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31.10.20

Asclépio, Hermes e Higia nos Cemitérios

Ao visitar um cemitério romântico, nas zonas mais antigas, onde se erguem os jazigos-capela e as sepulturas perpétuas, é comum encontrar curiosas figuras talhadas na pedra, sozinhas ou adornando epitáfios: flores, animais, instrumentos de trabalho, letras gregas, objectos do dia-a-dia, figuras humanas, símbolos de ordens. 

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, Portugal

Quando tentamos perceber o seu significado dentro do espaço cemiterial, transparece que a escolha não foi aleatória, ainda que alguns dos donos de obra possam ter escolhido a decoração do seu jazigo a partir de catálogos ou pedindo para copiar algo que viram numa das suas visitas de domingo ao cemitério local.

Identificar e decifrar essas figuras ajuda-nos a saber mais sobre quem é a pessoa que se encontra enterrada no local, a forma como ela se via ou era vista pelos outros, aquilo de que mais gostava ou mais valorizada em vida.
Algumas das figuras não nos levam a interpretações complicadas e a recorrer dos compêndios e almaços antigos, por conseguirmos reconhecer o símbolo apresentado, por ele ainda fazer parte da nossa actualidade. E porque, por vezes, uma rosa é, realmente, apenas uma flor.

Um dos conjuntos de símbolos que parecem fáceis de identificar e decifrar são os símbolos associados à medicina e saúde. Estamos habituados a vê-los pintados em ambulâncias, representados nos placards luminosos das farmácias, nos logótipos de serviços de saúde. São normalmente compostos por serpentes enroladas em varas, árvores, taças, lamparinas de azeite.
Parece bastante claro e simples, mas porquê as variações?

Acontece que, efectivamente, estamos a falar de símbolos diferentes. 

Os que chegaram até nós mantendo o significado original são o Bastão de Asclépio e a Taça de Higia. 
Hermes representando o Comércio - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Pelo meio, aparece o Bastão de Hermes, normalmente designado de Caduceu, que inicialmente não estava associado à medicina e, por esse motivo causa alguma confusão no contexto cemiterial, onde aparece muitas vezes como representação do comércio. 

A sua associação formal à medicina surge no início do século XX, no corpo médico do exército dos Estados Unidos, que o adoptou como símbolo, ainda que existam algumas correntes que a colocam vários séculos antes, como extensão da associação de Hermes à Alquimia.
Este erro surge da utilização do caduceu nos exércitos romanos para identificar os mensageiros que, transportando um estandarte com este símbolo tinham salvo-conduto para se deslocarem no campo de batalha sem serem alvos de violência. Talvez fosse esse o objectivo inicial da selecção deste símbolo para identificar os elementos do corpo médico do exército, mas a consequência foi este ficar associado à medicina.

Podemos descrever estes símbolos, simplificadamente, da seguinte forma:
  • O Bastão de Asclépio é uma vara de madeira onde se enrola uma - e apenas uma - serpente.
  • A Taça de Higia é uma taça ou um cálice, no pé da qual se enrola uma serpente, que parece beber da taça.
  • O Caduceu é um bastão de ouro com duas serpentes enroladas, uma de cada lado; no topo do bastão aparece um par de asas e, por vezes, também o capacete de Hermes.
Para distinguir os dois bastões basta ter em atenção o número de serpentes: uma é Asclépio, duas é Hermes.

Conforme referi, Hermes não estava associado à medicina na antiguidade clássica, ao contrário de Asclépio e Higia. 
Hermes era o mensageiro de Zeus e dos deuses nos Infernos: Hades e Perséfone. Era considerado o patrono do comércio, dos ladrões, dos viajantes e dos mensageiros. 

Caduceu /Bastão de Hermes - Cemitério do Alto de São João,
Lisboa, Portugal
O caduceu era, originalmente, um cajado de ouro usado por Apolo enquanto pastoreava gado.
Conta a lenda que Hermes recebeu de Apolo esse cajado em troca de um instrumento musical: numa versão, diz-se que Hermes criou uma lira a partir de uma carapaça de tartaruga e tripas de uns bois que sacrificará aos deuses e que foi esse o instrumento trocado com Apolo; noutra versão, Apolo já teria obtido a lira em troca de um rebanho e dessa vez, para obter a flauta inventada por Hermes, teve de dar em troca o seu cajado. 
Quando recebeu o cajado de Apolo este era apenas uma vara de ouro, sem as serpentes. Depois de receber o cajado, Hermes dirigiu-se a Arcádia, quando chegou encontrou duas serpentes lutavam e se mordiam. Tentando separá-las com o cajado, elas enrolaram-se neste e pararam a violência, mantendo-se em equilíbrio. 

O caduceu é o símbolo identificador de Hermes, assim como a tesoura e o fio são o símbolo identificador de Átropos, por exemplo.

De notar ainda a ligação de Hermes ao mundo dos mortos: este era conhecido como "Acompanhante de Almas" - deus psicopompo - por ser responsável por levar as almas aos Infernos, mas até hoje ainda não encontrei essa vertente representada nos cemitérios, onde a simbologia de Hermes sempre aparece associada ao comércio ou (em jazigos mais recentes) à medicina.

Bastão de Asclépio - Campo Verano,
Roma, Itália
Asclépio, filho do deus Apolo - o mesmo que deu o caduceu a Hermes - foi em pequeno entregue pelo pai ao centauro Quíron, que lhe ensinou as artes da medicina. Asclépio, para além de ter aprendido rapidamente e apresentar grande habilidade na cura dos doentes, possuía ainda a capacidade de ressuscitar os mortos, usando para isso o sangue das veias do braço direito de uma górgona, que lhe fora dado por Atenas. 
Foi por esta capacidade de ressuscitar os mortos que Zeus o matou, receando o impacto que esta façanha poderia ter na ordem do mundo. Depois de morto, Asclépio ascendeu aos céus sob a forma da constelação Serpentário: um homem segurando uma serpente.

O seu símbolo identificador é um pau onde se enrola uma serpente, símbolo esse que representa a medicina.

