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3.10.26

CIVITAS MORTUORUM | Lançamento

Caríssimos Amigos! 

No próximo dia 10 de Outubro, as 18:00, no Cemitério dos Prazeres, irá ter lugar o lançamento do meu livro Civitas Mortuorum: Mimese Artística da Arquitectura da Cidade na Arquitectura do Cemitério (Verbi Grati, 2026). A apresentação será feita pelo Professor Doutor Nuno Senos. 

Gostava muito de contar com a vossa presença. 

Encontramo-nos no cemitério? 



15.2.26

Saudades na Sorbonne

Em 2024 abriu uma chamada de apresentações para um dia de trabalho aberto na Universidade Sorbonne, em Paris. Era dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, pelo que achei que as paisagens cemiteriais lisboetas e o nosso conceito de saudade, tão presente nos cemitérios portugueses resultavam num encaixe perfeito.

Enviei a proposta e foi aceite. Infelizmente, o dia da conferência calhou precisamente nos últimos dias de entrega da minha tese de mestrado e foi-me impossível estar presente; mas a pesquisa estava feita. Assim, foi com muita satisfação que aceitei preparar o texto e participar no volume resultante dos artigos apresentados, quando fui contactada pela organização.

Neste link podem encontrar a edição temática da revista de História da Arte da Sorbonne, dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, da qual faz parte o meu artigo.

The Tombs of Alto dos Prazeres by Mendes Leal Junior or How Nostalgia Permeates a 19th Century Book of Cemetery Drawings, o artigo que escrevi, dedica-se à Saudade (o sentimento e a flor), relacionando-a com as paisagens cemiteriais do século XIX, tendo por base a publicação Os Tumulos Portuguezes no Alto dos Prazeres, com introdução de Mendes Leal Júnior.

É um orgulho e sentimento de dever cumprido, ter um artigo a espalhar a nossa Saudade na revista de uma das mais conceituadas universidades do mundo. 

Se preferirem ler só o meu artigo, podem fazê-lo neste link, directamente no meu perfil do Academia.edu.

18.5.25

História Interreligiosa dos Cemitérios de Lisboa

No passado dia 3 de Abril a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou o novo Edifício Saudade, passando a cidade a dispor de um espaço para velórios e despedidas sem elementos religiosos.

Contendo ainda um forno crematório, a ausência de simbologia religiosa permite que se torne verdadeiramente inclusivo, uma vez que cada família pode decorar a sala com os elementos que entender, respondendo às necessidades das diferentes religiões e também a quem delas prescinde.

Neste contexto, a Divisão de Gestão Cemiterial, responsável pela gestão do novo edifício, publicou um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa, no qual participei com um texto sobre a história religiosa dos cemitérios de Lisboa.

A partir de fontes primárias, como as actas das reuniões da Assembleia da Câmara Municipal de Lisboa, considerando também relatos coevos em jornais e outros documentos, foi possível recuperar informações sobre as acessas discussões relativas à pretensão nacional de separar os mortos por credo, dentro dos cemitérios portugueses e como Lisboa se recusou a cumprir a lei régia, mantendo os cemitérios públicos da cidade como um espaço único sem divisões físicas. 

Nos jornais períodicos conseguimos ainda encontrar referências ao primeiro funeral civil a ter lugar na cidade e as resultantes reacções da igreja e da população.

Obviamente que recomendo a leitura, para quem se interessa por estas temáticas e, claro, por quem tem curiosidade no tema.


Para além do Boletim Cultural completo, disponível no link acima, podem ainda encontrar o meu artigo aqui, acedendo directamente à minha página no site Academia.edu.

Boas leituras!

30.3.25

Guias Ilustrados dos Cemitérios de Lisboa

No dia 22 de Março, no Cemitério do Alto de São João, ocorreu a apresentação e lançamento dos novos guias dos cemitérios de Lisboa.




Integrados na colecção de mapas Cartografia para a Portuguesia de Maria da Gandra, professora na London College of Communication - LCC, as publicações número 4 e 5 dedicam-se ao Cemitério dos Prazeres e ao Cemitério do Alto de São João.
Foto: David Miguel.

Desenvolvidos em parceria entre Maria da Gandra (design gráfico e esquemáticos) e Gisela Monteiro (investigação e texto) os dois novos guias resultam como uma ferramenta auxiliar para visitas auto-guiadas nos cemitérios, listando um conjunto de monumentos e personalidades de destaque, contando as suas histórias, explicando simbologia ao mesmo tempo que, graças aos detalhados esquemas e ilustrações, permitem ficar a conhecer estes cemitérios antes mesmo de o visitar.

Contando com o apoio da London College of Communication e da CML, os mapas são uma edição bilingue, em Português e Inglês, promovendo o património cemiterial de Lisboa junto de um público mais vasto.


Para encomendar os novos Guias Ilustrados, basta enviar 

um email para guiascemiterios@gmail.com. 





6.1.25

WANTED: Medalhões de Vidro

No contexto das minhas investigações, tenho encontrado vários elementos novos e objectos curiosos. Gosto sempre de saber mais sobre as coisas com que me vou cruzando; aliás, foi assim que comecei a investigar e estudar cemitérios: não me bastavam as imagens que ia registando nas minhas fotografias, precisava de saber mais, de descobrir as histórias.

