Mostrar mensagens com a etiqueta Prazeres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Prazeres. Mostrar todas as mensagens

3.10.26

CIVITAS MORTUORUM | Lançamento

Caríssimos Amigos! 

No próximo dia 10 de Outubro, as 18:00, no Cemitério dos Prazeres, irá ter lugar o lançamento do meu livro Civitas Mortuorum: Mimese Artística da Arquitectura da Cidade na Arquitectura do Cemitério (Verbi Grati, 2026). A apresentação será feita pelo Professor Doutor Nuno Senos. 

Gostava muito de contar com a vossa presença. 

Encontramo-nos no cemitério? 



15.2.26

Saudades na Sorbonne

Em 2024 abriu uma chamada de apresentações para um dia de trabalho aberto na Universidade Sorbonne, em Paris. Era dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, pelo que achei que as paisagens cemiteriais lisboetas e o nosso conceito de saudade, tão presente nos cemitérios portugueses resultavam num encaixe perfeito.

Enviei a proposta e foi aceite. Infelizmente, o dia da conferência calhou precisamente nos últimos dias de entrega da minha tese de mestrado e foi-me impossível estar presente; mas a pesquisa estava feita. Assim, foi com muita satisfação que aceitei preparar o texto e participar no volume resultante dos artigos apresentados, quando fui contactada pela organização.

Neste link podem encontrar a edição temática da revista de História da Arte da Sorbonne, dedicada à Paisagem e Nostalgia no século XIX, da qual faz parte o meu artigo.

The Tombs of Alto dos Prazeres by Mendes Leal Junior or How Nostalgia Permeates a 19th Century Book of Cemetery Drawings, o artigo que escrevi, dedica-se à Saudade (o sentimento e a flor), relacionando-a com as paisagens cemiteriais do século XIX, tendo por base a publicação Os Tumulos Portuguezes no Alto dos Prazeres, com introdução de Mendes Leal Júnior.

É um orgulho e sentimento de dever cumprido, ter um artigo a espalhar a nossa Saudade na revista de uma das mais conceituadas universidades do mundo. 

Se preferirem ler só o meu artigo, podem fazê-lo neste link, directamente no meu perfil do Academia.edu.

30.3.25

Guias Ilustrados dos Cemitérios de Lisboa

No dia 22 de Março, no Cemitério do Alto de São João, ocorreu a apresentação e lançamento dos novos guias dos cemitérios de Lisboa.




Integrados na colecção de mapas Cartografia para a Portuguesia de Maria da Gandra, professora na London College of Communication - LCC, as publicações número 4 e 5 dedicam-se ao Cemitério dos Prazeres e ao Cemitério do Alto de São João.
Foto: David Miguel.

Desenvolvidos em parceria entre Maria da Gandra (design gráfico e esquemáticos) e Gisela Monteiro (investigação e texto) os dois novos guias resultam como uma ferramenta auxiliar para visitas auto-guiadas nos cemitérios, listando um conjunto de monumentos e personalidades de destaque, contando as suas histórias, explicando simbologia ao mesmo tempo que, graças aos detalhados esquemas e ilustrações, permitem ficar a conhecer estes cemitérios antes mesmo de o visitar.

Contando com o apoio da London College of Communication e da CML, os mapas são uma edição bilingue, em Português e Inglês, promovendo o património cemiterial de Lisboa junto de um público mais vasto.


Para encomendar os novos Guias Ilustrados, basta enviar 

um email para guiascemiterios@gmail.com. 





6.1.25

WANTED: Medalhões de Vidro

No contexto das minhas investigações, tenho encontrado vários elementos novos e objectos curiosos. Gosto sempre de saber mais sobre as coisas com que me vou cruzando; aliás, foi assim que comecei a investigar e estudar cemitérios: não me bastavam as imagens que ia registando nas minhas fotografias, precisava de saber mais, de descobrir as histórias.

Em Dezembro de 2020 foi inaugurada a exposição Flores de Pedra | Flowers of Stone, patente ainda na galeria de exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres. Nas paredes da galeria - para além dos painéis informativos com representações das plantas que fomos descobrindo e identificando nos cemitérios de Lisboa e a respectiva leitura simbólica contextualizada - encontram-se vários objectos fúnebres, recuperados pela Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa em jazigos particulares abandonados. Esse material, riquíssimo para desenvolver o nosso conhecimento relativamente aos rituais e práticas fúnebres portuguesas no século XIX e XX, faz parte do acervo museológico dessa divisão.

Dos elementos que integram a exposição - todos eles apresentando bonitas e simbólicas flores - encontra-se um conjunto de medalhões de vidro que despertaram a minha curiosidade.

Trata-se de vidro simples, aparentemente forrado com jornal do lado que fica voltado para a moldura metálica de suporte, pintados com cenas de luto, num estilo um pouco naif.

Não encontrei bibliografia que refira estes elementos ou me dê pistas para perceber melhor quem os fazia, como se comercializavam, se eram encomendas ou trabalhos de série, etc. Falta quase tudo, no entanto, tenho já algumas pistas que partilho convosco.

1. O nome "medalhões", que estou a utilizar para designar estes objectos, está na lista de serviços e produtos que eram comercializados pela Agência Funerária Cereeiro, que ficava na Rua da Junqueira (lembro-me de passar por ela tantas vezes, mas entretanto já não se encontra lá). Esta informação foi encontrada numa factura de funeral de 1909, gentilmente disponibilizada por Fernando Oliveira, responsável pelo Museu Funerário Fernando Oliveira (que merece uma visita).