São atribuídas a Asclépio várias filhas, todas elas associadas à arte da medicina nas suas diferentes vertentes, sendo uma dela Higia. 
Taça de Higia - Cemitério dos Prazeres,
Lisboa, Portugal
Higia é associada à saúde e representada segurando uma taça de onde bebe uma serpente. 
Reza a lenda que, quando Asclépio foi morto por Zeus, as serpentes que viviam e guardavam as fontes de águas medicinais abandonaram-nas e refugiram-se nos templos de Asclépio, onde ficavam imóveis no chão, em sofrimento. 
Higia, por afecto ao pai, cuidava dessas serpentes enlutadas, oferecendo-lhes de beber a partir de uma taça. 
É do nome de Higia que surge a palavra higiene, considerada uma das componentes essenciais à manutenção da saúde.

O símbolo identificador de Higia é a taça de onde bebe a serpente e está associado à saúde.

Internacionalmente, este símbolo é comummente associado à farmácia, mas nos cemitérios pode ser utilizado de uma forma mais ampla, significando saúde.

Recordo que os símbolos devem ser interpretados tendo em consideração os seus contextos, a época e os restantes símbolos representados. 
No contexto cemiterial, podemos generalizar que a presença de uma serpente enrolada numa taça ou num pau são motivos que simbolizam a saúde e a medicina e que uma vara com duas serpentes pode estar associado ao comércio ou à medicina, de acordo com o contexto e a época.

O caduceu num contexto onde se pretende que represente a Saúde, neste caso, a ausência de saúde - a morte -, considerando a sua inversão. Todos estes símbolos representam a morte: a tocha invertida que se apaga, a tesoura de Átropos que corta o fio da vida e a gadanha Cronos que ceifa a vida.

25.6.18

Átropos no Cemitério Romântico

No passado dia 16 de Junho, no âmbito do ciclo de palestras "Um Objecto e Seus Discursos", organizado anualmente pela Câmara Municipal do Porto, estive nessa cidade para falar de um objecto existente num monumento funerário do cemitério de Agramonte, na secção privada da Ordem Terceira do Carmo.

Fotografia gentilmente cedida pela Câmara Municipal do Porto
Numa conversa informal, moderada por Alda Bessa, e com a presença também da Prof.ª Marta Várzeas, especialista em literatura clássica, falámos um pouco das Parcas, as figuras mitológicas gregas responsáveis pelos destinos dos Homens, em especial de Átropos, que é quem corta o fio e define o fim.

Juntei algumas notas sobre o tema, sobre a forma como a cultura clássica grega influenciou a criação e a decoração dos cemitério românticos, que partilho convosco abaixo.

Os meus parabéns à Câmara Municipal do Porto pela excelente iniciativa e à Alda Bessa, pela ousadia de propor um objecto no interior de um cemitério.


Quando pensamos em cemitérios de matriz cultural romântica, concebidos no século XIX, não podemos excluir a constatação que a cultura britânica teve uma fortíssima influência no desenho desses espaços; especialmente nos locais continentais onde se distinguiu por uma forte presença, como na cidade do Porto.
De facto, a mudança de cemitérios paroquiais – apertados, familiares, crescendo em volta das igrejas – para cemitérios seculares – isolados e fora das malhas habitacionais das cidades – obrigou a repensar esses lugares e a considerar soluções diferentes para a sua utilização. Os princípios higienistas, defendidos pelas Luzes do século XVIII, e o crescimento populacional das cidades lotaram os antigos locais de enterramento (cemitérios paroquiais e interiores de igrejas) e obrigou a encontrar soluções alternativas.
A possibilidade de criar algo original para os enterramentos dos mortos levou ao desenvolvimento de singulares ideias conceptuais; algumas inspiradas na Antiguidade e influenciadas directamente pelos revivalismos artísticos e arquitectónicos que marcaram o período de Oitocentos: os revivalismos clássicos e egípcio. Um dos exemplos mais curiosos foi a proposta da Grande Pirâmide de Londres (1842): uma construção gigantesca, inspirada nas pirâmides egípcias, imaginada para ter capacidade de albergar cerca de cinco milhões de mortos, acomodados em noventa e quatro camadas; o que lhe daria uma altura superior à da catedral de St. Paul – se esta ideia tivesse sido aceite, hoje observaríamos uma paisagem urbana bem diferente em Londres e, mais significante ainda, os cemitérios contemporâneos seriam por todo o mundo muito diferentes.
Em 1830, a General Cemetery Company de Londres decidiu desenhar os novos cemitérios seculares e os jardins paisagísticos ingleses foram uma das suas maiores influências, assim como o popular e bem-sucedido modelo parisiense do cemitério de Père Lachaise. Criado em 1803, sob a forte ascendência dos aclamados jardins paisagísticos de Stowe, que recriavam os Campos Elísios descritos pelo poeta Virgílio na Eneida (imagem perpetuada pelo célebre poeta Gilbert West, em 1732, na descrição que fez dos famosos jardins do seu tio Lord Cobham). Construído nos terrenos que haviam pertencido ao padre jesuíta confessor de Luís XIV, o cemitério venceu a desconfiança dos parisienses e reinava como o mais cobiçado local de enterramento da Cidade das Luzes, graças a uma manobra publicitária que permitiu lá enterrar Molière e La Fontaine, assim como os malogrados amantes Abelardo e Heloísa, elevando o estatuto do cemitério.
Os seus serpenteantes caminhos em pedra, árvores frondosas e plano inclinado, permitem invocar imagens de paz e serenidade, materializando o conceito dos cemitérios-jardim que hoje conhecemos: uma versão terrena e utilitária dos Campos Elísios e de Arcádia, em comunhão harmoniosa com a natureza. É, por isso, impossível fugir a essas referências a Arcádia e aos Campos Elísios quando visitamos os cemitérios ingleses mais representativos deste estilo, como Kensal Green ou Highgate, os mais emblemáticos dos cemitérios vitorianos que circundam a cidade de Londres, conhecidos como os Sete Magníficos.
A constância das referências da Antiguidade nos cemitérios românticos pode ser calculada na forma como eles foram projectados como cemitérios-jardim, onde ainda hoje a vegetação abundante se mistura com as pedras dos jazigos, escondidos entre caminhos ziguezagueantes, reconstruindo os paraísos utópicos de Arcádia e dos prados eternos dos Campos Elísios. Porém, é também possível encontrar essas referências nas próprias construções e nos elementos decorativos que preencheram os cemitérios nos anos seguintes à sua construção; mesmo naqueles que, como aconteceu em Portugal, fugiram à criação dos cemitérios-jardim, optando por modelos mais ordenados e menos orgânicos. Foram repescadas as pirâmides e obeliscos egípcios e as colunas e frontões dos templos greco-romanos. As decorações, a apropriação de imagens antigas e conceitos clássicos, toda essa simbologia agora recontextualizada no espaço da Morte, no interior dos cemitérios, renovou a linguagem representativa da morte com o objectivo de comunicar com aqueles que visitavam e observavam as campas.
A cultura clássica, que continua a fazer parte da formação e educação das classes altas, invade também o espaço cemiterial e aparece na decoração dos jazigos, com mais ou menos enfase, dependendo também da inclinação religiosa do dono do jazigo. Há vários exemplos, mais ou menos comuns, que podem ainda hoje ser encontrados: os lacrimais romanos, as urnas funerárias, o alfa e o ómega do alfabeto grego, mas também referências egípcias com esfinges e papiros – estas menos comuns em Portugal.
A apropriação dos clássicos passou também pela apropriação de personagens, especialmente de duas delas: Chronos, o Pai-Tempo, representado por um velho de longas barbas que agarra uma ampulheta ou uma gadanha; e Átropos, representada por uma mulher com um fio e uma tesoura. Das três parcas encarregues dos destinos dos homens é Átropos quem determina o fim da vida humana e corta o fio que a simboliza. (As outras parcas são Cloto, representada com um fuso e responsável pelos nascimentos e partos, e Láquesis, que enrola e estica o fio, determinado os atributos dos homens.)
A simbologia específica da morte foi crescendo e tornando-se mais comum: a gadanha de Chronos começa a ser representada de forma isolada, sem recorrer à figura humana; a ampulheta aparece também sozinha e ganha asas (de pomba ou de morcego – diurnas ou nocturnas). Aparece a tocha invertida, os salgueiros-chorões, a coluna ou arco quebrado, o caduceu tombado, a papoila dormideira, a caveira (que já fazia parte deste universo nas representações de Danse Macabre da época medieval), a árvore com um galho partido, esqueletos e ossadas – e a tesoura e o fio cortado, já sem a figura feminina de Átropos.
Os símbolos da morte sofrem, pois, uma estilização: ícones desapartados da figuração antropomórfica, seguindo de perto, afinal de contas, a essência mnemónica, simbólica e abstracta da morte.