Em Dezembro de 2020 foi inaugurada a exposição Flores de Pedra | Flowers of Stone, patente ainda na galeria de exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres. Nas paredes da galeria - para além dos painéis informativos com representações das plantas que fomos descobrindo e identificando nos cemitérios de Lisboa e a respectiva leitura simbólica contextualizada - encontram-se vários objectos fúnebres, recuperados pela Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa em jazigos particulares abandonados. Esse material, riquíssimo para desenvolver o nosso conhecimento relativamente aos rituais e práticas fúnebres portuguesas no século XIX e XX, faz parte do acervo museológico dessa divisão.

Dos elementos que integram a exposição - todos eles apresentando bonitas e simbólicas flores - encontra-se um conjunto de medalhões de vidro que despertaram a minha curiosidade.

Trata-se de vidro simples, aparentemente forrado com jornal do lado que fica voltado para a moldura metálica de suporte, pintados com cenas de luto, num estilo um pouco naif.

Não encontrei bibliografia que refira estes elementos ou me dê pistas para perceber melhor quem os fazia, como se comercializavam, se eram encomendas ou trabalhos de série, etc. Falta quase tudo, no entanto, tenho já algumas pistas que partilho convosco.

1. O nome "medalhões", que estou a utilizar para designar estes objectos, está na lista de serviços e produtos que eram comercializados pela Agência Funerária Cereeiro, que ficava na Rua da Junqueira (lembro-me de passar por ela tantas vezes, mas entretanto já não se encontra lá). Esta informação foi encontrada numa factura de funeral de 1909, gentilmente disponibilizada por Fernando Oliveira, responsável pelo Museu Funerário Fernando Oliveira (que merece uma visita).

2. Percebemos claramente alguns dos contextos de uso a partir de fotografias antigas, tirada nos cemitérios de Lisboa, em que vemos medalhões destes pendurados no interior dos jazigos e até no exterior, em obeliscos e colunas de jazigos subterrâneos.

Tirando estes dois pontos, sabemos ainda muito pouco. O que nos leva ao poster de WANTED do topo deste post: alguém tem informação disponível? 

A informação pode ser directamente sobre estes elementos, de alguém que se recorde ou conheça histórias de ver vender ou comprar, de ter nos seus jazigos ou pode ser no formato de antigas facturas de funerais que possam referir estes artigos.

Se alguém tiver informação, pode enviar para o email Blog.MortSafe@gmail.com ou contactar-me directamente a partir do Facebook ou do Instagram do Mort Safe.

Seria maravilhoso encontrarmos juntos mais informação sobre estes curiosos medalhões de vidro.

Obrigada a todos e passem a palavra, por favor!


