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9.8.11

Vida e Morte em Portugal



Interessantíssimo documentário do início dos anos 90, parte da série Viagem ao Maravilhoso sobre as práticas de Morte em Portugal.
Contém imagens de núcleos museológicos dedicados à funerária, simbologia, etc.
Destaque para o cemitério e museu da Chamusca e a história da morte na Europa; menção à lenda referente às intervenções do fantasma de Sousa Martins em curas e sessões espíritas e à relação entre a Morte e as praticas populares do Carnaval e da Páscoa.


10.7.11

Livros: Memento Mori

Durante a Idade Média praticou-se o chamado enterramento ad sanctos, ou seja, o mais próximo possível de relíquias ou de altares, o que significa que as inumações eram realizadas no interior das igrejas, nos seus átrios e claustros.

Esta prática contrariava o costume deixado pelos romanos de inumar-se longe dos locais povoados; prática também defendida pelo cristianismo primitivo.

As inumações ad sanctos foram abandonadas no século XVIII, em favor de uma política mais próxima da romana, seleccionando-se locais distantes das zonas populosas para se constituírem locais específicos de enterramento: os nossos cemitérios românticos (vitorianos) que, por vários motivos, se tornaram locais seculares, ainda que continuem a ocorrer funerais religiosos.

Recordo que a língua inglesa permite distinguir dois tipos diferentes de cemitérios: graveyard ou churchyard e cemetery. O primeiro usa-se, normalmente, para designar os terrenos em volta das igrejas, onde eram realizadas as inumações até ao final século XVIII, início do século XIX, e o segundo é utilizado relativamente aos cemitérios românticos, do século XIX em diante.

Um dos vários livros de fotografia da autoria do excelente fotógrafo Simon Marsden chama-se Memento Mori e, ainda que seja considerado um álbum de fotografia cemiterial, chamo a atenção para o facto das imagens deste livro serem de igrejas e átrios de igreja ingleses; ou seja, os locais onde eram realizadas as inumações ad sanctos.

As imagens são, como sempre, de uma beleza etérea, quase sobrenatural, onde os exteriores se apresentam no preto e branco exótico, característico dos trabalhos do autor, graças ao uso da técnica de infravermelhos.
Os interiores são aqui apresentados a cor, o que não acontece com frequência nos livros de Marsden, mas - com a excepção dos vitrais, que nos são apresentados em todo o seu esplendor colorido e luminoso - o fotógrafo apresentar-nos imagens quase monocromáticas de grande riqueza; contrariamente ao que, por vezes, acontece na fotografia cemiterial, o uso da cor não tem o efeito distractor que nos leva a ignorar a peça de arte, em favor de um ramo de flores coloridas, por exemplo.

Para além das imagens, Marsden escolheu um conjunto de citações de autores conhecidos e que escreveram sobre a Morte ou, pelo menos, trataram-na sem embaraço nos seus trabalhos, como Charles Dickens, Emily Brontë, Emily Dickinson ou Edgar Allan Poe.

Ainda que não seja o meu trabalho favorito de Simon Marsden é, para todos os fãs de fotografia cemiterial, uma obra a adquirir.


5.4.11

Epitáfios

Epitáfio é o nome que se dá aos textos que acompanham os túmulos, deixando mensagens para os vivos ou homenageando os mortos.
Tem origem na palavra grega epitafos, onde epi significa "sobre" e tafos significa "túmulo".



Cemitério do Alto de São João, Lisboa, Portugal.


2.3.11

Mausoléus

Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo era o Mausoléu de Halicarnasso, uma construção funerária gigantesca, projectada por Pítio, que servia de tumba ao rei Mausolo da Caria, que viveu durante o século IV a.C.
Dessa Maravilha do Mundo Antigo restam apenas alguns vestígios na cidade turca de Bodrum, mas o nome e o conceito resistem e são reconhecidos por todos.

Um mausoléu pode ser definido como uma construção fúnebre, independente, contendo uma ou várias tumbas onde se pode, pelo menos em teoria, entrar.

Relativamente popular durante a ocupação romana, a construção de mausoléus tornou-se rara nos séculos que se seguiram, considerando as práticas funerárias promovidas pelas religião católica.

É a ruptura com as inumações no interior das igrejas que impulsiona o regresso destas construções. O regresso da construção de mausoléus dá-se também com o estabelecimento de colónias de europeus fora da Europa e a influencia que as construções e costumes locais tiveram sobre estas. Na Índia é possivel encontrar mausoléus construidos por comerciantes europeus desde 1659.
Um dos casos mais claros dessa influencia é o cemitério de South Park Street, em Calcutá, modelo inicial para os grandes cemitérios românticos (vitorianos) europeus como Père Lachaise.

