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15.9.23

«Casa de Autópsias»: do modelo parisiense ao cemitério enquanto substituto da Morgue na Lisboa de Oitocentos

Há uns anos atrás descobri que, na Paris do século XIX, se visitava a Morgue da cidade como quem vai ao teatro ou ao jardim.

Fiquei fascinada com o tema e fui comprando livros e procurando fontes e até escrevi um pequeno texto aqui para o blog

Em 2021 e 2022 tive a oportunidade de investigar o tema com maior profundidade, procurando também a resposta lisboeta para os problemas que eram endereçados pela Morgue de Paris.

Escrevi um artigo que é agora publicado no segundo número da Revista RomantHis, uma revista científica de acesso aberto sobre o Longo Século XIX no Mundo Português, entendido num sentido lato, enquadrando quatro grandes vertentes: História, Arte, Cultura e Património.

A revista é uma publicação periódica digital é da responsabilidade do Grupo "Saudade Perpétua" e propriedade da HistóriaSábias - Associação Cultural, coordenada por Francisco Queiroz (director), Cristina Moscatel (directora adjunta).


Podem ler o meu artigo «Casa de Autópsias»: do modelo parisiense ao cemitério enquanto substituto da Morgue na Lisboa de Oitocentos seguindo esta ligação.

Este é ainda um tema em desenvolvimento e com várias linhas de investigação em aberto, mas o meu artigo pretende, desde já, ajudar a olhar para os cemitérios de outra forma e a procurar mais pistas e informações.

Espero que gostem.


20.11.11

Um Século de Exposição de Cadáveres

Para a nossa sensibilidade de século XXI, em que deixámos a Morte escondida atrás de cortinas hospitalares e paredes pintadas a cru de lares de idosos, a ideia de considerar uma morgue como ponto de interesse turístico é, no mínimo, estranha, mas estivéssemos em Paris no século XIX, não só nos pareceria natural como apetecível.

A Morgue de Paris atraía multidões na ordem dos milhares de indivíduos e era mencionada nos guias turísticos da cidade.

Desde o século XIV que os franceses tinham locais onde conservavam os corpos não identificados para apresentação pública, numa tentativa de os identificar e entregar aos familiares. Posteriormente, aquilo que era da responsabilidade das ordens religiosas, como a Ordem de Santa Catarina, passou a ser responsabilidade do Estado.
Nas caves do Châtelet de Paris, onde, desde há muitos anos, funciona a sede da polícia, tribunal e cadeia e por onde passaram presos famosos na época da revolução francesa, como Marie Antoinette, existia uma sala onde eram colocados os cadáveres desconhecidos para visionamento e identificação pelo público.
Essa sala era chamada de basse-géôle e os registos da época descrevem-na como sendo pequena e húmida, onde os cadáveres eram arrumados uns sobre os outros e os familiares procuravam, de lanternas em punho, pelos seus entes queridos entre os corpos empilhados.
Numa Paris que tinha expulsado os cemitérios para a periferia da cidade por questões de higiene, este estado de coisas era impensável e, depois de ter sido decretado pela polícia, em 1800, que a identificação de cadáveres era essencial para se manter a "ordem social", foi decidido que era necessário criar uma morgue adequada, construída e desenhada de forma a garantir que a observação dos cadáveres pelo público se faria da forma mais adequada possível.

É em 1804 que é criada a primeira Morgue de Paris, no coração administrativo da cidade, no movimentado Marché-Neuf. Mudam-lhe o nome de basse-géôle para morgue, palavra que tem origem no verbo morguer que significa olhar de forma inquisitiva e fixa.
Este novo edifício ficava junto do Sena, uma vez que, normalmente, os cadáveres eram trazidos por barcos e porque a maioria dos corpos não identificados eram encontrados no rio. Acidentes, suicídios e assassinatos: quase todos os corpos expostos na Morgue de Paris tinham origem no Sena.

O ponto central deste novo edifício era a sala de exposição, com duzentos e dez metros quadrados, envidraçada, com marquesas de mármore onde os corpos eram apresentados ao público. Os corpos era despidos, os genitais cobertos com um pano e as roupas eram penduradas em cabides perto dos corpos, numa tentativa de auxiliar a identificação dos defuntos, que se iam decompondo.

