Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

9.12.25

Crimes de Lisboa Antiga

Chegou a minha mais recente colaboração com a Prof.ª Maria da Gandra: Crimes da Lisboa Antiga.

Mais um mapa da fantástica colecção Cartografia para a Portuguesia. O número 6 apresenta um mapa da cidade e uma cronologia entre 1804 e 1926, permitindo conhecer crimes que impactaram a sociedade portuguesa deste período, mas também locais emblemáticos da cidade no combate ao crime e no estudo da criminologia e várias personalidades que lhe estão associadas.

O brilho de Lisboa convida a acontecimentos luminosos, mas a cidade também tem as suas sombras. No século XIX e primeiro quartel do século XX, Lisboa ficou marcada por crimes de sangue que ecoaram no imaginário dos habitantes durante décadas e, em alguns casos, levaram a mudanças de mentalidades, leis e procedimentos.

Neste período, acompanhando as boas práticas internacionais, criaram-se laboratórios, casas de autópsia, penitenciárias e panópticos, publicaram-se livros, recolheram-se impressões digitais e fotografaram-se suspeitos. E no silêncio escuro da cidade, os criminosos levantaram facas, apontavam revólveres e despejavam frascos de clorofórmio sobre as suas vítimas.

Com este mapa, ficará a conhecer alguns dos crimes mais célebres da Lisboa de outrora: desde o caso que levou 20.000 pessoas ao Cemitério dos Prazeres para identificar um cadáver, ao capitão assassinado pelos misteriosos "Máscaras de Bronze".

Venha viajar no tempo e testemunhar alguns dos mais conhecidos - e entretanto esquecidos - Crimes de Lisboa Antiga.


O mapa, tal como os anteriores, pode ser encomendado através do email guiascemiterios@gmail.com. 

Até uma próxima aventura! 

2.11.25

100 Anos de Cremação!

O mês de Outubro foi um mês cheio de coisas, incluindo a 4ª Semana Cultural nos Cemitérios e o lançamento de mais um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa que comemora o centenário do Crematório do Cemitério do Alto de São João, o primeiro do país, cuja primeira cremação teve lugar a 28 de Novembro de 1925.


Para este boletim fiz uma investigação bastante profunda e na qual foram analisados, pela primeira vez, um grupo considerável de documentos internos - relatórios, registos, plantas, propostas, actas de concursos, etc. - com o objectivo de contar a história da cremação em Lisboa, mas tendo presente que, até aos anos 90 do século XX, isso é quase o mesmo que contar a história da cremação em Portugal.

A Luta, 1976.
Foi surpreendente perceber que se faziam cremações em pira, no interior do Cemitério do Alto de São João, à noite, desde 1946, quando um marajá indiano morreu em Lisboa e foi necessário respeitar as regras religiosas e efectuar a cremação imediatamente. Perceber que, ainda durante o Estado Novo, se realizaram outras cremações em pira, devidamente autorizadas e acompanhadas com dedicação e cuidado por parte do responsável do cemitério, incluindo a presença de bombeiros e polícia no cemitério.

Também foi com surpresa que percebi que os motivos habitualmente referidos como sendo os principais para a interrupção da cremação em Portugal entre 1936 e 1985 não eram corroboradas pela documentação. A responsabilidade da Igreja Católica e do Estado Novo não só não se materializaram, como relatórios técnicos desde 1971 referem o mau funcionamento do forno adquirido em 1925 aos alemães como um dos principais problemas, tal como a necessidade excessiva de carvão, e identificam a necessidade deste ser substituído para poder voltar a fazer-se cremação em Lisboa. Aliás, em Moçambique existia um crematório a funcionar e devidamente regulado nos Cemitérios de Lourenço Marques desde os anos 1960, sendo que o território era, à altura, português.

A incapacidade de responder ao pedido dos Estados Unidos para cremar as vítimas da terrível queda do hidroavião Yankee Clipper, em 1943, é mais um sinal da impossibilidade de utilizar o crematório. Se fosse apenas uma decisão política ou religiosa - e não técnica - o forno teria sido reactivado temporariamente para este efeito.

