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9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



7.12.11

Fim dos Beijos em Oscar Wilde

Há rituais quase obrigatórios, quando se fazem visitas a determinados sítios.
Acontece em cidades, países, museus - ao visitar Lisboa tem de se comer um Pastel de Belém, ao ir ao Porto e tem de se parar no Café Majestic, em Londres é preciso ver o Big Ben -, mas também acontece com cemitérios.

Uma visita a Père Lachaise inclui quase sempre uma paragem junto das grades anti-motim que cercam a campa de Jim Morrison e um beijo de batôn na campa de Oscar Wilde.
Agora já não.

Oscar Wilde (Α:1854 - Ω:1900) não teve um final feliz.
Nascido numa família irlandesa e tendo estudado em Trinity Colege - a célebre universidade no coração de Dublin - as suas peças e poemas transformaram-no numa celebridade da sociedade vitoriana de 1880 e 1890.
Casado e pai de dois filhos, foi preso por conduta homossexual na cadeia de Reading, nos arredores de Londres. As condições adversas da cela, os maus tratos e humilhações quebraram-lhe o espírito e destruíram-lhe a saúde; passados dois anos, regressou à liberdade e exilou-se no continente, acabando por se refugiar em Paris.
Na miséria e com uma saúde muito debilitada, viria a morrer com apenas quarenta e seis anos, vitima de uma meningite e de uma infecção no aparelho auditivo.

Foi enterrado numa campa temporária no cemitério de Bagneaux, coberto com cal, numa tentativa de acelerar o processo de decomposição, mas, estranhamente, a cal teve o efeito contrário e preservou o corpo.
Passados nove anos, Robert Ross mandou levantar os restos mortais do seu amigo Wilde e levou-os a sepultar no cemitério de Père Lachaise, tendo sido encomendada uma escultura a Jacob Epstein (Α:1880 - Ω:1959) .

Epstein concebeu uma representação de Wilde enquanto um mensageiro alado, num estilo art deco egípcio.

O "anjo" de Wilde está numa posição fora do comum, deitando, num simulacro de voo, os braços estendidos ao longo do corpo e as asas, estilizadas, abertas.
Estas características seriam já suficientes para colocar de sobreaviso algumas personagens mais conservadoras, mas o verdadeiro pomo da discórdia consistiu nos órgãos genitais da figura.

Quando, após três anos a trabalhar na peça, o escultor chegou a Père Lachaise para concluir a instalação, encontrou o seu trabalho coberto por um pano e rodeado de polícias: aparentemente o conservador do cemitério considerara a obra "indecente" e banira-a.

A pressão da massa intelectual parisiense não foi suficiente para para levantar a sanção, mas - talvez inspirado pela bula do Papa Paulo IV que, em 1557, institucionalizou o uso das folhas de figueira para cobrir os genitais em obras de arte e certamente não querendo ir tão longe quanto o Papa Pio IX que as mandou castrar - o curador do cemitério acabou por mandar cobrir os genitais da estátua com uma placa que fazia lembrar uma folha de figueira, antes de aceitar a sua exposição em 1914.

Literalmente, do noite para o dia, a placa/folha desapareceu e com ela parte dos genitais do mensageiro alado.
Reza a lenda que em 1922 alunos universitários invadiram o cemitério na calada da noite e, após retirarem a folha de figueira, partiram parte dos ofensivos genitais e levaram-nos.
Outra versão, mais colorida, diz que duas senhoras inglesas ficaram ofendidas com a generosidade com que Epstein representara os genitais do poeta e decidiram tratar do assunto pessoalmente, emasculando a estátua e deixando o ofensivo pedaço de pedra junto do pedestal. Diz-se ainda que o curador do cemitério o recolheu e passou a tê-lo na sua secretária, servindo-se dele como pisa-papéis.
Seja como for, a estátua ficou como a podemos ver agora.