4.11.17

AGM 2017 - Atenas, Grécia

Anualmente, os membros da Association of Significant Cemeteries of Europe reúne em assembleia (AGM - Annual General Meeting), durante um evento de três dia,s dedicado às temáticas que orbitam em torno dos cemitérios.

Cartaz AGM 2017
Estes encontros anuais permitem que tafófilos de vários países possam partilhar experiências, divulgar livros, visitar cemitérios, conhecer costumes fúnebres, ver e fazer apresentações sobre temas cemiteriais e conviver com outras pessoas com interesses semelhantes.
Este ano, o AGM 2017 teve lugar na Universidade de Harokopio em Atenas, na Grécia, entre os dias 5 e 7 de Outubro, com o tema Ancient Greek Art and European Funerary Art.
O programa do evento incluiu três dias cheios de visitas, experiências e apresentações: 29 apresentações, 36 cientistas e pesquisadores, 2 palestrantes principais, 3 cemitérios, 1 ritual funerário grego, 2 duas recepções oficiais 
e um fantástico grupo de cerca de 100 pessoas (aguardamos números oficiais de participantes). Podem consultar o programa completo através deste link.

O primeiro dia começou com a AGM (o detalhe da reunião pode ser consultado no site oficial da associação), mas não posso deixar de destacar dois pontos muitos relevantes para a comunidade tafófila portuguesa:

  • Na apresentação dos futuros membros, a Câmara Municipal de Lisboa foi apresentada como uma das instituições que está em processo de adesão à associação, o que coloca em grande destaque os cemitérios da capital portuguesa. Finalmente, os cemitérios fantásticos que temos em Lisboa (como Prazeres, Alto de São João, Ajuda, Lumiar, Benfica,...) vão ter oportunidade de fazer oficialmente parte das rotas europeias de cemitérios e cultura cemiterial. Parabéns à CML e aos seus colaboradores e votos que a candidatura chegue rapidamente a bom porto!
  • Nos destinos dos próximos AGM, ficámos a saber que 2018 será em Innbruck (Áustria), em 2019 será em Ghent (Bélgica) e, um dos locais propostos (e ainda é apenas proposta) para 2020 é a cidade do Porto. Parabéns aos Cemitérios do Porto pelo trabalho de excelência que têm vindo a desenvolver de forma regular nos últimos anos, promovendo os seus cemitérios com visitas, concertos, percursos. Faço votos que a proposta se torne numa realidade e que, em 2020 o Porto seja a capital europeia da tafófilia, recebendo este evento internacional. 

Dr.ª Sophie Oosterwijk e o monumento
funerário de D. Afonso, em Braga
Ainda durante a manhã, moderadas pela Prof. Evangelia Georgitsoyanni (responsável pelo Editorial Board e o Organizing Committee), foi possível ouvir as palestras principais pela Dr.ª Sophie Oosterwijk e pela Dr.ª Julie Rugg. 
Destaque para a extraordinária peça funerária de D. Afonso, primogénito do rei D. João I e que faleceu aos 10 anos, tendo sido inumado na catedral de Braga, parte da apresentação da Dr.ª Sophie, e que me vai obrigar a visitar novamente a cidade de Braga a curto prazo.