Apesar desta primeira morgue ser uma clara melhoria face à basse-géôle nas caves do Châtelet, com a reorganização da cidade, promovida por Georges Haussmann, ela foi encerrada e destruído o edifício onde operava.
A nova Morgue de Paris, considerada exemplar, modelo de higiene e salubridade, foi desenhada por Félix Gilbert e construída em 1864 nas traseiras da catedral de Notre Dame.

A grandiosidade deste novo local fica expressada pelas dimensões da nova sala de exposição, que com oitocentos e trinta e cinco metros quadrados, conseguia ser quatro vezes maior que a anterior, apresentando duas filas de seis marquesas de mármore negro, permitindo ter doze cadáveres em exposição ao mesmo tempo.

A localização continuava a ser junto ao Sena, mas uma porta nas traseiras do edifício permitia a entrada de novos cadáveres longe dos olhos do público. O novo espaço tinha ainda um maior número de salas de autópsia, uma lavandaria para tratamento dos pertences dos cadáveres e uma maior área para trabalho administrativo.
Três enormes portas de madeira na frente do edifício davam acesso à sala pública onde, através de uma enorme parede de vidro, podia ver-se o interior da sala de exposição, onde ficavam os cadáveres.

Este novo espaço encarava a apresentação dos cadáveres como o seu objectivo principal e dispunha até de uma cortina verde, que era corrida quando era necessário retirar ou colocar um novo corpo ou fazer qualquer outra alteração que se considerasse que não devia ser presenciada pelo público.
Uma vez que os corpos, normalmente, estavam em exposição apenas três dias, a partir de 1877 os funcionários da morgue passaram a fotografá-los, deixando as fotografias e os pertences em exposição, numa tentativa de prolongar a exposição do cadáveres e, com isso, aumentar as probabilidades de identificação.
O prolongamento da exposição era, de facto, uma preocupação. Em 1882, foi encontrada uma nova forma de conservar os cadáveres, baseada no sistema utilizado para o transporte de carnes; sistema que serviu de modelo para morgues em toda a Europa.


No entanto, se considerarmos que a Morgue de Paris tinha cerca de um milhão de visitantes por ano, facilmente percebemos que as visitas dos populares não tinham por objectivo a identificação dos cadáveres expostos, mas sim o espectáculo do macabro.

Esta realidade da Morgue, enquanto atractivo para as multidões e espectáculo gratuito, era especialmente visível quando um caso específico tocava no lado mais sensível dos espectadores.

Sempre que os cadáveres em exposição na morgue apresentavam indícios de crime ou suicídio, os jornais tornavam-nos notícia - em especial se se tratavam de crianças ou mulheres -, apresentando até desenhos detalhados dos corpos e dos indivíoduos que se juntavam para observá-los, o que influenciava o público e arrastava novas multidões para as portas da morgue.
Essas multidões também acabavam por ser notícia, alimentando um ciclo vicioso que mantinha alguns casos nos jornais durante meses.

Existem alguns exemplos famosos e um deles é o da Desconhecida do Sena, cuja máscara mortuária enfeitou as salas dos artistas e burgueses durante anos, um pouco por toda a Europa.

Outro caso muito falado foi o Mistério de Suresnes. Em apenas quatro dias, estimou-se que tivessem passado pela Morgue de Paris cerca de trinta mil pessoas para ver as duas pequenas crianças retiradas das frias águas do Sena: uma bebé de dezoito meses e outra de três anos, que se julgava serem irmãs, sentadas em cadeiras forradas com um material cinzento, por serem demasiado pequenas para serem colocadas nas marquesas.
As crianças acabaram por ser identificadas, retiradas da sala de exposição, descongeladas e autopsiadas; no entanto, a identificação provou ser errada e elas foram novamente congeladas e colocadas na sala de exposição para satisfação dos aficionados.
Foi ainda encontrada uma mulher que teria estado cerca de três semanas perdida nas águas do rio, colocado a data da sua morte próxima da data de morte das crianças, e o interesse nas pequeninas de Suresnes regressou em força. Porém, a mulher foi rapidamente reconhecida e resgatada por um familiar, destruindo a potencial associação às duas meninas.
As crianças acabaram por ser enterradas sem terem sido reconhecidas e o caso desapareceu dos jornais. Este episódio durou cerca de um mês, arrastando multidões de visita à Morgue de Paris.
Como estes dois casos, inúmeros outros fizeram lucrar os jornais de Paris até ao encerramento da Morgue.