A campa de Oscar Wilde, à semelhança da sua residência em Dublin, tornou-se local de peregrinação para os fãs; aparentemente, durante décadas, estes iam deixando mensagens escritas na pedra e em 1990 os descendentes de Wilde mandaram limpar a estátua e, ao mesmo tempo, conseguiram-lhe o estatuto de monumento histórico.
Foi então que, ao pararem as mensagens, começaram os beijos. Sempre com tons cor-de-rosa ou vermelho, os fãs de Wilde iam beijando a campa, deixando o seu tributo marcado na pedra com batôn.
Sempre encarei esse gesto como uma homenagem e não como vandalismo, mas os descendentes do poeta pensaram de maneira diferente e mandaram novamente limpar a campa, a tempo para a comemoração dos cento e onze anos sobre a morte de Oscar Wilde, que ocorreram no passado dia 30 de Novembro (dia de morte que partilha com Fernando Pessoa).
Ao reinaugurar a peça, fizeram-na cercar por um vidro espesso, colocado a cerca de meio metro da campa, terminando assim com o ritual de décadas.


Conseguiram acabar com os beijos de batôn na pedra, mas isso não garante que os fãs não continuem a deixar a sua homenagem a Oscar Wilde.
Se calhar, passando agora a beijar o vidro...


Adenda: em 2006, Wes Craven realizou o segmento no cemitério de Père Lachaise, usando a sepultura de Oscar Wilde e o ritual dos beijos de batôn, para o filme Paris, Je T'aime. Até Oscar Wilde aparece como personagem.



Com um obrigada à tafófila Raquel Pais.

2.11.11

Identidades Trocadas: Molière e La Fontaine

O cemitério parisiense de Père Lachaise é, certamente, o local mais cobiçado para última morada da maioria da população ocidental, mas nem sempre foi assim.
Durante o século XVII os inúmeros cemitérios de Paris estavam completamente saturados, pelo que, em 1786, foram extirpados do interior da cidade, tendo as antigas ossadas sido transportadas para as galerias das antigas pedreiras, que se tornariam nas Catacumbas de Paris.
Para os novos enterramentos foram criados quatro novos cemitérios, rodeando a cidade nos quatro pontos cardeais: Norte, Oeste, Este e, mais tarde, Sul.
O Cemitério Este, mais conhecido por Cemitério de Pére Lachaise, foi criado por Napoleão I em 1804; ocupa toda uma encosta e recebeu o nome do padre confessor de Louis XIV, que habitou numa residência jesuíta no local onde fica presentemente a capela.
Pertencendo a uma nova escola onde os cemitérios tentavam ser representações terrenas de Arcádia e Campos Elísios, Père Lachaise era um cemitério muito diferente daquilo a que a população estava habituada. Para além disso, era também o cemitério mais afastado do coração da cidade, pelo que poucos eram os cidadãos que pretendiam ser aí enterrados.
Nos seus três primeiros anos de existência não havia mais de sessenta pessoas ali enterradas, sendo que hoje o número é cerca de um milhão.
Procurando aumentar-lhe o prestígio de forma a tornar o espaço mais apelativo, Nicolas Frochot decidiu propor a transladação de alguns dos mais famosos parisienses para Père Lachaise.
Entre os escolhidos para serem inumados no novo cemitério encontravam-se o dramaturgo Molière e o escritor La Fontaine, cujas ossadas estavam em exposição no Museu Nacional dos Monumentos Franceses.