A moda dos cemitérios românticos, que se espalhou pela Europa durante o final do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, transformou o desenho e construção de mausoléus numa actividade arquitectural comum. É interessante perceber entre 1768 e 1820 (cronologia) a Royal Academy, em Inglaterra, recebeu cento e sessenta e quatro projectos de mausoléus, dos quais foram efectivamente construidos setenta.
Nas famílias mais abastadas, era natural que o arquitecto seleccionado para fazer construções nas propriedades da família fosse chamado também a desenhar o respectivo mausoléu.

A época vitoriana permite uma diversidade de estilos realmente rica; podemos encontrar monumentos de estilo Tudor ao lado de outros de estilos Grego, Gótico e Egípcio - que se tornou especialmente popular nessa altura devido à sua associação às pirâmides enquanto monumento fúnebre e, indirectamente, à simbologia maçónica, também muito comum na representação funerária vitoriana.

Apesar disso, é por volta dos anos 60 de 1800 que a construção de mausoléus atinge o seu pico, em número e tamanho. É nesta fase que grandes nomes da arquitectura do século XIX ficam associados à construção de monumentos funerários, trazendo floreados estilísticos como cantaria policromática e estilos e materiais eclécticos.

Com a chegada do século XX, na Europa, a afirmação de riqueza por recurso à construção de monumentos funerários sai de moda, ao mesmo tempo que a tendência para a cremação aumenta. Ainda assim, alguns mausoléus são adaptados, criando-se nichos para urnas de cinzas funerárias.

Nos Estados Unidos, a construção de mausoléus não sofreu este abandono, sendo ainda bastante popular. Em alguns países, como o México, o plástico colorido faz agora parte das construções funerárias, criando mausoléus extravagantes.
Neste momento, existem já mausoléus virtuais pela Internet, onde é possível imortalizar uma pessoa através de uma placa.

Estas ricas e diversificadas construções do passado - não muito distante - estão disponíveis para serem apreciadas e visitadas, permitindo-nos perceber a forma artística e tentativamente duradoura com que os nossos antepassados procuravam celebrar a morte dos seus entes queridos.


Imagens:
central - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
e
squerda - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
direita - Cemitério Père Lachaise, Paris, França @ Gisela Monteiro . 2009;

2.2.11

Mort Safe

«Relva e ervas ruins cresciam em abundância por todo o cemitério, cobrindo completamente as velhas sepulturas. Não havia ali uma pedra tumular. Sobre cada sepultura havia uma tabuleta carcomida, com a parte de cima arredondada mais ou menos tombada e sem ter a que se apoiar. Noutro tempo, em cada uma delas, tinha sido pintado o nome da pessoa a quem era consagrada, mas, ainda mesmo que houvesse luz, ninguém conseguiria lê-las. (...)
Na escuridão distinguiam-se a custo uns vultos vagos, que se aproximavam balouçando uma lanterna acesa, cuja luz punha no chão inúmeras manchas. (...)
O doutor pôs a lanterna à cabeceira da sepultura e foi sentar-se encostado ao tronco de um dos ulmeiros (...)
Durante algum tempo não se ouviu nenhum ruído além do que faziam as enxadas a abrir a terra, e que era muito monótono. Finalmente, uma delas tocou no caixão, com um ruído oco de madeira; em pouco minutos os homens içaram-no para fora da cova. Tiraram o corpo e deixaram-no cair rudemente no chão. A Lua apareceu entre as nuvens e iluminou o rosto pálido. Estava pronta a padiola. Colocaram-lhe o corpo em cima, taparam-no com um cobertor e ataram-no com uma corda.»
Mark Twain, As Aventuras de Tom Sawyer

No excerto acima, Mark Twain descreve um acontecimento comum no final do século XVIII: o roubo de um corpo, em nome da ciência. Os avanços científicos na área da medicina tornavam a dissecação de corpos humanos numa necessidade imperativa, mas as regras religiosas dificultavam a disponibilização de cadáveres às universidades.
Nasceram, assim, os ladrões de corpos que a troco de dinheiro invadiam cemitérios à noite, desenterrando os mortos mais recentes para vendê-los a estudantes de medicina, que evitavam fazer perguntas.
O horror da morte de um familiar era seguido pela angústia da possibilidade do corpo não ter direito ao descanso eterno e acabar na marquesa de um anatomista.
Foram criados mecanismos de defesa para os mortos, que passaram pela construção de mausoléus, gaiolas de metal ou caixões explosivos. Em 1816 foi inventado um sistema, baseado num conjunto de grades de ferro e cadeados que, colocado rente ao chão, sobre as campas, impedia os ladrões de roubar os corpos.
Em alguns casos, as grelhas eram retiradas, e reutilizadas, logo que o corpo se encontrava suficientemente decomposto para já não ser cobiçado pelos estudantes; noutros casos, iam ficando - e ainda hoje podem ser encontrados em cemitérios antigos.
Esse sistema de grelhas ganhou o nome de mort safe.