2. Percebemos claramente alguns dos contextos de uso a partir de fotografias antigas, tirada nos cemitérios de Lisboa, em que vemos medalhões destes pendurados no interior dos jazigos e até no exterior, em obeliscos e colunas de jazigos subterrâneos.

Tirando estes dois pontos, sabemos ainda muito pouco. O que nos leva ao poster de WANTED do topo deste post: alguém tem informação disponível? 

A informação pode ser directamente sobre estes elementos, de alguém que se recorde ou conheça histórias de ver vender ou comprar, de ter nos seus jazigos ou pode ser no formato de antigas facturas de funerais que possam referir estes artigos.

Se alguém tiver informação, pode enviar para o email Blog.MortSafe@gmail.com ou contactar-me directamente a partir do Facebook ou do Instagram do Mort Safe.

Seria maravilhoso encontrarmos juntos mais informação sobre estes curiosos medalhões de vidro.

Obrigada a todos e passem a palavra, por favor!


31.5.24

A Última Morada Bordalo Pinheiro em PT e EN

 E com o mês de Maio chegaram duas surpresas sob a forma de publicações (em papel e digital) do meu artigo sobre o jazigo particular dos Viscondes de Faro e Oliveira que, desenhado pelo genial Rafael Bordalo Pinheiro, também nele se encerram os seus restos mortais.

Este artigo, tendo nascido no decurso de uma investigação no contexto do meu mestrado em História da Arte, acabou por ser estendido, detalhado, aprofundado e transformado com vista à publicação numa versão em português e em inglês.

A versão em português foi apresentada na conferência "In Memoriam" Passado, presente e futuro dos cemitérios como espaços de memória, organizada pelo Prof. Francisco Queiroz e pela Santa Casa da Misericórdia de Braga, tendo sido agora publicada no volume de actas deste evento. Quem não tiver a sorte de conseguir comprar uma cópia, poderá encontrar online os vários artigos, que estão a ser disponibilizados pelos autores.

Se quiserem ler o meu artigo, intitulado Jazigo Particular N.º 4099: A Última Morada de Rafael Bordalo Pinheiro, podem seguir esta ligação.

Entretanto, fiz uma versão do artigo em inglês, com as necessárias adaptações para um público não português, procurando contextualizar o artista Rafael Bordalo Pinheiro e o seu trabalho no nosso século XIX, assim como o surgimento do neo-Manuelino neste período e a sua captação como gramática ornamental em monumentos fúnebres nos cemitérios de Lisboa. 

Este trabalho foi apresentado na conferência da AGS - Association for Gravestone Studies em 2022 e submetida à revista norte-americana Markers, foi também publicada agora, no volume XXXIX da revista.

Ainda não há versão digital, mas quem quiser a versão de papel pode encomendar para este endereço de email. A revista é distribuída gratuitamente a todos os membros da AGS.


23.5.23

O Crime dos Prazeres

A 21 de Maio de 2023 assinala-se o centenário da morte do 9.º Conde de Sabugosa: António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, escritor, historiador, diplomata e mordomo-mor da Casa Real portuguesa. Figura incontornável das letras portuguesas na passagem do século XIX para o XX, integrou o grupo Vencidos da Vida (tendo sido até o penúltimo elemento a falecer, poucas semanas antes do poeta Guerra Junqueiro), expirando aos 71 anos.
O funeral foi agendado para o dia seguinte no cemitério dos Prazeres, para o jazigo particular n.º1587 (construído em 1866) – o mesmo que albergou temporariamente em 1915 os restos mortais de Ramalho Ortigão, outro Vencido da Vida, enquanto a família deste mandava construir o jazigo que agora o acolhe no cemitério do Alto de São João. 
Esperava-se uma enchente no cemitério dos Prazeres para o funeral do Conde de Sabugosa e o polícia a quem foi confiada a tarefa de manter a ordem durante a cerimónia diria depois ao jornal O Século que um pressentimento o levara a pedir reforços à esquadra da Estrela, que lhe enviara os polícias de piquete. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Perto das 17:00 horas, já terminada a cerimónia e quando muitos dos acompanhantes se retiravam, aconteceu o impensável: o silêncio murmurante do cemitério foi rasgado por três tiros de pistola. Na altura, houve quem dissesse terem sido cinco, mas foram três – suficientes para matar um homem. 
Por entre as sombras dos ciprestes, encoberto pelos jazigos e perscrutando a multidão, António Nunes Canha aguardara Adolfo do Couto Viana, o gerente da fábrica da Companhia União Fabril (CUF) nas Fontaínhas, que tinha ido ao funeral do Conde de Sabugosa em representação de Manuel José de Melo: director da CUF e sobrinho do falecido. Pouco tempo antes, Nunes Canha fora despedido por Adolfo Viana; no dia do funeral, vendo-o passar a caminho do cemitério, seguiu a carruagem e decidiu recorrer à violência. Por entre gritos e corridas, Adolfo Viana perdia a vida, sangrando no chão sagrado do cemitério. 
Talvez em choque por ter tido sucesso no atentado, Nunes Canha deixou-se agarrar pelos polícias que escoltavam o cortejo fúnebre, sendo levado para o interior do edifício da administração do cemitério, junto do portão principal, enquanto a multidão regressava, irada, apercebendo-se do que se passara no cemitério. O corpo inerte de Adolfo Viana, que o Dr. Melo Breyner – também presente no funeral – declarou morto, indignava a multidão, que gritava pelo assassino, apelando à justiça popular. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
O fotógrafo do jornal O Século que registou a procissão fúnebre e a entrada do caixão no cemitério teve autorização para entrar na sala onde Nunes Canha esperava com a polícia e fotografou-o, com uma expressão entre a ausência e a estupefacção: «Tanto me faz. Façam de mim o que quizerem» , reporta ter-lhe dito o criminoso quando pediu para o fotografar. Cerca de uma hora e meia depois, quando finalmente a multidão dispersou o suficiente para saírem com segurança do edifício da administração do cemitério, o fotógrafo captou o momento em partiram em direcção à cadeia do Limoeiro. O cocheiro de Adolfo Viana ainda deitou as mãos ao autor do atentado com ganas de o esganar, mas a polícia evitou-o. 
Nesse mesmo dia, na Câmara de Deputados, Paulo Cancela de Abreu, que estivera presente no funeral e por isso chegou a meio da sessão, declarou ter presenciado «o vil atentado contra o gerente da Companhia União Fabril, que o vitimou» . O seu depoimento causou sensação na câmara e o Crime dos Prazeres, como popularmente ficou conhecido, ficou ainda associado a outra situação de violência, quando à porta do Parlamento um soldado da Guarda Republicana atacou o deputado Carvalho da Silva. 
O resultado destes acontecimentos inesperados foi o de as reportagens das exéquias do Conde de Sabugosa terem sido reduzidas para dar espaço ao relato do atentado, aos detalhes sobre a vítima, sobre a vida do assassino e os seus antecedentes criminais. E, claro, dois dias depois reportava-se um novo funeral: Adolfo Viana, abatido no funeral anterior, seguindo da igreja de São Domingos para o jazigo de família no cemitério do Alto de São João. O destaque dado pelos jornais foi para a multidão que se juntou em torno da igreja, nas ruas adjacentes e para a presença notória de muitos operários. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Num período conturbado, com greves, atentados e bombas, o crime foi lido como um atentado político, uma afirmação ideológica. Os ânimos exaltaram-se com um assassinato perpetrado em público num cenário e um momento completamente inesperados – um cemitério e no final de um funeral. Discutiu-se a culpa de Nunes Canha e o impacto que o seu despedimento havia tido na sua conduta. Houve, inclusivamente, alguns discursos que quase procuravam justificar o acto de Nunes Canha com o seu despedimento. Nos dias que se seguiram recuperou-se o passado sindicalista do autor dos disparos e o seu papel na organização da Associação de Classe do Pessoal da União Fabril e na criação e presidência do Sindicato das Associações Rurais do Ribatejo. Até se recordou uma anterior tentativa de assassinato, quando quatro anos antes, durante a greve dos metalúrgicos, Nunes Canha atentara contra um industrial na Rua da Junqueira (acabando absolvido pelo tribunal depois de dois anos de prisão). E o caso foi-se arrastando nos tribunais, sem desfecho. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 