Em Março de 1907, mais de cem anos após a abertura da morgue de Marché-Neuf, a Morgue de Paris encerrava as portas ao público, deixando de permitir o visionamento dos corpos pelos populares.
Apenas a familiares de pessoas desaparecidas era dado o acesso à sala de exposição.

Encerrava-se assim um dos maiores espectáculos gratuitos da cidade de Paris, capaz de atrair multidões e o interesse de parisienses e estrangeiros durante mais de um século.

2.11.11

Identidades Trocadas: Molière e La Fontaine

O cemitério parisiense de Père Lachaise é, certamente, o local mais cobiçado para última morada da maioria da população ocidental, mas nem sempre foi assim.
Durante o século XVII os inúmeros cemitérios de Paris estavam completamente saturados, pelo que, em 1786, foram extirpados do interior da cidade, tendo as antigas ossadas sido transportadas para as galerias das antigas pedreiras, que se tornariam nas Catacumbas de Paris.
Para os novos enterramentos foram criados quatro novos cemitérios, rodeando a cidade nos quatro pontos cardeais: Norte, Oeste, Este e, mais tarde, Sul.
O Cemitério Este, mais conhecido por Cemitério de Pére Lachaise, foi criado por Napoleão I em 1804; ocupa toda uma encosta e recebeu o nome do padre confessor de Louis XIV, que habitou numa residência jesuíta no local onde fica presentemente a capela.
Pertencendo a uma nova escola onde os cemitérios tentavam ser representações terrenas de Arcádia e Campos Elísios, Père Lachaise era um cemitério muito diferente daquilo a que a população estava habituada. Para além disso, era também o cemitério mais afastado do coração da cidade, pelo que poucos eram os cidadãos que pretendiam ser aí enterrados.
Nos seus três primeiros anos de existência não havia mais de sessenta pessoas ali enterradas, sendo que hoje o número é cerca de um milhão.
Procurando aumentar-lhe o prestígio de forma a tornar o espaço mais apelativo, Nicolas Frochot decidiu propor a transladação de alguns dos mais famosos parisienses para Père Lachaise.
Entre os escolhidos para serem inumados no novo cemitério encontravam-se o dramaturgo Molière e o escritor La Fontaine, cujas ossadas estavam em exposição no Museu Nacional dos Monumentos Franceses.

Em 1673, enquanto actuava, Molière sentiu-se mal em palco. A personagem que representava era um homem doente que acabava por morrer em cena. Os seus espasmos - reais - foram interpretados pelo público como fazendo parte da peça e, cerca de uma hora depois de sair de cena, Molière morreu.
As regras da igreja ditavam que os actores - à semelhança dos heréticos, feiticeiros, usurários e pagãos - não podiam ser enterrados em solo sagrado, o que levou a viúva de Molière a apelar às autoridades eclesiásticas e ao rei de França, procurando que fosse aberta uma excepção que permitisse o enterramento cristão ao falecido.
O rei intercedeu junto da Igreja e, quatro dias após o óbito, obteve-se autorização para inumar Molière no cemitério de Saint Joseph, numa cerimónia nocturna.
Consta que, logo que a multidão que se reuniu para acompanhar o actor e dramaturgo à sua última morada se desmobilizou, a sepultura voltou a ser aberta e o corpo de Molière foi retirado e enterrado noutra zona do cemitério, numa vala comum para não-baptizados.
Tudo o que ficou registado é que Molière foi enterrado algures no interior do cemitério de Saint Joseph, sendo que após o registo inicial se encontraram vários aditamentos e notas, referindo a trasladação dos restos mortais de Molière, notas essas muitas vezes contraditórias. Julga-se que em 1750 ele foi transferido para o interior da igreja, mas mesmo isso acaba por não esclarecer se ele voltou a ser enterrado no local original ou se foi enterrado noutro espaço qualquer do cemitério.
Em 1792, quando foi tomada a decisão de exumar os corpos de La Fontaine e Molière, ninguém conseguia dizer exactamente onde o dramaturgo estaria enterrado.
Assim, os comissários encarregados da exumação decidiram abrir uma sepultura num talhão dos não-baptizados e dela foi retirado um esqueleto que, etiquetado como sendo de Molière, foi colocado num novo caixão e arrumado na cripta da igreja de Saint Joseph e mais tarde num armazém até 1799, quando foi transferido para o Museu Nacional dos Monumentos Franceses e deixando em exibição publica até 1817.
Durante esses anos, este falso Molière teve por companheiro um falso La Fontaine: os mesmo comissários responsáveis pela exumação do primeiro tiveram a tarefa de localizar e exumar o segundo; por isso, desenterraram outro corpo no mesmo local e disseram que se tratavam dos restos mortais de La Fontaine.