23.5.23

O Crime dos Prazeres

A 21 de Maio de 2023 assinala-se o centenário da morte do 9.º Conde de Sabugosa: António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, escritor, historiador, diplomata e mordomo-mor da Casa Real portuguesa. Figura incontornável das letras portuguesas na passagem do século XIX para o XX, integrou o grupo Vencidos da Vida (tendo sido até o penúltimo elemento a falecer, poucas semanas antes do poeta Guerra Junqueiro), expirando aos 71 anos.
O funeral foi agendado para o dia seguinte no cemitério dos Prazeres, para o jazigo particular n.º1587 (construído em 1866) – o mesmo que albergou temporariamente em 1915 os restos mortais de Ramalho Ortigão, outro Vencido da Vida, enquanto a família deste mandava construir o jazigo que agora o acolhe no cemitério do Alto de São João. 
Esperava-se uma enchente no cemitério dos Prazeres para o funeral do Conde de Sabugosa e o polícia a quem foi confiada a tarefa de manter a ordem durante a cerimónia diria depois ao jornal O Século que um pressentimento o levara a pedir reforços à esquadra da Estrela, que lhe enviara os polícias de piquete. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Perto das 17:00 horas, já terminada a cerimónia e quando muitos dos acompanhantes se retiravam, aconteceu o impensável: o silêncio murmurante do cemitério foi rasgado por três tiros de pistola. Na altura, houve quem dissesse terem sido cinco, mas foram três – suficientes para matar um homem. 
Por entre as sombras dos ciprestes, encoberto pelos jazigos e perscrutando a multidão, António Nunes Canha aguardara Adolfo do Couto Viana, o gerente da fábrica da Companhia União Fabril (CUF) nas Fontaínhas, que tinha ido ao funeral do Conde de Sabugosa em representação de Manuel José de Melo: director da CUF e sobrinho do falecido. Pouco tempo antes, Nunes Canha fora despedido por Adolfo Viana; no dia do funeral, vendo-o passar a caminho do cemitério, seguiu a carruagem e decidiu recorrer à violência. Por entre gritos e corridas, Adolfo Viana perdia a vida, sangrando no chão sagrado do cemitério. 
Talvez em choque por ter tido sucesso no atentado, Nunes Canha deixou-se agarrar pelos polícias que escoltavam o cortejo fúnebre, sendo levado para o interior do edifício da administração do cemitério, junto do portão principal, enquanto a multidão regressava, irada, apercebendo-se do que se passara no cemitério. O corpo inerte de Adolfo Viana, que o Dr. Melo Breyner – também presente no funeral – declarou morto, indignava a multidão, que gritava pelo assassino, apelando à justiça popular. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
O fotógrafo do jornal O Século que registou a procissão fúnebre e a entrada do caixão no cemitério teve autorização para entrar na sala onde Nunes Canha esperava com a polícia e fotografou-o, com uma expressão entre a ausência e a estupefacção: «Tanto me faz. Façam de mim o que quizerem» , reporta ter-lhe dito o criminoso quando pediu para o fotografar. Cerca de uma hora e meia depois, quando finalmente a multidão dispersou o suficiente para saírem com segurança do edifício da administração do cemitério, o fotógrafo captou o momento em partiram em direcção à cadeia do Limoeiro. O cocheiro de Adolfo Viana ainda deitou as mãos ao autor do atentado com ganas de o esganar, mas a polícia evitou-o. 
Nesse mesmo dia, na Câmara de Deputados, Paulo Cancela de Abreu, que estivera presente no funeral e por isso chegou a meio da sessão, declarou ter presenciado «o vil atentado contra o gerente da Companhia União Fabril, que o vitimou» . O seu depoimento causou sensação na câmara e o Crime dos Prazeres, como popularmente ficou conhecido, ficou ainda associado a outra situação de violência, quando à porta do Parlamento um soldado da Guarda Republicana atacou o deputado Carvalho da Silva. 
O resultado destes acontecimentos inesperados foi o de as reportagens das exéquias do Conde de Sabugosa terem sido reduzidas para dar espaço ao relato do atentado, aos detalhes sobre a vítima, sobre a vida do assassino e os seus antecedentes criminais. E, claro, dois dias depois reportava-se um novo funeral: Adolfo Viana, abatido no funeral anterior, seguindo da igreja de São Domingos para o jazigo de família no cemitério do Alto de São João. O destaque dado pelos jornais foi para a multidão que se juntou em torno da igreja, nas ruas adjacentes e para a presença notória de muitos operários. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Num período conturbado, com greves, atentados e bombas, o crime foi lido como um atentado político, uma afirmação ideológica. Os ânimos exaltaram-se com um assassinato perpetrado em público num cenário e um momento completamente inesperados – um cemitério e no final de um funeral. Discutiu-se a culpa de Nunes Canha e o impacto que o seu despedimento havia tido na sua conduta. Houve, inclusivamente, alguns discursos que quase procuravam justificar o acto de Nunes Canha com o seu despedimento. Nos dias que se seguiram recuperou-se o passado sindicalista do autor dos disparos e o seu papel na organização da Associação de Classe do Pessoal da União Fabril e na criação e presidência do Sindicato das Associações Rurais do Ribatejo. Até se recordou uma anterior tentativa de assassinato, quando quatro anos antes, durante a greve dos metalúrgicos, Nunes Canha atentara contra um industrial na Rua da Junqueira (acabando absolvido pelo tribunal depois de dois anos de prisão). E o caso foi-se arrastando nos tribunais, sem desfecho. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 

Sabemos que em 1925, dois anos depois do sucedido, o caso continuava por julgar no tribunal da Boa Hora por incapacidade de assegurar o número suficiente de jurados para formar um júri. Nunes Canha terá sido sentenciado ao degredo em África (de onde regressou, temporariamente, em 1942, por motivos de saúde), facto atestado por uma circular escrita por seus correligionários que procurava apoio financeiro que lhe permitisse continuar na metrópole, mas perdemos-lhe o rasto. 


O caso do Crime dos Prazeres é único em Portugal, corporizando um assassinato premeditado, perpetrado no interior de um cemitério, após um funeral.


5.2.23

A Casa Portuguesa nos Cemitérios no GetLisbon

 A fantástica página GetLisbon, que se dedica a partilhar os aspectos mais peculiares de Lisboa desde 2017 - se ainda não seguem nas redes sociais nem recebem a newsletter por email, cliquem aqui e vão até lá - convidou-me para escrever um texto sobre A Casa Portuguesa nos Cemitérios, uma temática a cujo estudo me dedico há já alguns anos.

Passem por lá e leiam. 


Obrigada pelo convite!


6.12.20

Flores de Pedra - Exposição

A exposição "Flores de Pedra / Flowers of Stone", no âmbito de Lisboa Capital Verde Europeia 2020, foi inaugurada no passado dia 4 de Dezembro pelo Sr. Vereador da Câmara Municipal de Lisboa José Sá Fernandes e está patente na Galeria de Exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde pode ser visitada todos os dias até às 16:00.

Nascida de uma ideia de Sara Gonçalves, directora dos cemitérios de Lisboa, o projecto pretendeu reunir uma equipa multidisciplicar, com especialistas em botânica e simbologia, de forma a identificar as espécies de plantas que decoram os nossos cemitérios e descobrir os seus significados, tendo em conta o contexto cemiterial.