Diário de Notícias, 1925.

Foi possível localizar fotografias antigas do crematório, ainda antes da inauguração, no arquivos do jornal diário O Século, guardadas na Torre do Tombo e também uma foto do Diário de Notícias, publicada numa edição dos anos 70, com a primeira cremação e a equipa do forno de 1925.

Regressou-se no tempo aos primeiros textos portugueses que promoviam a cremação, em 1857, comparando com o que estava a acontecer no Ocidente relativamente a esta temática. 

Encontrámos documentação relativa à compra do forno à Topf&Söhne - cujo papel no Holocausto é arrepiante e assustador - e às dificuldades em fazer passá-lo numa alfândega que não tinha quaisquer referências a este tipo de objectos e não o sabia taxar.

Acompanhamos a primeira cremação: Custódio dos Santos, cujo corpo abandonado pela família seguiu primeira para a Escola Médico-Cirurgica de Lisboa e, depois de utilizado nas aulas de anatomia, foi a primeira pessoa a ser cremada em Portugal, numa sessão experimental do forno, antecedendo a primeira cremação oficial a 30 de Dezembro de 1925. Por esse motivo, as suas cinzas foram colocadas em destaque em frente do crematório em 1925, onde ficaram até ser criado um monumento para a sua colocação e onde agora, finalmente, foi gravado o seu nome, sendo assim recordado para sempre.


Também podemos perceber as várias paragens e reinício da cremação até, em 1985, o Crematório do Cemitério do Alto de São João ser activado em definitivo; mas não parámos aí, porque a história continua, com crematórios abrir por todo o país, com mais crematórios a abrir em Lisboa, parando - temporariamente - na abertura do quarto forno crematório de Lisboa, no Edifício Saudade, junto do Cemitério de Carnide.

Foi publicado um artigo no jornal Público sobre este tema, dando destaque às descobertas apresentadas no meu artigo e ao próprio Boletim Cultural.

Quem quiser ler o artigo Cem Anos de Cremação e também o artigo complementar A Morte do Marajá e as Cremações em Pira pode descarregar gratuitamente o Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa no link que está no início deste post ou, se quiser ir directamente para os artigos referidos, usar este link para o meu perfil no Academia.edu.

Boas leituras!

Espero que se divirtam tanto a ler quanto eu me diverti na investigação e escrita. 

18.5.25

História Interreligiosa dos Cemitérios de Lisboa

No passado dia 3 de Abril a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou o novo Edifício Saudade, passando a cidade a dispor de um espaço para velórios e despedidas sem elementos religiosos.

Contendo ainda um forno crematório, a ausência de simbologia religiosa permite que se torne verdadeiramente inclusivo, uma vez que cada família pode decorar a sala com os elementos que entender, respondendo às necessidades das diferentes religiões e também a quem delas prescinde.

Neste contexto, a Divisão de Gestão Cemiterial, responsável pela gestão do novo edifício, publicou um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa, no qual participei com um texto sobre a história religiosa dos cemitérios de Lisboa.

A partir de fontes primárias, como as actas das reuniões da Assembleia da Câmara Municipal de Lisboa, considerando também relatos coevos em jornais e outros documentos, foi possível recuperar informações sobre as acessas discussões relativas à pretensão nacional de separar os mortos por credo, dentro dos cemitérios portugueses e como Lisboa se recusou a cumprir a lei régia, mantendo os cemitérios públicos da cidade como um espaço único sem divisões físicas. 

Nos jornais períodicos conseguimos ainda encontrar referências ao primeiro funeral civil a ter lugar na cidade e as resultantes reacções da igreja e da população.

Obviamente que recomendo a leitura, para quem se interessa por estas temáticas e, claro, por quem tem curiosidade no tema.


Para além do Boletim Cultural completo, disponível no link acima, podem ainda encontrar o meu artigo aqui, acedendo directamente à minha página no site Academia.edu.

Boas leituras!

6.1.25

WANTED: Medalhões de Vidro

No contexto das minhas investigações, tenho encontrado vários elementos novos e objectos curiosos. Gosto sempre de saber mais sobre as coisas com que me vou cruzando; aliás, foi assim que comecei a investigar e estudar cemitérios: não me bastavam as imagens que ia registando nas minhas fotografias, precisava de saber mais, de descobrir as histórias.

