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18.1.15

Vídeo "Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude"

A inauguração da exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude ocorreu ontem, dia 16 de Janeiro, na galeria de arte do Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal.
Numa sala cheia, reunida para a primeira sessão do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas, foi feita uma breve apresentação, seguida de uma visita à exposição. 
Até final de Janeiro podem ainda (re)visitar o espaço, em preparação para a próxima palestra dos Sustos às Sextas, dia 13 de Fevereiro.

Para quem esteve presente, o vídeo que se segue é um complemento; para quem não foi ainda ao Palácio dos Aciprestes, serve de teaser.





12.8.12

Altar das Caveirinhas

Em território nacional existem várias capelas dos ossos, concentradas no Alentejo e no Algarve. 
Já aqui mencionámos algumas, como a Capela dos Ossos de Évora - a mais famosa capela dos ossos nacional, sendo ainda a de maiores dimensões - ou a capelinha de Alcantarilha.
Caveira manchada de fumo de vela    
 Capela de Alcantarilha





Para além das existentes abaixo do Tejo, há ainda registos que referem a existência de uma capela dos ossos a norte desse rio, na cidade de Coimbra, referenciada como sendo a mais antiga do nosso país, destruída no século XIX para dar lugar a uma nova estrada. 
Talvez não tivesse sido esse o único motivo que levou à destruição dessa capela, uma vez que estes locais repletos de ossadas, tão em voga nos séculos anteriores, foram sendo o palco principal de cultos das alminhas, em parceria com os painéis de azulejos ilustrados com anjos ou imagens de Morte ou da Ascensão aos Céus. 
Velas eram deixadas junto dos restos mortais dos antepassados, num misto entre a promessa, a prece e o pedido. Rezando para que os familiares e amigos conseguissem encontrar a paz ou, caso já o tivessem feito, intercedessem pelos vivos junto de entidades superiores para a concessão de favores e auxílio. 
O Culto das Alminhas do Purgatório teve uma expressão muito grande em Portugal, bastante superior a outros países católicos com comportamentos e culturas semelhantes à nossa.

Até há pouco tempo, esta era a única capela dos ossos a norte do Tejo de que tinha conhecimento. 
As principais fontes sobre esta temática apenas mencionavam a capela de Coimbra, no entanto, ainda que não fosse uma capela, existiu mais um destes Memento Mori a norte do Tejo; mais que isso, a norte do Douro.
Altar das Caveirinhas, circa 1909
Na antiga Igreja da Misericórdia da Póvoa do Varzim existiu um altar constituído por dezenas de pequenas caixas de madeira, empilhadas, contendo caveiras.

As caixas de madeira tinham molduras na frente, com desenhos simples e a identificação e datação dos restos mortais.
Em 1909 - um ano depois do regicídio e um ano antes da implantação da República - o altar, conhecido como Altar das Caveirinhas, foi desmantelado. Esse desmantelamento ocorreu num contexto de construção de uma nova igreja, em substituição da antiga.
Na realidade, devemos ter ainda em atenção outros factores, como a pressão exercida pela classe intelectual, sob a qual a necessidade de ruptura com os antigos costumes e crenças, associada à secularização da sociedade que seria advogada e seguida durante a Primeira República, teve muito peso na decisão; assim como a pressão dos elementos do clero, incomodados desde há anos pela conotação pagã associada ao culto das alminhas.
Talvez estes factores tenham também tido influência na destruição da capela de Coimbra, ainda que a justificação oficial seja a construção de uma nova estrada.
Historiadores e etnólogos - que, naturalmente, se opunham ao desmantelamento do altar - conseguiram realizar algumas fotografias e registos, antes da maioria dos restos mortais serem levados para o cemitério de Póvoa do Varzim.
Conseguiu-se ainda preservar algumas das caveiras - poucas - numa versão muito mais modesta deste altar, na chamada Casa das Caveirinhas, uma pequena e discreta capelinha junto da nova igreja. 
Também esta acabou por ser fechada nos anos 90 do século XX, acabado assim com os últimos vestígios do altar.
Um dos aspectos mais interessantes desta peça é a sua originalidade, não existindo - até ver - nada semelhante no nosso país.
Imagem do ossário de St. Hilaire, Marville, França
No entanto, como pode ser observado pela imagem, existe uma semelhança bastante grande entre as caixas do Altar das Caveirinhas de Póvoa do Varzim e as do ossário de St. Hilaire de Marville, em França. 
Em ambos os locais, a moldura frontal das caixas é ornamentada e contém texto que serve para identificar e datar os restos mortais nelas preservados.
Desconheço se teria existido algum contacto entre os residentes destes dois locais que possa ter servido de influência ou se estas caixinhas seriam comummente utilizadas para esta finalidade, apesar de tão poucas terem chegado até nós. Ainda assim, é de notar que existiu um surto de emigração das gentes da Póvoa do Varzim durante o século XIX, sendo que o dinheiro enviado por esses emigrantes permitiu a renovação de igrejas e retábulos durante a segunda metade do século XIX.
As caixinhas de caixinhas de St. Hilaire contêm caveiras de cidadãos que morreram entre 1780 e 1860. Algumas das datas que consegui perceber através de fotografias do Altar das Caveirinhas colocam as caveiras de Póvoa do Varzim como pertencentes a cidadãos que morreram nas décadas de 40 e 50 do século XIX.
Teriam alguns desses emigrantes partido para perto de Marville e pedido a construção deste altar, de acordo com o que vira por terras de França?