Sabemos que em 1925, dois anos depois do sucedido, o caso continuava por julgar no tribunal da Boa Hora por incapacidade de assegurar o número suficiente de jurados para formar um júri. Nunes Canha terá sido sentenciado ao degredo em África (de onde regressou, temporariamente, em 1942, por motivos de saúde), facto atestado por uma circular escrita por seus correligionários que procurava apoio financeiro que lhe permitisse continuar na metrópole, mas perdemos-lhe o rasto. 


O caso do Crime dos Prazeres é único em Portugal, corporizando um assassinato premeditado, perpetrado no interior de um cemitério, após um funeral.


5.2.23

A Casa Portuguesa nos Cemitérios no GetLisbon

 A fantástica página GetLisbon, que se dedica a partilhar os aspectos mais peculiares de Lisboa desde 2017 - se ainda não seguem nas redes sociais nem recebem a newsletter por email, cliquem aqui e vão até lá - convidou-me para escrever um texto sobre A Casa Portuguesa nos Cemitérios, uma temática a cujo estudo me dedico há já alguns anos.

Passem por lá e leiam. 


Obrigada pelo convite!


6.12.20

Flores de Pedra - Exposição

A exposição "Flores de Pedra / Flowers of Stone", no âmbito de Lisboa Capital Verde Europeia 2020, foi inaugurada no passado dia 4 de Dezembro pelo Sr. Vereador da Câmara Municipal de Lisboa José Sá Fernandes e está patente na Galeria de Exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde pode ser visitada todos os dias até às 16:00.

Nascida de uma ideia de Sara Gonçalves, directora dos cemitérios de Lisboa, o projecto pretendeu reunir uma equipa multidisciplicar, com especialistas em botânica e simbologia, de forma a identificar as espécies de plantas que decoram os nossos cemitérios e descobrir os seus significados, tendo em conta o contexto cemiterial.

Foram vários meses de trabalho dedicado que incluíram visitas de campo, sessões fotográficas extensas, análise detalhada de imagens, pesquisa e análise de espécies, pesquisa histórica e simbólica, investigação de material de época, recuperação e restauro de peças de jazigos abandonados, concepção do projecto museológico e design, entre tantas outras tarefas essenciais para levar um trabalho como este a bom porto.

A utilização de livros e materiais do século XIX relativos à então popular Linguagem das Flores, contemporânea da maior parte dos jazigos fotografados e presentes nos nossos cemitérios permitiu enriquecer e contextualizar com maior acuidade a interpretação simbólica.


A componente da botânica ficou a cargo da Sandra Mesquita, a simbologia é da responsabilidade de Gisela Monteiro e o design e projecto museológico é de José Dias.

Vão visitar: prometemos que vai valer a pena!

Da esquerda para direita: Gisela Monteiro, Sandra Mesquita e Sara Gonçalves.


31.10.20

Asclépio, Hermes e Higia nos Cemitérios

Ao visitar um cemitério romântico, nas zonas mais antigas, onde se erguem os jazigos-capela e as sepulturas perpétuas, é comum encontrar curiosas figuras talhadas na pedra, sozinhas ou adornando epitáfios: flores, animais, instrumentos de trabalho, letras gregas, objectos do dia-a-dia, figuras humanas, símbolos de ordens. 