Em 1673, enquanto actuava, Molière sentiu-se mal em palco. A personagem que representava era um homem doente que acabava por morrer em cena. Os seus espasmos - reais - foram interpretados pelo público como fazendo parte da peça e, cerca de uma hora depois de sair de cena, Molière morreu.
As regras da igreja ditavam que os actores - à semelhança dos heréticos, feiticeiros, usurários e pagãos - não podiam ser enterrados em solo sagrado, o que levou a viúva de Molière a apelar às autoridades eclesiásticas e ao rei de França, procurando que fosse aberta uma excepção que permitisse o enterramento cristão ao falecido.
O rei intercedeu junto da Igreja e, quatro dias após o óbito, obteve-se autorização para inumar Molière no cemitério de Saint Joseph, numa cerimónia nocturna.
Consta que, logo que a multidão que se reuniu para acompanhar o actor e dramaturgo à sua última morada se desmobilizou, a sepultura voltou a ser aberta e o corpo de Molière foi retirado e enterrado noutra zona do cemitério, numa vala comum para não-baptizados.
Tudo o que ficou registado é que Molière foi enterrado algures no interior do cemitério de Saint Joseph, sendo que após o registo inicial se encontraram vários aditamentos e notas, referindo a trasladação dos restos mortais de Molière, notas essas muitas vezes contraditórias. Julga-se que em 1750 ele foi transferido para o interior da igreja, mas mesmo isso acaba por não esclarecer se ele voltou a ser enterrado no local original ou se foi enterrado noutro espaço qualquer do cemitério.
Em 1792, quando foi tomada a decisão de exumar os corpos de La Fontaine e Molière, ninguém conseguia dizer exactamente onde o dramaturgo estaria enterrado.
Assim, os comissários encarregados da exumação decidiram abrir uma sepultura num talhão dos não-baptizados e dela foi retirado um esqueleto que, etiquetado como sendo de Molière, foi colocado num novo caixão e arrumado na cripta da igreja de Saint Joseph e mais tarde num armazém até 1799, quando foi transferido para o Museu Nacional dos Monumentos Franceses e deixando em exibição publica até 1817.
Durante esses anos, este falso Molière teve por companheiro um falso La Fontaine: os mesmo comissários responsáveis pela exumação do primeiro tiveram a tarefa de localizar e exumar o segundo; por isso, desenterraram outro corpo no mesmo local e disseram que se tratavam dos restos mortais de La Fontaine.

Considerando todos os factos apresentados, a probabilidade do esqueleto ser realmente de Molière é ínfima.
Já no caso de La Fontaine, a probabilidade das ossadas serem dele é simplesmente nula.
La Fontaine faleceu a 13 de Abril de 1695 tendo sido enterrado no cemitério de Les Innocents e não em Saint Joseph. A localização mais provável para as suas ossadas é o interior das Catacumbas de Paris, anonimamente perdido entre cerca de seis milhões de parisienses.
Assim, em 1817, "Molière", "La Fontaine" e os célebres amantes Héloïse e Abélard foram recebidos com pompa no novo cemitério.
A estratégia resultou: em menos de um ano, os talhões de Père Lachaise eram os mais cobiçados da capital francesa. Père Lachaise populou-se - sobrepopulou-se! - tendo-se tornado o local de eterno repouso de muitos populares e famosos, franceses e estrangeiros, que habitaram ou morreram em Paris, sendo um marco incontornável no mapa internacional do necroturismo.
Ainda assim, dentro dos túmulos dedicados a Molière e La Fontaine, estarão apenas parisienses anónimos.

3.7.11

Falecidos Famosos: Jim Morrison

Ninguém sabe exactamente o que aconteceu na madrugada de 3 de Julho de 1971, em Paris, no terceiro andar direito do nº17 da rua Beautreillis.

O que se sabe é que uma certidão de óbito foi assinada, declarando que James Douglas Morrison (Α:1943 - Ω:1971) falecera, devido a uma paragem cardíaca.

Nascido no seio de uma família de tradição militar, Morrison e os irmãos mudavam de casa com frequência, sempre que o pai, oficial da marinha norte-americana, era destacado para uma nova base. Não era fácil manter amizades nestas condições, mas o jovem Morrison contava sempre com os seus livros, que o acompanhavam para todo o lado.

Aos quatro anos foi confrontado com um acidente de automóvel que, apesar de recordar de forma muito diferente dos restantes ocupantes da viatura, o marcou profundamente.
Morrison dizia ter sido possuído pelo espírito de um velho xamã que morria na berma da estrada e que isso lhe mudara o destino.
Várias foram as canções e poemas que saíram das mãos de Morrison influenciadas por este evento.

Ao terminar o liceu, Morrison mudou-se para Los Angeles onde ingressou na universidade, para estudar cinema.
Os loucos anos sessenta encontram Morrison a viver - a sobreviver - na ruas de Venice Beach, tomando LSD, dormindo no telhado de apartamentos de amigos e escrevendo. Entre os poemas dessa fase encontram-se muitas das letras das primeiras músicas dos The Doors, banda que irá criar com um colega de universidade chamado Ray Manzarek.

Mais velho que Morrison, Manzarek tocava piano desde miúdo e tinha uma banda com os irmãos, mas ao ouvir aquilo que mais tarde se transformaria em Moonlight Drive, percebeu o potencial das criações de Morrison e propôs que formassem uma banda.