Em Dezembro de 2020 foi inaugurada a exposição Flores de Pedra | Flowers of Stone, patente ainda na galeria de exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres. Nas paredes da galeria - para além dos painéis informativos com representações das plantas que fomos descobrindo e identificando nos cemitérios de Lisboa e a respectiva leitura simbólica contextualizada - encontram-se vários objectos fúnebres, recuperados pela Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa em jazigos particulares abandonados. Esse material, riquíssimo para desenvolver o nosso conhecimento relativamente aos rituais e práticas fúnebres portuguesas no século XIX e XX, faz parte do acervo museológico dessa divisão.

Dos elementos que integram a exposição - todos eles apresentando bonitas e simbólicas flores - encontra-se um conjunto de medalhões de vidro que despertaram a minha curiosidade.

Trata-se de vidro simples, aparentemente forrado com jornal do lado que fica voltado para a moldura metálica de suporte, pintados com cenas de luto, num estilo um pouco naif.

Não encontrei bibliografia que refira estes elementos ou me dê pistas para perceber melhor quem os fazia, como se comercializavam, se eram encomendas ou trabalhos de série, etc. Falta quase tudo, no entanto, tenho já algumas pistas que partilho convosco.

1. O nome "medalhões", que estou a utilizar para designar estes objectos, está na lista de serviços e produtos que eram comercializados pela Agência Funerária Cereeiro, que ficava na Rua da Junqueira (lembro-me de passar por ela tantas vezes, mas entretanto já não se encontra lá). Esta informação foi encontrada numa factura de funeral de 1909, gentilmente disponibilizada por Fernando Oliveira, responsável pelo Museu Funerário Fernando Oliveira (que merece uma visita).

2. Percebemos claramente alguns dos contextos de uso a partir de fotografias antigas, tirada nos cemitérios de Lisboa, em que vemos medalhões destes pendurados no interior dos jazigos e até no exterior, em obeliscos e colunas de jazigos subterrâneos.

Tirando estes dois pontos, sabemos ainda muito pouco. O que nos leva ao poster de WANTED do topo deste post: alguém tem informação disponível? 

A informação pode ser directamente sobre estes elementos, de alguém que se recorde ou conheça histórias de ver vender ou comprar, de ter nos seus jazigos ou pode ser no formato de antigas facturas de funerais que possam referir estes artigos.

Se alguém tiver informação, pode enviar para o email Blog.MortSafe@gmail.com ou contactar-me directamente a partir do Facebook ou do Instagram do Mort Safe.

Seria maravilhoso encontrarmos juntos mais informação sobre estes curiosos medalhões de vidro.

Obrigada a todos e passem a palavra, por favor!


15.9.23

«Casa de Autópsias»: do modelo parisiense ao cemitério enquanto substituto da Morgue na Lisboa de Oitocentos

Há uns anos atrás descobri que, na Paris do século XIX, se visitava a Morgue da cidade como quem vai ao teatro ou ao jardim.

Fiquei fascinada com o tema e fui comprando livros e procurando fontes e até escrevi um pequeno texto aqui para o blog. 

Em 2021 e 2022 tive a oportunidade de investigar o tema com maior profundidade, procurando também a resposta lisboeta para os problemas que eram endereçados pela Morgue de Paris.

Escrevi um artigo que é agora publicado no segundo número da Revista RomantHis, uma revista científica de acesso aberto sobre o Longo Século XIX no Mundo Português, entendido num sentido lato, enquadrando quatro grandes vertentes: História, Arte, Cultura e Património.

A revista é uma publicação periódica digital é da responsabilidade do Grupo "Saudade Perpétua" e propriedade da HistóriaSábias - Associação Cultural, coordenada por Francisco Queiroz (director), Cristina Moscatel (directora adjunta).


Podem ler o meu artigo «Casa de Autópsias»: do modelo parisiense ao cemitério enquanto substituto da Morgue na Lisboa de Oitocentos seguindo esta ligação.