Considerando todos os factos apresentados, a probabilidade do esqueleto ser realmente de Molière é ínfima.
Já no caso de La Fontaine, a probabilidade das ossadas serem dele é simplesmente nula.
La Fontaine faleceu a 13 de Abril de 1695 tendo sido enterrado no cemitério de Les Innocents e não em Saint Joseph. A localização mais provável para as suas ossadas é o interior das Catacumbas de Paris, anonimamente perdido entre cerca de seis milhões de parisienses.
Assim, em 1817, "Molière", "La Fontaine" e os célebres amantes Héloïse e Abélard foram recebidos com pompa no novo cemitério.
A estratégia resultou: em menos de um ano, os talhões de Père Lachaise eram os mais cobiçados da capital francesa. Père Lachaise populou-se - sobrepopulou-se! - tendo-se tornado o local de eterno repouso de muitos populares e famosos, franceses e estrangeiros, que habitaram ou morreram em Paris, sendo um marco incontornável no mapa internacional do necroturismo.
Ainda assim, dentro dos túmulos dedicados a Molière e La Fontaine, estarão apenas parisienses anónimos.

17.3.11

Eternos Parisienses

Para a maioria dos tafófilos, a caça às campas de famosos não é o principal atractivo num cemitério, mas para o visitante comum - que, ao contrário dos primeiros, não nutre um especial carinho por estes espaços - encontrar -se o local do repouso eterno de um nome sonante é, sem dúvida, um dos principais atractivos para cruzar os portões dos cemitérios.

Ainda que em Portugal este tipo de turismo não seja ainda comum, lá fora é extremamente popular e a prova disso são, por exemplo, as multidões que visitam o cemitério parisiense de Père Lachaise ou os autocarros de turismo que param diariamente à porta do cemitério Monumentale de Milão para visitas guiadas.

Normalmente, no próprio local, é possível comprar (ou receber gratuitamente) brochuras com as plantas dos cemitérios, onde os jazigos dos mais famosos residentes se encontram destacados, e que permitem ao visitante não se perder e descobrir com maior facilidade a campa pretendida. No entanto, este tipo de brochuras não costuma ter muito mais informação para além da localização e do nome e, muitas vezes, sentimos vontade de saber mais.
Outras vezes, queremos planear a viagem cuidadosamente e escolher quais os espaços a visitar, e as campas a não perder, e antes de ir não temos acesso às brochuras.
Felizmente, a Internet já nos permite a consultas de sites dedicados a alguns dos cemitérios, com acesso às plantas e outra informação preciosa; ainda assim, nada como ter um guia de bolso, completo e detalhado, contando histórias interessantes; não só sobre os falecidos, mas também sobre as suas campas, monumentos e o cemitério em si.

No âmbito dos Guias Cemiteriais existe uma colecção que merece destaque: a The Permanent Series desenvolvida por Judi Culbertson e Tom Randall.

Até ao momento existem já 5 volumes:
Vamos começar por Permanent Parisians.
Os autores dedicam os quatro capítulos iniciais a Père Lachaise, o que não é surpreendente, se considerarmos a profusão de falecidos famosos que estão enterrado neste cemitério.

Recordamos alguns:
  • Jim Morrison;
  • Georges Rodenbach;
  • Frédéric Chopin;
  • François Raspail;
  • Gustave Doré;
  • Jean La Fontaine;
  • Allan Kardec;
  • Honoré de Balzac;
  • Eugène Dlacroix;
  • Oscar Wilde;
  • Edith Piaf;
  • etc.
Há ainda tempo para falar nos afamados Passy, Montparnasse e Montmartre, para dedicar um capítulo ao Panteão, outro (pequeno) às Catacumbas, sem esquecer pequenos cemitérios suburbanos e igrejas onde foram realizadas inumações diversas, como St. Denis.