É ainda de realçar que, quer na Póvoa do Varzim, quer em St. Hilaire, as caveiras estão claramente identificadas.
Altar na Casa das Caveirinhas, circa 1996
E é esta uma das grande diferenças entre estas caixinhas de caveiras e os ossários e capelas dos ossos: a identificação versus o anonimato.
As capelas de ossos e ossários são constituídos por ossadas anónimas, que permitem - ainda hoje - que os vivos que as visitavam se sintam identificados com os restos mortais espalhados pelas paredes. 
Estas caveiras em caixinhas estão individualizadas, nomeadas, representam pessoas concretas, sendo que assim são sempre vistas como "outros" pelos visitantes: «esta era... esta foi...»
Será assim correcto ver nestes altares os mesmos objectivos da construções anónimas, que os precederam? 
Capela dos Ossos, Évora (detalhe)
Se considerarmos as datas de construção, podemos pensar nestas ossadas não anónimas como a evolução natural das capelas de ossadas anónimas, assim como estas são uma evolução dos carneiros e ossários primitivos?
Se pensarmos no contexto histórico, o cemitério velho da Póvoa do Varzim data de 1866, ou seja, é posterior à datação de morte das caveiras.
Seria interessante perceber a amplitude do intervalo de tempo de recolha das caveiras da Póvoa e compará-lo com o intervalo de St. Hilaire.
Serão estas caixinhas uma versão mais modesta das caixas de reliquias de santos, numa versão para o homem comum? A verdade é que, à semelhança do que era feito durante a Idade Média com as relíquias de santos, as caveiras destas gentes da Póvoa foram identificadas, guardadas em caixas quais relicários, colocadas num altar dentro da igreja e veneradas com velas e orações.

Sem dúvida que, caso tivesse sido preservado à semelhança das restantes Capelas dos Ossos nacionais, este Altar das Caveirinhas faria as delícias de historiadores, etnólogos e tafófilos, nacionais e estrangeiros.


Nota Final: Os meus agradecimentos à Dr.ª Deolinda Carneiro, Directora do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, pela cedência das imagens do Altar e da Casa das Caveirinhas.