Este é ainda um tema em desenvolvimento e com várias linhas de investigação em aberto, mas o meu artigo pretende, desde já, ajudar a olhar para os cemitérios de outra forma e a procurar mais pistas e informações.

Espero que gostem.


23.5.23

O Crime dos Prazeres

A 21 de Maio de 2023 assinala-se o centenário da morte do 9.º Conde de Sabugosa: António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, escritor, historiador, diplomata e mordomo-mor da Casa Real portuguesa. Figura incontornável das letras portuguesas na passagem do século XIX para o XX, integrou o grupo Vencidos da Vida (tendo sido até o penúltimo elemento a falecer, poucas semanas antes do poeta Guerra Junqueiro), expirando aos 71 anos.
O funeral foi agendado para o dia seguinte no cemitério dos Prazeres, para o jazigo particular n.º1587 (construído em 1866) – o mesmo que albergou temporariamente em 1915 os restos mortais de Ramalho Ortigão, outro Vencido da Vida, enquanto a família deste mandava construir o jazigo que agora o acolhe no cemitério do Alto de São João. 
Esperava-se uma enchente no cemitério dos Prazeres para o funeral do Conde de Sabugosa e o polícia a quem foi confiada a tarefa de manter a ordem durante a cerimónia diria depois ao jornal O Século que um pressentimento o levara a pedir reforços à esquadra da Estrela, que lhe enviara os polícias de piquete. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Perto das 17:00 horas, já terminada a cerimónia e quando muitos dos acompanhantes se retiravam, aconteceu o impensável: o silêncio murmurante do cemitério foi rasgado por três tiros de pistola. Na altura, houve quem dissesse terem sido cinco, mas foram três – suficientes para matar um homem. 
Por entre as sombras dos ciprestes, encoberto pelos jazigos e perscrutando a multidão, António Nunes Canha aguardara Adolfo do Couto Viana, o gerente da fábrica da Companhia União Fabril (CUF) nas Fontaínhas, que tinha ido ao funeral do Conde de Sabugosa em representação de Manuel José de Melo: director da CUF e sobrinho do falecido. Pouco tempo antes, Nunes Canha fora despedido por Adolfo Viana; no dia do funeral, vendo-o passar a caminho do cemitério, seguiu a carruagem e decidiu recorrer à violência. Por entre gritos e corridas, Adolfo Viana perdia a vida, sangrando no chão sagrado do cemitério. 
Talvez em choque por ter tido sucesso no atentado, Nunes Canha deixou-se agarrar pelos polícias que escoltavam o cortejo fúnebre, sendo levado para o interior do edifício da administração do cemitério, junto do portão principal, enquanto a multidão regressava, irada, apercebendo-se do que se passara no cemitério. O corpo inerte de Adolfo Viana, que o Dr. Melo Breyner – também presente no funeral – declarou morto, indignava a multidão, que gritava pelo assassino, apelando à justiça popular. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
O fotógrafo do jornal O Século que registou a procissão fúnebre e a entrada do caixão no cemitério teve autorização para entrar na sala onde Nunes Canha esperava com a polícia e fotografou-o, com uma expressão entre a ausência e a estupefacção: «Tanto me faz. Façam de mim o que quizerem» , reporta ter-lhe dito o criminoso quando pediu para o fotografar. Cerca de uma hora e meia depois, quando finalmente a multidão dispersou o suficiente para saírem com segurança do edifício da administração do cemitério, o fotógrafo captou o momento em partiram em direcção à cadeia do Limoeiro. O cocheiro de Adolfo Viana ainda deitou as mãos ao autor do atentado com ganas de o esganar, mas a polícia evitou-o. 
Nesse mesmo dia, na Câmara de Deputados, Paulo Cancela de Abreu, que estivera presente no funeral e por isso chegou a meio da sessão, declarou ter presenciado «o vil atentado contra o gerente da Companhia União Fabril, que o vitimou» . O seu depoimento causou sensação na câmara e o Crime dos Prazeres, como popularmente ficou conhecido, ficou ainda associado a outra situação de violência, quando à porta do Parlamento um soldado da Guarda Republicana atacou o deputado Carvalho da Silva. 
O resultado destes acontecimentos inesperados foi o de as reportagens das exéquias do Conde de Sabugosa terem sido reduzidas para dar espaço ao relato do atentado, aos detalhes sobre a vítima, sobre a vida do assassino e os seus antecedentes criminais. E, claro, dois dias depois reportava-se um novo funeral: Adolfo Viana, abatido no funeral anterior, seguindo da igreja de São Domingos para o jazigo de família no cemitério do Alto de São João. O destaque dado pelos jornais foi para a multidão que se juntou em torno da igreja, nas ruas adjacentes e para a presença notória de muitos operários. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 
Num período conturbado, com greves, atentados e bombas, o crime foi lido como um atentado político, uma afirmação ideológica. Os ânimos exaltaram-se com um assassinato perpetrado em público num cenário e um momento completamente inesperados – um cemitério e no final de um funeral. Discutiu-se a culpa de Nunes Canha e o impacto que o seu despedimento havia tido na sua conduta. Houve, inclusivamente, alguns discursos que quase procuravam justificar o acto de Nunes Canha com o seu despedimento. Nos dias que se seguiram recuperou-se o passado sindicalista do autor dos disparos e o seu papel na organização da Associação de Classe do Pessoal da União Fabril e na criação e presidência do Sindicato das Associações Rurais do Ribatejo. Até se recordou uma anterior tentativa de assassinato, quando quatro anos antes, durante a greve dos metalúrgicos, Nunes Canha atentara contra um industrial na Rua da Junqueira (acabando absolvido pelo tribunal depois de dois anos de prisão). E o caso foi-se arrastando nos tribunais, sem desfecho. 