O guia está ilustrados com fotografias a preto e branco que permitem visualizar os locais a visitar.

Este é o guia essencial para qualquer tafófilo de visita a Paris, mas mais que isso é um instrumento rico, com um manancial de informação incontornável, sobre as personalidades enterradas em Paris e as suas histórias de vida, mas em especial, as suas mortes.

Mesmo para quem não esteja a planear um visita à cidade da Luz, vale a pena adquirir e ler esta obra.


16.2.11

As Catacumbas de Paris - III

« Arrête ! C'est ici l'empire de la Mort. »

É com esta epígrafe do poeta Jacques Delille que os duzentos e cinquenta mil visitantes anuais das catacumbas de Paris são recebidos ao entrarem no Ossário Geral da cidade, depois de descerem os quase cem degraus e de terem esperado em pé, horas a fio, numa fila à entrada que, por vezes, dá a volta à rua e estende-se pelo jardim.

A segurança dos visitantes exige que o percurso com aproximadamente dois quilómetros nunca tenha mais que duzentas pessoas, pelo que o número de visitantes é control
ado por um sistema de torniquetes. Assim também se garante que ninguém é esquecido, se perde ou esconde lo labirinto de ossadas.

As catacumbas de Paris são uma das atracções turísticas de maior sucesso na cidade e estão abertas ao público desde 1874.

Inicialmente, depois de terem passado anos com as noites interrompidas pelo latim das ladainhas
dos padres, mais o barulho das carroças transportando os ossos dos cemitérios da cidade para os túneis das pedreiras subterrâneas, os parisienses sentiram uma natural curiosidade em visitar o ossário e passear entre as ossadas dos seus antepassados.


Perante os numerosos pedidos que iam chegado a todas as entidades envolvidas da criação e manutenção do ossário, foram disponibilizados
funcionários que acompanhavam grupos em visitas; infelizmente, houve quem se aventurasse sozinho e, algum tempo depois, descobriram-se roubos e outras formas de vandalismo.

As visitas foram formalmente proibidas e os únicos visitantes a descer às catacumbas num período de quarenta anos foram altos dignitários franceses e estrangeiros, mediante convites especiais.

Quando as visitas voltaram a ser permitidas, viram-se verdadeiras enchentes de gente que se acumulava nas galerias subterrâneas, duas vezes por mês, seguindo as indicações deixadas pelos funcionários do ossário, que haviam marcado o percurso no tecto, com fumo de vela.

Depois, claro, recomeçaram os acessos ilegais.

Munidos de velas, os parisienses desciam para passear pelos túneis subterrâneos e há mesmo relatos de picnics e festas na companhia dos restos mortais.

A mais célebre dessas ocasiões ocorreu a 2 de Abril de 1897.

Cerca de uma centena de parisienses recebeu um misterioso e anónimo convite: por volta da meia-noite deveriam apresentar-se sozinhos na entrada das catacumbas.
Descidas as escadas em silêncio, os convidados foram surpreendidos por uma orquestra com cerca de quarenta e cinco músicos e artistas, que tocaram e declamaram poesia até às duas e meia da manhã
.
Entre as músicas escolhidas contou-se a Marcha Fúnebre de Chopin, que em 1849 tinha sido tocada em Père Lachaise quando o seu autor foi a enterrar, e a Marcha Fúnebre de Beethoven, parte da 3ª Sinfonia.

Os acessos ilegais continuam, apesar de actualmente das catacumbas serem policiadas. Conta-se que em túneis mais afastados, povoados clandestinamente pelos já célebres catófilos e certamente inspirados nos relatos das aventuras do século XIX, se montam bares, salas de cinema e se dão concertos onde se ouve música, se bebe absinto e se vêem filmes de terror. Alguns desses locais são encontrados uma vez por outra pela policia, sempre desertos, recém-abandonados.

