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6.9.14

Os Sete Magníficos: Highgate

Há um conjunto de cemitérios cuja visita é obrigatória para qualquer tafófilo. 
Se ir a Paris sem visitar Père Lachaise é criminoso, não menos criminoso é ir a Londres e não visitar o cemitério de Highgate.

Highgate Oeste - Círculo do Líbano
Highgate é tudo o que as descrições prometem: gigantesco, majestoso, clássico, envelhecido, cheio de monumentos de granito perdidos entre a vegetação quase selvagem, vagamente aparada para permitir acesso aos principais monumentos.
Todo o aficionado de cemitérios já ouviu descrever a Avenida Egípcia, as Catacumbas e o famoso Círculo do Líbano, com o seu enorme cedro no centro, mas posso garantir que ao vivo o impacto é outro. 
Para quem visita o espaço é óbvio o motivo pelo qual Highgate é o mais famoso e importante dos sete cemitérios que rodeiam Londres, conhecidos por Sete Magníficos (mesmo sem possuírem a diversidade ou a qualidade superior de monumentos que pode ser encontrada em Kensal Green, por exemplo).
Londres inicia o século XIX com um problema grave de falta de espaço e condições deficientes de higiene para continuar a enterrar os seus mortos dentro da cidade. 
Com um aumento da população para mais do dobro em apenas quarenta anos (de cerca de novecentos e sessenta mil em 1801 para cerca de dois milhões em 1841), resultante da necessidade de mão-de-obra criada pela Revolução Industrial, Londres deixa de ter capacidade para continuar a fazer enterros nos antigos cemitérios, dentro e em redor das igrejas.

Highgate Oeste - Avenida Egípcia
Em 1836, o Parlamento decide ser necessária a construção de cemitérios extramuros - à semelhança do que tinha já acontecido em Paris e estava a acontecer um pouco por toda a Europa, pelos mesmo motivos - a norte, a sul e a este da cidade. Esses cemitérios seriam da responsabilidade de uma entidade privada, designada por London Cemetery Company.
A Norte de Londres, a empresa comprou os terrenos do lado Oeste da, agora famosa, Swain's Lane por três mil e quinhentas libras e entregou o projecto de jardinagem a David Ramsay que, seguindo a visão do arquitecto Stephen Geary, criou aquele que ainda é um dos mais bonitos cemitérios do mundo. 
Highgate seria inaugurado em 1839, com o enterro de Elizabeth Jackson, a 26 de Maio. Alguns anos depois a London Cemetery Company viu-se na necessidade de estender o cemitério, considerando a procura que os primeiros vinte hectares tiveram. A única hipótese para estender Highgate eram os terrenos a este de Swain's Lane; em 1854, Highgate Este abria as portas, passando assim a existir também um Highgate Oeste.

