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9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



20.3.11

Monumentos Memoráveis: Via Crucis

Uma das peças mais vistosas e visitadas do Cemitério Monumentale de Milão, em Itália, é um trabalho de 1936, realizado por Giannino Castiglioni (Α:1884 - Ω:1971), talentoso discípulo de Butti (já aqui falado anteriormente a respeito de uma outra genial obra do Monumentale de Milão: La Giovane Morta).


Esta maravilhosa escultura é uma enorme torre em espiral, talhada em mármore branco, construida em parceria com o arquitecto Alessandro Minali e foi chamada de Via Crucis.

Castiglioni criou-a para Antonio Bernocchi (Α:1859 - Ω:1930), rico empresário da industria do de algodão e patrono das artes, responsável pela realização da Trienal de Arquitectura de Milão, tendo deixado em testamento fundos para a construção do palácio que a devia receber.

Representando as doze estações da Via Sacra, esta enorme escultura, foi uma das principais obras que ajudaram a imortalizar o trabalho do talentoso escultor.

Ainda no Monumentale de Milão podem ser encontradas mais duas peça do mesmo autor e que também são dignas de nota; mantendo um registo de inspiração cristã, Castiglioni concebeu um mármore representando o Inferno, Purgatório e Paraíso para o mausoléu de Andrea Bernocchi (irmão do já referido Antonio Bernocchi) e um magnifico bronze da Última Ceia para o jazigo de Davide Campari (o magnata das bebidas alcoólicas) que é um dos pontos de maior interesse no Monumentale.

Numa época em que as peças realizadas para os cemitérios serviam de mostruário dos talentos dos seus autores, foi graças a este bronze que o escultor Giannino Castiglioni foi escolhido para fazer o segundo conjunto de portas de bronze da Catedral de Milão.


2.3.11

Mausoléus

Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo era o Mausoléu de Halicarnasso, uma construção funerária gigantesca, projectada por Pítio, que servia de tumba ao rei Mausolo da Caria, que viveu durante o século IV a.C.
Dessa Maravilha do Mundo Antigo restam apenas alguns vestígios na cidade turca de Bodrum, mas o nome e o conceito resistem e são reconhecidos por todos.

Um mausoléu pode ser definido como uma construção fúnebre, independente, contendo uma ou várias tumbas onde se pode, pelo menos em teoria, entrar.

Relativamente popular durante a ocupação romana, a construção de mausoléus tornou-se rara nos séculos que se seguiram, considerando as práticas funerárias promovidas pelas religião católica.

É a ruptura com as inumações no interior das igrejas que impulsiona o regresso destas construções. O regresso da construção de mausoléus dá-se também com o estabelecimento de colónias de europeus fora da Europa e a influencia que as construções e costumes locais tiveram sobre estas. Na Índia é possivel encontrar mausoléus construidos por comerciantes europeus desde 1659.
Um dos casos mais claros dessa influencia é o cemitério de South Park Street, em Calcutá, modelo inicial para os grandes cemitérios românticos (vitorianos) europeus como Père Lachaise.

A moda dos cemitérios românticos, que se espalhou pela Europa durante o final do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, transformou o desenho e construção de mausoléus numa actividade arquitectural comum. É interessante perceber entre 1768 e 1820 (cronologia) a Royal Academy, em Inglaterra, recebeu cento e sessenta e quatro projectos de mausoléus, dos quais foram efectivamente construidos setenta.
Nas famílias mais abastadas, era natural que o arquitecto seleccionado para fazer construções nas propriedades da família fosse chamado também a desenhar o respectivo mausoléu.

A época vitoriana permite uma diversidade de estilos realmente rica; podemos encontrar monumentos de estilo Tudor ao lado de outros de estilos Grego, Gótico e Egípcio - que se tornou especialmente popular nessa altura devido à sua associação às pirâmides enquanto monumento fúnebre e, indirectamente, à simbologia maçónica, também muito comum na representação funerária vitoriana.

Apesar disso, é por volta dos anos 60 de 1800 que a construção de mausoléus atinge o seu pico, em número e tamanho. É nesta fase que grandes nomes da arquitectura do século XIX ficam associados à construção de monumentos funerários, trazendo floreados estilísticos como cantaria policromática e estilos e materiais eclécticos.

Com a chegada do século XX, na Europa, a afirmação de riqueza por recurso à construção de monumentos funerários sai de moda, ao mesmo tempo que a tendência para a cremação aumenta. Ainda assim, alguns mausoléus são adaptados, criando-se nichos para urnas de cinzas funerárias.