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, Portugal

Quando tentamos perceber o seu significado dentro do espaço cemiterial, transparece que a escolha não foi aleatória, ainda que alguns dos donos de obra possam ter escolhido a decoração do seu jazigo a partir de catálogos ou pedindo para copiar algo que viram numa das suas visitas de domingo ao cemitério local.

Identificar e decifrar essas figuras ajuda-nos a saber mais sobre quem é a pessoa que se encontra enterrada no local, a forma como ela se via ou era vista pelos outros, aquilo de que mais gostava ou mais valorizada em vida.
Algumas das figuras não nos levam a interpretações complicadas e a recorrer dos compêndios e almaços antigos, por conseguirmos reconhecer o símbolo apresentado, por ele ainda fazer parte da nossa actualidade. E porque, por vezes, uma rosa é, realmente, apenas uma flor.

Um dos conjuntos de símbolos que parecem fáceis de identificar e decifrar são os símbolos associados à medicina e saúde. Estamos habituados a vê-los pintados em ambulâncias, representados nos placards luminosos das farmácias, nos logótipos de serviços de saúde. São normalmente compostos por serpentes enroladas em varas, árvores, taças, lamparinas de azeite.
Parece bastante claro e simples, mas porquê as variações?

Acontece que, efectivamente, estamos a falar de símbolos diferentes. 

Os que chegaram até nós mantendo o significado original são o Bastão de Asclépio e a Taça de Higia. 
Hermes representando o Comércio - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Pelo meio, aparece o Bastão de Hermes, normalmente designado de Caduceu, que inicialmente não estava associado à medicina e, por esse motivo causa alguma confusão no contexto cemiterial, onde aparece muitas vezes como representação do comércio. 

A sua associação formal à medicina surge no início do século XX, no corpo médico do exército dos Estados Unidos, que o adoptou como símbolo, ainda que existam algumas correntes que a colocam vários séculos antes, como extensão da associação de Hermes à Alquimia.
Este erro surge da utilização do caduceu nos exércitos romanos para identificar os mensageiros que, transportando um estandarte com este símbolo tinham salvo-conduto para se deslocarem no campo de batalha sem serem alvos de violência. Talvez fosse esse o objectivo inicial da selecção deste símbolo para identificar os elementos do corpo médico do exército, mas a consequência foi este ficar associado à medicina.

Podemos descrever estes símbolos, simplificadamente, da seguinte forma:
  • O Bastão de Asclépio é uma vara de madeira onde se enrola uma - e apenas uma - serpente.
  • A Taça de Higia é uma taça ou um cálice, no pé da qual se enrola uma serpente, que parece beber da taça.
  • O Caduceu é um bastão de ouro com duas serpentes enroladas, uma de cada lado; no topo do bastão aparece um par de asas e, por vezes, também o capacete de Hermes.
Para distinguir os dois bastões basta ter em atenção o número de serpentes: uma é Asclépio, duas é Hermes.

Conforme referi, Hermes não estava associado à medicina na antiguidade clássica, ao contrário de Asclépio e Higia. 
Hermes era o mensageiro de Zeus e dos deuses nos Infernos: Hades e Perséfone. Era considerado o patrono do comércio, dos ladrões, dos viajantes e dos mensageiros. 

Caduceu /Bastão de Hermes - Cemitério do Alto de São João,
Lisboa, Portugal
O caduceu era, originalmente, um cajado de ouro usado por Apolo enquanto pastoreava gado.
Conta a lenda que Hermes recebeu de Apolo esse cajado em troca de um instrumento musical: numa versão, diz-se que Hermes criou uma lira a partir de uma carapaça de tartaruga e tripas de uns bois que sacrificará aos deuses e que foi esse o instrumento trocado com Apolo; noutra versão, Apolo já teria obtido a lira em troca de um rebanho e dessa vez, para obter a flauta inventada por Hermes, teve de dar em troca o seu cajado. 
Quando recebeu o cajado de Apolo este era apenas uma vara de ouro, sem as serpentes. Depois de receber o cajado, Hermes dirigiu-se a Arcádia, quando chegou encontrou duas serpentes lutavam e se mordiam. Tentando separá-las com o cajado, elas enrolaram-se neste e pararam a violência, mantendo-se em equilíbrio. 

O caduceu é o símbolo identificador de Hermes, assim como a tesoura e o fio são o símbolo identificador de Átropos, por exemplo.

De notar ainda a ligação de Hermes ao mundo dos mortos: este era conhecido como "Acompanhante de Almas" - deus psicopompo - por ser responsável por levar as almas aos Infernos, mas até hoje ainda não encontrei essa vertente representada nos cemitérios, onde a simbologia de Hermes sempre aparece associada ao comércio ou (em jazigos mais recentes) à medicina.

Bastão de Asclépio - Campo Verano,
Roma, Itália
Asclépio, filho do deus Apolo - o mesmo que deu o caduceu a Hermes - foi em pequeno entregue pelo pai ao centauro Quíron, que lhe ensinou as artes da medicina. Asclépio, para além de ter aprendido rapidamente e apresentar grande habilidade na cura dos doentes, possuía ainda a capacidade de ressuscitar os mortos, usando para isso o sangue das veias do braço direito de uma górgona, que lhe fora dado por Atenas. 
Foi por esta capacidade de ressuscitar os mortos que Zeus o matou, receando o impacto que esta façanha poderia ter na ordem do mundo. Depois de morto, Asclépio ascendeu aos céus sob a forma da constelação Serpentário: um homem segurando uma serpente.