Highgate Oeste - Catacumbas no Círculo do Líbano
O cemitério, apesar de ser único, viu-se atravessado por uma estrada ou seja, uma linha de terreno não consagrado. 
Highgate Este
Este facto pode não parecer ter importância efectiva, mas se pensarmos que as capelas mortuárias existiam apenas em Highgate Oeste (duas capelas, uma para anglicanos e outra para dissidentes), isso significava que, depois de terem sido realizadas as últimas cerimónias, os esquifes tinham de ser retirados de terreno consagrado e atravessar a estrada (terreno não consagrado) antes de voltar a entrar em terreno consagrado. Assim, teve de ser encontrada uma solução alternativa que permitisse manter o defunto em terreno consagrado, mas levando-o de Highgate Oeste para Highgate Este - e encontrou-se essa solução com  uma brilhante construção de engenharia: foi criado um elevador hidráulico na capela sul que fazia descer o caixão para uma câmara subterrânea que ligava a um pequeno túnel debaixo da estrada, com uma saída já dentro do lado Este do cemitério. 
Como curiosidade, na minha visita a Highgate Oeste, o guia era um engenheiro reformado, muito atencioso e que se dedicava a estudar mecanismos de engenharia utilizados na industria funerárias na época vitoriana, pelo que tive oportunidade de perguntar pelo túnel: fui informada que está parcialmente soterrado e por isso intransitável. Aparentemente, as peças do mecanismo hidráulico ainda estão no local.
Existem várias personalidades famosas enterradas no lado Este, mas a mais conhecida é talvez Karl Marx que, com um busto gigantesco, junto do percurso principal do cemitério, é impossível não ser visto.
Existem várias outras personalidades e monumentos dignos de destaque, mas refiro apenas outro bastante conhecido (ainda que ligeiramente mais difícil de encontrar): o piano aberto de Harry Thornton, um pianista que morreu de gripe em 1918, depois de ter passado a Primeira Grande Guerra a animar as tropas com a sua arte (infeliz e incompreensivelmente, a tampa do piano está ausente: descobri num livro que terá sido roubada).
Highgate Este
Já do lado Oeste existem vários monumentos conhecidos, especialmente com animais, como o leão adormecido no topo da tumba de George Wombwell (dono de um espectáculo itinerante com animais, entre os quais se incluía o leão Nero) ou o cão na campa de Thomas Sayers (um famoso lutador da época vitoriana). Também de destaque é o mausoléu de Julian Beer, com um gigantismo impressionante, construído perto do Círculo do Líbano e com uma das mais belas esculturas de Highgate no seu interior.
O desenho de Highgate Oeste obrigava a um trabalho de jardinagem cuidado e constante, sendo que a baixa da rentabilidade de um espaço já cheio e que não permitia novas vendas, acabou por limitar a manutenção e a vegetação começou a tomar conta do cemitério. Na sequência de vandalismo durante a primeira metade da década de setenta do século XX, Highgate Oeste foi fechado em 1975 e manteve-se assim durante décadas, entregue a si mesmo e aos vândalos que saltavam os muros e corriam entre as campas, no escuro. 
Existem até histórias e rumores sobre a existência de um Vampiro no cemitério de Highgate, mas deixaremos esse post para alturas do Halloween.
Entretanto, uma empresa de construção viu no espaço abandonado a possibilidade de criar um condomínio, mas a população local e muitos admiradores de Highgate e conhecedores da sua importância, reuniram-se e criaram uma associação de Amigos de Highgate que adquiriu o direito ao cemitério em 1981 com o objectivo de preservar, restaurar e manter o espaço, os monumentos e a flora.
Highgate Oeste
Assim, o cemitério de Highgate tem vindo a ser recuperado pela associação, graças a donativos e, especialmente, ao valor dos bilhetes para as visitas guiadas. Devido a estar ainda em recuperação e o cemitério ter vários locais perigosos, com campas abatidas, trilhos escondidos ou zonas escorregadias, as visitas a Highgate Oeste são sempre acompanhadas por guia. O mesmo não se passa com Highgate Este (a entrada é igualmente paga, mas o cemitério é de visita livre).
Para visitar o cemitério de Highgate Oeste é necessário marcar a visita com antecedência; as visitas estão normalmente cheias (visitei Highgate a meio de Março, uma altura turisticamente morta e as visitas estavam completas). 
Tive a sorte de ter um ambiente fantástico no dia da minha visita: nevou parte do percurso e depois o sol apareceu, criando sombras e iluminando os brilhantes flocos de neve no chão.
Para além disso, ainda que não fizesse parte do percurso da visita, o guia era extremamente acessível e acabou por nos mostrar o talhão da família Rossetti, onde foi enterrada Lizzie Siddal (esposa do pintor e poeta Pré-Raphaelita Dante Gabriel Rossetti), assim como toda a família Rossetti, com excepção do próprio Dante Gabriel Rossetti que foi enterrado, a seu pedido, em Birchington, no Kent.

Highgate Oeste - Talhão da Família Rossetti



16.8.11

Trivia Tumular: Rod Stewart, O Coveiro

Sabia que...

Rod Stewart, um dos artistas mais bem sucedidos de todos os tempos, trabalhou como coveiro no cemitério de Highgate, com o objectivo de enfrentar o medo da Morte, que tinha desde criança.

Não se sabe se a terapia auto-imposta resultou, mas a seguir a Highgate, Stewart trabalhou ainda numa agência funerária em North Finchley, um subúrbio de Londres, antes de se tornar numa vedeta internacional.


22.2.11

Livros: Uma Inquietante Simetria

No inicio do ano passado, quase por acidente, tropecei no mais recente romance da Audrey Nifferneger, a autora do conhecido e já adaptado ao cinema The Time Traveler's Wife.

O livro aparecia referenciado em links associados a tafofilia, pelo que me apressei a encomendar e ler.
Para mim, o interesse principal deste romance é o facto da história se passar num apartamento antigo, sob cujas janelas se estende o célebre e maravilhoso cemitério de Highgate. Aliás, é no cemitério que se passam diversas cenas do romance, mas mais do que ser um cenário curioso e fora do comum, Highgate tem tanto destaque que chega a ser tratado como uma das personagens do livro.

