Fotografia






Gisela Monteiro dedica-se ao estudo da arte funerária e da história da morte no ocidente, escrevendo e fotografando sobre esses temas. Mantém o blogue Mort Safe e respectivas páginas de Facebook e Twitter, sobre o mundo cemiterial e organiza pontualmente visitas temáticas em vários cemitérios de Lisboa.


Em Novembro de 2014 a sua primeira exposição «Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular» onde em vinte e duas imagens de contexto sepulcral, a preto-e-branco, tiradas em diversos cemitérios portugueses e estrangeiros, se apresentam novos Arcanos Maiores que, mergulhados no mistério e no silêncio próprios dos cemitérios, prosseguem num feitio surpreendente a tradição pictórica do Tarot, esteve patente na El Pep Store & Gallery, no Imaviz Underground.



Vídeo da inauguração da exposição a 15 de Novembro de 2014 na El Pep Store & Gallery.

XVIII - A Lua
Cemitério Monumental de Milão (Milão, Itália)
(Baralho de Rider-Waite)
«Decisivas, estas enfeitiçantes vinte e duas fotografias que Gisela Monteiro tirou a emblemas da vida efémera, em vários cemitérios portugueses e estrangeiros, têm como múnus o repercutir de ressonâncias subversivas que se nutrem do silêncio e do mistério. A cognoscibilidade tipológica entre elas e as reminiscências taróticas é total: ao mesmo tempo que estes tumulares arcanos maiores se inserem naturalmente na tradição pictórica do Tarot iniciada no século XVIII, e nela procuram inspiração, regozijam com uma independência arisca às significações coriáceas com que esses modelos (Etteilla diria hieróglifos) têm sido expostos. São, portanto, etapas de uma demanda ourobórica, na qual se vai até à morte para voltar a entrar no princípio. Ao olhar para os nossos dormitórios definitivos, reintegrando-os, sem dissimulação, nesse espectro do oracular, eles vão ao encontro das perguntas que os mortos nunca deixaram de estar à espera que lhes fizéssemos – um ininterrupto e poroso relacionamento. O oráculo dos mortos de Gisela Monteiro é uma sensível tradução da linguagem com que nos fazemos entender pelos mortos: a da imaginação. Os mortos vivem em exclusivo na nossa cabeça, na selenita esfera dos sonhos, e só através do simbólico (como no caso do Tarot) se estabelece igualdade entre eles e nós. Enquanto houver vida, haverá mortos, pois sem memória eles não existem. São como cartas de um baralho: outrora nossos, porque nos foram dados no início da nossa vezada, perdemo-los entretanto no jogo que, justamente, também iremos perder. Cada um de nós é uma carta no jogo de alguém e a rede de significados e correspondências que se desencolhe entre todos os vivos e todos os mortos é, em simultâneo, sublime, trágica, banal e riquíssima. Omnímodo, Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular transmite-nos a mensagem que somente as pedras e as ideias, substâncias de densidades diametrais, resistem com robustez à corrosão dos séculos. Um prodigioso livro de imagens – para ver e para pensar.»

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