Depois do almoço, em sessões paralelas, foram muitas as apresentações, de diversos cemitérios pela Europa: de Espanha à Croácia, passando pela Bélgica e, claro, com grande ênfase para os cemitérios gregos. 
É com satisfação que se consegue perceber que, cada vez mais, os cemitérios e os monumentos funerários são tema de estudo, com profundidade e seriedade, e a divulgação destes trabalhos e deste tipo de eventos é fundamental para o crescimento e maturação da área.
O dia terminou com uma recepção na Câmara Municipal de Atenas, que nos ofereceu um cocktail nas suas belíssimas instalações.

O segundo dia iniciou com novo painel no auditório principal, onde tive o prazer de representar Portugal, fazendo uma apresentação sobre o Jazigo Palmela, do cemitério lisboeta dos Prazeres.

The Palmela Mausoleum in the Prazeres Cemetery, Lisbon: A Symbolic interpretation por Gisela Monteiro
(foto de Valeria Celsi - obrigada!)
Não posso deixar de agradecer novamente ao Dr. Licínio Fidalgo por toda a disponibilidade durante a fase de preparação dos trabalhos.
Espero que a apresentação e a contextualização histórica do surgimento dos cemitérios em Portugal tenha também sido um convite para sermos visitados, porque os nossos cemitérios têm muita arte e muitas histórias para contar. Pelo feedback que obtive no intervalo, deixámos muita gente curiosa e com vontade de saber mais sobre a nossa história e os nossos cemitérios.
Logo que a publicação das actas da conferência esteja concluída disponibilizarei online o paper que esteve na origem da apresentação.

Kerameikos
O dia continuou com mais apresentações, seguida de uma visita ao cemitério de Kerameikos, onde passeámos entre marcos tumulares datados de 400 a.C., antes da visita ao museu onde estão guardadas algumas das peças originais, descobertas durante os trabalhos arqueológicos.

Seguiu-se uma viagem até Kifissia, nos arredores da cidade de Atenas, onde tivemos a oportunidade de experimentar um ritual funerário tradicional grego, normalmente celebrado passados 40 dias após a morte de um ente querido, em que os familiares e amigos se reúnem para beber café grego (feito de uma forma em que a bebida não é coada, mantendo as borras para serem bebidas com o café), pequenos biscoitos secos, uma bebida alcoólica parecida com cognac e um bolo tradicional, chamado koliva, feito de frutos secos e sementes, misturado com açúcar e trigo cozido.
Koliva
O bolo é depois desfeito e distribuído pelos convidados em pacotinhos individuais, em conjunto com uma colher.
Foi uma experiência diferente e muito enriquecedora, também por ter sido acompanhada pelo padre ortodoxo da paróquia.
Seguiu-se uma breve visita ao cemitério de Kifissia, aberto propositadamente, um cemitério em uso e com monumentos do século XX e XXI, que terminou já com o pôr-do-sol, o que proporcionou imagens muito bonitas.

O dia terminou nas instalações da Câmara Municipal de Kifissia, foram apresentadas as últimas palestras da conferência, antes de um simpático jantar buffet.

No dia seguinte, bem cedo, fizemos uma visita guiada ao belíssimo Primeiro Cemitério de Atenas, com monumentos maravilhosos, grandiosos e esculturas de autores de renome (este cemitério será alvo de um artigo dedicado, pelo que não entraremos agora em muito detalhe).
Primeiro Cemitério de Atenas
Fica só a nota, para os futuro visitantes: não se esqueçam de usar repelente para melgas e mosquitos, uma vez que existem muitos e bastante agressivos entre os ciprestes do cemitério.
Em último lugar, para fechar os fantásticos três dias dedicados à tafófilia em Atenas, tivemos a oportunidade única de visitar o Museu da Acrópole, tendo como guia o Dr. Georgios Spyropoulos, Director-Geral de Antiguidades e Herança Cultural.

Uma experiência a divulgar e repetir. Para o ano há mais, em Innsbruck!

AGM 2017 in Kerameikos (foto ASCE)
O álbum fotográfico oficial do evento pode ser acedido através deste link.


10.11.12

Simbologia: Perpétua Saudade

Uma das componentes que me parece mais interessante de interpretar na simbologia cemiterial é a da flora.
Em primeiro lugar, esclareça-se que nem sempre é fácil distinguir ou identificar a flor que está talhada na pedra, depois de muitos anos exposta aos rigores invernais e aos impiedosos raios do Sol no Verão, mas depois dela ser claramente identificada, existem inúmeros "dicionários de plantas" que ajudam a perceber qual o provável significado que presidiu à escolha de um ramo de margaridas ou de umas hortenses, em vez de rosas e amores-perfeitos.
Em todos os casos com que me deparei durante muito tempo, a simbologia da planta obrigou sempre à sua interpretação, nunca tendo um significado literal.
Por exemplo: o trevo comum - de três folhas - é normalmente usado para representar a Santíssima Trindade, mas acabou também por representar a Irlanda, uma vez que, segundo a lenda, São Patrício - para além de ter expulsado as serpentes - levou consigo o trevo e espalhou-o pela ilha, em representação, precisamente, da Santíssima Trindade. Assim, quando encontramos um trevo numa campa, é muito possível que estejamos na presença da campa de um irlandês ou de um católico devoto.
 Também é preciso considerar as modas e escolhas estéticas. Não é incomum encontrarmos várias campas seguidas com simbologia ou monumentos semelhantes: uma vezes, porque é uma só família (e foi essa a forma encontrada para a representar); outras, porque a escolha foi puramente estética - muitas vezes feita por catálogo, de acordo com as amostras que o artesão tinha na oficina ou com base naquilo que se viu no cemitério numa visita anterior.
 No entanto, no caso de Portugal - até agora ainda não me cruzei com este fenómeno em outros países - existe, pelo menos, um caso de literalidade. 
Nos cemitérios de Lisboa (Prazeres e Alto de São João) é difícil passar mais do que uma dezena de jazigos sem nos cruzarmos com duas plantas que normalmente aparecem juntas, por vezes na companhia de mais alguns símbolos, e cujo significado é simplesmente "Perpétua Saudade".
As Perpétuas são plantas conhecidas por florirem em canudinhos ou bolinhas - conhecidas também pelo chá que se faz com elas: em especial, o de perpétuas roxas; favorito da fadista Amália - e a Saudade tem uma representação parecida com a do cardo, podendo até ser confundida com este.
Juntas, não carecem de mais interpretação: significam "Perpétua Saudade" ou "Saudade Perpétua".