Em Setembro de 2009, as catacumbas tiveram de ser encerradas ao público; e assim permaneceram por um período de quatro meses, depois de uma noite violenta em que um grupo de vândalos conseguiu acesso às galerias subterrâneas e destruiu e desarrumou grande parte das ossadas, espalhando-as pelos diversos percursos.

Actualmente, já podem ser novamente visitadas.

Não percam a oportunidade, mas não tentem levar nenhuma recordação: para além de não ser respeitoso, os seguranças que vigiam a saída asseguram que os seis milhões de parisienses que repousam nos túneis subterrâneos continuam a ser seis milhões.



13.2.11

Marcha Fúnebre de Beethoven (3ª Sinfonia)




Parte 1



Parte 2


A 2 de Abril de 1897, nas Catacumbas de Paris, um grupo de músicos e poetas reuniu-se para um concerto não autorizado que fez furor e ficou marcado na história de Paris.

A música que fechou o concerto foi esta. Enjoy!

12.2.11

As Catacumbas de Paris - II

De Pedreira a Ossário Geral de Paris

Durante séculos os mortos de Paris foram sendo enterrados à volta das igrejas, normalmente em charniers, valas comum abençoadas que permitiam enterrar rapidamente um número grande de cadáveres e que iam sendo abertas e fechadas com rapidez, conforme ficavam cheias. Quando possível, os ossos eram retirados e preservados fora das sepulturas, mas ainda assim, empilhavam-se os mortos uns sobre os outros, dentro da cidade.

Inicialmente, quando a lei era a Romana, em Paris como no resto do Império, os mortos eram levados para fora das muralhas das cidades, para cemitérios em locais relativamente arejados e isolados, mas a chegada do Catolicismo construiu igrejas e capelas e disseminou a ideia de que a proximidade dos mortos desses edifícios sagrados, assim como o pagamento do serviço de inumação, garantiria a salvação.
Rapidamente os terrenos em volta das igrejas se encheram de cadáveres e também no interior se faziam inumações. As famílias nobres conseguiam ter pedras gravadas no chão das igrejas, sobre os seus mortos, ou comprar um pequena capela para toda a família. Para os pobres eram abertas valas comuns que se iam enchendo e cobrindo ao longo do tempo.
O aumento populacional começou a sobre-lotar estes cemitérios e o crescimento da cidade engoliu-os e apertou-os entre as moradias, lojas de artífices e mercados. A terra, saturada, já não devorada as carnes com a mesma rapidez e os ossos misturavam-se com corpos mais recentes. O cheiro era nauseabundo e desde o século XVI que há registos oficiais de reclamações.
Epidemias e infecções varriam família inteiras nas vizinhança destes antros de morte e rapidamente as igrejas pareciam ter sido construidas num pequeno vale, rodeadas de elevações artificiais nascidas dos enterramentos acumulados, e transformadas em criptas funerárias, recheadas com as ossadas dos ricos.
Por toda a cidade se sentia o cheiro putrefacto dos corpos em decomposição e mesmo a água e o pão que se comiam e bebiam estavam contaminados.
Mas mais uma vez, e à semelhança do que acontecera anos antes com os túneis das pedreiras subterrâneas de Paris, foi preciso um desabamento para que todas as queixas, relatórios e reclamações fossem levadas a sério.


Em 1780, as paredes da cave de um edifício que ficava paredes meias com o cemitério de Les Innocents cederam, empurradas pelo peso dos milhares de cadáveres que se acumulavam nas valas do cemitério.
Ossos e corpos putrefactos tombaram para dentro da divisão, contaminando tudo e todos.
Rapidamente, as entidades oficiais decretaram que Les Innocents devia ser encerrado, mas sem outra solução mais eficaz, só se agravou a situação dos restantes cemitérios da cidade, obrigados a receber os corpos que tinham pertencido ao cemitério encerrado.

A resolução definitiva chega em 1785, quando uma proposta de utilização dos túneis das pedreiras de calcário como ossário foi aceite.
Todos os cemitérios do interior da cidade foram fechados e iniciou-se o processo de exumação e transladação. As ossadas foram retiradas da terra, limpas, empilhadas em carroças e cobertas por panos negros. Padres acompanhavam as carroças, rezando ladainhas em latim e entoando cânticos sagrados, enquanto cavalos negros levados à mão as puxavam, trotando na noite pelas ruas de Paris, carregando as ossadas para sul da Porte D’Enfer, junto à qual se fazia o acesso às recém convertidas catacumbas.
Essas macabras procissões nocturnas duraram anos, até que os cerca de seis milhões de parisienses, enterrados nos cemitérios, ficaram finalmente amontoados nas entranhas da cidade crescente.