Nos Estados Unidos, a construção de mausoléus não sofreu este abandono, sendo ainda bastante popular. Em alguns países, como o México, o plástico colorido faz agora parte das construções funerárias, criando mausoléus extravagantes.
Neste momento, existem já mausoléus virtuais pela Internet, onde é possível imortalizar uma pessoa através de uma placa.

Estas ricas e diversificadas construções do passado - não muito distante - estão disponíveis para serem apreciadas e visitadas, permitindo-nos perceber a forma artística e tentativamente duradoura com que os nossos antepassados procuravam celebrar a morte dos seus entes queridos.


Imagens:
central - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
e
squerda - Cemitério Monumentale, Milão, Itália @Gisela Monteiro . 2010;
direita - Cemitério Père Lachaise, Paris, França @ Gisela Monteiro . 2009;

18.2.11

Monumentos Memoráveis: La Giovane Morta

No ensaio The Philosophy of Composition, Edgar Allan Poe partilha connosco uma reflexão acerca dos temas que considera mais melancólicos e mais poéticos.
Diz-nos o autor d' O Corvo:
'I asked myself - "Of all melancholy topics, what, according to the universal understanding of mankind, is the most melancholy?" Death - was the obvious reply. "And when", I said, "is this most melancholy of topics most poetical?" ... "When it most closely allies itself to Beauty": the death, then, of a beautiful woman is, unquestionably, the most poetical topic in the world.'
Esta sublime temática poética de que nos fala Poe pode ser encontrada nos seus próprios poemas - recordo o clássico romântico Annabel Lee, genialmente traduzido para português por Fernando Pessoa - mas também noutras artes, como a pintura - por exemplo, já mencionado a propósito de Lizzie Siddal, Ophelia de Millais - ou a escultura. E é esta última forma de arte que reina na área da arte funerária.

Quando Isabella Casati (Α:1865 - Ω:1889), a belíssima esposa do Barão Gianluigi Casati, morreu com apenas vinte e quatro anos, a sociedade italiana ficou chocada.

O Barão Casati, certamente desgostoso, chamou o talentoso escultor italiano Enrico Butti, e encomendou-lhe uma obra em memória da falecida Isabella, com o objectivo de colocá-la no túmulo da família Casati, no Cemitério Monumentale de Milão.

Butti, aparentemente inspirado por um trabalho de Bartolini na igreja de Santa Croce, em Florença, optou por criar um bronze onde representa Isabela dormindo, reclinada em almofadas, com os braços pousados a acompanharem o corpo e, sobre o peito desnudado, um crucifixo.

Por detrás da figura, e suportado por mármore rosa, um baixo relevo de bronze reforça a ideia do consolatório sono de morte, onde anjos rodeados de estrelas aguardam, nos degraus da escada que conduz ao Paraíso, a chegada das almas.

Este peça é considerada uma das primeiras a transmitir a mensagem da morte doce, usando para isso a imagem de uma bela mulher que, enquanto dorme, morre, fazendo assim uma doce e serena travessia do mundo dos sonhos para a outra vida, onde anjos a esperam.

La Giovane Morta (The Dream of Death) traz-nos também uma componente levemente erótica, frequentemente presente na arte funerária onde são representadas adolescentes ou mulheres mais jovens, e que pode ser percebida pela sinuosa linha criada pelas mãos e ombros, pelos lábios cheios, pela exposição do peito e os longos cabelos, sensualmente dispostos sobre a almofada numa evocação à morte de Ofélia.

Em 1891 o monumento fez parte da Brera Triennale, em Milão, tendo sido um forte concorrente ao prestigioso prémio Principe Umberto.
A aclamação do público foi imediata e um respeitado e influente critico de arte considerou-a um magistral exemplo de uma nova Arte Ideísta.

Depois do trabalho de Enrico Butti, as imagens de jovens acamadas (dormindo) foi utilizada inúmeras vezes, em memoriais comemorativos de mulheres falecidas na força da idade.

A 2 de Novembro de 1891, o dia que a Igreja Católica consagra aos Fiéis Defuntos, o monumento foi inaugurado, tendo sido publicada uma reportagem desse evento na conceituada revista Illustrazione Italiana.

Ainda hoje, esta é uma das obras mais visitadas e fotografadas no cemitério Monumentale de Milão, fazendo obrigatoriamente parte das visitas guiadas que todos os dias enchem o cemitério de turistas.

Cemitério Monumentale de Milão, Itália @Gisela Monteiro.2010