Foram vários meses de trabalho dedicado que incluíram visitas de campo, sessões fotográficas extensas, análise detalhada de imagens, pesquisa e análise de espécies, pesquisa histórica e simbólica, investigação de material de época, recuperação e restauro de peças de jazigos abandonados, concepção do projecto museológico e design, entre tantas outras tarefas essenciais para levar um trabalho como este a bom porto.

A utilização de livros e materiais do século XIX relativos à então popular Linguagem das Flores, contemporânea da maior parte dos jazigos fotografados e presentes nos nossos cemitérios permitiu enriquecer e contextualizar com maior acuidade a interpretação simbólica.


A componente da botânica ficou a cargo da Sandra Mesquita, a simbologia é da responsabilidade de Gisela Monteiro e o design e projecto museológico é de José Dias.

Vão visitar: prometemos que vai valer a pena!

Da esquerda para direita: Gisela Monteiro, Sandra Mesquita e Sara Gonçalves.


30.6.20

As Mulheres e a Morte - vídeo @mort.safe

Neste sexto episódio de “As Mulheres e a Morte”, série de Taís Souza (do canal Pílulas Sombrias) sobre o estudo da morte e das temáticas da morte no feminino, estivemos a conversar sobre tafofilia, estudos cemiteriais e a história da morte em Portugal. 


Um obrigada especial à Taís Souza pela criação desta série que tem divulgado tanto a nossa paixão por esta temática. 


29.12.19

A Casa Portuguesa nos Cemitérios - AGM 2018


Em Outubro de 2018, decorreu na bonita cidade austríaca de Innsbruck mais um encontro da ASCE - Association of Significant Cemeteries of Europe.
Foi mais um excelente momento de partilha e aprendizagem, cheio de descobertas e visitas cemiteriais, na companhia dos amigos que se vão revendo anualmente.

O tema da conferência anual de três dias foi "European Cemeteries in the European year of Cultural Heritage" para o qual propus e apresentei o meu trabalho "The Portuguese House in the Cemetery: Tradition and Popular Culture", numa versão focada maioritariamente em recolha de campo e fontes e a ser desenvolvido em maior detalhe posteriormente, mas apresentando já alguns resultados interessantes e identificação de padrões de caracterização. 

A especificidade cultural destes jazigos nacionais, com características pouco comuns fora de Portugal, foi de grande interesse para os presentes, uma comunidade constituída por tafófilos de diversos países.


Fizeram-se visitas a diversos cemitérios, como sempre se faz nestes eventos, nomeadamente ao Hauptfriedhof Wilten na cidade Innsbruck, onde se encontram peça lindíssimas e onde o sol de final do dia iluminou tudo com uma doce luz dourada, com vista para as montanhas do Tirol e também ao Friedhof Mühlau, na pequena vila do mesmo nome, onde fomos simpaticamente transportados nas carrinhas dos bombeiros de Innsbruck. 
No cemitério de Mühlau fica uma bela capela, em traços que rapidamente associamos às construções do Tirol e, estando localizado numa cota mais alta que Innsbruck, permitiu magnificas vistas em redor.

Os dias passaram depressa e ficou a promessa de, em 2019, nos voltarmos a reunir em Ghent, na Bélgica, com o tema "Heritage Cemeteries in the 21st century: use, reuse and shared use" e muitas visitas a cemitérios.

9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



18.6.16

Cemitério de Montjuïc

Panteón Augusto Urrutia i Roldán
No passado mês de Maio tive a fantástica oportunidade de passear entre as campas, gavetas e mausoléus (na Catalunha chamam-lhes panteões) dos cemitérios de Montjuïc e Poublenou.
As peças são fantásticas, gigantescas, assombrosas e todo o tempo é sempre pouco para visitar (e fotografar um sitio assim).

Montjuïc tem uma dimensão assustadora, correndo monte acima e estendendo-se verdadeiramente até se perder de vista.
A inumação é praticamente toda feita com recurso a gavetas, em paredes altas, decoradas com pequenas pedras que foram retiradas do próprio espaço agora ocupado pelo cemitério, de tonalidade amarelada. 
As pequenas portas. de metal ou de pedra, decoradas com inscrições e desenhos enchem-se de flores, deixadas pelos familiares com recurso a enormes escadas móveis em metal.
As ruas deste cemitério do século XIX - inaugurado a 17 de Março de 1883 - vão-se estendendo monte acima, começando no sopé quase sobre as águas do porto comercial de Barcelona. Sobre o cemitério, enormes e ameaçadoras gaivotas vão esvoaçando e soltando gritos, agressivas por sentirem que estamos a invadir o seu espaço.
Por entre os ciprestes e as cruzes, conseguimos vislumbrar os contentores metálicos coloridos, acabados de chegar do mar ou prontos para partir, e as enormes gruas que os movimentam. É um contraste muito realista, que sobrepõe a Morte e a Vida numa única imagem, num único instante.

