O mês de Outubro foi um mês cheio de coisas, incluindo a 4ª Semana Cultural nos Cemitérios e o lançamento de mais um número especial do Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa que comemora o centenário do Crematório do Cemitério do Alto de São João, o primeiro do país, cuja primeira cremação teve lugar a 28 de Novembro de 1925.
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| A Luta, 1976. |
Também foi com surpresa que percebi que os motivos habitualmente referidos como sendo os principais para a interrupção da cremação em Portugal entre 1936 e 1985 não eram corroboradas pela documentação. A responsabilidade da Igreja Católica e do Estado Novo não só não se materializaram, como relatórios técnicos desde 1971 referem o mau funcionamento do forno adquirido em 1925 aos alemães como um dos principais problemas, tal como a necessidade excessiva de carvão, e identificam a necessidade deste ser substituído para poder voltar a fazer-se cremação em Lisboa. Aliás, em Moçambique existia um crematório a funcionar e devidamente regulado nos Cemitérios de Lourenço Marques desde os anos 1960, sendo que o território era, à altura, português.
A incapacidade de responder ao pedido dos Estados Unidos para cremar as vítimas da terrível queda do hidroavião Yankee Clipper, em 1943, é mais um sinal da impossibilidade de utilizar o crematório. Se fosse apenas uma decisão política ou religiosa - e não técnica - o forno teria sido reactivado temporariamente para este efeito.
| Diário de Notícias, 1925. |
Foi possível localizar fotografias antigas do crematório, ainda antes da inauguração, no arquivos do jornal diário O Século, guardadas na Torre do Tombo e também uma foto do Diário de Notícias, publicada numa edição dos anos 70, com a primeira cremação e a equipa do forno de 1925.
Regressou-se no tempo aos primeiros textos portugueses que promoviam a cremação, em 1857, comparando com o que estava a acontecer no Ocidente relativamente a esta temática.
Encontrámos documentação relativa à compra do forno à Topf&Söhne - cujo papel no Holocausto é arrepiante e assustador - e às dificuldades em fazer passá-lo numa alfândega que não tinha quaisquer referências a este tipo de objectos e não o sabia taxar.
Acompanhamos a primeira cremação: Custódio dos Santos, cujo corpo abandonado pela família seguiu primeira para a Escola Médico-Cirurgica de Lisboa e, depois de utilizado nas aulas de anatomia, foi a primeira pessoa a ser cremada em Portugal, numa sessão experimental do forno, antecedendo a primeira cremação oficial a 30 de Dezembro de 1925. Por esse motivo, as suas cinzas foram colocadas em destaque em frente do crematório em 1925, onde ficaram até ser criado um monumento para a sua colocação e onde agora, finalmente, foi gravado o seu nome, sendo assim recordado para sempre.
Foi publicado um artigo no jornal Público sobre este tema, dando destaque às descobertas apresentadas no meu artigo e ao próprio Boletim Cultural.
Quem quiser ler o artigo Cem Anos de Cremação e também o artigo complementar A Morte do Marajá e as Cremações em Pira pode descarregar gratuitamente o Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa no link que está no início deste post ou, se quiser ir directamente para os artigos referidos, usar este link para o meu perfil no Academia.edu.
Boas leituras!
Espero que se divirtam tanto a ler quanto eu me diverti na investigação e escrita.


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