Arquivo Fotográfico do jornal O Século
Torre do Tombo 

Sabemos que em 1925, dois anos depois do sucedido, o caso continuava por julgar no tribunal da Boa Hora por incapacidade de assegurar o número suficiente de jurados para formar um júri. Nunes Canha terá sido sentenciado ao degredo em África (de onde regressou, temporariamente, em 1942, por motivos de saúde), facto atestado por uma circular escrita por seus correligionários que procurava apoio financeiro que lhe permitisse continuar na metrópole, mas perdemos-lhe o rasto. 


O caso do Crime dos Prazeres é único em Portugal, corporizando um assassinato premeditado, perpetrado no interior de um cemitério, após um funeral.


5.2.23

A Casa Portuguesa nos Cemitérios no GetLisbon

 A fantástica página GetLisbon, que se dedica a partilhar os aspectos mais peculiares de Lisboa desde 2017 - se ainda não seguem nas redes sociais nem recebem a newsletter por email, cliquem aqui e vão até lá - convidou-me para escrever um texto sobre A Casa Portuguesa nos Cemitérios, uma temática a cujo estudo me dedico há já alguns anos.

Passem por lá e leiam. 


Obrigada pelo convite!


6.12.20

Flores de Pedra - Exposição

A exposição "Flores de Pedra / Flowers of Stone", no âmbito de Lisboa Capital Verde Europeia 2020, foi inaugurada no passado dia 4 de Dezembro pelo Sr. Vereador da Câmara Municipal de Lisboa José Sá Fernandes e está patente na Galeria de Exposições da Capela do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde pode ser visitada todos os dias até às 16:00.

Nascida de uma ideia de Sara Gonçalves, directora dos cemitérios de Lisboa, o projecto pretendeu reunir uma equipa multidisciplicar, com especialistas em botânica e simbologia, de forma a identificar as espécies de plantas que decoram os nossos cemitérios e descobrir os seus significados, tendo em conta o contexto cemiterial.

Foram vários meses de trabalho dedicado que incluíram visitas de campo, sessões fotográficas extensas, análise detalhada de imagens, pesquisa e análise de espécies, pesquisa histórica e simbólica, investigação de material de época, recuperação e restauro de peças de jazigos abandonados, concepção do projecto museológico e design, entre tantas outras tarefas essenciais para levar um trabalho como este a bom porto.