Resta realçar que, no nosso país, estas duas flores foram utilizadas frescas para enfeitar as campas. Em 1872, Ramalho Ortigão descrevia os cemitérios lisboetas da seguinte forma:
«Chegámos ao cemitério. Das grades que circulam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes e simbólicas em vasos de porcelana; e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério.»

5.9.12

Simbologia: Alfa e Ómega

Encontrar letras soltas e acrónimos nos cemitérios é bastante comum. 
Desde o tradicional PNAV - que significa "Padre Nosso Ave Maria" e que pretende ser um pedido, a quem passa pela lápide, para rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria pela alma do defunto - até ao INRI - do latim Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum ou seja "Jesus de Nazaré Rei dos Judeus" - e passando claro, pelas letras gregas Α (alfa) e Ω (ómega).

O mais óbvio, válido para qualquer contexto, é o facto destes símbolos representarem a primeira e última letras do alfabeto grego e por isso serem continuamente associadas ao princípio (alfa) e ao fim (ómega). Qual o princípio e qual o fim já depende, efectivamente, do contexto em que eles são usados.

Uma das mais famosas utilizações é, sem dúvida no Apocalipse, ou Livro das Revelações (21:6), quando Jesus se senta no trono e exclama:
«Está feito! Eu sou o Alfa e o Ómega, o principio e o fim.»
Há também uma associação comum do Alfa à Luz e do Ómega às Trevas, mas num contexto cemiterial, as letras gregas são usadas muitas vezes junto das datas de nascimento e morte: Α (alfa) para o início da vida, o nascimento e Ω (ómega) para a morte, representando o fim da vida.

É ainda, relativamente, comum ver as duas letras sobrepostas ou entrelaçadas e em alguns casos é ainda acrescentada a letra Μ (mu), a décima segunda letra do alfabeto grego que, estando a meio deste, é por vezes usada para para representar continuidade: aquilo que está entre o Α (alfa) e Ω (ómega) ou seja, neste nosso contexto, a vida.

29.8.11

Simbologia: Coluna Quebrada

Em paralelo com a ampulheta alada este é, talvez, um dos mais populares símbolos de mortalidade a ser encontrado nos cemitérios românticos.

Internacionalmente bastante popular em meados do século XIX, é possível encontrar vários espécimes no nosso país, adornando campas e cenotáfios.

A coluna quebrada representa o final da vida, mais precisamente de uma vida terminada antes do tempo, sendo por isso normalmente associada à morte de jovens.
Outro símbolo com essa interpretação é o tronco de ramos quebrados, também muito frequente entre nós.

Em outros contextos, ela é um símbolo maçónico, com significado próprio.

Apesar de algumas fontes referirem a utilização da coluna quebrada para marcar campas de maçons, é bastante mais comum encontrar essa marcação com outros símbolos maçónicos como o compasso, o olho no delta radiante, a águia bicéfala, etc.

28.4.11

Simbologia: Profissões - Clero

Uma das vertentes de simbologia funerária mais comum nos nossos cemitérios está associada à simbologia profissional que, durante muito tempo, foi adoptada como indicador do ramo de negócio da família ou individuo a quem pertencia o jazigo.

Uma das áreas mais facilmente reconhecíveis nos nossos cemitérios é o clero.

Para além de existirem talhões privados para determinadas ordens, ou a utilização de simbologia especifica, como determinados tipos de cruzes ou outros elementos decorativos, é bastante comum a representação da Bíblia (utilizando para isso um livro, normalmente fechado) e da estola.

Em alguns casos, a Bíblia e a Estola aparecem acompanhadas pelo barrete clerical ou pelo gallero cardinalício.


19.4.11

Fernão Teles de Meneses Desemparedado

No rescaldo da visualização do documentário A Cidade dos Mortos, que nos apresenta a realidade de um milhão de habitantes do Cairo, que vive entre os mortos no maior cemitério da cidade, acabei por encontrar uma notícia curiosa: em Lisboa, em meados do século XX, um funcionário da Universidade de Lisboa partilhava o quarto com Fernão Teles de Meneses, ou, melhor, com o seu túmulo.

Fernão Teles de Meneses (Α:1530 - Ω:1605) foi o 28º Governador da Índia. Quando morreu, Maria de Noronha, sua esposa, mandou construir um magnifico túmulo, em mármore rosa e assente em majestosos elefantes indianos, esculpidos em mármore negro.
Seguindo as indicações deixadas em testamento, o túmulo de Teles de Meneses foi levado para a igreja do Noviciado da Cotovia, construído na antiga Quinta do Monte Olivete, por ele doada à Ordem dos Jesuítas, em 1598.

No século XVIII, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas e transformou o Noviciado da Cotovia no Colégio dos Nobres, mas o túmulo de Teles de Meneses foi deixado no seu lugar.

É apenas em meados do século XIX, quando o Colégio dos Nobres se transforma na Escola Politécnica, e as obras e objectos que se encontravam na igreja se dispersam, que o enorme e pesado túmulo de Teles de Meneses acaba por ser deixado num canto das cavalariças.

Mais tarde, as cavalariças foram adaptadas e transformadas em residências para os funcionários da Faculdade de Ciências, mas o túmulo continuou no mesmo local, passando a fazer parte de uma dessas residências: um dos novos moradores partilhou um quarto com os restos mortais de Teles de Meneses.

Esta era uma situação desagradável, que o funcionário reportou repetidas vezes por escrito à direcção da Faculdade, pedido que o túmulo fosse removido.
Aparentemente, a direcção nunca encetou nenhuma acção de despejo a Teles de Meneses e o funcionário remediou-se, construindo uma parede de tabique em frente ao túmulo, emparedando-o - ao melhor estilo de uma história de Edgar Allan Poe.
Isto aconteceu em 1954.