Assim nasceram os The Doors.
O nome, inspirado por um trabalho de Aldous Huxley, vinha originalmente de uma linha de um poema de William Blake.

Morrison dizia ouvir concertos completos na cabeça e tudo o que fazia era registar as músicas que ouvia, antes que estas lhe fugissem. Eram bem conhecidos os excessos de Morrison com as drogas psicotrópicas e o álcool.

Juntaram-se à banda Jonh Densmore e Robby Krieger, respectivamente baterista e guitarrista. Uma das paixões de Krieger - compositor de algumas das mais conhecidas canções da banda, como Light My Fire - o efeito de bottleneck, que torna o som da guitarra quase etéreo, ajudou a dar corpo a Moonlight Drive, a música que, segundo algumas más línguas, conta a história de um assassinato.

Ninguém sabe exactamente como Jim Morrison e Pamela Courson se conheceram, mas todas as versões os colocam juntos desde os primeiros concertos da banda, quando uma Pam acabada de sair do condado de Orange entrou num dos bares de Venice Beach em que os The Doors actuavam.
Uma das versões mais coloridas conta que Densmore a viu "primeiro," mas Pam apaixonou-se pelo futuro Rei Lagarto, um Morrison ainda envergonhado, que cantava no palco de olhos fechados e costas voltadas para o público. Quando Jim se aproximou da mesa que Pam e uma amiga partilhavam com Densmore, foi amor à primeira vista.
Diz-se que é esse o principal motivo das repetidas incompatibilidades entre Morrison e Densmore: Densmore nunca perdoou a Morrison ter sido ele a "ficar com a miúda".
Os amigos do casal, especialmente Manzarek, compararam Jim e Pam ao trágico casal de Shakespeare, Romeu e Julieta.

Durante uma actuação no famoso bar Whisky a Go Go, os The Doors foram finalmente descobertos por Paul Rothchild da Elektra Records.

Seguiram-se os álbuns, carregados de sucessos. A fama foi quase imediata e Morrison passou a ser reconhecido na rua.
As fãs arrastavam-se aos seus pés e, ao longo dos anos, Morrison foi coleccionando casos atrás de casos, alguns com outras personalidades conhecidas, como Nico de Velvet Underground.
Um dos casos mais famosos e discutidos foi com Patricia Kennealy, jornalista e critica de rock, que afirma ter casado com Morrison em 1970, por meio de um casamento pagão que não chegou a ser registado junto das entidades oficiais.

No entanto, quando em Março de 1971, após o lançamento de L.A. Woman - o último álbum de estúdio da banda - Morrison, decide abandonar os Estados Unidos e refugiar-se em Paris, leva consigo Pam Courson.
O objectivo de Morrison era afastar-se da música e aproveitar o anonimato da cidade francesa para regressar à escrita.

Pam chamava-lhe o seu poeta e, pouco tempo antes de morrer, Morrison disse a um jornalista que, aos 27 anos, estava demasiado velho para continuar a ser uma estrela do rock.
A vontade de mudança, a ansiedade pela liberdade e espaço de criação sem as amarras de uma banda, pareciam fazer de Paris um novo começo, mas em vez disso, a cidade da Luz foi apenas o final da história.

A versão mais comum diz que Morrison se sentiu mal durante a noite, com dificuldades de respiração e náuseas, por isso levantou-se da cama e foi tomar um um banho quente, esperando sentir-se melhor.
Pam acordou por volta das três horas da manhã e viu que estava sozinha na cama. Jim ainda não tinha regressado; levantou-se e foi procurar Morrison, encontrando-o no banho, imerso em água tépida, a cabeça repousando na borda da banheira.
Chamou-o e tentou acordá-lo.
Quando não obteve resposta, tentou tirar Morrison da banheira, mas não foi capaz. Consta que Pam ligou a Alain Ronay e Agnès Varda, que a ajudaram a chamar a policia e a tratar das questões legais.

Sem uma autópsia e enterrado rápida e anonimamente num pequeno e escondido talhão no canto do poetas no cemitério parisiense de Père Lachaise, a lenda de Morrison cresceu.
Há quem diga que o cantor simulou a própria morte, tendo viajado para a África do Sul; outros aceitam a morte, mas negam as causas, falando em overdose. Um momento de engano, em que Morrison teria snifado heroína de Pam julgando tratar-se de cocaína.