30.4.12

Capelas de Ossos em Portugal

A origem das capelas de ossos não é tema de polémica. Quase todas as fontes são unânimes em colocar as capelas de ossos como uma evolução natural dos carneiros e ossários.
Durante séculos, os cadáveres foram sendo enterrados no interior e nos átrios das igrejas. Como as inumações ad sanctos eram proibidas pela Igreja, era necessário o pagamento de indulgências para que este se concretizasse; assim, o interior acabava por ser maioritariamente ocupado pela nobreza; o povo era enterrado nos átrios, em redor do edifício. Lançados em enormes valas comuns, com capacidades que variavam entre os seiscentos e os mil e quinhentos corpos, os cadáveres iam sendo amontoados até que a vala ficasse cheia; nessa altura, esta era completamente coberta e, a mais antiga das valas comuns era reaberta, para reutilização do espaço.
Com sorte, os corpos tinham tido tempo suficiente para se decomporem na terra saturada e tudo o que restava eram esqueletos encardidos entre a terra negra e fétida. Os ossos eram retirados, limpos e guardados em carneiros, onde a exposição das ossadas fazia parte do ritual de confrontação com o fim da vida, aguardando o Juízo Final, onde seriam reanimados e caminhariam entre os justos.
Entrada da Capela de Ossos de Évora, Portugal
No século XIV, com um interesse crescente pelo macabro, os ossos começaram a ser dispostos de forma mais cuidadosa e, por vezes, de forma harmoniosa, artística.
Um pouco por todo a Europa foram-se forrando pequenas capelas das igrejas com ossos, criando assim as primeiras capelas de ossos, sendo que algumas são mais simples outras mais elaboradas. Este fenómeno é bastante comum por toda a Europa.
Em Portugal existem actualmente sete capelas de ossos, todas elas localizadas a sul do Tejo. Existe ainda um carneiro nas catacumbas da igreja de S. Francisco, no Porto, que é observável através de uma grade com vidro.
Existem ainda registos escritos de uma oitava capela de ossos em Coimbra, que seria a mais antiga de Portugal, mas que foi destruída nos finais do século XIX para dar lugar a uma nova estrada.
Segundo Carlos Veloso, a moda das capelas de ossos espalhou-se no sentido Norte-Sul, sendo que as mais antigas são as do Alentejo (Évora, Monforte e Campo Maior) e as mais recentes as do Algarve (Alcantarilha, Faro, Lagos e um pequeno nicho em Pechões).
A de Évora é a mais conhecida e a maior, sendo que muita gente pensa até que é a única Capela de Ossos em território nacional.
Capela dos Ossos de Évora, Portugal
Como aconteceu um pouco por toda a Europa, o revivalismo do século XIX deu novas roupagens a algumas das capelas de ossos nacionais. A de Évora ganhou uma nova decoração nos tecto, cheios de simbolismo mortuário; infelizmente, não é possível observar completamente os tectos uma vez que, por motivos de vandalismo, foi necessário limitar o espaço visitável da capela a um corredor central, delimitado por um muro de acrílico.
Segundo a informação disponível, a capela dos ossos de Évora foi construída no século XVI por um monge da ordem de S. Francisco que pretendia recordar os seus irmãos da efemeridade da vida, confrontando-os com as ossadas.

Topo do altar e vista parcial do tecto da Capela dos Ossos de Alcantarilha, Algarve.
Há ainda uma mensagem escrita, bem clara, no pórtico de entrada para a capela:

"NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS".

Existe uma diferença curiosa entre as capelas alentejanas e as algarvias e está no uso de linhas geométricas explicitas e acentuadas com cores. Isto pode ser observado no altar da capela de Alcantarilha ou no tecto da capela de Faro.
Detalhe do tecto da Capela de Ossos de Alcantarilha, Algarve
É sempre possível encontrar detalhes curiosos durante as visitas. Na capela de Alcantarilha, por exemplo, é possível ver um enorme gancho metálico no centro, rodeado por ossos e caveiras enegrecidas, testemunho da existência, algures no tempo, de um candelabro com velas. Em algumas dessas caveiras do tecto é possível ver ainda alguns dentes, o que não acontece nas caveiras que revestem as paredes e cujos dentes se perderam - ou foram levados - ao longo dos anos.

É ainda essencial perceber que, no nosso país, a partir do século XVI, o culto das Alminhas do Purgatório - já explorado no contexto do Dia de Finados - levou à criação de pequenos altares, capelas e imagens evocativas um pouco por todo o país.
Existe uma clara relação entre este culto das alminhas e as capelas de ossos, uma vez que ambas têm um objectivo comum: recordar aos vivos a necessidade de rezarem pelas almas dos mortos.

Para quem quiser explorar um pouco mais sobre este tema, recordo uma das recomendações Mort Safe para o Natal de 2011: The Empire of Death de Paul Koudounaris.