O seu símbolo identificador é um pau onde se enrola uma serpente, símbolo esse que representa a medicina.

São atribuídas a Asclépio várias filhas, todas elas associadas à arte da medicina nas suas diferentes vertentes, sendo uma dela Higia. 
Taça de Higia - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Higia é associada à saúde e representada segurando uma taça de onde bebe uma serpente. 
Reza a lenda que, quando Asclépio foi morto por Zeus, as serpentes que viviam e guardavam as fontes de águas medicinais abandonaram-nas e refugiram-se nos templos de Asclépio, onde ficavam imóveis no chão, em sofrimento. 
Higia, por afecto ao pai, cuidava dessas serpentes enlutadas, oferecendo-lhes de beber a partir de uma taça. 
É do nome de Higia que surge a palavra higiene, considerada uma das componentes essenciais à manutenção da saúde.

O símbolo identificador de Higia é a taça de onde bebe a serpente e está associado à saúde.

Internacionalmente, este símbolo é comummente associado à farmácia, mas nos cemitérios pode ser utilizado de uma forma mais ampla, significando saúde.

Recordo que os símbolos devem ser interpretados tendo em consideração os seus contextos, a época e os restantes símbolos representados. 
No contexto cemiterial, podemos generalizar que a presença de uma serpente enrolada numa taça ou num pau são motivos que simbolizam a saúde e a medicina e que uma vara com duas serpentes pode estar associado ao comércio ou à medicina, de acordo com o contexto e a época.

O caduceu num contexto onde se pretende que represente a Saúde, neste caso, a ausência de saúde - a morte -, considerando a sua inversão. Todos estes símbolos representam a morte: a tocha invertida que se apaga, a tesoura de Átropos que corta o fio da vida e a gadanha Cronos que ceifa a vida.

28.10.20

Dia de Finados

 Dia 2 de Novembro é Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos. 

Em Portugal, o dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é feriado religioso, uma data que remonta aos primeiros séculos da cristandade, quando se sentiu a necessidade de celebrar todos os santos conhecidos, mas também os desconhecidos, as pessoas que viviam a sua vida de acordo com o Evangelho, anónimos, mas cumpridores de todos os preceitos da fé. 

02/10/1921 - Cemitério dos Prazeres
(Foto: Salgado)

Na versão mais popular, costumam dizer que os santos já eram tantos que não havia mais dias livres para dedicar a cada um deles e, por isso, criou-se um dia que dedicado a todos.

A verdade é que, em Portugal, o dia 1 de Novembro acaba por ser dedicado à celebração antecipada do Dia de Finados, que se celebra a dia 2 de Novembro. Desconheço o motivo pelo qual o dia escolhido para feriado foi o Dia de Todos os Santos e não o Dia de Finados, como acontece no Brasil, por exemplo.

02/10/1921 - Cemitério do Alto de São João
 (Foto: Salgado)


Seja como for, 1 de Novembro, é dia de romaria ao cemitério. 

Muitas famílias portuguesas aproveitam o feriado para visitar "a terra", as vilas e aldeias de onde a família tem origem, onde por vezes ainda estão os avós e os tios mais velhos, em alguns casos, os pais e os primos. Visitam a família e, juntos, vão ao cemitério, limpam as sepulturas, põem flores, mostram bisavós em retratos de esmalte a crianças que mal sabem andar, contam-se histórias e fazem-se queixas do preço das flores, da falta de visitas, do tempo que corre e não se aproveita, conta-se do vizinho que, este ano, faleceu. 

Nas cidades a prática ainda é seguida, mas a sepulturas temporárias e as cremações levam as famílias a outros rituais.


Este ano, o dia 2 de Novembro é, também, Dia de Luto Nacional.

Alguns de nós não irão celebrar este dia da mesma forma dos anos anteriores, mas podemos sempre lembrar os nossos mortos, onde quer que estejamos: as histórias, as memórias, os cheiros e o som da voz. 

Aos nossos mortos.

02/10/1921 - Cemitério dos Prazeres
(Fotos: Salgado)

1.4.17

Visitas Guiadas - Cemitérios de Lisboa

Já está disponível o programa de visitas guiadas nos Cemitérios de Lisboa para os meses de Abril, Maio e Junho.
Escolham o local ou o tema que mais vos interessa e inscrevam-se já enviando um email para dmevae.dgc@cm-lisboa.pt.


E no dia 20 de Maio, a visita é nocturna. 


9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



19.5.14

Visita Noctura e Concerto nos Prazeres

Este ano a Noite dos Museus foi celebrada de forma muito especial - e inovadora - na cidade de Lisboa.
Olhando os cemitérios como sendo um museu a céu aberto - visão já há muito difundida noutras cidades do mundo, onde as visitas aos cemitérios fazem parte dos pacotes turísticos oferecidos pelas agências de viagens - Lisboa abriu no sábado à noite os majestosos portões do Cemitério dos Prazeres e recebeu os Lisboetas (e não só) de braços abertos, mostrando-lhes o melhor que tem.

Ainda que as visitas nocturnas em cemitérios portugueses não sejam comuns, esta não foi a primeira; essa honra cabe à cidade do Porto, que a 22 de Junho de 2012 preparou uma visita guiada no cemitério de Agramonte. 
Não sei números oficiais dessa visita, mas vi fotografias que mostram bastante gente. 
O facto que muitas vezes é ignorado - especialmente num país como o nosso, de enraizada matriz judaico-cristã - é que existe procura para este tipo de turismo - apelidado normalmente de necroturismo, em alguns casos de forma até pejorativa - e que é essencial dar-lhe resposta.