A utilização de livros e materiais do século XIX relativos à então popular Linguagem das Flores, contemporânea da maior parte dos jazigos fotografados e presentes nos nossos cemitérios permitiu enriquecer e contextualizar com maior acuidade a interpretação simbólica.


A componente da botânica ficou a cargo da Sandra Mesquita, a simbologia é da responsabilidade de Gisela Monteiro e o design e projecto museológico é de José Dias.

Vão visitar: prometemos que vai valer a pena!

Da esquerda para direita: Gisela Monteiro, Sandra Mesquita e Sara Gonçalves.


29.12.19

A Casa Portuguesa nos Cemitérios - AGM 2018


Em Outubro de 2018, decorreu na bonita cidade austríaca de Innsbruck mais um encontro da ASCE - Association of Significant Cemeteries of Europe.
Foi mais um excelente momento de partilha e aprendizagem, cheio de descobertas e visitas cemiteriais, na companhia dos amigos que se vão revendo anualmente.

O tema da conferência anual de três dias foi "European Cemeteries in the European year of Cultural Heritage" para o qual propus e apresentei o meu trabalho "The Portuguese House in the Cemetery: Tradition and Popular Culture", numa versão focada maioritariamente em recolha de campo e fontes e a ser desenvolvido em maior detalhe posteriormente, mas apresentando já alguns resultados interessantes e identificação de padrões de caracterização. 

A especificidade cultural destes jazigos nacionais, com características pouco comuns fora de Portugal, foi de grande interesse para os presentes, uma comunidade constituída por tafófilos de diversos países.


Fizeram-se visitas a diversos cemitérios, como sempre se faz nestes eventos, nomeadamente ao Hauptfriedhof Wilten na cidade Innsbruck, onde se encontram peça lindíssimas e onde o sol de final do dia iluminou tudo com uma doce luz dourada, com vista para as montanhas do Tirol e também ao Friedhof Mühlau, na pequena vila do mesmo nome, onde fomos simpaticamente transportados nas carrinhas dos bombeiros de Innsbruck. 
No cemitério de Mühlau fica uma bela capela, em traços que rapidamente associamos às construções do Tirol e, estando localizado numa cota mais alta que Innsbruck, permitiu magnificas vistas em redor.

Os dias passaram depressa e ficou a promessa de, em 2019, nos voltarmos a reunir em Ghent, na Bélgica, com o tema "Heritage Cemeteries in the 21st century: use, reuse and shared use" e muitas visitas a cemitérios.

4.4.17

A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas

No próximo dia 8 de Abril, no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, irá decorrer o colóquio "A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas", organizado pela Comissão de Estudos Olisiponenses da Associação de Arqueólogos de Portugal.



1.4.17

Visitas Guiadas - Cemitérios de Lisboa

Já está disponível o programa de visitas guiadas nos Cemitérios de Lisboa para os meses de Abril, Maio e Junho.
Escolham o local ou o tema que mais vos interessa e inscrevam-se já enviando um email para dmevae.dgc@cm-lisboa.pt.


E no dia 20 de Maio, a visita é nocturna. 


16.11.14

Inauguração de "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular"

No passado dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery do Centro Comercial Imaviz Underground, decorreu a inauguração da exposição fotográfica Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular.
Contou com a participação musical de Charles Sangnoir de La Chanson Noire.
Apresentei as vinte e duas fotografias que compõem a série, contextualizando a imagem, a escolha e o local onde a fotografia foi tirada.

Para quem não conseguiu estar presente, pode ver o vídeo da minha apresentação dos vinte e dois Arcanos Maiores cemiteriais:




Mais surpresas em breve.

4.11.14

Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular


No próximo dia 15 de Novembro, na El Pep Store & Gallery no Imaviz Underground, pelas 18:00 horas, vai ser inaugurada a minha exposição de fotografia, intitulada "Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular" um trabalho conceptual sobre o Tarot.
Em vinte e duas imagens de contexto sepulcral, a preto-e-branco, tiradas em diversos cemitérios portugueses e estrangeiros, apresentam-se novos arcanos maiores que, mergulhados no mistério e no silêncio próprios dos cemitérios, prosseguem num feitio surpreendente a tradição pictórica do Tarot.
A exposição estará patente até 28 de Novembro e estão todos convidados, desde já, a aparecer na abertura no dia 15.