O cemitério de Montjuïc nasceu para ser o Monumento dos Monumentos, numa altura em que era possível sonhar ainda com a riqueza que enchia os cofres de Barcelona. 
Os planos arquitectónicos da época mostram um detalhe e cuidado verdadeiramente grandiosos, mas foi necessário simplificar e atalhar caminho. Os restantes cemitérios não conseguiam dar resposta às necessidade da metrópole e, ao mesmo tempo, a crise financeira impedia a construção inicialmente planeada.
Ainda assim, acreditem, o espaço é de tirar a respiração.
A visita mais interessante é, como sempre em todos estes locais, às zonas mais antigas que, felizmente neste caso, são as mais baixas.
Panteón Buhigas
A perspectiva turístico-cultural do espaço está sempre presente e, para além das brochuras com mapas que são distribuídas gratuitamente na entrada dos cemitérios é também possível adquirir livros informativos muito bons e que permitem perceber a história do local, o contexto social e económico em que foi construído e quem são as pessoas que aí estão enterradas e que construíram os seus monumentos, com grande destaque para a arte em si: quem fez, em que estilo se enquadra, etc.
Existe um percurso artístico recomendado, onde junto de cada peça se pode encontrar uma placa com informação detalhada.

É muito fácil e reconfortante ser tafófilo num cemitério de Barcelona.


PS: com este post não posso deixar de agradecer a Tony Collbató e Juanjo Macias a forma calorosa como me receberam em Barcelona: sem eles, a minha experiência não tinha sido tão rica, tão cheia, tão mágica: Gràcies, amics!
O meu agradecimento também aos Cementiris de Barcelona por toda a disponibilidade e por tratarem tão bem dos seus espaço e dos seus visitantes. Que inveja, que orgulho.

É uma felicidade perceber que a comunidade tafófila não tem fronteiras para os afectos.

Para quem tem facebook, não esquecer de aderir ao grupo Apoyamos la Ruta Europea de Cementerios.

10.3.13

Cemitério Judaico de Wrocław

Na cidade polaca de Wrocław, afastado do centro histórico, fica um extraordinário cemitério do século XIX, conhecido como Cemitério Judaico Velho. 
Criado em 1856 na sequência do fecho do anterior cemitério judaico e descontinuado por volta de 1943, depois de dois anos praticamente sem inumações, este pequeno espaço situado na rua Ślężna atrai visitantes e estudiosos, com as suas construções antigas, marcadas pela passagem do tempo e das adversidades das guerras. 
Expandido diversas vezes - ainda no século XIX e depois no XX - coberto por trepadeiras e fetos, escondido sob frondosos castanheiros, visitá-lo em pelo Outono é uma experiência mágica irrepetível.
Apesar de, à semelhança da maioria dos cemitérios judaicos do leste da Europa, encontrarmos talhões densamente cobertos por masebhas (lápides) contendo textos em hebraico, compará-lo com outros bem conhecidos - como o cemitério judaico de Praga, por exemplo - é uma tarefa difícil.
Na realidade, o cemitério judaico velho de Wrocław é um espelho do movimento Haskalah, um movimento dos séculos XIX e XX que promove o iluminismo dos valores judaicos, de forma a alcançar uma mais fácil integração numa Europa cada vez mais secular. Nesse sentido, para além das lápides tradicionais, é possível encontrar diversas construções com linhas de criação mais seculares e simbologia variada. Esta abertura ao mundo não judaico começa por coincidir com a época romântica e o romantismo, com o seu revivalismo grego, romano, egípcio, marca também as construções cemiteriais. As colunas e vasos funerários que enchem os cemitério seculares passam a fazer parte das construções fúnebres deste cemitério judaico.
Para além do impacto na arquitectura e simbologia dos monumentos fúnebres, também os textos passam a conter palavras em latim e alemão.
Mas a diversidade não termina aqui: num dos recantos junto do muro encontra-se uma edificação com marca claramente mourisca, noutro local talhado em mármore negro, podemos encontrar um tabuleiro de xadrez encimando por uma das peças desse jogo, um cavalo. Numa outra zona, ainda são visíveis marcas de balas. 

Como não podia deixar de ser, sobre inúmeros monumentos, empilham-se pedrinhas e castanhas, deixadas reverentemente pelos visitantes.


PS: não posso deixar de agradecer à Weronika Murek, que me acompanhou na visita e me explicou várias tradições judaícas que eu desconhecia.

3.6.12

Primavera nos Prazeres


Para quem estiver por Lisboa, fica a nota que vale a pena dar um salto ao Cemitério dos Prazeres para ver o espectáculo dos jacarandás floridos.
Lembrem-se que este manto lilás dura pouco tempo; depois só para o ano.

20.8.11

Caril entre Campas

Diferentes culturas lidam com a Morte - e os locais de Morte - de diferentes formas.
Recentemente, o documentário A Cidade dos Mortos de Sérgio Tréfaut mostrou-nos como na cidade do Cairo, no século XXI, ainda existem pessoas que vivem em cemitérios, entre os mortos, dentro dos mausoléus dos seus antepassados ou em espaços alugados.