Só mais tarde as ossadas foram dispostas como as podemos ver, de forma ordenada junto das paredes, criando padrões usando caveiras e restos de placas e cruzes, recuperadas dos cemitérios desmantelados.
Nas paredes subterrâneas estão cruzes e corações feitos com caveiras, rodeados por tíbias e fémures empilhados, espectáculo que se estende por quase dois quilómetros, onde estreitos corredores desembocam em galerias espaçosas, iluminadas parcamente e ostentando poemas e versos em latim e francês antigo. Essa arrumação, assim como a selecção dos textos de cariz filosófico e poético que acompanham os restos mortais, foi da responsabilidade do Visconde de Thury.

Foi assim que as pedreiras de Paris se tornaram no Ossário Geral da cidade. E é assim que nasce um novo desejo entre os parisienses: visitar as catacumbas.

10.2.11

As Catacumbas de Paris - I

As Pedreiras de Paris

Paris é uma cidade luminosa e sem complexos, que assume os seus mortos e os promove como atracções turísticas de qualidade, sem vergonha ou hesitações.
As catacumbas de Paris são uma dessas atracções turísticas, tal como os cemitérios: Père Lachaise, Montmartre, Montparnasse e, em menor dimensão mas não menor interesse, Passy, o mais recente dos quatro.

A enorme rede de túneis sob Paris não nasceu para ser o ossário da cidade, guardando carinhosamente as ossadas de cerca de seis milhões de Parisienses, anteriormente enterrados nos cerca de duzentos pequenos cemitérios por toda a cidade.

Na realidade, as galerias subterrâneas que formam as catacumbas foram sendo lentamente construídas, durante séculos, por desbaste da rocha calcária que serve de base à cidade, consumida como matéria prima nas construções à superfície. Os romanos tinham enormes pedreiras a céu aberto, afastadas centro de Lutécia (Paris nos tempos Romanos). Através dos tempos, o calcário continuou a ser usado na construção de edifícios, ano após ano, mas com os veios a serem explorados por meio de túneis, a cerca de vinte metros de profundidade.

Como toupeiras, os mineiros cavavam galerias estreitas que iam secando de pedra e alargando, para depois as abandonar, seguindo outro veio de rocha quando aquele falhava. Alguns dos túneis abandonados foram tapados com cascalho, outros não. A rede subterrânea de túneis e passagens foi aumentando de forma irregular e sem plano, criando labirintos escavados na rocha, em direcção ao coração da cidade. De igual forma, Paris foi crescendo, à superfície. Algures no tempo, a cidade sobrepôs-se ao túneis calcários, que continuaram a ser escavados nas suas entranhas.

No século XVIII, em 1774, a cidade apanha um grande susto: uma derrocada num túnel abandonado engole a Rue d'Enfer (Rua do Inferno), deixando apenas um buraco e escombros. A este primeiro desabamento seguem-se outros, engolindo edifícios, pessoas, animais, deixando a população em pânico e assustada.
Imagens de demónios das profundezas tragando a cidade nascem na imaginação dos Parisienses e espalham o histerismo.

O rei encomenda estudos que revelam a verdade temida: os túneis das pedreiras de Paris são extensos, instáveis e não existem planos de mitigação de risco.
E é assim que no ano de 1776 se vê nascer um novo serviço na cidade, a inspecção das pedreiras - Inspection des Carrières - que tem como missão inspeccionar, reparar e mapear as pedreiras abandonadas.

Ao mesmo tempo, Paris viu-se a braços com outro problema derivado do crescimento da cidade, igualmente difícil e também capaz de alimentar as imaginações mais impressionáveis: os cemitérios da cidade estavam sobrelotados.

4.2.11

Catacumbas de Paris na National Geographic

Na edição nacional da revista National Geographic de Fevereiro podem encontrar um artigo sobre as Catacumbas de Paris.

Um local a visitar e um artigo a não perder.

Catacumbas de Paris, Paris, França @Gisela Monteiro.2009