Entretanto, estamos a preparar mais algumas surpresas que iremos anunciando. Fiquem atentos!

19.5.14

Visita Noctura e Concerto nos Prazeres

Este ano a Noite dos Museus foi celebrada de forma muito especial - e inovadora - na cidade de Lisboa.
Olhando os cemitérios como sendo um museu a céu aberto - visão já há muito difundida noutras cidades do mundo, onde as visitas aos cemitérios fazem parte dos pacotes turísticos oferecidos pelas agências de viagens - Lisboa abriu no sábado à noite os majestosos portões do Cemitério dos Prazeres e recebeu os Lisboetas (e não só) de braços abertos, mostrando-lhes o melhor que tem.

Ainda que as visitas nocturnas em cemitérios portugueses não sejam comuns, esta não foi a primeira; essa honra cabe à cidade do Porto, que a 22 de Junho de 2012 preparou uma visita guiada no cemitério de Agramonte. 
Não sei números oficiais dessa visita, mas vi fotografias que mostram bastante gente. 
O facto que muitas vezes é ignorado - especialmente num país como o nosso, de enraizada matriz judaico-cristã - é que existe procura para este tipo de turismo - apelidado normalmente de necroturismo, em alguns casos de forma até pejorativa - e que é essencial dar-lhe resposta.


Nisso, como em outra coisas, os irlandeses têm muito para nos ensinar: no cemitério de Glasnevin, em Dublin, existe um loja no interior do cemitério cheia de livros, canecas e outras recordações do espaço, juntamente com um museu, um café com uma pequena esplanada e um restaurante do tipo cantina: tudo no interior do cemitério. À porta param autocarros de passeio cheios de turistas que entram, entusiasmados, na companhia de guias. 
É um facto que não estamos ainda preparados para este tipo de realidade, mas podemos começar a fazer o caminho, pelos pequenos passos, como os passeios e visitas guiadas.
Já há algum tempo que a Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a aumentar a aposta na divulgação dos cemitérios lisboetas e a promover passeios temáticos muito interessantes e diversificados, mas na noite de 17 de Maio a aposta passou por um inédito passeio nocturno, seguido de um concerto de La Chanson Noire na capela.

Vários dias antes da visita já circulavam rumores - rapidamente confirmados - de que esta estaria esgotada, mas que ainda seria possível assistir ao concerto.
Efectivamente, por volta das 20:00 horas, já uma pequena multidão se estendia na ampla avenida principal que liga o portão à capela.

A primeira nota positiva que quero deixar é que é notório que a visita foi bem preparada:

  • À entrada foram distribuídos mapas com o percurso, acompanhados de um folheto com os pontos de paragem, incluindo uma breve descrição e imagem de cada um;
  • O Dr. Licínio Fidalgo, guia da visita, fez-se acompanhar de um megafone e um sinalizador luminoso que permitia encontrá-lo no escuro:
  • Existiam holofotes com geradores (que, pelo que percebi, foram gentilmente cedidos pelos Bombeiros de Lisboa) em todos os pontos de paragem, para garantir que as peças eram vistas pelos visitantes, depois de anoitecer;
  • Vários funcionários da CML estavam junto das encruzilhadas do percurso para assegurar que ninguém se perdia, seguindo um trilho não incluído no passeio;

Foi uma pena que a visita ao Jazigo Palmela tenha sido a primeira paragem do percurso. 
Uma visita a um espaço exíguo e com apenas com uma porta para o exterior (por onde se fazem as entradas e as saídas), quando se tem uma pequena multidão (sem ter números oficiais, diria que estariam perto de cem pessoa) não deve ser o arranque de uma visita deste género, pois torna-se demasiado demorada e dificulta a gestão do tempo. 
Ainda assim, felizmente, bastaram três grupos para que todos os visitantes conseguissem fazer a visita ao fabuloso jazigo; mas a questão principal é que o truque destas coisas é deixar o melhor para o fim: qualquer peça visitada depois do inigualável Jazido Palmela empalidece em comparação.