Nisso, como em outra coisas, os irlandeses têm muito para nos ensinar: no cemitério de Glasnevin, em Dublin, existe um loja no interior do cemitério cheia de livros, canecas e outras recordações do espaço, juntamente com um museu, um café com uma pequena esplanada e um restaurante do tipo cantina: tudo no interior do cemitério. À porta param autocarros de passeio cheios de turistas que entram, entusiasmados, na companhia de guias. 
É um facto que não estamos ainda preparados para este tipo de realidade, mas podemos começar a fazer o caminho, pelos pequenos passos, como os passeios e visitas guiadas.
Já há algum tempo que a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a aumentar a aposta na divulgação dos cemitérios lisboetas e a promover passeios temáticos muito interessantes e diversificados, mas na noite de 17 de Maio a aposta passou por um inédito passeio nocturno, seguido de um concerto de La Chanson Noire na capela.

Vários dias antes da visita já circulavam rumores - rapidamente confirmados - de que esta estaria esgotada, mas que ainda seria possível assistir ao concerto.
Efectivamente, por volta das 20:00 horas, já uma pequena multidão se estendia na ampla avenida principal que liga o portão à capela.

A primeira nota positiva que quero deixar é que é notório que a visita foi bem preparada:

  • À entrada foram distribuídos mapas com o percurso, acompanhados de um folheto com os pontos de paragem, incluindo uma breve descrição e imagem de cada um;
  • O Dr. Licínio Fidalgo, guia da visita, fez-se acompanhar de um megafone e um sinalizador luminoso que permitia encontrá-lo no escuro:
  • Existiam holofotes com geradores (que, pelo que percebi, foram gentilmente cedidos pelos Bombeiros de Lisboa) em todos os pontos de paragem, para garantir que as peças eram vistas pelos visitantes, depois de anoitecer;
  • Vários funcionários da CML estavam junto das encruzilhadas do percurso para assegurar que ninguém se perdia, seguindo um trilho não incluído no passeio;

Foi uma pena que a visita ao Jazigo Palmela tenha sido a primeira paragem do percurso. 
Uma visita a um espaço exíguo e com apenas com uma porta para o exterior (por onde se fazem as entradas e as saídas), quando se tem uma pequena multidão (sem ter números oficiais, diria que estariam perto de cem pessoa) não deve ser o arranque de uma visita deste género, pois torna-se demasiado demorada e dificulta a gestão do tempo. 
Ainda assim, felizmente, bastaram três grupos para que todos os visitantes conseguissem fazer a visita ao fabuloso jazigo; mas a questão principal é que o truque destas coisas é deixar o melhor para o fim: qualquer peça visitada depois do inigualável Jazido Palmela empalidece em comparação.

Teria sido arrepiante fazer o passeio na ordem inversa, não só porque teríamos mais luz para ver as peças que estão na rua, como chegaríamos ao Jazigo já com noite cerrada.

Voltando aos pontos positivos, a iluminação no interior do Jazigo Palmela foi conseguida com diversas velas acesas, o que criou um ambiente muito adequado e sombrio, impossível de conseguir numa visita diurna.

O percurso passou depois por vários pontos de destaque como o Dado Falso, a Bancada do Marceneiro, a estátua de homenagem a Sousa Viterbo e a de homenagem a Oliveira Martins. 
A meio, antes de começarmos a subida em direcção à capela, ainda tivemos a oportunidade de vislumbrar uma magnifica vista sobre o rio Tejo, Alcântara e a Ponte 25 de Abril, iluminadas pelos candeeiros de rua e os faróis dos carros que cruzam a ponte.

O passeio terminou já quase pelas 22:00 horas, dando assim início ao concerto de capela cheia. Ainda que a acústica da capela não tenha sido a ideal, o concerto foi memorável.

O balanço da noite é muito positivo e penso que merece uma repetição em breve.
Garante-se público, claramente...

10.11.12

Simbologia: Perpétua Saudade

Uma das componentes que me parece mais interessante de interpretar na simbologia cemiterial é a da flora.
Em primeiro lugar, esclareça-se que nem sempre é fácil distinguir ou identificar a flor que está talhada na pedra, depois de muitos anos exposta aos rigores invernais e aos impiedosos raios do Sol no Verão, mas depois dela ser claramente identificada, existem inúmeros "dicionários de plantas" que ajudam a perceber qual o provável significado que presidiu à escolha de um ramo de margaridas ou de umas hortenses, em vez de rosas e amores-perfeitos.
Em todos os casos com que me deparei durante muito tempo, a simbologia da planta obrigou sempre à sua interpretação, nunca tendo um significado literal.
Por exemplo: o trevo comum - de três folhas - é normalmente usado para representar a Santíssima Trindade, mas acabou também por representar a Irlanda, uma vez que, segundo a lenda, São Patrício - para além de ter expulsado as serpentes - levou consigo o trevo e espalhou-o pela ilha, em representação, precisamente, da Santíssima Trindade. Assim, quando encontramos um trevo numa campa, é muito possível que estejamos na presença da campa de um irlandês ou de um católico devoto.
 Também é preciso considerar as modas e escolhas estéticas. Não é incomum encontrarmos várias campas seguidas com simbologia ou monumentos semelhantes: uma vezes, porque é uma só família (e foi essa a forma encontrada para a representar); outras, porque a escolha foi puramente estética - muitas vezes feita por catálogo, de acordo com as amostras que o artesão tinha na oficina ou com base naquilo que se viu no cemitério numa visita anterior.
 No entanto, no caso de Portugal - até agora ainda não me cruzei com este fenómeno em outros países - existe, pelo menos, um caso de literalidade. 
Nos cemitérios de Lisboa (Prazeres e Alto de São João) é difícil passar mais do que uma dezena de jazigos sem nos cruzarmos com duas plantas que normalmente aparecem juntas, por vezes na companhia de mais alguns símbolos, e cujo significado é simplesmente "Perpétua Saudade".
As Perpétuas são plantas conhecidas por florirem em canudinhos ou bolinhas - conhecidas também pelo chá que se faz com elas: em especial, o de perpétuas roxas; favorito da fadista Amália - e a Saudade tem uma representação parecida com a do cardo, podendo até ser confundida com este.
Juntas, não carecem de mais interpretação: significam "Perpétua Saudade" ou "Saudade Perpétua".

