, assim, viajantes através da memória, espreitando às encruzilhadas de esperanças e angústias que são ponto de encontro de todos nós, no momento em que reassumimos a consciência da nossa própria finitude.
Apesar de não ser fácil encontrar o livro nas livrarias comuns, ainda pode ser adquirido em alfarrabistas ou, com muita sorte, na loja da Câmara Municipal de Lisboa na Avenida da República.

Quando comprei o meu, há uns anos, ainda lá ficaram dois.

Contém inúmeras fotografias, contextos históricos, alguma simbologia e descrição de rituais de morte e, uma das mais valias do livro, uma visita guiada ao Jazigo Palmela no Cemitério dos Prazeres, um dos maiores jazigos da Europa, que reúne o número recorde de cerca de 200 corpos e restos mortais de elementos da mesma família.





Jazigo Palmela, Cemitério dos Prazeres, Lisboa, Portugal @Gisela Monteiro.2010