2.11.25

100 Anos de Cremação!

O mês de Outubro foi um mês cheio de coisas, incluindo a 4ª Semana Cultural nos Cemitérios e o lançamento de mais um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa que comemora o centenário do Crematório do Cemitério do Alto de São João, o primeiro do país, cuja primeira cremação teve lugar a 28 de Novembro de 1925.


Para este boletim fiz uma investigação bastante profunda e na qual foram analisados, pela primeira vez, um grupo considerável de documentos internos - relatórios, registos, plantas, propostas, actas de concursos, etc. - com o objectivo de contar a história da cremação em Lisboa, mas tendo presente que, até aos anos 90 do século XX, isso é quase o mesmo que contar a história da cremação em Portugal.

A Luta, 1976.
Foi surpreendente perceber que se faziam cremações em pira, no interior do Cemitério do Alto de São João, à noite, desde 1946, quando um marajá indiano morreu em Lisboa e foi necessário respeitar as regras religiosas e efectuar a cremação imediatamente. Perceber que, ainda durante o Estado Novo, se realizaram outras cremações em pira, devidamente autorizadas e acompanhadas com dedicação e cuidado por parte do responsável do cemitério, incluindo a presença de bombeiros e polícia no cemitério.

Também foi com surpresa que percebi que os motivos habitualmente referidos como sendo os principais para a interrupção da cremação em Portugal entre 1936 e 1985 não eram corroboradas pela documentação. A responsabilidade da Igreja Católica e do Estado Novo não só não se materializaram, como relatórios técnicos desde 1971 referem o mau funcionamento do forno adquirido em 1925 aos alemães como um dos principais problemas, tal como a necessidade excessiva de carvão, e identificam a necessidade deste ser substituído para poder voltar a fazer-se cremação em Lisboa. Aliás, em Moçambique existia um crematório a funcionar e devidamente regulado nos Cemitérios de Lourenço Marques desde os anos 1960, sendo que o território era, à altura, português.

A incapacidade de responder ao pedido dos Estados Unidos para cremar as vítimas da terrível queda do hidroavião Yankee Clipper, em 1943, é mais um sinal da impossibilidade de utilizar o crematório. Se fosse apenas uma decisão política ou religiosa - e não técnica - o forno teria sido reactivado temporariamente para este efeito.

Diário de Notícias, 1925.

Foi possível localizar fotografias antigas do crematório, ainda antes da inauguração, no arquivos do jornal diário O Século, guardadas na Torre do Tombo e também uma foto do Diário de Notícias, publicada numa edição dos anos 70, com a primeira cremação e a equipa do forno de 1925.

Regressou-se no tempo aos primeiros textos portugueses que promoviam a cremação, em 1857, comparando com o que estava a acontecer no Ocidente relativamente a esta temática. 

Encontrámos documentação relativa à compra do forno à Topf&Söhne - cujo papel no Holocausto é arrepiante e assustador - e às dificuldades em fazer passá-lo numa alfândega que não tinha quaisquer referências a este tipo de objectos e não o sabia taxar.

Acompanhamos a primeira cremação: Custódio dos Santos, cujo corpo abandonado pela família seguiu primeira para a Escola Médico-Cirurgica de Lisboa e, depois de utilizado nas aulas de anatomia, foi a primeira pessoa a ser cremada em Portugal, numa sessão experimental do forno, antecedendo a primeira cremação oficial a 30 de Dezembro de 1925. Por esse motivo, as suas cinzas foram colocadas em destaque em frente do crematório em 1925, onde ficaram até ser criado um monumento para a sua colocação e onde agora, finalmente, foi gravado o seu nome, sendo assim recordado para sempre.


Também podemos perceber as várias paragens e reinício da cremação até, em 1985, o Crematório do Cemitério do Alto de São João ser activado em definitivo; mas não parámos aí, porque a história continua, com crematórios abrir por todo o país, com mais crematórios a abrir em Lisboa, parando - temporariamente - na abertura do quarto forno crematório de Lisboa, no Edifício Saudade, junto do Cemitério de Carnide.

Foi publicado um artigo no jornal Público sobre este tema, dando destaque às descobertas apresentadas no meu artigo e ao próprio Boletim Cultural.

Quem quiser ler o artigo Cem Anos de Cremação e também o artigo complementar A Morte do Marajá e as Cremações em Pira pode descarregar gratuitamente o Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa no link que está no início deste post ou, se quiser ir directamente para os artigos referidos, usar este link para o meu perfil no Academia.edu.

Boas leituras!

Espero que se divirtam tanto a ler quanto eu me diverti na investigação e escrita.