O pequeno talhão tornou-se rapidamente local de peregrinação, mas a vandalização da campa de Morrison e das campas mais próximas obrigou as as autoridades francesas a isolar a campa de Morrison com a ajuda de grades anti-motim que impedem a aproximação. Ainda assim, o busto de bronze de Morrison que pode ser visto no final do célebre filme The Doors de Oliver Stone (baseado no livro de Jonh Densmore Riders On The Storm) foi roubado em 1988 e não foi ainda substituido.
Apesar de todos os cuidados, flores, poemas, cartas, discos, garrafas, tabaco e charros podem ser vistos sobre a campa de Morrison.

Regressada aos Estados Unidos e três anos depois, também aos vinte e sete anos de idade, Pamela Courson morreu com uma overdose. Contrariamente aos seus desejos, o corpo não foi levado para Père Lachaise e enterrado junto de Jim Morrison.
Com a morte de Pam, perdeu-se a verdade sobre os últimos momentos de Jim Morrison, seja ela qual for.
Segundo Manzarek, Pam ter-lhe-à dito que as últimas palavras de Morrison foram "Pam, are you still there?..."

...and our love becomes a funeral pyre.


2.3.11

Mausoléus

Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo era o Mausoléu de Halicarnasso, uma construção funerária gigantesca, projectada por Pítio, que servia de tumba ao rei Mausolo da Caria, que viveu durante o século IV a.C.
Dessa Maravilha do Mundo Antigo restam apenas alguns vestígios na cidade turca de Bodrum, mas o nome e o conceito resistem e são reconhecidos por todos.

Um mausoléu pode ser definido como uma construção fúnebre, independente, contendo uma ou várias tumbas onde se pode, pelo menos em teoria, entrar.

Relativamente popular durante a ocupação romana, a construção de mausoléus tornou-se rara nos séculos que se seguiram, considerando as práticas funerárias promovidas pelas religião católica.

É a ruptura com as inumações no interior das igrejas que impulsiona o regresso destas construções. O regresso da construção de mausoléus dá-se também com o estabelecimento de colónias de europeus fora da Europa e a influencia que as construções e costumes locais tiveram sobre estas. Na Índia é possivel encontrar mausoléus construidos por comerciantes europeus desde 1659.
Um dos casos mais claros dessa influencia é o cemitério de South Park Street, em Calcutá, modelo inicial para os grandes cemitérios românticos (vitorianos) europeus como Père Lachaise.

A moda dos cemitérios românticos, que se espalhou pela Europa durante o final do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, transformou o desenho e construção de mausoléus numa actividade arquitectural comum. É interessante perceber entre 1768 e 1820 (cronologia) a Royal Academy, em Inglaterra, recebeu cento e sessenta e quatro projectos de mausoléus, dos quais foram efectivamente construidos setenta.
Nas famílias mais abastadas, era natural que o arquitecto seleccionado para fazer construções nas propriedades da família fosse chamado também a desenhar o respectivo mausoléu.

A época vitoriana permite uma diversidade de estilos realmente rica; podemos encontrar monumentos de estilo Tudor ao lado de outros de estilos Grego, Gótico e Egípcio - que se tornou especialmente popular nessa altura devido à sua associação às pirâmides enquanto monumento fúnebre e, indirectamente, à simbologia maçónica, também muito comum na representação funerária vitoriana.

Apesar disso, é por volta dos anos 60 de 1800 que a construção de mausoléus atinge o seu pico, em número e tamanho. É nesta fase que grandes nomes da arquitectura do século XIX ficam associados à construção de monumentos funerários, trazendo floreados estilísticos como cantaria policromática e estilos e materiais eclécticos.

Com a chegada do século XX, na Europa, a afirmação de riqueza por recurso à construção de monumentos funerários sai de moda, ao mesmo tempo que a tendência para a cremação aumenta. Ainda assim, alguns mausoléus são adaptados, criando-se nichos para urnas de cinzas funerárias.

