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23.5.11

Cemitério de Mount Jerome - II

Apesar de já ter escrito no Mort Safe sobre o cemitério irlandês de Mount Jerome, em Dublin, não posso deixar de voltar a mencioná-lo, considerando que - finalmente - o visitei.


Foi uma visita curta, de apenas algumas horas, mas que me ficará na memória.
Sob um céu ameaçadoramente carregado de nuvens, a manhã foi salpicada por chuviscos que deixaram as pedras brilhantes e lavadas.

O espaço, apesar de visivelmente já não estar abandonado, continua com o glamour oferecido pela decandência de décadas de clima agreste e negligência.

Lápides em pedra escura e cruzes celtas cobrem o terreno, destacando o facto de que existe pouquíssima estatuária presente.
Também não se vêm tantos mausoléus como noutros cemitérios europeus, sendo que a maioria das câmaras de enterramento encontram-se no subsolo.

Algumas das peças mais marcantes e afamadas, como a estátua do cão - que dizem representar um cão real, que uivava enquanto o dono se afogava - são realmente imponentes.

Um dos pontos altos é o pequeno café, onde uma simpática senhora vende café, chá e scones caseiros, ainda mornos.
Essenciais ao visitante cansado e com frio.

Ainda tive a oportunidade de ouvir, ao longe, os lamentos de uma gaita de foles, que acompanhava uma procissão funerária, uma vez que este cemitério, apesar de antigo e quase lotado, ainda se encontra activo.

Repito os avisos que fui lendo em vários sites: cuidado ao andarem entre as campas e a lápides; o estado de deterioração do espaço é grande o que torna perigosas as distrações.

Resumindo: vale muito, muito a pena uma visita.


11.3.11

Cemitério de Mount Jerome

No ano de 1836, na margem sul do Grande Canal de Dublin, na Irlanda, foi inaugurado o primeiro cemitério privado do país: o General Cemetery Company of Dublin, que ficou conhecido e ainda hoje é designado por Harold's Cross ou Mount Jerome, o nome do local onde foi edificado.

Quatro anos antes, em 1832, abriu o cemitério de Glasnevin, na zona norte da cidade, que rapidamente se tornou no cemitério preferido pelos irlandeses católicos, transformando o mais recente cemitério de Mount Jerome no cemitério da população protestante.
Apenas em 1920 começaram a ser enterrados católicos em Mount Jerome, devido a uma greve dos coveiros de Glasnevin, que mantiveram esse cemitério inoperante durante algum tempo.

Mount Jerome cemetery

A primeira inumação em Mount Jerome foi de duas crianças, meninos gémeos, numa altura em que o cemitério cobria apenas vinte e seis acres de terra.
No centro do terreno fica uma belíssima capela gótica, desenhada por William Atkins e que foi construida em 1847, que ainda pode ser visitada.
Em 1874 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido possível aumentar a área total para quarenta e oito acres, o seu tamanho actual.

Mount Jerome é actualmente considerado como um dos cemitérios românticos (vitorianos) de referência, sendo favoravelmente comparado com Highgate (Londres, Inglaterra) e Père Lachaise (Paris, França); no entanto, no final do século XX, o abandono a que este foi sujeito permitiu o declínio do espaço e a degradação dos monumentos e construções.

No virar do milénio é construido em Mount Jerome o primeiro crematório privado da Irlanda, permitindo a revitalização do espaço e o inicio de um longo e complexo processo de recuperação dos mausoléus, túmulos, criptas e estatuária.

É em Mount Jerome que se encontra enterrado Sheridan Le Fanu, o autor de Carmila - um dos primeiros romances de vampiros, ainda hoje extremamente inovador e audaz - e The House by the Churchyard.

Um visita a Mount Jerome é obrigatória para qualquer tafófilo de passagem por Dublin, sendo até possível encontrar um pequeno café no interior do cemitério.
Um alerta deixado por todos os guias é o cuidado necessário nestas visitas: a decadência a que chegou o cemitério criou buracos no chão, pedras tumulares partidas, construções quebradiças e mausoléus prontos a desabar...
A saída do recinto, no entanto, tem de ser impreterivelmente até às quatro da tarde, sendo que os portões do cemitério são fechados a essa hora, sem qualquer falha, não ficando sequer um guarda que possa facilitar a saída dos mais distraídos.

Chamam-lhe "victorian splendor in decay".