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15.2.26

Saudades na Sorbonne

Em 2024 abriu uma chamada de apresentações para um dia de trabalho aberto na Universidade Sorbonne, em Paris. Era dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, pelo que achei que as paisagens cemiteriais lisboetas e o nosso conceito de saudade, tão presente nos cemitérios portugueses resultavam num encaixe perfeito.

Enviei a proposta e foi aceite. Infelizmente, o dia da conferência calhou precisamente nos últimos dias de entrega da minha tese de mestrado e foi-me impossível estar presente; mas a pesquisa estava feita. Assim, foi com muita satisfação que aceitei preparar o texto e participar no volume resultante dos artigos apresentados, quando fui contactada pela organização.

Neste link podem encontrar a edição temática da revista de História da Arte da Sorbonne, dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, da qual faz parte o meu artigo.

The Tombs of Alto dos Prazeres by Mendes Leal Junior or How Nostalgia Permeates a 19th Century Book of Cemetery Drawings, o artigo que escrevi, dedica-se à Saudade (o sentimento e a flor), relacionando-a com as paisagens cemiteriais do século XIX, tendo por base a publicação Os Tumulos Portuguezes no Alto dos Prazeres, com introdução de Mendes Leal Júnior.

É um orgulho e sentimento de dever cumprido, ter um artigo a espalhar a nossa Saudade na revista de uma das mais conceituadas universidades do mundo. 

Se preferirem ler só o meu artigo, podem fazê-lo neste link, directamente no meu perfil do Academia.edu.

18.5.25

História Interreligiosa dos Cemitérios de Lisboa

No passado dia 3 de Abril a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou o novo Edifício Saudade, passando a cidade a dispor de um espaço para velórios e despedidas sem elementos religiosos.

Contendo ainda um forno crematório, a ausência de simbologia religiosa permite que se torne verdadeiramente inclusivo, uma vez que cada família pode decorar a sala com os elementos que entender, respondendo às necessidades das diferentes religiões e também a quem delas prescinde.

Neste contexto, a Divisão de Gestão Cemiterial, responsável pela gestão do novo edifício, publicou um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa, no qual participei com um texto sobre a história religiosa dos cemitérios de Lisboa.

A partir de fontes primárias, como as actas das reuniões da Assembleia da Câmara Municipal de Lisboa, considerando também relatos coevos em jornais e outros documentos, foi possível recuperar informações sobre as acessas discussões relativas à pretensão nacional de separar os mortos por credo, dentro dos cemitérios portugueses e como Lisboa se recusou a cumprir a lei régia, mantendo os cemitérios públicos da cidade como um espaço único sem divisões físicas. 

Nos jornais períodicos conseguimos ainda encontrar referências ao primeiro funeral civil a ter lugar na cidade e as resultantes reacções da igreja e da população.

Obviamente que recomendo a leitura, para quem se interessa por estas temáticas e, claro, por quem tem curiosidade no tema.


Para além do Boletim Cultural completo, disponível no link acima, podem ainda encontrar o meu artigo aqui, acedendo directamente à minha página no site Academia.edu.

Boas leituras!

10.11.12

Simbologia: Perpétua Saudade

Uma das componentes que me parece mais interessante de interpretar na simbologia cemiterial é a da flora.
Em primeiro lugar, esclareça-se que nem sempre é fácil distinguir ou identificar a flor que está talhada na pedra, depois de muitos anos exposta aos rigores invernais e aos impiedosos raios do Sol no Verão, mas depois dela ser claramente identificada, existem inúmeros "dicionários de plantas" que ajudam a perceber qual o provável significado que presidiu à escolha de um ramo de margaridas ou de umas hortenses, em vez de rosas e amores-perfeitos.
Em todos os casos com que me deparei durante muito tempo, a simbologia da planta obrigou sempre à sua interpretação, nunca tendo um significado literal.
Por exemplo: o trevo comum - de três folhas - é normalmente usado para representar a Santíssima Trindade, mas acabou também por representar a Irlanda, uma vez que, segundo a lenda, São Patrício - para além de ter expulsado as serpentes - levou consigo o trevo e espalhou-o pela ilha, em representação, precisamente, da Santíssima Trindade. Assim, quando encontramos um trevo numa campa, é muito possível que estejamos na presença da campa de um irlandês ou de um católico devoto.
 Também é preciso considerar as modas e escolhas estéticas. Não é incomum encontrarmos várias campas seguidas com simbologia ou monumentos semelhantes: uma vezes, porque é uma só família (e foi essa a forma encontrada para a representar); outras, porque a escolha foi puramente estética - muitas vezes feita por catálogo, de acordo com as amostras que o artesão tinha na oficina ou com base naquilo que se viu no cemitério numa visita anterior.
 No entanto, no caso de Portugal - até agora ainda não me cruzei com este fenómeno em outros países - existe, pelo menos, um caso de literalidade. 
Nos cemitérios de Lisboa (Prazeres e Alto de São João) é difícil passar mais do que uma dezena de jazigos sem nos cruzarmos com duas plantas que normalmente aparecem juntas, por vezes na companhia de mais alguns símbolos, e cujo significado é simplesmente "Perpétua Saudade".
As Perpétuas são plantas conhecidas por florirem em canudinhos ou bolinhas - conhecidas também pelo chá que se faz com elas: em especial, o de perpétuas roxas; favorito da fadista Amália - e a Saudade tem uma representação parecida com a do cardo, podendo até ser confundida com este.
Juntas, não carecem de mais interpretação: significam "Perpétua Saudade" ou "Saudade Perpétua".

Resta realçar que, no nosso país, estas duas flores foram utilizadas frescas para enfeitar as campas. Em 1872, Ramalho Ortigão descrevia os cemitérios lisboetas da seguinte forma:
«Chegámos ao cemitério. Das grades que circulam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes e simbólicas em vasos de porcelana; e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério.»