Resta realçar que, no nosso país, estas duas flores foram utilizadas frescas para enfeitar as campas. Em 1872, Ramalho Ortigão descrevia os cemitérios lisboetas da seguinte forma:
«Chegámos ao cemitério. Das grades que circulam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes e simbólicas em vasos de porcelana; e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério.»

3.6.12

Primavera nos Prazeres


Para quem estiver por Lisboa, fica a nota que vale a pena dar um salto ao Cemitério dos Prazeres para ver o espectáculo dos jacarandás floridos.
Lembrem-se que este manto lilás dura pouco tempo; depois só para o ano.

19.7.11

Nós

I

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,

Que esta população, com um terror de lebre,

Fugiu da capital como da tempestade.


Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas

(Até então nós só tivéramos sarampo).
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas

Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!


Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos

Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.


Na parte mercantil, foco da epidemia,

Um pânico! Nem um navio entrava a barra,

A alfândega parou, nenhuma loja abria,

E os turbulentos cais cessaram a algazarra.


Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,

Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!

Como um domingo inglês na city, que desterros!


Sem canalização, em muitos burgos ermos
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,

Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!


Uma iluminação a azeite de purgueira,

De noite amarelava os prédios macilentos.

Barricas de alcatrão ardiam; de maneira

Que tinham tons de inferno outros armamentos.


Porém, lá fora, à solta, exageradamente

Enquanto acontecia essa calamidade,

Toda a vegetação, pletórica, potente,

Ganhava imenso com a enorme mortandade!


Num
ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,

Como uma universal celebração de bodas,

Amaram-se! E depois houve soberbos partos.


Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,

Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,

E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.


Ele, dum lado, via os filhos achacados,

Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!

E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,

E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!


E o campo, desde então, segundo o que me lembro,

É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

(...)

III

Tínhamos nós voltado à capital maldita,

Eu vinha de polir isto tranquilamente,

Quando nos sucedeu uma cruel desdita,

Pois um de nós caiu, de súbito, doente.


Uma tuberculose abria-lhe cavernas!

Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!

Não sei dum infortúnio imenso como o seu!
Vi o seu fim chegar como um medonho muro,

E, sem querer, aflito e atónito, morreu!


De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo

Com tanta crueldade e tantas injustiças,

Se inda trabalho é como os presos no degredo,

Com planos de vingança e ideias insubmissas.


E agora, de tal modo a minha vida é dura,

Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,

Que sinto só desdém pela literatura,

E até desprezo e esqueço os meus amados versos!

7.4.11

Monumentos Memoráveis: Jazigo Parpaglioni

No cemitério lisboeta dos Prazeres encontra-se uma estátua belíssima, onde um anjo de braços abertos se eleva no ar, em direcção ao Paraíso, levando consigo uma jovem rapariga de cabelos ao vento, cruz ao peito, mãos cruzadas sobre o colo e expressão de êxtase no rosto.

Esta estátua, magnifica, não é única.

O original (de título desconhecido) está no Cemitério Monumentale di Stagieno em Génova e foi esculpida por Frederico Fabiani (Α:1835 - Ω:1914) em 1884.

A morte inesperada e trágica da filha de Luigi Parpaglioni, um rico mercador da Lombardia, levo-o a encomendar um trabalho onde um anjo acompanhasse o espírito da sua filha a caminho do Céu.
O escultor Fabiani, apesar de actualmente ser pouco conhecido, foi um escultor bastante famoso nos anos oitenta do século XIX, chegando mesmo a mudar-se para a América do Sul para responder às muitas encomendas.

Este foi um dos trabalhos de arte cemiterial que ajudou a popularizar a mistura do religioso com o sensual, como na peça L'amore degli Angeli de Giulio Bergonzoli.

Para além do original, em Génova, e da réplica portuguesa no Cemitério dos Prazeres, é ainda possível encontrar outra réplica no Cemitério de Poble Nou em Barcelona.


3.4.11

Jazigo dos Duques de Palmela - III

Fica no cemitério lisboeta dos Prazeres o maior jazigo privado da Europa. Iniciada a sua construção em 1846 e terminado em 1849, foi desenhado pelo arquitecto maçon Giuseppe Cinátti, segundo instruções de Pedro de Holstein (Α:1781 - Ω:1850), o primeiro duque de Palmela.

Inicialmente, o espaço reservado aos Palmela - familiares no interior do jazigo e seus empregados no pequeno jardim de acesso, inumados entre os frondosos ciprestes - situava-se no exterior do cemitério, em jeito de cemitério privado.
Provavelmente, as mesmas leis que obrigaram as ordens religiosas do Porto a fechar os seus cemitérios privados, e a comprar talhões dentro de Agramonte e Prado do Repouso, acabaram por levar os duques de Palmela a doar terreno à Câmara Municipal de Lisboa, de forma a garantir a integração do Jazigo Palmela no interior do contíguo Cemitério dos Prazeres. Em suma: mais do que passarem para o interior, os duques de Palmela conseguiram que o cemitério crescesse para junto deles.