No passado dia 9 de Abril, no âmbito da celebração do centenário da Universidade de Lisboa, e considerando que a residência se encontra já desabitada, foi levado a cabo o desemparedamento do túmulo; do qual existia apenas um desenho e que ninguém via há mais de 50 anos.

O túmulo encontra-se em excelente estado de conservação e irá ser limpo e recuperado, de modo a vir a ocupar um local de destaque, à entrada do Museu Nacional de História Natural.

O túmulo tem uma forma piramidal que invoca as formas dos túmulos Egípcios ou Hindus - o que não surpreende, considerando a biografia de Teles de Meneses.
Os elefantes têm diferentes significados, mas num contexto funerário considera-se que representam longevidade, prosperidade, eternidade e felicidade.
Actualmente, são muitas vezes utilizados para marcar os túmulos de exploradores e aventureiros; um significado que poderá ter origem em túmulos como este, de homens que, com efeito, viajaram para locais longínquos e exóticos, e que, ao regressarem, trouxeram consigo este tipo de simbologia.

No extenso e bem conservado epitáfio do túmulo pode ler-se:
Aqui jaz Fernão Teles de Meneses filho de Bras Teles de Meneses, Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas. E a sua molher D. Maria de Noronha filha de D. Frãcisco de Faro Vedor da fazenda dos Reys D. Sebastião e D. Anrique, e de D. Mesia de Albuquerque sua primeyra molher: os quais fundaram e dotarão esta casa da Provação da Compª de Jesu, e tomarão esta Capella mor pêra seu iazigo. Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de M.D.C.V. e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII.
É uma excelente iniciativa, a do desemparedamento, recuperação e exposição desta peça de arte funerária portuguesa, que, sem dúvida, vai enriquecer o acervo do museu.

Podem ler artigos sobre o desemparedamento no blog Smobile (escrito por uma das pessoas que esteve presente na cerimónia, no dia 9 de Abril) e no blog SOS Lisboa.



4.4.11

Simbologia: Papoila

Sendo uma das mais comuns representações de plantas nos nossos cemitérios - assim como as perpétuas e as saudades - as papoilas dormideiras são facilmente identificadas, mesmo quando introduzidas em composições com outros elementos, graças à sua forma bolbosa e gomada, coroada com um anel zigzagueante.

Se considerarmos que o aparecimento dos cemitérios coincidiu com uma época em que o consumo de ópio e derivados opiáceos era comum, percebemos que símbolo da papoila era de fácil leitura para os coevos.

Assim, devido às propriedades narcóticas do ópio, a papoila dormideira - como é conhecida em Portugal - é associada com o Sono, a Morte e Morfeu, o deus grego dos Sonhos. Recorde-se que uma das substâncias extraídas do ópio é a morfina, nome que deriva da associação ao deus Morfeu. Noutros contextos - e, mais uma vez se refere que a interpretação de símbolos tem sempre de ser contextualizada - a papoila pode ser associada à extravagância e ignorância.

No contexto funerário, o seu significado mais óbvio é o do Sono Eterno, da Morte Pacífica.

3.4.11

Jazigo dos Duques de Palmela - III

Fica no cemitério lisboeta dos Prazeres o maior jazigo privado da Europa. Iniciada a sua construção em 1846 e terminado em 1849, foi desenhado pelo arquitecto maçon Giuseppe Cinátti, segundo instruções de Pedro de Holstein (Α:1781 - Ω:1850), o primeiro duque de Palmela.

Inicialmente, o espaço reservado aos Palmela - familiares no interior do jazigo e seus empregados no pequeno jardim de acesso, inumados entre os frondosos ciprestes - situava-se no exterior do cemitério, em jeito de cemitério privado.
Provavelmente, as mesmas leis que obrigaram as ordens religiosas do Porto a fechar os seus cemitérios privados, e a comprar talhões dentro de Agramonte e Prado do Repouso, acabaram por levar os duques de Palmela a doar terreno à Câmara Municipal de Lisboa, de forma a garantir a integração do Jazigo Palmela no interior do contíguo Cemitério dos Prazeres. Em suma: mais do que passarem para o interior, os duques de Palmela conseguiram que o cemitério crescesse para junto deles.

Aparentemente imbuído de simbologia maçónica, o Jazigo Palmela tem a forma de uma enorme pirâmide - durante o século XIX, o revivalismo egípcio varreu toda a Europa (e América do Norte) não sendo de descartar o impacto que ele também teve na concepção do jazigo - assente sobre um cubo (se pensarmos no espaço ocupado pela cripta subterrânea).
Mas esta não é uma pirâmide perfeita: é uma pirâmide inacabada. O topo não termina num vértice - união das quatro faces, das quatro arestas - mas numa nova face, paralela à base da pirâmide. Recorde-se que uma das lendas maçónicas conta que o Mestre Hiram Abiff, responsável pela construção do Templo de Salomão, foi assassinado antes de completar a obra, deixando o templo inacabado.

Nessa face, no lugar onde é usual colocar-se uma Pedra Benben para concluir a pirâmide (ou o obelisco), encontra-se uma estátua, que alguns autores atribuem a Calmels.
Essa estátua é uma figura feminina, várias vezes identificada como sendo o Anjo da Morte ou da Boa Morte (dependendo dos autores consultados...), e é, provavelmente, uma das Sete Virtudes: neste caso a Fé, representada como sendo uma mulher carregando uma cruz.
É ainda de nota que a estátua agarra um livro e um conjunto de chaves: simbologia atribuída a S. Pedro, a quem Cristo entregou as Chaves do Paraíso.
Não deixa de ser curioso que, desta forma, a pirâmide do Jazigo Palmela acabe por ser rematada com uma cruz, o que acontece com todos os obeliscos de Roma, que a mando do Papa Sisto V, no século XVI, foram exorcizados de todos os demónios e purificados da sua simbologia maldita pelo acrescento dessas cruzes.

A magnifica construção ergue-se a Oriente, ocupando o último terço do espaço do talhão rectangular, de cota mais elevada do que os terrenos e construções que o rodeiam, limitado por um gradeamento de metal, constituído por peças repetidas em conjuntos de três, onde no centro de cada um se pode ver uma cabeça de leão (outro símbolo solar de inspiração maçónica).

