9.12.25

Crimes de Lisboa Antiga

Chegou a minha mais recente colaboração com a Prof.ª Maria da Gandra: Crimes da Lisboa Antiga.

Mais um mapa da fantástica colecção Cartografia para a Portuguesia. O número 6 apresenta um mapa da cidade e uma cronologia entre 1804 e 1926, permitindo conhecer crimes que impactaram a sociedade portuguesa deste período, mas também locais emblemáticos da cidade no combate ao crime e no estudo da criminologia e várias personalidades que lhe estão associadas.

O brilho de Lisboa convida a acontecimentos luminosos, mas a cidade também tem as suas sombras. No século XIX e primeiro quartel do século XX, Lisboa ficou marcada por crimes de sangue que ecoaram no imaginário dos habitantes durante décadas e, em alguns casos, levaram a mudanças de mentalidades, leis e procedimentos.

Neste período, acompanhando as boas práticas internacionais, criaram-se laboratórios, casas de autópsia, penitenciárias e panópticos, publicaram-se livros, recolheram-se impressões digitais e fotografaram-se suspeitos. E no silêncio escuro da cidade, os criminosos levantaram facas, apontavam revólveres e despejavam frascos de clorofórmio sobre as suas vítimas.

Com este mapa, ficará a conhecer alguns dos crimes mais célebres da Lisboa de outrora: desde o caso que levou 20.000 pessoas ao Cemitério dos Prazeres para identificar um cadáver, ao capitão assassinado pelos misteriosos "Máscaras de Bronze".

Venha viajar no tempo e testemunhar alguns dos mais conhecidos - e entretanto esquecidos - Crimes de Lisboa Antiga.


O mapa, tal como os anteriores, pode ser encomendado através do email guiascemiterios@gmail.com. 

Até uma próxima aventura! 

2.11.25

100 Anos de Cremação!

O mês de Outubro foi um mês cheio de coisas, incluindo a 4ª Semana Cultural nos Cemitérios e o lançamento de mais um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa que comemora o centenário do Crematório do Cemitério do Alto de São João, o primeiro do país, cuja primeira cremação teve lugar a 28 de Novembro de 1925.


Para este boletim fiz uma investigação bastante profunda e na qual foram analisados, pela primeira vez, um grupo considerável de documentos internos - relatórios, registos, plantas, propostas, actas de concursos, etc. - com o objectivo de contar a história da cremação em Lisboa, mas tendo presente que, até aos anos 90 do século XX, isso é quase o mesmo que contar a história da cremação em Portugal.

A Luta, 1976.
Foi surpreendente perceber que se faziam cremações em pira, no interior do Cemitério do Alto de São João, à noite, desde 1946, quando um marajá indiano morreu em Lisboa e foi necessário respeitar as regras religiosas e efectuar a cremação imediatamente. Perceber que, ainda durante o Estado Novo, se realizaram outras cremações em pira, devidamente autorizadas e acompanhadas com dedicação e cuidado por parte do responsável do cemitério, incluindo a presença de bombeiros e polícia no cemitério.

Também foi com surpresa que percebi que os motivos habitualmente referidos como sendo os principais para a interrupção da cremação em Portugal entre 1936 e 1985 não eram corroboradas pela documentação. A responsabilidade da Igreja Católica e do Estado Novo não só não se materializaram, como relatórios técnicos desde 1971 referem o mau funcionamento do forno adquirido em 1925 aos alemães como um dos principais problemas, tal como a necessidade excessiva de carvão, e identificam a necessidade deste ser substituído para poder voltar a fazer-se cremação em Lisboa. Aliás, em Moçambique existia um crematório a funcionar e devidamente regulado nos Cemitérios de Lourenço Marques desde os anos 1960, sendo que o território era, à altura, português.

A incapacidade de responder ao pedido dos Estados Unidos para cremar as vítimas da terrível queda do hidroavião Yankee Clipper, em 1943, é mais um sinal da impossibilidade de utilizar o crematório. Se fosse apenas uma decisão política ou religiosa - e não técnica - o forno teria sido reactivado temporariamente para este efeito.

Diário de Notícias, 1925.

Foi possível localizar fotografias antigas do crematório, ainda antes da inauguração, no arquivos do jornal diário O Século, guardadas na Torre do Tombo e também uma foto do Diário de Notícias, publicada numa edição dos anos 70, com a primeira cremação e a equipa do forno de 1925.

Regressou-se no tempo aos primeiros textos portugueses que promoviam a cremação, em 1857, comparando com o que estava a acontecer no Ocidente relativamente a esta temática. 

Encontrámos documentação relativa à compra do forno à Topf&Söhne - cujo papel no Holocausto é arrepiante e assustador - e às dificuldades em fazer passá-lo numa alfândega que não tinha quaisquer referências a este tipo de objectos e não o sabia taxar.