Mesmo na Europa, durante a Idade Média - quando os cemitérios eram as igrejas e, na extensão das inumações ad sanctos, os seus átrios e pátios exteriores - havia gente a viver nesses espaços de Morte, uma vez que os cemitérios tinham também o papel de santuário, ou seja de local de protecção para todas as pessoas que ali estivessem. Principalmente em alturas turbulentas, de guerras e saques, os pátios da igrejas eram ocupados por populares que construiam pequenas barracas para dormir, ou se encostavam nas arcadas onde era guardados os ossos (charniér) e capelas mortuárias junto às paredes das igrejas.
Para além de servirem de santuário, os cemitérios eram também o local de reunião das comunidades e o local de eleição para o comércio: a banca dos livreiros e dos linhos cruzava-se com a banca do pão, bem ao lado da vala comum, aberta e temporariamente coberta por umas tábuas, até atingir a lotação completa (podiam servir para quinhentos ou mil e quinhentos corpos, dependendo do tipo de vala) e ser fechada.
E a vida continuava, naturalmente, estando a Morte - e os mortos - bem mais presentes no dia-a-dia dos vivos do que se poderá pensar hoje, quando a escondemos e fingimos que ela não existe.

Próximos dessa realidade estão os clientes do restaurante New Lucky em Ahmedabad, na Índia. As especialidades do New Lucky são: o chá com leite, os butter rolls e as campas.
Aquilo que começou por ser uma muito bem sucedida e simples barraquinha de chá, montada junto a um antigo cemitério muçulmano, rapidamente se transformou num simples e bem sucedido restaurante.
Com amplo menu vegetariano (servem cerca de noventa pratos diferentes), o New Lucky parece ser um favorito junto de locais e de turistas.
Krsihan Kutti Nair é do dono deste restaurante que tem já cerca de quarenta anos. É ele quem, todas as manhãs, limpa as campas verdes com um pano húmido e as decora com flores secas.
Não sabe de quem são os restos mortais que tem enterrados, literalmente, no meio do restaurante, mas dizem-lhe que se trata de familiares de um Sufi do século XVI, cuja campa também estará por perto.
A verdade é que Krsihan Kutti Nair considera que a presença destas campas, que levam os empregados a saltitar para chegar às mesas e servir os clientes, é boa para o negócio e, de facto, o caso parece ser esse, uma vez que as mesas do New Lucky estão sempre cheias.

Paragem obrigatória para os tafófilos em vista a Ahmedabad, Índia.


16.5.11

Chaloner's Corner

Uma das atracções turísticas mais conhecidas da cidade irlandesa de Dublin é o campus de Trinity College.
A diversidade arquitectónica dos seus magníficos edifícios marca a passagem dos anos e permite identificar as diferentes épocas de crescimento da universidade.

Para o visitante desprevenido será certamente uma surpresa encontrar um pequeno (muito pequeno) cemitério num dos cantos de um dos edifícios mais antigos.


Conhecida como Chaloner's Corner, esta pequena esquina é um condensado cemitério que dá abrigo a alguns notáveis académicos, especialmente o Dr. Luke Chaloner, que lhe deu o nome.

Chaloner foi o primeiro reitor da universidade de Trinity, tendo sido aí enterrado em 1613. Desde então, esta pequena esquina tem sido pontualmente utilizada para inumar posteriores reitores e alguns docentes.
Este cemitério está ainda em uso, sendo que a mais recente inumação teve lugar em 1994.

Pode ainda ser observada uma sombria escadaria que tem ligação directa às criptas por baixo da capela.

27.3.11

Cemitério de South Park Street

Durante a primeira metade do século XIX, os cemitérios românticos (vitorianos) espalharam-se por toda a Europa, desenhados por arquitectos conceituados que procuravam recriar os mitológicos espaços de Arcádia e Campos Elísios, concebendo belíssimos cemitérios-jardins.
Rapidamente, o cemitério parisiense de Père Lachaise (1803) foi tornado como modelo, sendo a sua planta distribuída, estudada e utilizada como base de trabalho numa série de cemitérios pela Europa fora; como foi o caso do nosso cemitério dos Prazeres (1833), por exemplo.

A verdade é que o "primeiro" cemitério vitoriano não apareceu na Europa, mas na Ásia: mais precisamente, na Índia.

Em 1690, a Companhia das Índias Orientais fundou a cidade de Calcutá. Nos anos que se seguiram, a afluência de europeus a esta zona da Índia foi aumentando, de acordo com os volumes de negócios. Alguns regressaram aos seus países de origem, mas outros foram ficando por lá.
Em 1767 foi fundado um cemitério para a inumação dos europeus que habitavam em Calcutá: o cemitério de South Park Street.
Fundado por motivos funcionais e de higiene, antecede toda a reforma cemiterial europeia.

Inspirados em monumentos funerários indianos, construções persas, egípcias e muçulmanas os monumentos que enchem este cemitérios não foram desenhados por arquitectos, mas construidos pelos próprios coveiros, segundo indicações dos proprietários.
Sãos construções de tijolo, rebocadas com estuque, pintadas e decoradas com colunas partidas, obeliscos, pirâmides.

Em 1830 o cemitério estava sobre-lotado e deixou de ser utilizado.

O material usado nas construções dos monumentos torna a conservação destes numa tarefa complicada, mais ainda se tivermos em consideração o clima húmido e quente dessa zona da Índia.

Sobre ele, escreveu Rudyard Kipling:

Lower Park Street cuts a great graveyard in two. (...)