Sete são os degraus que permitem chegar até ao portão. O número 7 é um dos três números mais importantes para a maçonaria; são eles o 3, o 5 e o 7; referências numerológicas aos três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Estes sete degraus representam ainda as sete Artes Liberais, que compunham o plano de estudos medieval, as sete idades do homem ou as Sete Virtudes Cardeais que conduzem ao auto-conhecimento, auto-domínio e auto-enobrecimento.

Entre o portão, que separa o talhão dos Palmela do restante cemitério, e os cinco degraus que dão acesso ao patamar de entrada no Jazigo, estende-se um tapete de irregulares pedras pretas e brancas, compondo doze losangos: certos autores especulam que o proverbial Templo de Salomão também apresentava pavimentos ou motivos decorativos formados pelo contraste de formas geométricas pretas e brancas, pelo que, ainda hoje, uma quadrícula de mosaicos brancos e pretos é o padrão comum do chão de muitos templos maçónicos.

Ladeando a passadeira preta e branca estão enterrados os empregados da família Palmela: mulheres do lado Norte e homens do lado Sul. Existem duas mulheres enterradas do lado Sul, todavia: talvez por desconhecimento do preceito maçónico que, inicialmente, assim distribuiu os lugares dos mortos; já que, na tradição maçónica regular, o Norte é a orientação reservada àqueles que ainda não capazes de ver a Luz, posto que o Sol, na sua trajectória de Oriente para Ocidente, não brilha no Norte. À vista disso, é frequente as lojas maçónicas não terem quaisquer janelas viradas para Norte.

No interior do Jazigo somos recebidos por um magnifico trabalho do celebrado Canova, talhado em mármore de Carrara: é o cenotáfio do 1º Duque de Palmela que, como já referimos, se encontra enterrado em Roma.

No centro da capela, iluminadas pela luz que entra por duas janelas, um par de magnificas peças escultóricas de Teixeira Lopes tomam conta do espaço, construidas por ordem do 3º Duque de Palmela.
Uma dessas peça tem um cunho claramente inacabado, mostrando mãos pesadas, grossas e pouco trabalhadas, numa figura feminina de traços perfeitos. São várias as interpretações que essas mãos inacabadas suscitam: há quem considere que ficaram propositadamente inacabadas e há quem defenda que o autor não conseguiu concluí-las.
Considerando a qualidade e beleza de toda a peça, mais a minúcia com que estão trabalhadas as mãos das restantes personagens, tenho dificuldade em acreditar que Lopes deixasse esta imperfeição de modo intencional, mas Moita Flores, por exemplo, no livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário, justifica-a com base na morte do escultor.

Antes de descer à cripta é possível observar um trabalho de Célestin Calmels capaz de tirar a respiração. Outra figura feminina, ao lado do pequeno altar da capela carregado de castiçais dourados e um Bíblia aberta, está uma porta fechada onde uma perfeita mulher de mármore parece carpir a morte do jovem filho da Duquesa de Palmela.
O drapeado da túnica que envolve a mulher é fluido e parece capaz de se mover com o nosso toque.

Descidos os três degraus que nos conduzem à câmara principal da cripta, aguarda-nos um espaço pequeno, que um tecto amarelo torrado com inúmeras papoilas dormideiras pintadas a azul - símbolo do sono eterno, da eternidade - faz parecer ainda mais pequeno. Em redor dessa câmara, abre-se um corredor que a contorna, apresentado doze nichos rasgados na pedra que conservam os caixões que contém os restos mortais da família Palmela.

Visitar o Jazigo Palmela é uma experiência única. Recomenda-se vivamente.




13.3.11

Simbologia: Urna Cinerária

Para além dos símbolos que são apropriados pela arte funerária e aos quais é assim acrescentada uma nova camada, de acordo com a interpretação desse símbolo nesse contexto, existe ainda um conjunto de símbolos associados à Morte e que são, obviamente, utilizados em grande número nos cemitérios.

Um dos clássicos e mais comuns símbolos de Morte é a urna, podendo apresentar três representações distintas: a urna comum (que serve de ossário), a urna lacrimal e a urna cinerária.

Juntamente com a cruz, a urna cinerária é uma das mais comuns representações nos cemitérios românticos (vitorianos), tendo sido amplamente usada no século XIX.

Objecto que na Grécia antiga tinha o objectivo de guardar as cinzas resultantes de um processo de cremação, a urna cinerária tornou-se uma representação da separação entre o corpo e a alma, sendo muita vezes acompanhada de um véu ou mortalha que a cobre parcialmente.
O véu, neste contexto, é vária vezes apresentado como sendo a separação entre o mundo do vivos e o reino dos mortos ou, de uma forma ainda mais simples, a urna contendo os restos mortais e a mortalha abandonada, representam a passagem da alma para outra dimensão, a sua separação definitiva do mundo físico.

Há fontes que mencionam a urna como uma representação, não da componente física, mas da mais etérea: da alma. Considerando que a urna é o objecto que contém os últimos vestígios físicos do falecido, parece-me que a única forma dela representar a alma é pela ausência.

A urna é encontrada com frequência coberta por um véu ou mortalha, como já foi mencionado, mas também acompanhada de uma mulher ou um anjo, frequentemente dobrados e apoiados tristemente no objecto.
Podem encontrar-se outras variações como as chamas saindo do seu interior ou coroas de flores.

Assim, a urna representa a mortalidade, a alma, a separação entre o reino dos vivos e o reino dos mortos, os últimos despojos da vida.

1.3.11

Simbologia: Mocho

O mocho é um animal com uma representação simbólica ambígua, certamente por ser uma ave nocturna.
Na arte funerária, os mochos simbolizam normalmente sabedoria, vigilância, solidão contemplativa e percepção.

Numa vertente mais luminosa, o mocho, apesar de não ser mencionado especificamente no Novo Testamento, tornou-se num atributo de Cristo e, muitas vezes, as representações da crucificação apresentam um mocho, numa referencia à capacidade de Cristo para guiar as almas que se encontram nas Trevas.