Teria sido arrepiante fazer o passeio na ordem inversa, não só porque teríamos mais luz para ver as peças que estão na rua, como chegaríamos ao Jazigo já com noite cerrada.

Voltando aos pontos positivos, a iluminação no interior do Jazigo Palmela foi conseguida com diversas velas acesas, o que criou um ambiente muito adequado e sombrio, impossível de conseguir numa visita diurna.

O percurso passou depois por vários pontos de destaque como o Dado Falso, a Bancada do Marceneiro, a estátua de homenagem a Sousa Viterbo e a de homenagem a Oliveira Martins. 
A meio, antes de começarmos a subida em direcção à capela, ainda tivemos a oportunidade de vislumbrar uma magnifica vista sobre o rio Tejo, Alcântara e a Ponte 25 de Abril, iluminadas pelos candeeiros de rua e os faróis dos carros que cruzam a ponte.

O passeio terminou já quase pelas 22:00 horas, dando assim início ao concerto de capela cheia. Ainda que a acústica da capela não tenha sido a ideal, o concerto foi memorável.

O balanço da noite é muito positivo e penso que merece uma repetição em breve.
Garante-se público, claramente...

2.10.12

Crematório do Alto de São João

O nosso primeiro - e durante muitos anos único - crematório é o forno crematório do cemitério do Alto de São João.
Ainda em utilização, a história deste crematório mistura-se com a história do nosso país e é, mais uma vez, um excelente exemplo de como as práticas funerárias de uma sociedade conseguem ser uma fotografia quase perfeita desta e das crenças e limitações de quem nela vive.

A partir dos anos 70 do século XIX várias vozes se levantaram em defensa da criação de um forno crematório em território nacional.
Os argumentos usados no início do século para fundamentar a criação de cemitérios e descontinuar os enterramentos no interior das igrejas foram então reaproveitados para defender a cremação em detrimento da inumação.

Não deixa de ser curioso que apenas em 1912 é que, finalmente, foi aprovada a construção do crematório no cemitério do Alto de São João.
Considerando que a Igreja Católica é contra a cremação, naturalmente apenas depois da implantação da República, com os ventos ateístas trazidos pelas mãos de Afonso Costa, foi possível ter um crematório em Portugal.

Apesar disso, somente em 1925 o crematório entrou em funcionamento, depois de um vereador adepto da cremação ter procedido à aquisição do forno na Alemanha; apesar disso, segundo as estatísticas, os números de utilização foram muito reduzidos. Entre 25 e 36 foram apenas cremados 22 corpos e em 1936 o crematório deixou de funcionar.
No livro Cemitérios, Jazigos e Sepulturas de Vítor Manuel Lopes Dias é referido apenas que o crematório «não está presentemente [1963] em condições de funcionar.» sem mais explicações.
É de destacar que este trabalho foi publicado quando o Estado Novo ainda fazia censura de livros e textos, pelo que é preciso ter isso em conta quando se considera a falta de informação neste ponto.

É preciso recordar que a Igreja Católica era militantemente contra a cremação e o Estado Novo, nascido em 1933 com a instauração da Constituição de 32, estava completamente alinhado com a Igreja Católica e, por isso, não é de estranhar que o crematório do Alto de São João tenha sido desactivado, até ser recuperado em 1985, em parte por pressão da crescente comunidade Hindu.

 Actualmente, em Lisboa, existem três fornos crematórios, uma vez que ao do Alto de São João se juntaram mais dois no cemitério dos Olivais; para além destes, também existe um no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, e outro em Ferreira do Alentejo, de construção particular (ainda que gerido pela câmara municipal).

Em breve uma pequena adenda com informação estatística sobre o fenómeno da cremação.


3.6.12

Primavera nos Prazeres


Para quem estiver por Lisboa, fica a nota que vale a pena dar um salto ao Cemitério dos Prazeres para ver o espectáculo dos jacarandás floridos.
Lembrem-se que este manto lilás dura pouco tempo; depois só para o ano.