The eye is ready to swear that it is as old as Herculaneum and Pompeii. The tombs are small houses. It is as though we walked down the streets of a town, so tall are they and so closely do they stand — a town shrivelled by fire, and scarred by frost and siege. Men must have been afraid of their friends rising up before the due time that they weighted them with such cruel mounds of masonry. Strong man, weak woman, or somebody’s ‘infant son aged fifteen months,’ for each the squat obelisk, the defaced classic temple, the cellaret of chunam, or the candlestick of brickwork — the heavy slab, the rust-eaten railings, whopper jawed cherubs, and the apoplectic angels.



11.3.11

Cemitério de Mount Jerome

No ano de 1836, na margem sul do Grande Canal de Dublin, na Irlanda, foi inaugurado o primeiro cemitério privado do país: o General Cemetery Company of Dublin, que ficou conhecido e ainda hoje é designado por Harold's Cross ou Mount Jerome, o nome do local onde foi edificado.

Quatro anos antes, em 1832, abriu o cemitério de Glasnevin, na zona norte da cidade, que rapidamente se tornou no cemitério preferido pelos irlandeses católicos, transformando o mais recente cemitério de Mount Jerome no cemitério da população protestante.
Apenas em 1920 começaram a ser enterrados católicos em Mount Jerome, devido a uma greve dos coveiros de Glasnevin, que mantiveram esse cemitério inoperante durante algum tempo.

Mount Jerome cemetery

A primeira inumação em Mount Jerome foi de duas crianças, meninos gémeos, numa altura em que o cemitério cobria apenas vinte e seis acres de terra.
No centro do terreno fica uma belíssima capela gótica, desenhada por William Atkins e que foi construida em 1847, que ainda pode ser visitada.
Em 1874 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido possível aumentar a área total para quarenta e oito acres, o seu tamanho actual.

Mount Jerome é actualmente considerado como um dos cemitérios românticos (vitorianos) de referência, sendo favoravelmente comparado com Highgate (Londres, Inglaterra) e Père Lachaise (Paris, França); no entanto, no final do século XX, o abandono a que este foi sujeito permitiu o declínio do espaço e a degradação dos monumentos e construções.

No virar do milénio é construido em Mount Jerome o primeiro crematório privado da Irlanda, permitindo a revitalização do espaço e o inicio de um longo e complexo processo de recuperação dos mausoléus, túmulos, criptas e estatuária.

É em Mount Jerome que se encontra enterrado Sheridan Le Fanu, o autor de Carmila - um dos primeiros romances de vampiros, ainda hoje extremamente inovador e audaz - e The House by the Churchyard.

Um visita a Mount Jerome é obrigatória para qualquer tafófilo de passagem por Dublin, sendo até possível encontrar um pequeno café no interior do cemitério.
Um alerta deixado por todos os guias é o cuidado necessário nestas visitas: a decadência a que chegou o cemitério criou buracos no chão, pedras tumulares partidas, construções quebradiças e mausoléus prontos a desabar...
A saída do recinto, no entanto, tem de ser impreterivelmente até às quatro da tarde, sendo que os portões do cemitério são fechados a essa hora, sem qualquer falha, não ficando sequer um guarda que possa facilitar a saída dos mais distraídos.

Chamam-lhe "victorian splendor in decay".


27.2.11

Cemitério de Agramonte


Durante o final do século XVIII, e o inicio do século XIX, uma verdadeira revolução varreu a Europa - e os locais habitados por europeus -, no que diz respeito à forma como a Morte era vista e gerida.

A maioria dos enterramentos eram feitos dentro das igrejas ou nos seus adros, causando graves problemas de saúde; ainda assim, e mesmo confrontados com a realidade do cheiro dos cadáveres em decomposição, que obrigavam as portas das igrejas a ficarem abertas todo o dia e toda a noite, os populares portugueses tentaram resistir valentemente à criação e utilização de cemitérios.
A situação foi de tal momo extrema que deu origem à conhecida revolução minhota da Maria da Fonte, que acabou por descer pelo país e mergulhá-lo em guerra civil, durante alguns meses.
A verdade é que, em 1835, os cemitérios públicos tornaram-se obrigatórios e único sitio possível para inumação.

Na verdade, Lisboa e Porto tinham já cemitérios públicos desde 1833, devido a uma terrível praga de cholera morbus que assolou essas cidades. Para além disso, e no caso específico da cidade do Porto, um cerco levado a cabo por tropas miguelistas causou um situação de salubridade extrema.
Foi necessário encontrar uma forma de proteger os vivos dos miasmas exalados pelos corpos em putrefacção. Foi criado o cemitério da Lapa (privado) e o do Prado do Repouso.

Em 1855, um novo surto de cholera morbus obriga ao fecho dos cemitérios privados das diversas ordens religiosas da cidade e à criação de mais um cemitério público. Agramonte é um cemitério "improvisado", criado para inumação de coléricos e tendo uma capela construida rapidamente com madeira.
A população, tendo possibilidade de escolha, elege o cemitério do Prado do Repouso como preferencial construindo belos monumentos e deixando Agramonte estagnado durante algum tempo.
As ordens religiosas, obedecendo a preceitos internos, procuram forma de manter espaços de enterramento individualizados e conseguem, no processo complexo, começar a adquirir amplos talhões nos cemitérios públicos.