Nos Estados Unidos, a construção de mausoléus não sofreu este abandono, sendo ainda bastante popular. Em alguns países, como o México, o plástico colorido faz agora parte das construções funerárias, criando mausoléus extravagantes.
Neste momento, existem já mausoléus virtuais pela Internet, onde é possível imortalizar uma pessoa através de uma placa.

Estas ricas e diversificadas construções do passado - não muito distante - estão disponíveis para serem apreciadas e visitadas, permitindo-nos perceber a forma artística e tentativamente duradoura com que os nossos antepassados procuravam celebrar a morte dos seus entes queridos.


Imagens:
central - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
e
squerda - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
direita - Cemitério Père Lachaise, Paris, França @ Gisela Monteiro . 2009;

9.2.11

Falecidos Famosos: Chopin

É inevitável que um weblog dedicado à Tafofilia mencione Frédéric Chopin (Α:1810 - Ω:1849). Chopin foi um brilhante pianista polaco, professor de música e compositor de excelência; é graças a ele que o piano passou a ser visto como um instrumento a solo. Aquela que é, talvez, a mais célebre de todas as marchas fúnebres foi composta por Chopin. Aliás, todos os seus Nocturnos têm qualquer coisa de lúgubre, de funerário, na sua sonoridade de cadências lentas e graves, mesmo os que se poderiam considerar mais animados.

Chopin nasceu na Polónia, mas abandonou a terra natal aos vinte anos. Morreria antes de completar quarenta, em Paris, rodeados de amigos e admiradores, mas sem o seu grande amor: George Sand, a controversa romancista do século XIX.

A relação entre Chopin e Sand foi muito comentada na época e terminou em 1847, dez anos depois de se ter iniciado, na sequência da publicação de Lucrezia Floriani em 1846, onde Sand retrata o seu romance com Chopin, apresentando-o numa luz muito pouco simpática e chamando a si o papel de mártir.

Apesar disso, consta que o golpe final na relação esteve relacionado com Solange, filha de George Sand, muito acarinhada por Chopin. Os motivos diferem consoante a fonte: alguns defendem que Chopin tomou o partido de Solange e o marido, o escultor Auguste Clesinger, face a questões de dinheiro, contra Sand; outros dizem que Chopin não gostava de Clesinger, considerando-o mesmo um escroque, e que se opunha ao casamento dele com Solange, mas Sand via o enlace com bons olhos.

Chopin foi um homem doente, continuamente enfraquecido por uma crónica doença pulmonar - que à altura se julgava ser tuberculose, mas que actualmente se concluiu por fibrose quística - que acabou por o vitimar no regresso de uma "tour" pelo Reno Unido. O seu coração, de acordo com o último desejo, foi retirado, preservado numa urna de cristal e enviado para Varsóvia, onde se encontra até hoje. Foi poupado da destruição da cidade durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial por um General da SS. Mais tarde foi devolvido à cidade e encontra-se na Igreja da Santa Cruz.



Outras das últimas vontades do pianista foi ter o Requiem, de Mozart, tocado no seu funeral. O facto da igreja não aceitar cantoras femininas obrigou a um adiamento da cerimónia por duas semanas, até chegarem a um acordo: as cantoras actuariam cobertas por um pano negro, para não serem vistas. Junto ao túmulo, enquanto alguns cobriam o caixão com terra trazida da Polónia, tocou-se a sua Marcha Fúnebre Op. 35.

A penúria em que se encontrava no momento da morte levou a que o funeral fosse pago pelos seus amigos, que se reuniram no Cemitério de Père Lachaise para um último adeus: apareceram mais de 3 000 pessoas. Entre eles estavam Delacroix, Liszt e Victor Hugo; a ausência de Sand foi notada por todos.

Talvez por ironia, foi Clesinger quem foi chamado, na manhã de 17 de Outubro de 1849, para fazer a máscara de morte de Chopin, criando também moldes das suas talentosas mãos. Mais tarde, é também a este escultor que é encomendado o monumento que encima a campa do músico, uma das mais visitadas em Père Lachaise e sempre repleta de flores.
A recepção da peça de arte não foi calorosa e muitos críticos consideraram-na mesmo medíocre, lamentando que seja ela a marcar a última morada deste notável homem.

Se for a Père Lachaise, é uma visita obrigatória.