O cemitério de Highgate (do qual falaremos detalhadamente num post mais adiante) é o mais famoso cemitério Londrino; estando dividido em dois e atravessado por uma ampla rua.
A metade mais antiga data de 1839, tendo sido o cemitério da moda para a sociedade vitoriana. Rapidamente, o terreno foi ocupado pelos Londrinos e em 1854 foi necessário expandir o cemitério, tendo sido adquirido um enorme terreno do outro lado da Swains Lane - a estrada que corta Highgate em dois.

Obviamente que, à semelhança de Père Lachaise, em Paris, o terreno de Highgate está repleto de Falecidos Famosos, alguns dos quais incontornáveis.
É aqui que estão enterrado, entre muito outros nomes conhecidos, Karl Marx, Douglas Adams, Christina Rossetti e Elizabeth Siddal.

É também em Highgate que Lucy, personagem do romance Dracula de Bram Stoker, é enterrada e onde esta dá caça e se alimenta de criancinhas até ser brutalmente assassinada - ou resgatada, dependendo da perspectiva - pelos caçadores de vampiros, entre os quais se encontra o seu noivo.

A parte mais antiga de Highgate encontra-se fechada ao público, sendo apenas possivel visitar o cemitério como parte de grupos, em visitas guiadas.
Durante a preparação do romance Audrey Niffenegger estudou detalhadamente o cemitério de Highgate, de tal forma que chegou mesmo a fazer parte do grupo de guias do cemitério.

Transcrevo abaixo, parte da critica que fiz na altura e que pode ser lida na integra no blog Liquid Dreams Of....
Her Fearful Symmetry conta a história de dois pares de gémeas: Elspeth e Edie e as filhas de Edie, Julia e Valentina.

Nas primeiras páginas do romance Elspeth morre na companhia do amante e vizinho, Robert, um estudioso do cemitério de Highgate. Em testamento, Elspeth deixa todos os seus bens materiais às filhas de Edie com a condição de que estas troquem Chicago por Londres e vivam, durante um ano, no seu apartamento, nas traseiras de Highgate.

Este é um romance muito bem escrito e que conta uma história de perdas e separações. As personagens são ricas e interessantes, cheias de pequenos detalhes e paixões que as tornam reais. Temos Robert, o vizinho do andar inferior ao das gémeas, e a sua interminável tese de doutoramento sobre Highgate, os seus mortos e a sua história; Martin, o vizinho do andar superior, obsessivo-compulsivo, criador de complicados puzzles de palavras cruzadas para o jornal e tradutor de línguas exóticas e perdidas para o British Museum (e que fala fluentemente português!); Little Kitten of Death, um gatinho branco aparecido do cemitério e transformado no animal de estimação de Valentina; James e Jessica os octogenários amigos de Robert e principais cuidadores de Highgate e claro... o próprio cemitério.

Entretanto a Editorial Presença vai publicar o livro no dia 2 de Março sob o título Uma Inquietante Simetria.

É tão raro encontrar romances em que os cemitérios sejam abordados sem pudor: este é um livro que não pode passar despercebido aos tafófilos.

Desejos de boas leituras.

14.2.11

Falecidos Famosos: Lizzie Siddal

Numa escura noite de Outono, no ano de 1869, uma macabra procissão trilhou os caminhos do Cemitério de Highgate. Com a ajuda de candeeiros, os coveiros liam os nomes nas pedras tumulares, procurando por um túmulo especial. Uma vez encontrado, juntaram uma pilha de lenha e acederam uma fogueira de labaredas trémulas; em seguida, agarraram nas pás e enxadas que traziam com eles e começaram o trabalho.
Durante horas nada mais se ouviu a não ser o crepitar das chamas, fustigadas pelo vento, e o barulho monótono das pazadas a retirar terra. Por fim, o embate de metal em madeira: o ressoar oco de um caixão. Mais terra e vozes murmurantes - envergonhadas. Cordas estalaram e os homens içaram o esquife para fora da cova.
Alguém se aproximou dele, sem temor, e fez saltar a tampa com esforço. Os restantes recuaram, assustados.
Dizem que o rosto conservara a beleza: incorrupto.
Dizem que os seus luxuriantes cabelos ruivos enchiam o caixão com lampejos de fogo, tendo continuado a crescer depois da morte.
Dizem que parecia adormecida, linda, perfeita, como nas telas onde foi pintada até à exaustão.
Uma mão desceu entre os cabelos e o rosto do cadáver e regressou com um manuscrito encadernado a couro. O mesmo homem fez sinal aos coveiros: mandou fechar o caixão e devolvê-lo à terra, voltado a enterrar a imortal Elizabeth Siddal.