Acompanhamos a primeira cremação: Custódio dos Santos, cujo corpo abandonado pela família seguiu primeira para a Escola Médico-Cirurgica de Lisboa e, depois de utilizado nas aulas de anatomia, foi a primeira pessoa a ser cremada em Portugal, numa sessão experimental do forno, antecedendo a primeira cremação oficial a 30 de Dezembro de 1925. Por esse motivo, as suas cinzas foram colocadas em destaque em frente do crematório em 1925, onde ficaram até ser criado um monumento para a sua colocação e onde agora, finalmente, foi gravado o seu nome, sendo assim recordado para sempre.


Também podemos perceber as várias paragens e reinício da cremação até, em 1985, o Crematório do Cemitério do Alto de São João ser activado em definitivo; mas não parámos aí, porque a história continua, com crematórios abrir por todo o país, com mais crematórios a abrir em Lisboa, parando - temporariamente - na abertura do quarto forno crematório de Lisboa, no Edifício Saudade, junto do Cemitério de Carnide.

Foi publicado um artigo no jornal Público sobre este tema, dando destaque às descobertas apresentadas no meu artigo e ao próprio Boletim Cultural.

Quem quiser ler o artigo Cem Anos de Cremação e também o artigo complementar A Morte do Marajá e as Cremações em Pira pode descarregar gratuitamente o Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa no link que está no início deste post ou, se quiser ir directamente para os artigos referidos, usar este link para o meu perfil no Academia.edu.

Boas leituras!

Espero que se divirtam tanto a ler quanto eu me diverti na investigação e escrita. 

27.9.25

Património Cemiterial Português e Brasileiro

 Em Agosto deste ano foi publicado o volume Interfaces e Conexões Atlânticas da colecção de eBooks Experimentações do Patrimônio, um trabalho da Santa Casa da Misericórdia de Porto Alegre, Brasil.

O livro completo pode ser descarregado gratuitamente nesta ligação e tem uma série de artigos muito interessantes no âmbito do património, contando também com várias participações portuguesas.

Uma dessas participações é minha, uma vez que, a convite da Prof.ª Luiza Neitzke de Carvalho, escrevemos um artigo em parceria, abordando as práticas de preservação patrimonial do cemitério da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e dos Cemitérios de Lisboa (Cemitério do Alto de São João e Cemitério dos Prazeres).


Patrimônio artístico-funerário de Porto Alegre, Rio Grande do Sul (Brasil) e Lisboa (Portugal) é o artigo que escrevemos e que nos permitiu apresentar algumas das práticas de preservação e divulgação da arte cemitérial nestes locais e, também, propomos algumas alternativas que contribuem com a valorização da arte funerária das necrópoles e a análise de um monumento funerário construído pelo um artista português Rodolfo Pinto do Couto (1888-1945).

Também apresentámos alguns elementos comuns entre o património artístico-funerário português e brasileiro, comparando elementos entre os Cemitérios de Lisboa e os Cemitérios de Porto Alegre, procurando destacar influências – ou a ausência delas – através de elementos tradicionais da paisagem fúnebre de cada país.

Abordámos ainda o fenómeno – do final do século XIX e início do século XX –  relativo aos Brasileiros Torna-Viagem que, regressando a Portugal depois e fazerem fortuna do Brasil, sinalizaram o amor ao país que os acolheu nos próprios monumentos funerários, destacando alguns destes monumentos presentes no Cemitério dos Prazeres.

Podem encontrar o artigo no volume completo através do link acima, ou acederem directamente ao artigo que escrevi com a Luiza a partir da minha página no Academia.edu.

Boas leituras! 

18.5.25

História Interreligiosa dos Cemitérios de Lisboa

No passado dia 3 de Abril a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou o novo Edifício Saudade, passando a cidade a dispor de um espaço para velórios e despedidas sem elementos religiosos.

Contendo ainda um forno crematório, a ausência de simbologia religiosa permite que se torne verdadeiramente inclusivo, uma vez que cada família pode decorar a sala com os elementos que entender, respondendo às necessidades das diferentes religiões e também a quem delas prescinde.

Neste contexto, a Divisão de Gestão Cemiterial, responsável pela gestão do novo edifício, publicou um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa, no qual participei com um texto sobre a história religiosa dos cemitérios de Lisboa.

A partir de fontes primárias, como as actas das reuniões da Assembleia da Câmara Municipal de Lisboa, considerando também relatos coevos em jornais e outros documentos, foi possível recuperar informações sobre as acessas discussões relativas à pretensão nacional de separar os mortos por credo, dentro dos cemitérios portugueses e como Lisboa se recusou a cumprir a lei régia, mantendo os cemitérios públicos da cidade como um espaço único sem divisões físicas. 