Aparentemente imbuído de simbologia maçónica, o Jazigo Palmela tem a forma de uma enorme pirâmide - durante o século XIX, o revivalismo egípcio varreu toda a Europa (e América do Norte) não sendo de descartar o impacto que ele também teve na concepção do jazigo - assente sobre um cubo (se pensarmos no espaço ocupado pela cripta subterrânea).
Mas esta não é uma pirâmide perfeita: é uma pirâmide inacabada. O topo não termina num vértice - união das quatro faces, das quatro arestas - mas numa nova face, paralela à base da pirâmide. Recorde-se que uma das lendas maçónicas conta que o Mestre Hiram Abiff, responsável pela construção do Templo de Salomão, foi assassinado antes de completar a obra, deixando o templo inacabado.

Nessa face, no lugar onde é usual colocar-se uma Pedra Benben para concluir a pirâmide (ou o obelisco), encontra-se uma estátua, que alguns autores atribuem a Calmels.
Essa estátua é uma figura feminina, várias vezes identificada como sendo o Anjo da Morte ou da Boa Morte (dependendo dos autores consultados...), e é, provavelmente, uma das Sete Virtudes: neste caso a Fé, representada como sendo uma mulher carregando uma cruz.
É ainda de nota que a estátua agarra um livro e um conjunto de chaves: simbologia atribuída a S. Pedro, a quem Cristo entregou as Chaves do Paraíso.
Não deixa de ser curioso que, desta forma, a pirâmide do Jazigo Palmela acabe por ser rematada com uma cruz, o que acontece com todos os obeliscos de Roma, que a mando do Papa Sisto V, no século XVI, foram exorcizados de todos os demónios e purificados da sua simbologia maldita pelo acrescento dessas cruzes.

A magnifica construção ergue-se a Oriente, ocupando o último terço do espaço do talhão rectangular, de cota mais elevada do que os terrenos e construções que o rodeiam, limitado por um gradeamento de metal, constituído por peças repetidas em conjuntos de três, onde no centro de cada um se pode ver uma cabeça de leão (outro símbolo solar de inspiração maçónica).

Sete são os degraus que permitem chegar até ao portão. O número 7 é um dos três números mais importantes para a maçonaria; são eles o 3, o 5 e o 7; referências numerológicas aos três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Estes sete degraus representam ainda as sete Artes Liberais, que compunham o plano de estudos medieval, as sete idades do homem ou as Sete Virtudes Cardeais que conduzem ao auto-conhecimento, auto-domínio e auto-enobrecimento.

Entre o portão, que separa o talhão dos Palmela do restante cemitério, e os cinco degraus que dão acesso ao patamar de entrada no Jazigo, estende-se um tapete de irregulares pedras pretas e brancas, compondo doze losangos: certos autores especulam que o proverbial Templo de Salomão também apresentava pavimentos ou motivos decorativos formados pelo contraste de formas geométricas pretas e brancas, pelo que, ainda hoje, uma quadrícula de mosaicos brancos e pretos é o padrão comum do chão de muitos templos maçónicos.

Ladeando a passadeira preta e branca estão enterrados os empregados da família Palmela: mulheres do lado Norte e homens do lado Sul. Existem duas mulheres enterradas do lado Sul, todavia: talvez por desconhecimento do preceito maçónico que, inicialmente, assim distribuiu os lugares dos mortos; já que, na tradição maçónica regular, o Norte é a orientação reservada àqueles que ainda não capazes de ver a Luz, posto que o Sol, na sua trajectória de Oriente para Ocidente, não brilha no Norte. À vista disso, é frequente as lojas maçónicas não terem quaisquer janelas viradas para Norte.

No interior do Jazigo somos recebidos por um magnifico trabalho do celebrado Canova, talhado em mármore de Carrara: é o cenotáfio do 1º Duque de Palmela que, como já referimos, se encontra enterrado em Roma.

No centro da capela, iluminadas pela luz que entra por duas janelas, um par de magnificas peças escultóricas de Teixeira Lopes tomam conta do espaço, construidas por ordem do 3º Duque de Palmela.
Uma dessas peça tem um cunho claramente inacabado, mostrando mãos pesadas, grossas e pouco trabalhadas, numa figura feminina de traços perfeitos. São várias as interpretações que essas mãos inacabadas suscitam: há quem considere que ficaram propositadamente inacabadas e há quem defenda que o autor não conseguiu concluí-las.
Considerando a qualidade e beleza de toda a peça, mais a minúcia com que estão trabalhadas as mãos das restantes personagens, tenho dificuldade em acreditar que Lopes deixasse esta imperfeição de modo intencional, mas Moita Flores, por exemplo, no livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário, justifica-a com base na morte do escultor.

Antes de descer à cripta é possível observar um trabalho de Célestin Calmels capaz de tirar a respiração. Outra figura feminina, ao lado do pequeno altar da capela carregado de castiçais dourados e um Bíblia aberta, está uma porta fechada onde uma perfeita mulher de mármore parece carpir a morte do jovem filho da Duquesa de Palmela.
O drapeado da túnica que envolve a mulher é fluido e parece capaz de se mover com o nosso toque.

Descidos os três degraus que nos conduzem à câmara principal da cripta, aguarda-nos um espaço pequeno, que um tecto amarelo torrado com inúmeras papoilas dormideiras pintadas a azul - símbolo do sono eterno, da eternidade - faz parecer ainda mais pequeno. Em redor dessa câmara, abre-se um corredor que a contorna, apresentado doze nichos rasgados na pedra que conservam os caixões que contém os restos mortais da família Palmela.

Visitar o Jazigo Palmela é uma experiência única. Recomenda-se vivamente.