Elizabeth Siddal (Α:1829 - Ω:1862), a ruiva que inspirou a Irmandade Pré-Rafaelita, viveu uma das mais belas e trágicas histórias de amor do século XIX.

Descoberta aos vinte anos enquanto trabalhava numa loja de chapéus, os seus magníficos cabelos ruivos, a magreza e o rosto fora do comum rapidamente a tornaram na modelo favorita do grupo de jovens pintores que pretendia revolucionar o mundo artístico vitoriano. O seu primeiro grande sucesso enquanto modelo viria das mãos do talentoso Millais.
No Inverno de 1852, este pintou-a morta, encarnando Ofélia, num vestido branco flutuante, rodeada de flores e afogada numa ribeira.
Na realidade, Lizzie quase morreu, de facto, durante a realização deste trabalho: Millais tinha uma enorme banheira no atelier, que enchia de água quente e onde fazia Lizzie deitar-se tardes inteiras, flutuando, numa simulação do riacho.
Para manter a água quente, Millais acendia um conjunto de lamparinas sob a banheira. Numa das últimas sessões, as lamparinas apagaram-se e Lizzie, não querendo interromper o pintor, deixou-se ficar na água, gelando.
Essa tarde resultou numa pneumonia que muito a debilitou e da qual nunca recuperou completamente.

Entretanto, Dante Gabriel Rossetti - um dos mais talentosos artistas do grupo - apaixonou-se perdidamente por Lizzie e não a deixava posar para mais ninguém.
Rossetti tornou-se o seu mentor, ensinando-a a desenhar e pintar. Os seus trabalhos chegaram a ser expostos com os dos restantes elementos da Irmandade Pré-Rafaelita. Durante anos, Lizzie e Rossetti viveram um para o outro, num amor que ficou registado nos inúmeros trabalhos do artista, onde cabelos ruivos enchem as telas de fogo.

Christina Rossetti, irmã do pintor, escreveu a propósito desses amores:
"He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him,
Fair as the moon and joyful as the light:
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream."
Lizzie foi uma mulher de saúde frágil, incorrendo muito cedo no vício do láudano, que lhe alterava continuamente a disposição, e a relação com Rossetti, atribulada e cheia de traições e mágoas, deixava-a prostrada e triste, naquilo que os especialistas e estudiosos consideram ter sido um estado de depressão crónica. Lizzie viajou para fora de Londres várias vezes para tratar dos nervos, quase terminando o seu affair com Rossetti pelo menos numa das ocasiões, para desesperar de saudades, piorar seriamente o sempre precário estado de saúde e obrigar Rossetti a deixar trabalho, amores e amigos em Londres, rumando, semi-enlouquecido, para onde quer que Lizzie definhasse.

A proposta de casamento só aconteceu sobre um leito que todos esperavam ser de morte e foi carregada de arrependimento e culpa; mas ao casar, Rossetti prometeu ser fiel a Lizzie e todos os factos conhecidos fazem-no cumpridor dessa promessa.

Quando Lizzie se suicidou, Rossetti quase enlouqueceu e depositou um manuscrito de poemas dentro do caixão dela, sob os belos cabelos ruivos, prometendo-lhe amor eterno.

No lento processo de luto pintou um dos seus mais belos e louvados trabalhos "Beata Beatrix", representando Lizzie no momento final, de olhos fechados, recebendo uma papoila - alusão ao ópio - do bico de uma fénix - renascimento, ressurreição, imortalidade, vida após a morte...
Dizem que se fecharmos os olhos, conseguimos ouvir o último suspiro de Lizzie, vindo dos lábios pintados por Dante.

Sete anos depois, é um Rossetti enfraquecido e incapaz de pintar que se deixa convencer por um agente a pedir uma autorização para exumar o corpo de Lizzie e recuperar o manuscrito, mas é incapaz de estar presente durante a exumação.

O caderno recuperado tem um conjunto de poemas belíssimos, originalmente escritos para Lizzie, mas o seu novo livro - uma mistura de trabalhos inéditos com os recuperados em Highgate - não é bem recebido pela critica.

No final da vida, Rossetti pediu para não ser enterrado no talhão da família junto de Lizzie. Disse-se que foi por remorsos.


Família Rossetti no Cemitério de Highgate