No evangelho de S. Lucas (1:79), Cristo é descrito como sendo capaz de: «iluminar aqueles que se encontram nas Trevas e na sombra da Morte, e guiar os nossos passos no caminho da Paz», propriedades atribuídas também aos mochos, especialmente num contexto funerário, uma vez que este é muitas vezes considerado um guia .

No entanto, no mocho simboliza também uma vertente mais sombria, em que representa o Príncipe das Trevas - Satanás - uma vez que se diz que o mocho teme a luz, vivendo e escondendo-se na escuridão. Tal como Satanás, o mocho é ainda encarado como um trapaceiro: Satanás engana a humanidade e o mocho engana outros animais.

Historicamente, é importante recordar que durante a Idade Média, o mocho foi associado à bruxaria e feitiçaria, sendo considerado um dos animais predilectos para serem adoptados como familiares das bruxas. É ainda encarado como um símbolo da clarividência e ocultismo.

Em muito do folclore europeu, o mocho apresenta-se como arauto da Morte, um portador de más notícias.

Apesar do mocho ter uma vertente luminosa no Novo Testamento, e de estar associado ao Filho de Deus, no Antigo Testamento, no Levítico (11: 13-17), é dito que «Eis aqui de entre as aves, as que vós repelireis: não comereis, porque são abomináveis (...) o mocho (...) e o bufo.»

O mocho é ainda o animal que acompanha a deusa grega Palas Atena, partilhando das suas características de sabedoria e astucia.

Na China e no Japão é considerado um mau agouro e um espírito malévolo.

19.2.11

Simbologia: Uroboro

Um elemento recorrente da ilustração funerária é a figura de uma serpente mordendo a própria cauda, formando um círculo ou uma elipse, normalmente designado por uroboro. Pode também ser representado como sendo duas serpentes que mordem a cauda uma da outra.
Costuma aparecer associado a outros símbolos funerários, como flores (frequentemente alcachofras) ou caveiras e tíbias cruzadas; apesar de ser mais invulgar, também é possível encontrar uroboros isolados.

Sendo um símbolo bastante antigo - podemos encontrar referências no Egipto e na Grécia antigos, onde foi baptizado com o nome que significa "devorador de cauda" - e bastante difundido: foram encontradas ilustrações de uroboros em ruínas aztecas, referencias na mitologia nórdica e na China, acompanhando o mais conhecido yin e yang - é curioso que em quase todas as culturas tem, mais ou menos, os mesmos significado: ciclicidade, imortalidade, eternidade, renovação.

É preciso também referir que este é um símbolo utilizado pelos alquimistas. De uma forma simplista, podemos dizer que estes utilizavam-nos como sigilo para representar um processo em si concluído, que se repete continuamente, e que serve para o refinamento de substâncias pela alternância dos estados de aquecimento, evaporação, resfriamento e condensação.

Outra perspectiva importante é perceber que a Igreja Católica, à semelhança do que fez com diversos símbolos e festividades pagãs, adoptou o uroboro, alterando o seu significado: o uroboro passa a ser utilizado para representar os limites do mundo material, o externo - no exterior - face ao interno - no interior.

Considerando todas estas referencias, podemos dizer que este é um símbolo de ciclo e eternidade, da criação nascida a partir da destruição, da Vida gerada na Morte e mito do Eterno Retorno. Transmite a ideia da renovação, auto-sustentação e da vida eterna.

A verdade é que os símbolos têm diferentes significados consoante o seu contexto.
Assim, num contexto funerário, este é claramente um símbolo de vida eterna, um desejo de renovação e esperança num novo começo.
Talvez seja por isso que foi tão comum na arte funerária do século XIX, apesar de ter caído em desuso mais tarde.


Imagens: Cemitério dos Prazeres e Cemitério do Alto de São João, Lisboa, Portugal @Gisela Monteiro.2009

8.2.11

Simbologia: Cão

A presença de animais na decoração das campas tem significados diferentes de acordo com o animal que a adorna.
No caso específico do cão, normalmente, está associado a um animal real, provavelmente o predilecto do falecido, que o acompanhava em vida.
Algumas culturas enterravam os pertences do morto com o cadáver e, muitas vezes, isso incluía os seus cães.
A associação dos cães à arte funerária e à vida depois da morte também não deve ser descurada; basta pensar em Cérbero, o gigantesco cão tricéfalo que guardava os portões do mundo inferior.
Na mitologia egípcia o cinocéfalo Anúbis era o deus dos mortos.

Como acontece com quase todos os símbolos, o cão pode ter um significado luminoso ou tenebroso, de acordo com o contexto.
De um ponto de vista luminoso, podemos dizer que os cães são considerados um símbolo de fidelidade, lealdade, vigília e vigilância.
Durante a idade média, a representação de cães na arte funerária representa normalmente a fidelidade, seja matrimonial ou feudal, Por exemplo, no sarcófago de D. Pedro I - na Igreja do Mosteiro de Alcobaça - estavam talhados três cães, com o objectivo claro de representar fidelidade.

Interessante é, também, a associação da imagem do cão à Igreja.
Os frades dominicanos eram, muitas vezes, designados como os "Cães de Deus". Apesar desta expressão poder parecer depreciativa, estava associada à lenda do nascimento de Domingos de Gusmão: conta-se que a mãe des, enquanto grávida, teve um sonho em que dava à luz um cão que segurava um archote alumiado entre os dentes. A imagem foi tão real que quando Domingos de Gusmão criou a sua ordem esta passou a fazer parte do brasão.
Até etimologicamente se pode traçar a origem da expressão, de origem latina: domini (do Senhor) e canos (canis) cão.

No entanto, como já referi anteriormente, os símbolos têm normalmente duas interpretações e, de um ponto de vista menos iluminado, podemos considerar a representação do cão de outra forma. Cães negros, tal como os gatos, são muitas vezes representados numa associação a bruxas e feiticeiros, recordando os cães enviados pelo Demónio para caçar almas humanas.

Termino com uma nota: como noutras áreas, o contexto - histórico, social, artístico - é essencial para a interpretação de determinado elemento decorativo.

Imagem: Cemitério dos Prazeres, Lisboa, Portugal @Gisela Monteiro.2009