Nos jornais períodicos conseguimos ainda encontrar referências ao primeiro funeral civil a ter lugar na cidade e as resultantes reacções da igreja e da população.

Obviamente que recomendo a leitura, para quem se interessa por estas temáticas e, claro, por quem tem curiosidade no tema.


Para além do Boletim Cultural completo, disponível no link acima, podem ainda encontrar o meu artigo aqui, acedendo directamente à minha página no site Academia.edu.

Boas leituras!

30.3.25

Guias Ilustrados dos Cemitérios de Lisboa

No dia 22 de Março, no Cemitério do Alto de São João, ocorreu a apresentação e lançamento dos novos guias dos cemitérios de Lisboa.




Integrados na colecção de mapas Cartografia para a Portuguesia de Maria da Gandra, professora na London College of Communication - LCC, as publicações número 4 e 5 dedicam-se ao Cemitério dos Prazeres e ao Cemitério do Alto de São João.
Foto: David Miguel.

Desenvolvidos em parceria entre Maria da Gandra (design gráfico e esquemáticos) e Gisela Monteiro (investigação e texto) os dois novos guias resultam como uma ferramenta auxiliar para visitas auto-guiadas nos cemitérios, listando um conjunto de monumentos e personalidades de destaque, contando as suas histórias, explicando simbologia ao mesmo tempo que, graças aos detalhados esquemas e ilustrações, permitem ficar a conhecer estes cemitérios antes mesmo de o visitar.

Contando com o apoio da London College of Communication e da CML, os mapas são uma edição bilingue, em Português e Inglês, promovendo o património cemiterial de Lisboa junto de um público mais vasto.


Para encomendar os novos Guias Ilustrados, basta enviar 

um email para guiascemiterios@gmail.com. 





6.1.25

WANTED: Medalhões de Vidro

No contexto das minhas investigações, tenho encontrado vários elementos novos e objectos curiosos. Gosto sempre de saber mais sobre as coisas com que me vou cruzando; aliás, foi assim que comecei a investigar e estudar cemitérios: não me bastavam as imagens que ia registando nas minhas fotografias, precisava de saber mais, de descobrir as histórias.

Em Dezembro de 2020 foi inaugurada a exposição Flores de Pedra | Flowers of Stone, patente ainda na galeria de exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres. Nas paredes da galeria - para além dos painéis informativos com representações das plantas que fomos descobrindo e identificando nos cemitérios de Lisboa e a respectiva leitura simbólica contextualizada - encontram-se vários objectos fúnebres, recuperados pela Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa em jazigos particulares abandonados. Esse material, riquíssimo para desenvolver o nosso conhecimento relativamente aos rituais e práticas fúnebres portuguesas no século XIX e XX, faz parte do acervo museológico dessa divisão.

Dos elementos que integram a exposição - todos eles apresentando bonitas e simbólicas flores - encontra-se um conjunto de medalhões de vidro que despertaram a minha curiosidade.

Trata-se de vidro simples, aparentemente forrado com jornal do lado que fica voltado para a moldura metálica de suporte, pintados com cenas de luto, num estilo um pouco naif.

Não encontrei bibliografia que refira estes elementos ou me dê pistas para perceber melhor quem os fazia, como se comercializavam, se eram encomendas ou trabalhos de série, etc. Falta quase tudo, no entanto, tenho já algumas pistas que partilho convosco.

1. O nome "medalhões", que estou a utilizar para designar estes objectos, está na lista de serviços e produtos que eram comercializados pela Agência Funerária Cereeiro, que ficava na Rua da Junqueira (lembro-me de passar por ela tantas vezes, mas entretanto já não se encontra lá). Esta informação foi encontrada numa factura de funeral de 1909, gentilmente disponibilizada por Fernando Oliveira, responsável pelo Museu Funerário Fernando Oliveira (que merece uma visita).

2. Percebemos claramente alguns dos contextos de uso a partir de fotografias antigas, tirada nos cemitérios de Lisboa, em que vemos medalhões destes pendurados no interior dos jazigos e até no exterior, em obeliscos e colunas de jazigos subterrâneos.

Tirando estes dois pontos, sabemos ainda muito pouco. O que nos leva ao poster de WANTED do topo deste post: alguém tem informação disponível? 

A informação pode ser directamente sobre estes elementos, de alguém que se recorde ou conheça histórias de ver vender ou comprar, de ter nos seus jazigos ou pode ser no formato de antigas facturas de funerais que possam referir estes artigos.

Se alguém tiver informação, pode enviar para o email Blog.MortSafe@gmail.com ou contactar-me directamente a partir do Facebook ou do Instagram do Mort Safe.

Seria maravilhoso encontrarmos juntos mais informação sobre estes curiosos medalhões de vidro.

Obrigada a todos e passem a palavra, por favor!