Ao perceber o estigma que pairava sobre o cemitério de Agramonte, este é reestruturado em 1869, numa tentativa de torná-lo mais atractivo.
Entretanto, o cemitério da Lapa, construído num terreno pequeno, e apertado por edificações diversas que o impediam de ser alargado, deixa de ser opção para os mais ricos, ansiosos por construir monumentos faustosos, marcando para a posteridade a sua importância em vida. É necessário encontrar outros terrenos com capacidade de construção e, apesar do Prado do Repouso ser o inicialmente eleito como novo lugar para os defuntos da elite portuense, o prestigio das ordens com talhões privados em Agramonte (S. Francisco, Trindade e Carmo) torna-o , no final do século XIX, no espaço mais desejado como ultima morada.

A estatuária é rica e variada, sendo possivel encontrar nele algumas das mais originais peças cemiteriais existentes no nosso país.

É ainda de notar que uma das grandes diferenças entre os cemitérios do Norte e do Sul, para além de nos primeiros predominarem as cruzes e outras simbologias católica, é o material utilizado na construção de mausoléus. Ao sul, o branco e liso da pedra calcária torna os cemitérios locais cheios de luz; no norte, a utilização de granito, áspero e cinzento, torna-os mais sombrios e solenes, emprestando-lhes mais facilmente um ambiente de luto, muito adequado.

Como ponto de referência, o cemitério de Agramonte fica situado junto à rotunda da Boavista, um dos pontos nevrálgicos da cidade. Merece uma visita. Ou duas...

18.2.11

Monumentos Memoráveis: La Giovane Morta

No ensaio The Philosophy of Composition, Edgar Allan Poe partilha connosco uma reflexão acerca dos temas que considera mais melancólicos e mais poéticos.
Diz-nos o autor d' O Corvo:
'I asked myself - "Of all melancholy topics, what, according to the universal understanding of mankind, is the most melancholy?" Death - was the obvious reply. "And when", I said, "is this most melancholy of topics most poetical?" ... "When it most closely allies itself to Beauty": the death, then, of a beautiful woman is, unquestionably, the most poetical topic in the world.'
Esta sublime temática poética de que nos fala Poe pode ser encontrada nos seus próprios poemas - recordo o clássico romântico Annabel Lee, genialmente traduzido para português por Fernando Pessoa - mas também noutras artes, como a pintura - por exemplo, já mencionado a propósito de Lizzie Siddal, Ophelia de Millais - ou a escultura. E é esta última forma de arte que reina na área da arte funerária.

Quando Isabella Casati (Α:1865 - Ω:1889), a belíssima esposa do Barão Gianluigi Casati, morreu com apenas vinte e quatro anos, a sociedade italiana ficou chocada.

O Barão Casati, certamente desgostoso, chamou o talentoso escultor italiano Enrico Butti, e encomendou-lhe uma obra em memória da falecida Isabella, com o objectivo de colocá-la no túmulo da família Casati, no Cemitério Monumentale de Milão.

Butti, aparentemente inspirado por um trabalho de Bartolini na igreja de Santa Croce, em Florença, optou por criar um bronze onde representa Isabela dormindo, reclinada em almofadas, com os braços pousados a acompanharem o corpo e, sobre o peito desnudado, um crucifixo.

Por detrás da figura, e suportado por mármore rosa, um baixo relevo de bronze reforça a ideia do consolatório sono de morte, onde anjos rodeados de estrelas aguardam, nos degraus da escada que conduz ao Paraíso, a chegada das almas.

Este peça é considerada uma das primeiras a transmitir a mensagem da morte doce, usando para isso a imagem de uma bela mulher que, enquanto dorme, morre, fazendo assim uma doce e serena travessia do mundo dos sonhos para a outra vida, onde anjos a esperam.

La Giovane Morta (The Dream of Death) traz-nos também uma componente levemente erótica, frequentemente presente na arte funerária onde são representadas adolescentes ou mulheres mais jovens, e que pode ser percebida pela sinuosa linha criada pelas mãos e ombros, pelos lábios cheios, pela exposição do peito e os longos cabelos, sensualmente dispostos sobre a almofada numa evocação à morte de Ofélia.

Em 1891 o monumento fez parte da Brera Triennale, em Milão, tendo sido um forte concorrente ao prestigioso prémio Principe Umberto.
A aclamação do público foi imediata e um respeitado e influente critico de arte considerou-a um magistral exemplo de uma nova Arte Ideísta.

Depois do trabalho de Enrico Butti, as imagens de jovens acamadas (dormindo) foi utilizada inúmeras vezes, em memoriais comemorativos de mulheres falecidas na força da idade.

A 2 de Novembro de 1891, o dia que a Igreja Católica consagra aos Fiéis Defuntos, o monumento foi inaugurado, tendo sido publicada uma reportagem desse evento na conceituada revista Illustrazione Italiana.

Ainda hoje, esta é uma das obras mais visitadas e fotografadas no cemitério Monumentale de Milão, fazendo obrigatoriamente parte das visitas guiadas que todos os dias enchem o cemitério de turistas.

Cemitério Monumentale de Milão, Itália @Gisela Monteiro.2010